[entrevista] Carlos Orsi - O jornalismo e divulgação científica no Brasil

Divulgar ciências não é nada fácil...

Sabemos que o mundo atual é do jeito que é (tanto positivo como negativamente) graças ao conhecimento científico. Graças aos avanços da ciência e da tecnologia, você consegue ler esse texto que está sendo exibido (provavelmente em uma tela LCD ou LED) e que veio da internet, uma grande rede de computadores.

Dados divulgados em julho de 2013 pelo Ibope mostram que existem mais de 102 milhões de brasileiros acessando a web. Isso representa quase a metade de nossa população, que provavelmente está sedenta por conhecimento. Não? Acredito que sem uma análise mais profunda de dados fica difícil responder essa questão. Dados de acesso do brasileiro mostram que o Facebook está em primeiro lugar, seguido por Google Brasil e Google (o site considera que a presença ou não do '.br' como uma diferença razoável) e, em quarto, YouTube. Embora esses sites sejam de entretenimento, conteúdos voltados para ciências podem ser encontrados nesses meios.

Vamos no Facebook (com mais de 76 milhões de brasileiros cadastrados), onde alguns dados podem ser obtidos com grande facilidade. Até o presente momento, a nossa página na rede do Mark Zuckerberg tem quase 270 curtidores. A página da rede de blogs cientificos Science Blogs Brasil comporta mais de 9.700 curtidores. Já as grandes mídias possuem um número de curtidores na rede bem mais expressivo. O Folha Ciência e Saúde possui mais de 88 mil curtidores e o Ciência Hoje mais de 61 mil. Um dado interessante é que a versão inglesa do Science Blogs tem mais de 82 mil curtidores, um valor bem mais expressivo que seu parente brasileiro[1].

Para entender um pouco mais sobre o impacto do jornalismo e a divulgação científica aqui em terras tupiniquins e a importância dos cientistas para a popularização da ciência, acabei entrando em contato com o jornalista e escritor Carlos Orsi sobre o assunto. Carlos já trabalhou, como ele mesmo diz, na grande mídia divulgando e popularizando a ciência. Atualmente escreve para a Revista Galileu no blog Olhar Cético. Também escreveu diversos livros de ficção científica e de horror, além de livros de ceticismo como 'Picaretagem quântica' e 'O livro dos milagres'. Em seu blog pessoal, Orsi escreve diversos conteúdos sobre ciência e ceticismo, alguns já divulgados aqui no Do Nano ao Macro.

Clique no link abaixo para ver a entrevista que fizemos com o Orsi.




* * *

O jornalista Carlos Orsi
[Do Nano ao Macro] O brasileiro é interessado em ciências?
[Carlos Orsi] Acho difícil responder usando uma categoria tão ampla quanto “o brasileiro”. Eu diria que há brasileiros interessados em ciência, mas será essa uma característica geral do povo? Complicado dizer. O que imagino é que o brasileiro, como todo ser humano, é interessado em narrativas explicatórias – “historinhas” que explicam como as coisas funcionam, qual a origem delas, etc. A ciência compete com a religião, a superstição, o preconceito e o esoterismo nesse “mercado” do interesse público.

[Blog] A internet permite descentralizar a divulgação de ciências, onde o jornalista agora “compete” para chamar a atenção para sua notícia. Isso pode ser visto como algo positivo ou negativo? E por quê?
[CO] Essa competição por atenção, na verdade, sempre existiu: nas mídias tradicionais, o jornalista sempre precisou “brigar” por espaço – afinal, a capa do jornal e da revista também têm espaço finito, assim como é finita a duração dos programas de rádio e de televisão Hoje, o principal recurso finito é a atenção do público, o que gerou uma inversão importante no processo: antes, os jornalistas e seus editores eram os principais autores da decisão sobre o que seria considerado relevante, sobre o que ia “dar capa”, e o “preço” da decisão, em termos de aceitação pública, só seria conhecido mais tarde – no dia seguinte. Hoje, com a internet, o “preço” é conhecido instantaneamente, o que acaba transferindo as decisões sobre relevância diretamente para o público – o que, ao menos para mim, equivale ao médico jogar suas responsabilidades para o alto e pedir aos pacientes no PS que escolham os remédios que querem tomar.

