[resenha] Contato - livro e filme

Radiotelescópios são importantes ferramentas que os astrônomos usam para enxergar o invisível.

É um pouco estranho fazer uma resenha, uma opinião, sobre o livro e filme que saíram cerca de 20 anos atrás. Entretanto, essas obras não são consideradas aqueles blockbuster, que mantem a renda dos editores e produtoras de filme sempre no verde (bem verde). Essas produções nos fazem entreter de uma forma mais polida, por assim dizer, nos apresentando informações que podemos considerar relevantes e fazer pensarmos sobre elas. O livro '1984', de George Orwell e 'Admirável Mundo Novo', de Aldous Huxley, figuram nessa categoria. Provavelmente estes livros ainda rendem boas discussões internet afora, por manterem uma linha bem atual, apesar te terem sido escrito décadas atrás (o livro de Huxley foi publicado em 1932, por exemplo).
O livro 'Contato', de Carl Sagan pode ser inserido nesse categoria de livro que é um entretenimento mas nos faz pensar na possibilidade de tal evento realmente acontecer. A ficção de Sagan fica, como eu posso dizer, com o pé bem no chão no quesito integridade científica e até mesmo na reação das pessoas quando descobrem o que está acontecendo.

* * * Aviso de spoiler: abaixo há informações sobre o livro e filme * * *
O livro Contact, publicado originalmente em 1985, apresenta o mundo quase na virada do século XXI. Na história, a União Soviética ainda está firme e forte (o que me faz pensar que a queda URSS em 1991 foi algo realmente muito rápido) e existe aquela "coisa no ar" entre EUA e URSS. Entretanto, a situação muda quando a personagem principal do enredo, a bela Ellie Arroway, descobre, em seu trabalho no SETI (busca por vida inteligente extraterrestre, em inglês) um sinal vindo de Vega, a estrela mais brilhante da constelação de Lira[1].
O espaço está constantemente enviando sinais para todos os pontos e não seria um problema Vega, estando a meros 25 anos-luz de distância[2], estar enviando sinais de rádio para cá[3]. Acontece que um ruído vindo de estrelas e do espaço profundo é muito diferente de uma estrela estar enviando números primos! O sinal que a equipe de Arroway recebe é totalmente novo e diferente de tudo que se tinha visto. O número primo não configura uma transmissão natural e leva os cientistas do SETI a crer que uma espécie extraterrestre inteligente está enviando tal sinal.
A suspeita se confirma ao perceberem que um sinal paralelo está junto ao sinal com os números primos. O sinal, de imagem e som é decodificado e apresentado em um televisor. Não é para ficar surpreso ao imaginar a perplexidade dos presentes ao verem que, na transmissão anexada aos números primos, estava Hitler abrindo os jogos olímpicos de 1936.
Como apresentado por alguns presentes, as Olimpíadas de 1936 foram um dos primeiros eventos transmitidos a nível mundial. Provavelmente sinais da abertura foram transmitidas para o espaço e radiotelescópios em Vega pode tem captado o sinal, visto que era um indicativo de sinal de inteligente extra-vegano e reenviaram o sinal, na esperança de fazer algum contato. Como a distância de Terra a Vega é de 25 anos-luz (50, para o sinal ir e voltar), estariam recebendo o sinal apenas naquele momento.

Provavelmente Sagan não usou a transmissão de Hitler a toa aqui. Nos anos anteriores e seguintes a transmissão de abertura de 1936, transmissões de rádio e televisão já eram feitas para todo o lugar, incluindo o espaço. Para mim, a crítica aqui é clara: talvez seja a hora de nos comportarmos mais. Olha a imagem que estamos passando para nossos vizinhos galácticos[4].

Entretanto, enquanto os cientistas pensam no real significado disso tudo, eles começam a receber outra leva de sinais vindas de Vega. Dessa vez, páginas e páginas que aparentam ser um manual de instruções para a construção de alguma coisa. Uma coisa grande.

Um consórcio internacional é criado para a construção da 'máquina', que ninguém faz ideia qual o seu propósito. Uma diferença bem grande ocorre aqui e no filme (na verdade há várias, principalmente sobre a vida pessoal de Arroway). No livro, os esquemas que apareciam no manual que receberam de Vega deixava bem claro que haviam cinco assentos para cinco tripulantes. No filme apenas uma pessoa entra na cabine.

A construção envolve vários países por anos, a criação de novas indústrias e tecnologia (tudo ensinado no manual, que continha milhares de páginas), a custo de trilhões de dólares. Carl Sagan reforça no livro a sensação de humanidade. Na época em que escreveu o livro, o mundo estava dividido entre os capitalistas e socialistas. Tínhamos acabado de sair da Guerra do Vietnã e a sensação de que o mundo estava por fio era um bocado iminente. Ao apresentar essa 'sensação de humanidade', Sagan cria a esperança de que homens e mulheres da Terra se unam em prol de algo maior: no caso, a construção de um maquinário com instruções vindas do espaço. Afinal de contas, ao percebemos que existe vida fora da Terra, os extraterrestres provavelmente iriam apontar para nós e dizer: Olha, os terrestres; ou: Olha, os humanos.

