Arquivo Scientia - 01 de abril de 1998


No Brasil e em muitos países do mundo, o dia 1 de abril é o popular e conhecido 'Dia da Mentira'[1]. Por coincidência (ou não, quem sabe) hoje, em 1998, é publicado no The Journal of the American Medical Association (JAMA) uma publicação contra uma pseudociência[2] bem conhecida: o Toque Terapêutico. E entre os autores do artigo está uma menina de 10 anos.

Isso mesmo. Uma menina de 10 anos.

O Toque Terapêutico (TT) é uma prática que está cada vez mais sendo difundido no meio médico, principalmente por entre os enfermeiros, de que a imposição das mãos seria capaz de mudar o campo de energia humano, auxiliando no tratamento de enfermidades. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) se utiliza de uma prática semelhante, chamado reiki, em que a imposição das mãos dos especialistas trazem bem estar ao paciente. De forma simplificada, o TT é dividido em três etapas: a primeira, chamada de centralização, consiste em o praticante focar sua atenção em ajudar o paciente. A segunda etapa, a avaliação, o especialista varre o corpo do paciente com as mãos a uma distância curta do corpo do paciente (ou seja, sem tocá-lo) onde ele 'sente' as alterações da energia vital do paciente. A última etapa, a intervenção, consiste do especialista corrigir esse campo energético do paciente (que, para eles, é causado pela doença que acaba "bagunçando" a energia do corpo), permitindo o corpo se curar.

Emily Rosa foi atiçada pela curiosidade ainda antes dos 10 anos. Em 1996 (quando ela tinha 8-9 anos) assistiu um vídeo sobre a tal prática do toque. Ela fiquei intrigada pelo fato dos enfermeiros dizerem que sentiam a energia do paciente pelas mãos. Ela quis saber se realmente o que os especialistas alegavam era válido (ou seja, se eles sentiam mesmo alguma energia do corpo humano).

Para tanto, Rosa e colegas chamaram 25 especialistas em TT (dos quais quatro não quiseram participar por diversos motivos). Esses 21 especialistas colocavam suas mãos (voltadas para cima) através de uma divisória que não se permitia ver do outro lado. Rosa, por sua vez, colocava sua mão alguns centímetros acima em uma das mãos dos especialistas (a mão escolhida era através de uma escolha aleatória de jogar moedas para cima), como mostra a figura abaixo retirada do próprio artigo.


Dos 280 testes feitos com os 21 especialistas, em apenas 128 delas houve acerto, ou seja, a mão de Rosa estava realmente na mão em que eles julgaram estar sentindo o campo de energia. Isso representa apenas 44% de todos os testes. Baseando no princípio que os especialistas saberiam em qual mão estariam sentindo a energia , a probabilidade de acertarem os testes próximo do 100% seria o mais sensato. Entretanto, se estivesse chutando cada vez que respondessem ao teste, o número cairia pela metade. E 44% está muito mais próximo de 50% do que de 100%.

O desenvolvimento do pensamento científico da menina de 10 anos de idade é louvável. O experimento é, como visto, muito simples. Mas ele ataca o foco da questão e o responde. Mas por ser simples, muitos criticaram a pesquisa, alegando que ele foi feito com uma amostra muito baixa (o que concordo). Entretanto, pesquisas posteriores, feito com amostras maiores, chegaram as mesmas conclusões. E nenhuma pesquisa séria foi publicada em uma revista revisada por pares dando crédito para o toque terapêutico.

O seu modo de pensar e como responder a questão coloca Emily Rosa para sempre nos registros históricos da Ciência. E todos nós devemos aprender a pensar além sobre as coisas, assim como ela o fez.

O artigo original está disponível gratuitamente no periódico JAMA, através desse link, para quem quer ter acesso a maiores detalhes da pesquisa.

P.s.: antes de encerrar, gostaria de parabenizar pelo aniversário de minha mãe. Eu a amo.

Informações extras:
[1]: aparentemente o Dia da Mentira surgiu na França após a mudança para o calendário gregoriano (que usamos até hoje). A virada de ano, no calendário antigo, ocorria com festividades que terminavam, corrigindo para nosso calendário, em 1 de abril. Com a adoção do novo calendário e a mudança da virada de ano para 1 de janeiro, muitos que ainda preferiam a antiga data de comemoração. Com isso, essas pessoas começaram a sofrer chacota das pessoas, sendo convidadas para eventos e festas inexistentes. Com o passar do tempo, essa data foi associada à mentira. Hoje, principalmente na internet, essa data é bem 'comemorada' com pegadinhas e criação de produtos e serviços inexistentes.

[2]: pseudociência é, basicamente, uma falsa Ciência. Quando uma informação é passada ou vendida sem ser realmente aquilo que se diz ser. Embora a argumentação seja forte, as evidências científicas que realmente sustentam o produto ou ideia são muito baixas ou até mesmo inexistentes. O toque terapêutico, a homeopatia, a acupuntura, o reiki, a astrologia, a radiestesia, a quiropraxia (algumas variações), o design inteligente, misticismo quântico e muitos outros são exemplos de pseudociência.


Imagem de Emily Rosa visto aqui. Imagem feita por mim, protegida por CC. Veja na página especial da série no blog sobre uso das imagens. Imagem ilustrando a metodologia da pesquisa é uma divulgação do artigo científico. Com informações de Ceticismo.net, Wikipedia, Metamorfose Digital e por:
ROSA, L., ROSA, E., SARNER, L., BARRETT, S. (1998). A close look at therapeutic touch. JAMA. 279 (13): 1005-1010.

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