Cigarras...


É tiro-e-queda: basta ter início um período mais quente do ano, principalmente na região centro-sul do país, aquele som peculiar começa a ganhar forma, entrando em casa e em nossos ouvidos.


Óbvio que isso ocorre com mais frequência em ambientes "não tão urbanos" visto que a biologia das cigarras, esses interessantes insetos da superfamília Cicadoidea ocorre em ambiente natural. Solo sem calçamento e árvores com casca mais rugosas fazem parte de seu ciclo de vida.

O som característico das cigarras são nada mais que os machos tentando chamar a atenção das fêmeas para o fervoroso período de acasalamento. Esse canto pode ocorrer durante o período mais quente do dia, embora existam espécies que o fazem quando os raios do sol estão sumindo no horizonte. Algumas espécies de cigarras cantam tão alto e tão vibrante que, ao invés de chamar a atenção dos pássaros e serem predados, acaba servindo de repelente à aves, possivelmente ao som estridente ser dolorido ao ouvido das aves e, também, interferir na comunicação normal.

Ocorrido o acasalamento, as fêmeas depositam os ovos nos galhos e cascas de galhos e troncos de árvores. Geralmente os adultos morrem após esse período de postura dos ovos.  A eclosão dos ovos, que ocorre dias depois da postura, liberta as ninfas, formas juvenis que alguns insetos possuem[1]. As ninfas descem até o solo e se enterram, se alimentando da seiva das árvores através das raízes. Lá, elas podem permanecer por dois anos (como ocorre geralmente no Brasil). Entretanto, em países do hemisfério norte, como nos Estados Unidos, esses insetos podem permanecer debaixo do solo por um período de 13 a 17 anos[2]!
Cicada molting animated-2.gif
Terminado esse período de "latência", as formas juvenis das cigarras cavam buracos em direção ao ambiente externo e sobem nas árvores para sofrerem a última muda, que as levará para a vida adulta. Essa muda recebe o pomposo nome de ecdise. Esse mecanismo é uma característica evolutiva tão importante que muitos pesquisadores organizam esse grupo de animais em um grande clado chamado Ecdysozoa.

E é justamente nessa ecdise que vemos, presas em árvores, as "cascas" das cigarras. As pessoas, antigamente, acreditavam que essas cascas surgiam depois das cigarras estourarem de tanto cantar. Na verdade, essas cascas surgem antes da cantoria (embora estejam bem próximas um fenômeno do outro) e elas, obviamente, não estouram de tanto cantar. Só após o fenômeno da ecdise, os adultos estão prontos para o acasalamento, onde os machos cantam para conquistar as fêmeas.

As cigarras são insetos muito interessantes e deixam uma marca de suas vidas por entre as árvores.

Essa postagem foi inspirada após um passeio que fiz no Jardim Botânico de Bauru, no interior paulista. Ao andarmos (+Lívia (minha namorada) e eu) por entre as árvores do jardim, avistamos alguns dessas ecdises presas. E, próximo a elas, no chão, esses buraquinhos, indicando o local de onde saíram.

A foto marcada com a letra A mostra os buracos por onde as ninfas saíram para sofrerem a ecdise. Em B, uma
fotografia do Jardim Botânico de Bauru. As ecdises foram encontradas nas árvores ao fundo da imagem.
Em C, detalhe das ecdises de cigarra presas em uma árvore. E, em D, detalhe de uma ecdise.

Rodapé:
[1]: as cigarras, assim como diversos outros insetos, possuem o que chamamos de metamorfose incompleta, ou seja, elas não possuem uma fase de pupa (como a borboleta). As mudas que esses organismos passam saem direto da fase juvenil para a adulta.

[2]: acredita-se que limitação de recursos, mecanismo de evitar inimigos e mudanças climáticas, principalmente a era do gelo no período Pleistoceno (2,5 milhões a 11 mil anos atrás) sejam os principais responsáveis por esse grande período de tempo enterrados no solo.

Imagem que abre a postagem é uma reprodução da última referência citada abaixo (Moulds, 2009). Imagem animada (.gif) da ecdise da cigarra disponível no Wikipedia. Demais imagens feitas por mim, protegida por CC. Com informações por:
GRANT, P. R. The priming of periodical cicada life cycles. Trends in Ecology and Evolution. v. 20, n. 4, p. 169-174, 2005.
MOULDS, M. S. Cicadas. In: RESH, V. H; CARDÉ, R. T. (Eds). Australian Museum, Sydney, Academic Press, 2009. p. 163-164.

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