[Blog] Muitas pessoas desconhecem a formação de um jornalista no Brasil. Durante a graduação existe algo relacionado à divulgação de ciências?
[CO] Não sei como estão as faculdades hoje, mas no meu tempo (uns 25 anos atrás) as únicas disciplinas a respeito eram optativas, e não parte do currículo principal.

[Blog] Quando falamos em divulgar ciências, estamos falando em diversas áreas do conhecimento (como biologia, física e química e todas as suas ‘subáreas’, como paleontologia e evolução, astronomia e física quântica). Existem diferenças de “interesses” em divulgar mais sobre uma área do que outra?
[CO] Saúde – medicina, higiene, novos tratamentos – é, com certeza, a área mais divulgada. As pessoas, afinal, querem saber como viver mais e melhor.

[Blog] Como é a relação do jornalista com o cientista? Os cientistas, de forma geral, estão dispostos a ajudar o jornalista a cobrir determinada pesquisa ou oferecer suporte a uma reportagem?
[CO] Depende muito do cientista. No Brasil ainda se vê muito receio do pesquisador em atender à imprensa – na minha experiência pessoal na grande mídia, a regra geral era de que era mais fácil entrevistar ganhadores do Nobel do que doutorandos brasileiros: no Brasil, físicos e astrônomos costumam ser os mais acessíveis e cientistas sociais, os menos. Acho que isso reflete um pouco a estrutura de incentivos de cada país: nas grandes democracias ocidentais, como EUA ou Reino Unido, o pesquisador tem consciência de que precisa se explicar para o público que financia suas pesquisas. Já no Brasil, o cientista se preocupa muito mais com a visão dos pares e das panelinhas acadêmicas e, sob esse aspecto, evitar aparecer na mídia não-especializada é bem mais seguro. Mas também é preciso destacar que o jornalista médio é despreparado para tratar de ciência, então esse receio do pesquisador nacional muitas vezes faz sentido.

[Blog] Alguns assuntos (como os voltados para ceticismo) são difíceis em serem pesquisados e/ou escritos? Qual seria o assunto/tema mais complicado ao seu ver para ser trabalhado na internet, onde muitas vezes os “leitores” leem apenas o título e disparam comentários?
[CO] A divulgação científica é, no geral, mais simples de fazer que o jornalismo científico. Explicando: divulgação é, digamos, um artigo tentando explicar o funcionamento das marés em termos leigos; jornalismo é descrever como uma descoberta recente foi feita, ou denunciar um desvio de verbas ou uma fraude. A divulgação pode ser feita com a consulta ao consenso da comunidade científica, algo que a experiência e o Google ensinam a fazer; já o jornalismo muitas vezes consome recursos que só uma grande empresa é capaz de mobilizar. Quanto aos assuntos mais complicados, em termos de “alimentação de trolls”, são os que têm algum tipo de interface política, como aquecimento global, ou que afetam crenças muito enraizadas, como evolução ou terapias alternativas.

[Blog] Como você vê cientistas e pesquisadores divulgando ciências e seus trabalhos em redes sociais e em blogs? Esses cientistas, por não possuírem formação em jornalismo (sua grande maioria), estão mais ou menos aptos a divulgar?
[CO] Eu acho ótimo que cientistas façam divulgação! Voltando à distinção entre divulgação e jornalismo que apresentei acima, fico um pouco desconfiado quando o pesquisador se faz repórter de si mesmo – não pelo fato de ele ser pesquisador, mas porque a vaidade é um componente da natureza humana, afinal – mas o fato de uma auto-reportagem precisar ser lida com um grão de sal não faz com que ela não tenha valor. Quanto à aptidão, a questão acaba sendo menos de técnica jornalística do que literária: diferentemente do jornalista, que em geral busca realçar o que lhe parece que vai interessar ao público, o cientista normalmente tem algo a dizer que pode não ter nenhum interesse óbvio para o público; sua missão, portanto, é despertar esse interesse. E essa é mais uma missão de escritor e ensaísta que de repórter.

