Pontos brancos nos olhos e a visão humana...

Sabe aquele céu azul, bem azul? Pois bem, ele tem relação com a postagem de hoje...

O céu do Brasil permite termos possibilidade de céu limpo e bem azul em vários dias do ano. Quando começamos a observar o céu claro após um certo tempo, bolinhas brancas bem pequeninas começam a dançar frente ao nossos olhos. A imagem abaixo ilustra bem o que geralmente vemos (alguns monitores podem ser pouco sensíveis para diferenciar os pontos na tela):


Obviamente queremos saber o que é isso, certo? Antes de tudo, acredito que precisamos entender um pouco como funcionam o incrível sistema de captação de imagens do ser humano: a câmera fotográfica moderna. Ah sim, a outra coisa é o olho humano. Mas uma coisa de cada vez, tudo bem?

Bom, vamos à câmera. Eu pesquisei alguns esquemas na internet para ilustrar o mecanismo mas não encontrei nenhum bacana (ou era simples demais ou complexo demais). Então, estudando os modelos, fiz um versão bem simples, mas que é essencial para nosso entendimento.

A luz chega ao sensor tendo como 'barreiras' apenas as lentes que irão focalizar a imagem no
próprio sensor. A imagem do sensor usado no exemplo é o CCD, mas existem outros disponível
no mercado[1]. O texto abaixo explica o mecanismo.

Bom, podemos ver que a imagem do local de interesse entra por meio da abertura focal, a luz é focalizada pelas lentes (para cada câmera existe um jogo de lentes diferente, mas o princípio é o mesmo). Essa luz incide diretamente no sensor da câmera[1] e o processador monta a imagem que é salva no dispositivo para você fazer o que quiser com ela! =D

Na imagem também vemos que os circuitos que recebem os dados do sensor da câmera ficam na parte de trás do sensor, deixando o lado que incide a luz sem nenhuma interferência.

"Pô, mas isso é óbvio! Que engenheiro iria colocar os 'fiozinhos' na frente do sensor?"

Pois então, nobre leitor. Existe um sistema que não citei ainda em que os 'circuitos' ficam à frente dos 'sensores': os olhos[2]. A imagem abaixo ilustra bem como é a formação da retina humana, onde a imagem é captada.

A imagem ilustra como a luz é captada pelos olhos. Os cones e bastonetes (responsáveis por
captar e transformar a luz captada em um sinal "entendível" para o sistema nervoso estão apenas
nas últimas camadas da retina. Á frente deles (e da luz que chega até eles) existem todo um
sistema de células, nervos e vasos sanguíneos. A imagem ignorou, ainda, células de suporte
que existem entre os neurônios. O texto abaixo explica com mais detalhes.

Podemos ver que a região por onde os olhos recebem a luz está atapetado por pequenos nervos e vasos sanguíneos que emergem do nervo óptico[3]. As células receptoras de luz enviam seus sinais para os neurônios (bipolares e ganglionar, respectivamente) que enviam, por meio do nervo óptico, até o cérebro onde a imagem é devidamente processada. Bom, mais ou menos, né?

Enfim, com isso em mente, podemos chegar onde finalmente queremos chegar. E aqueles pontinhos brancos nos olhos? Pois bem... um céu bem azul tem um comprimento de onda de aproximadamente 430 nm. Os vasos sanguíneos estão cheios de hemácias, que contém hemoglobinas, responsáveis pelo transporte de gases. As hemoglobinas absorvem bem esse comprimento de onda (do céu azul) quando incidem sobre elas). O cérebro ainda consegue a façanha de corrigir as pequenas sombras que se formam por causa do vasos sanguíneos que estão acima dos receptores de luz, graças ao efeito de adaptação do escuro.

Entretanto, os leucócitos, as células brancas de defesa não absorvem esse comprimento de onda. Além disso, elas são grandes (bem grandes quando comparadas com as hemácias). Como resposta, o cérebro não consegue corrigir a presença da células brancas na imagem. Como consequência, vemos os pontinhos brancos dançando em nossos olhos.

Sim, o que você vê são suas células de defesa caminhando por entre os capilares dos olhos! A esse incrível fenômeno damos o nome de "fenômeno entópico de campo azul".

Ok, agora você pode ir lá fora observar o céu azul (caso não esteja escuro e nem nublado) e tentar enxergar suas células de defesa... =D

Informações extras:
[1]: atualmente existem dois principais sensores de captura de imagem no mercado: os dispositivos de carga acoplada (ou CCD) são os mais usados atualmente, sobretudo em câmeras semi-profissionais pela sua alta qualidade da imagem. Já o sensor CMOS (semicondutor de óxido metálico complementar) são de fabricação mais simples e as imagens geralmente são de menor qualidade (para o usuário comum a diferença quase não é perceptível). Independente do sensor, a função destes são transformar a luz (fótons) em elétrons. Com os elétrons são "entendíveis" pelos componentes eletrônicos, a imagem é montada após processar toda a sequência de elétrons formados.

[2]: sabe aquela velha briga entre evolucionistas x criacionistas? Então, o olho humano geralmente é apontado [pelos criacionistas] como um exemplo de mecanismo precisamente desenhado para permitir que contemplemos o mundo ao nosso redor. Como você pode perceber, o engenheiro que ficou responspavel pelo olho humano fez alguma coisa errada no caminho, colocando nervos e vasos sanguíneos à frente das células fotorreceptoras. Casos de cegueira diabética é causada por causa do aumento do calibre dos vasos sanguíneos que começam a fazer sombra nas células do olho. De certa forma, o olho está bom, apenas a fiação está comprometida.
Apenas lembrando que o blog visa a visão científica das coisas e não pretendo atacar as crenças de ninguém. Se o leitor acredita que houve uma intervenção superior na formação da vida na Terra (e qualquer sistema, órgão e tecido passou pelo aval desse ser superior), respeitamos. Só estamos apontando uma outra forma de ver a mesma questão, dessa vez sob a ótica científica.

[3]: por incrível que pareça, existe diferenças entre 'óptico' e 'ótico' (ao menos para cientistas). O primeiro está relacionado à visão (que vem do grego, optiké). Já 'ótico', sem o 'p' mudo, está relacionado ao ouvido (do grego novamente, otikós). Atualmente, com a reformulação da língua portuguesa, a palavra 'ótico' passou a ser um sinônimo para 'óptico'. Entretanto, a grafia mais correta com relação à visão é 'óptico' e para o ouvido seria 'ótico'.

Com informações por:
SINCLAIR, S. H., AZAR-CAVANAGH, M, SOPER, K. A., TUMA, R. F., MAYROVITZ, H. N. Investigation of the source of the blue field entoptic phenomenon. Investigative Ophthalmology & Visual Science. v. 30, n. 4, p. 668-673, 1989.
Com informações de HSW e G1. A imagem que abre a postagem foi feita por mim e está no Instagram (me siga!). Os desenhos foram feitos por mim e estão protegidos por CC. O desenho da câmera possui uma imagem que foi obtida aqui.

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