É preciso mais ciência para cientistas? - parte 2 de 2

"- Um dragão que cospe fogo pelas ventas vive na minha garagem.
Suponhamos que eu lhe faça seriamente essa afirmação. Com certeza você iria querer verificá-la,
ver por si mesmo. São inumeráveis as histórias de dragões no decorrer dos séculos, mas não há
evidências reais. Que oportunidade!"
O que você faria para saber se o dragão na garagem de seu amigo é real?

A postagem é uma continuação da postagem publicado semana passada aqui no blog. Recomendo fortemente que o leia antes para poder se inteirar do assunto. Clique aqui para acessá-lo.

* * *

Bom, para continuarmos a entender mais sobre como funciona o trabalho da ciência e pensarmos se os dinossauros foram ou não na arca de Noé temos que levar em consideração mais uma coisa: o tempo dos eventos.

Para saber quando um evento aconteceu ou não, os pesquisadores se valem de uma ferramenta muito útil conhecida como 'datação radiométrica'. Através desse método, o pesquisador consegue inferir, com um grau de precisão relativamente alto, a idade que tal material possui (como uma rocha, por exemplo). Isso acontece pois a rocha que ele pretende analisar possui traços de elementos radioativos (sim, elementos como urânio-235, potássio-40 e carbono-14). Eles são considerados radioativos pois os átomos que os compõe emitem energia em forma de radiação. E quando a radiação é emitida, o material radioativo degrada, se transformando em outro material. O urânio-235, por exemplo, quando decai, vira o chumbo-207. O mais interessante vem agora: a taxa de decaimento é constante para cada elemento radioativo. Ou seja, os pesquisadores sabem que a partir de um punhado de urânio, depois de tanto tempo, metade dele terá decaído para chumbo. A esse processo chamamos de meia-vida. A meia-vida do urânio-235 é de cerca de 700 milhões de anos. Ou seja, a cada 700 milhões de anos, uma quantidade 'x' de urânio terá diminuído à metade. Baseado nisso, os pesquisadores verificam a quantidade de determinado elemento radioativo no material de interesse e calculam a idade aproximada daquele material.

Com isso em mente, os pesquisadores analisavam amostras de rochas de onde os fósseis de dinossauros eram colhidos e verificaram que todos os dinossauros não passavam de uma marca de aproximadamente 65 milhões de anos atrás. A análise nos mostra que a rocha mais antiga (com 70, 80 milhões de anos) possui alguns espécimes de dinossauros; entretanto, tudo aquilo acima de rochas mais novas que 65 milhões de anos os dinossauros simplesmente não existiam.

Bom, você pode estar pensando que isso é uma evidência de que os dinossauros não subiram na arca e morreram por algum motivo que o autor da Bíblia julgou desnecessário. Entretanto, gostaria de analisar a linha do tempo dos humanos na Terra. Talvez as coisas comecem a ficar mais claras.

Nossa espécie humana recebe o pomposo nome científico de Homo sapiens (que, do latim, é algo como pessoa esperta, ou pessoa sabida). Entretanto, não somos o primeiro Homo a ter registro. O Homo habilis, o mais antigo ancestral do nosso gênero, foi datado por volta de 2 milhões de anos. Ou seja, os primeiros Homo a andar na Terra apareceram "apenas" 63 milhões de anos mais tarde.

Isso, ainda, estou considerando um dos primeiros representantes do gênero Homo. Ao que tudo indica, a cultura (o qual podemos incluir a crença em deuses ou outras divindades) só surgiu muito tempo depois.

E além disso, temos que considerar outro fator importante: a escrita.

A escrita é uma invenção humana que, pessoalmente, considero como uma das mais incríveis, ao lado da roda e fogo. A escrita possibilita a chance de pessoas distintas entenderam o que uma ou outra está pensando ou pretende deixar para o futuro em uma forma simples (e, ao mesmo tempo, complexa) de registro usando uma superfície onde a informação é deixada usando algum instrumento que marque essa superfície: pedra, tinta, madeira, o que for. Um dos registros mais antigos da escrita humana é datado em cerca de 3.500 AeC e é um pedaço de barro com escrita cuneiforme.

Com a escrita, a possibilidade de registrar transações financeiras e, também, histórias, ficou muito mais fácil. Com isso uma história, escrita por volta de 1650 AeC foi escrita. Nela, o personagem se salva, juntamente com sua família e animais de um dilúvio enviado pelo deus Enki. Sim, é interessante notar que a história de Utnapishtim é muito semelhante à história de Noé narrada na Bíblia. O cara com nome complicado ali foi o que tinha graça aos olhos do deus sumério das águas doces. Essa história faz parte de um grande poema épico acádio chamado Atra-Hasis.

Bom, pode-se até pensar que esse poema acádio se baseou nos relatos bíblicos e fez um grande Ctrl+C e Ctrl+V histórico, ajustou os nomes (para a professora não perceber) e enviou para todo mundo do grupo ler. Entretanto, os registros históricos nos contam que a Bíblia mais antiga já registrada data de 1000 AeC, cerca de 600 anos depois do épico.

Ufa! A história é complexa, não é mesmo? Mas acho que chegou no ponto ao qual queria chegar: é preciso mais ciência para os cientistas? E a resposta é: acredito que sim.

Parece-me que é necessário que os pesquisadores tenham conhecimento que vai além daquele que é especialista. Obviamente é preciso saber aquilo que se trabalha mas, como um cientista, esse indivíduo deve saber sobre ciência. Claro que não é preciso ser especialista em todas as áreas (não, se você é biólogo não precisa guardar o nome das 12 partículas que compõem o modelo atômico padrão, por exemplo. Mas acredito que é importante que se saiba que o universo não se termina no átomo propriamente dito).

E não, não estou 'pregando' uma espécie de ciência ateísta (se bem que esse nome nem deve existir). Não quero tirar a crença de ninguém. Apenas acredito que o conhecimento científico está aí para ser aproveitado. O entendimento sobre as diferenças temporais para explicar que os dinossauros nunca encontraram os humanos pode ser suficiente para entender que não, os dinossauros não entraram em nenhuma arca já que humanos não existiam nessa época. A Bíblia foi escrita em uma época em que os seus escritores nem sonhavam em imaginar da existência de seres gigantes que andaram na Terra há milhões de anos. É sensato pensar que eles (os dinossauros), de fato, não estavam na Bíblia.

Foi em meio a essa brincadeirinha que percebi que precisamos de mais ciência entre os cientistas.

E você, o que acha?

P.s.: e voltando para a imagem que abre essa postagem: quais os mecanismos que você se utilizaria para descobrir se o dragão na garagem de seu amigo é real ou não? Carl Sagan continua essa história para gente sobre algumas ideias que você poderá ter para identificar (ou não) o tal dragão.

Imagem por EarthTreader em seu deviantART.

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