Podcast - Tomando leite...



O blog Do Nano ao Macro apresenta para você, sagaz leitor, o primeiro podcast de, espero, outros futuros. Embora com alguns probleminhas técnicos na hora de gravar o áudio propriamente dito - o microfone deu o ar da graça de não colaborar - acredito que o primeiro podcast também é uma forma de mostrar onde melhorar para os próximos que virão.

É sabido que os seres humanos são um dos poucos que tomam leite mesmo depois de adultos. Existe uma vantagem no consumo do leite? Existe alguma modificação que permite a nós, humanos, consumir esse produto por toda a nossa vida? O primeiro podcast irá explicar um pouquinho sobre o assunto. Quem quiser ler ao invés de ouvir, no link abaixo é possível acessar a transcrição do áudio. Vamos lá!


A transcrição, material citado no podcast, informações adicionais e créditos se encontram na continuação, clicando abaixo.



Tomando leite... - transcrição de áudio

Acabei de tomar um café da tarde com a família: meus avós estão em casa e minha mãe preparou umas torradinhas e um belo café com leite. O leite é uma secreção produzida exclusivamente entre os mamíferos fêmeas como um primeiro alimento para o recém-nascido. O produção de leite pela fêmea é uma das mais nítidas sinapomorfias[1] dos mamíferos. De modo geral, o leite é uma secreção líquida composta de diversos minerais, lipídios e açúcares. Dentre esses açúcares, o que destacamos é a lactose. A lactose é um glicídio composto por dois monossacarídeos[2], a glicose e a galactose. A glicose é mais conhecida do público em geral por ser uma das moléculas mais importantes para as células. É ela que serve de alimento à célula, num processo que se finaliza na obtenção de energia em forma das conhecidas ATP’s[3]. A galactose também é um carboidrato utilizado pelas células na produção de energia. Acontece que, unidas no dissacarídeo chamado lactose, a célula não pode fazer nada. É preciso quebrá-la para que as duas se separem e possam ser utilizadas pelo organismo. No intestino humano, existe uma enzima que facilita a quebra da lactose: a lactase[5]. A lactase permite, assim, que a lactose quebre em seus açúcares constituintes e sejam absorvidos pelo intestino onde o sangue irá distribuir para todas as células do corpo. 

Bom, essa enzima (que nada mais seria que uma proteína com um centro ativo) são produzidas a partir de “ordens” vindas do responsável por toda a maquinaria química da célula: o DNA. O DNA é conhecido como o detentor de toda a informação para que as coisas funcionem. Quando a célula precisa de uma proteína ou enzima, o trecho do DNA que contém essa informação é copiado numa fita de RNA. Esse RNA é chamado de RNA mensageiro pois ele contém a mensagem dizendo como será a produção da proteína ou da enzima. O RNA mensageiro sai do núcleo celular e se dirige aos ribossomos no citoplasma onde essa fita será traduzida. Cada trinca de bases nitrogenadas no RNA mensageiro é denominado códon. A disposição das letras químicas Adenina, Uracila, Guanina e Citocina nesse grupo de três é uma espécie de “código“ onde apenas um aminoácido[6] é o correto. Os aminoácidos são transportados pelo RNA transportador. O códon do RNA mensageiro se liga com o anticódon do RNA transportador. Se for o correto, o RNA transportador libera o aminoácido e sai do ribossomo. A fita de RNA mensageiro anda um códon (ou seja, três bases) e o próximo RNA transportador com um outro aminoácido entra no ribossomo. A medida que os aminoácidos são deixados, eles vão se unindo e se transformando na proteína ou enzima desejada. No post deixei um vídeo ilustrando esse processo. 


Pois bem, a lactase é uma enzima produzida por nosso organismo. Para ser produzida, é necessário que essa informação esteja no material genético da célula. Bom: se essa informação não estiver presente no DNA do indivíduo? O que acontece é que a lactase não seria quebrada por nós e sim pelas bactérias que vivem em nossos intestinos. Com mais um alimento disponível que não fora absorvido pelo indivíduo, essas bactérias se multiplicam rapidamente. O resultado disso é que a pessoa fica com diarréia, gases e problemas de má digestão. Talvez você conheça esse problema como intolerância à lactose. 

Acontece que, fazendo uma análise nas diversas populações da Terra, vimos que os europeus e africanos são os que menos apresentam intolerância à lactose quando adultos. Os povos asiáticos são os que mais apresentam algum problema com o consumo do açúcar do leite. Todos nós temos o gene responsável pela quebra da lactose, acontece que ele fica ativo apenas quando somos bebês (caso contrário, teríamos problemas com o leite da própria mãe). Entretanto, os adultos que continuam produzindo a lactase possuem uma mutação nesse gene, que permite o mesmo continuar ativo. Análises genéticas mostram que a mutação é mais presente na população do norte da Europa, onde 90% da deles expressa esse gene. A medida que vai se alcançando latitudes mais baixas, o índice de expressão desse gene cai sensivelmente. Cerca de 50% das populações espanholas, francesas e agricultores árabes possuem a mutação. Já entre os chineses, esse gene quase não existe entre sua população, que chega em torno de 1%. 

