Figos e vespas de figos...

Quer saber como surge um bonito figo?

"Abençoado seja o criador de postagens programadas" (Wesley Santos).

Graças as postagens programadas, consigo manter uma certa regularidade de publicações aqui no blog. Mas minhas programações se resumem a apenas algumas poucas semanas de postagens (afinal de contas, estamos falando da senhora ciência, aquela em que vira e mexe e tem alguma coisa nova ou diferente). Por isso, recomendo aos leitores para curtirem a página do blog no Facebook. Além das postagens daqui aparecerem por lá, compartilho imagens e links de notícias de ciências e, também, de blogs amigos.

A faculdade e estágio consomem muitas horas da semana para si (não apenas para assistir aulas[1], mas estudos para provas, elaboração de trabalhos e seminários, leitura de artigos e livros). Como consequência, algumas atividades acabam sendo deixadas em segundo plano.

E sim, infelizmente o blog é uma delas.

Escrever postagens exige uma demanda de tempo e pesquisa consideráveis. Infelizmente não tenho todo esse tempo comigo. Mas também não posso deixar de lado uma coisa que gosto de fazer e deixar os meus nobres leitores na mão.

Então, seguindo a sugestão de minha namorada, vou usar um dos meus textos que fiz para um trabalho da faculdade e publicá-lo aqui[2]. Trata-se de um resumo de um artigo científico para uma matéria desse semestre. Ele trata de um estudo sobre a relação mutualística entre os figos (plantas do gênero Ficus) e vespas de figo, que possuem um interessante mecanismo de reprodução. Aliás, ambas as espécies só dependem muito uma da outra para se reproduzirem. É um dos textos mais interessantes que li para esse trabalho até o presente momento e achei que você, intrépido leitor, também fosse curtir a publicação[3].

* * *

A interação entre o figo (Ficus spp.) e a vespa de figo é considerada por muitos pesquisadores um caso extremos de mutualismo, se enquadrando no conceito de co-evolução. O Ficus é caracterizado pela sua inflorescência em forma de urna onde as flores abrem dentro da estrutura em forma de urna, denominada sicônio.

As fêmeas das vespas (já carregadas de pólen de outros figos) entram nos sicônios através de uma abertura denominada ostíolo. No interior do sicônio, elas polinizam as flores femininas e depositam os ovos nos ovários florais. Com o passar das semanas, os frutos desenvolvem-se e os ovos depositados originam larvas (formando galhas no interior do sicônio). Pouco antes do amadurecimento do sicônio, os machos de vespas de figo emergem e procuram as fêmeas nas galhas, onde ocorre o acasalamento (antes delas emergirem). Após o acasalamento, as fêmeas emergem e acabam recolhendo o pólen de flores masculinas, abandonando o sicônio em seguida, para procurar outro sicônio e recomeçar o ciclo. Entretanto, além das vespas polinizadoras, os figos podem ser polinizados por outros insetos não polinizadores. O estudo em questão descreveu a fauna de vespas associada a cinco espécies de figos da Amazônia Central, levando em consideração o modo de polinização.

Para tanto, foram feitas coletas em áreas de floresta de Manaus e Presidente Figueiredo, no Amazonas de cinco espécies de Ficus entre os períodos de abril a julho de 2004: uma do subgênero Pharmacosycea: F. maxima; e quatro de subgênero Urostigma: F. cremersii, F. greiffiana, F. mathewsii e F. pertusa. Foram coletados de 50 a 150 sicônios por espécie vegetal na fase anterior à emergência das vespas já com o pólen. Os pesquisadores constataram que o número de vespas em Ficus variou de um a 13. Foi visto que as vespas polinizadoras do subgênero Urostigma apresentavam bolsas torácicas com grãos de pólen e pentes coxais (indicativo de polinização ativa por parte das vespas), enquanto no subgênero Pharmacosycea, as vespas não apresentavam estruturas semelhantes, indicando transporte passivo de pólen.

Além disso, vou visto que Ficus maxima (subgênero Pharmacosycea) possuíam mais flores masculinas, com grande quantidade de pólen quando comparadas com as espécies vegetais que tinham vespas de polinização ativa, sugerindo que F. maxima estava adaptada ao tipo de polinização passiva da espécie de vespa de figo.

Os autores discutem que os resultados reforçam a relação mutualística entre o figo e as vespas de figo e que, embora algumas vespas sejam polinizadores passivas (considerado como uma característica ancestral), muitas espécies desenvolveram mecanismos de polinização ativos. Além disso, verificaram que muitas espécies de vespas de figo possuíam um dimorfismo sexual extremo, sugerindo que mais estudos devem ser conduzidos sobre a seleção sexual nesses casos. Somado a isso, poucos estudos sobre a história natural e evolutiva do mutualismo entre Ficus e vespas de figo foram encontrados na literatura científica, reforçando a necessidade de mais estudos sobre a relação entre Ficus e as vespas de figo.

* * *

P.s.: apenas para registro: tirei 10 nesse trabalho. =D

Informações extras:
[1]: bons tempos em que a única coisa que havia programado no dia era assistir a aula.

[2]: sendo um texto de minha autoria, eu me autorizo a publicá-lo aqui. =P
Lembrando que esse texto, assim como qualquer publicação no Do Nano ao Macro, está protegido por CC.

[3]: o resumo sofreu uma leve modificação para tornar a leitura na tela do computador menos cansativa (por exemplo, o resumo não deve haver parágrafos. No papel, essa formatação não altera a leitura, mas no computador, as quase 500 palavras reunidas num único parágrafo tornam o texto bem menos interessante).

O resumo foi baseado em:
NAZARENO, A. G.; DA SILVA, R. B. Q.; PEREIRA, R. A. S. Fauna de Hymenoptera em Ficus spp. (Moraceae) na Amazônia Central, Brasil. Ilheringia, Sér. Zool., Porto Alegre. v. 97, n. 4, p. 441-446, 2007.
Imagem por ~EfvonIks em seu deviantART.

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