[Blog] Recentemente iniciou-se nas redes sociais e em diversos blogs a discussão de que a divulgação científica no Brasil feita por cientistas estava em declínio. Diversas opiniões de blogueiros (e cientistas) ocorreram (incluindo a sua, em seu blog). Você acha que existe uma decadência na “produção de divulgação científica nacional”?
[CO] Não acompanho a produção tão de perto para poder afirmar algo, mas, de novo, o problema que parece existir é, como no caso dos pesquisadores que não se fazem acessíveis aos jornalistas, de estrutura de incentivos: um cientista brasileiro que se propõe a divulgar seu trabalho para o público leigo está se expondo ao eventual escárnio dos pares, está perdendo tempo que poderia dedicar à família ou a deveres burocráticos impostos pelas agências de fomento e não está ganhando nada.

[Blog] O que acha em divulgar ciências em inglês no Brasil (mesmo sabendo que poucos leitores brasileiros possuem domínio na língua inglesa)?
[CO] Aí, imagino, há duas coisas envolvidas: uma estratégia de ampliar a internacionalização da ciência brasileira, tornando seus trabalhos mais acessíveis à comunidade mundial – o inglês, afinal, é novo latim – ou o uso de referências em inglês para embasar e/ou ampliar o escopo de textos de divulgação em português. Considero as duas coisas importantes. No caso das referências, é preciso lembrar sempre que existe uma diferença entre ser acessível e ser condescendente – entre simplificar e emburrecer. Se a melhor referência possível é em inglês, ela deve ser dada.

[Blog] Para finalizar, poderia deixar um recado para leitores sobre a profissão do jornalista e sobre a possibilidade de trabalhar com divulgação científica mesmo não sendo, necessariamente, um cientista.
[CO] A profissão de jornalista, como a conhecemos, está em desintegração. Não acho que esteja acabando, mas certamente está se transformando em alguma outra coisa, e o momento é especialmente penoso para os profissionais: um movimento deliberado, iniciado nos anos 80, já vinha levando à transformação do conteúdo jornalístico em commodity, fenômeno acelerado e agravado pela internet. Hoje em dia, o jornalista é o equivalente, na seara do trabalho intelectual, do cortador de cana; e não me surpreenderei se, como no caso da cana, a função venha a ser mecanizada com vantagem. Só quem escapa disso são os “casos especiais” – analistas, colunistas, repórteres especiais – mas essas vagas são poucas, cada vez mais mal remuneradas, e a pressão também cresce sobre seus detentores.

Quanto a fazer divulgação sem ser cientista, bom, qualquer um pode – o que varia, obviamente, é a qualidade, que vai depender da preparação do divulgador e de seus talentos pessoais. Certamente eu não recomendaria a função como ganha-pão para ninguém: as vagas que valem a pena costumam estar, hoje em dia, em órgãos públicos, como universidades e agências de fomento. São poucas. Na grande mídia, o espaço se reduz cada vez mais, e o pouco que ainda existe tende a ser preenchido por material enviado por agências internacionais de notícias.

* * *

O blog Do Nano ao Macro agradece o jornalista Carlos Orsi a conceder um tempo de suas atividades para conceder essa breve entrevista ao blog. 

E se você também ajuda a divulgar ciências, o que acha da situação atual no país? Precisamos de mais blogs? Precisamos de mais escritores? Ou chamar a atenção de mais leitores para os já existentes? E para os leitores, o que acham da divulgação feita por cientistas? Vamos criar (ou continuar) o diálogo sobre o assunto! =D

Informações extras:
[1]: obviamente deve-se levar em conta que o Facebook tem milhões de usuários da língua inglesa e, também, diversas pessoas de outros países não falantes do inglês podem vir a curtir esse tipo de conteúdo, o que pode dar a falsa sensação de que aqui dentro do Brasil ninguém liga para a ciência.

Com informações de Uol, Alexa e G1. A imagem que abre a postagem foi feita por mim, protegida por CC. A imagem do autor foi obtida no perfil do mesmo no Google+. Reprodução permitida para o blog. A imagem possui seus direitos reservados.

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