Análises genéticas mostraram aos cientistas que essa mutação apareceu muito recentemente na história humana: algo em torno de 10 mil anos. Bom, realmente é espantoso o tão pouco tempo em que essa mutação surgiu entre os humanos mas, analisando o contexto, a coisa toda começa a fazer sentido. Nesse mesmo período, nas populações européias, do Oriente Médio e norte da África, uma nova atividade surgia: a domesticação de animais e a própria agricultura. Com a domesticação, os animais podiam agora servir aos humanos, além de carne, de leite, que acabara sendo uma nova fonte de alimento. 

A seleção natural favoreceu aqueles indivíduos que conseguiam consumir leite mesmo depois de adultos, já que era uma nova fonte de alimentos rico em nutrientes. Essa mutação acabou conferindo uma vantagem adaptativa em relação àqueles que não a tinham. Entretanto, não conseguir digerir a lactose mesmo depois de adulto também não é um grande problema para nós, humanos, visto que temos uma alimentação diversificada e o não consumo de leite não confere um risco tão grande à vida. Atualmente existem muitos produtos que suplementam a falta de cálcio na alimentação sem ser pelo leite. 

Esse problema aflige milhares de pessoas no Brasil e milhões em todo o mundo. O consumo de leite é importante visto que ele é uma boa fonte de cálcio, essencial para os ossos e para alguns processos metabólicos no organismo. Sem o consumo de leite, as pessoas com intolerância à lactose precisam se alimentar de produtos que substituam o leite na obtenção de cálcio. Legumes com folhas verdes e os conhecidos leite de soja ajudam a substituir. 

Este foi o primeiro podcast do blog Do Nano ao Macro. Espero que tenham gostado. No fim do post há uma seção de informações adicionais onde alguns termos que apareceram no caminho são melhores explicados. Muito obrigado a todos e até a próxima.

Fim da transcrição

P.s.: entrei em contato com o pessoal do site SemLactose que faz um trabalho de explicação e dicas para quem tem intolerância à lactose. Eles me informaram que há duas estimativas no número de indivíduos com esse problema no Brasil: o primeiro é baseado em dados de outros países e aplicados aos brasileiros que, nesse caso, apontam que 25% de nossa população tenha algum grau de intolerância à lactose. Já outra estimativa, baseada em estudos genéticos da população mostram que 57% dos brasileiros podem ter a possibilidade de desenvolver algum grau de intolerância em algum momento de suas vidas. Para ver o artigo publicado na Revista da Associação Médica Brasileira onde esses dados são apresentados, clique aqui (em .pdf).

Informações adicionais:
[1]: sinapomorfias são os caracteres derivados que todo um grupo compartilha. Os mamíferos, por exemplo, possuem como características próprias a presença de pelos e glândulas mamárias que produzem leite. 

[2]: os monossacarídeos são as formas mais simples de açúcar. Não o mesmo “açúcar” de mesa que conhecemos. O açúcar de mesa é uma sacarose, ou seja, é um dissacarídeo composto por dois monossacarídeos: glicose e frutose. 

[3]: a ATP é a sigla de Adenosina Trifosfato. As células usam a energia das ligações químicas entre os fosfatos para realizar suas funções. A principal via para a produção de energia para as células é através da Glicólise, iniciada geralmente com a glicose. Resumindo, o final do processo (que ainda passa na mitocôndria no Ciclo do Ácido Cítrico e Fosforilação Oxidativa) resulta na produção de 36 a 38 mols de ATP para cada um mol[4] de glicose. 

[4]: mol, em química, é a uma unidade de átomos ou moléculas. É famosa a constante de Avogadro, onde um mol equivale a 6x1023 átomos, moléculas ou qualquer coisa em que está se medindo. 

[5]: enzimas são catalisadores que aumentam a velocidade das reações químicas. Elas simplesmente reduzem a energia de ativação necessário para que os produtos se transformem nos reagentes desejados. Embora não seja regra, geralmente as enzimas terminam seus nomes com a sufixo “-ase”. 

[6]: os aminoácidos são as unidades básicas que constituem as enzimas e as proteínas. 

Com imagem por ~Lifebug em seu deviantART. Com informações de:
MATTAR, Rejane. et. al. (2010). Intolerância à lactose: mudança de paradigmas com a biologia molecular. Revista da Associação Médica Brasileira. 56 (2), 230-6
TISHKOFF, Sarah. et al. (2007). Convergent adaptation of human lactase persistence in Africa and Europe. Nature Genetics. 1 (39), 31-40.
O site Semlactose possui informações e dicas para pessoas com intolerância à lactose.

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