Talvez Sagan tivesse a esperança de que apenas um milagre vindo dos céus poderia despertar essa sensação dentro de nós.

Entretanto, como disse no começo da postagem, Sagan tem os pés no chão. Afinal de contas, nem todos reagiriam da mesma forma e pessoas com história de vidas diferentes reagiriam diferentemente frente a essa situação. Os religiosos ficam preocupadíssimos com essa informação. Por séculos, acreditávamos que a vida existia apenas aqui e todo e qualquer religião foca quase exclusivamente no que acontece na Terra. Questões abordadas pelos religiosos são, certamente, pertinentes: no que eles acreditam? Eles conhecem Jesus, o salvador do mundo cristão? Eles possuem ética e moral? Será que ela é totalmente diferente da nossa? Será que a sociedade deles atrairia a atenção humanos a ponto de se converter no 'veganismo'[5]? Até os políticos ficam preocupados, afinal de contas: será que eles tem democracia? Ou outro sistema político mais eficaz? No livro esse assunto é mais bem explorado que no filme, mas vale a pena prestar atenção no albino religioso.

Escolhidos os tripulantes (ou a tripulante, no caso do filme (ambos Arroway está dentro)), inicia-se a viagem. A máquina entra dentro de um buraco de minhoca e salta entre vários buracos negros. A solução é inteligente pois, mesmo viajando a velocidade da luz, levaríamos 25 anos para chegar em Vega. Pulando de buraco negro em buraco negro, isso seria drasticamente reduzido[7].

Ellie Arroway (focarei no filme, que tem uma narrativa mais simples) chegam no destino: uma praia. Passado um tempo, ela percebe que há alguém vindo ao longe. Ao perceber quem é, ela se dá conta de que está abraçando o seu falecido pai. Arroway logo percebe que os alienígenas fizeram foi ler seus sonhos e pensamentos.

É uma saída inteligente que o Sagan fez. Além de evitar todo o problema em descrever como o extraterrestre vegano é (Sagan sabe que a vida responde de formas diferentes a pressões diferentes; seria praticamente impossível adivinhar a forma física de um ser de outro planeta), evita aquele possível baque psicológico ao ver um ser totalmente desconhecido na sua frente. Os veganos, ao se vestirem como um ser humano (e, ainda por cima, com uma figura emocionalmente afetiva como o pai de Ellie), conseguem fazer o visitante ficar mais calmo e mais receptivo.

Após toda uma conversa sobre a preocupação com os humanos, a construção de um entendimento maior do universo e que a linguagem matemática permeia tudo, Ellie retorna para a Terra. Mas não sem um problema.

Toda a gravação que ela realizou fora da Terra simplesmente foi perdida. Nenhum registro ficara salvo. E o pior: enquanto para ela tenha passado horas e horas, para o pessoal da Terra passou-se apenas o tempo de ligar e desligar a máquina. É como se o tempo na Terra tivesse congelado.

Sem provas de que o que realmente viram foi real e tudo que foi registrado aqui em Terra, dando a sensação de que a máquina não havia funcionado (ou que nada havia saído ou entrado nela durante o funcionamento), fez com que o governo proibisse qualquer menção ao que supostamente viram e que seria declarado que a missão foi um completo fracasso.

Entretanto Arroway sabe que o que ela viu foi real.
* * * Fim de spoiler: fim de informações sobre o livro e filme * * *

Sagan, para mim, faz uma crítica para a nossa, ainda precoce, humanidade. Julgamos saber de muita coisa e parecemos dominar a natureza. Entretanto, o sinal de Vega mostra para os humanos que estávamos olhando muito para o próprio umbigo, discutindo questões pequenas demais para um planeta pequeno demais, sabendo que existe todo um universo a ser explorado. Não duvido que acontecesse uma histeria religiosa de proporção global[6] e que governos tivessem que tomar a situação em rédeas curtas. Contato é um livro interessante e o filme expressa bem a mensagem do livro. Recomendo que leia o livro e depois assista o filme. Entretanto, não veria problemas em você ver o filme primeiro e depois ler o livro. O desenrolar da história toda acontece de formas bem diferentes em ambos, com uma revelação bombástica no final do livro que vale a pena (e que não tem no filme).

Acho difícil alguém entrar em contato conosco (seja por qualquer meio). Nosso planeta não é muito chamativo de longe. Mas, posso estar enganado. Quem sabe há entidades inteligentes que sabem que o melhor é focar em planetas não chamativos? É uma questão de estarmos sempre olhando para cima, e pararmos de olhar para nossos próprios umbigos.

Para mim, ainda nós, humanos, não estamos preparados para entrar em contato. Será que você, querido leitor, está?
Rodapé:
[1]: Vega recebe o complicado nome de Alpha Lyrae (α Lyr) no meio acadêmico (mas Vega é bem mais fácil de falar).
[2]: o ano-luz é a unidade de medida de distância, não de tempo. Pode parecer estranho usar a palavra 'ano' para medir distância, mas espero que a explicação a seguir esclareça tal dúvida. A luz ele percorre uma determinada distância a um determinado tempo. Por exemplo, a luz viaja, no vácuo, a quase 300 mil km em um segundo. Ou seja, dentro de um segundo, a luz percorreu 300 mil km. Bom, se ela percorre tudo isso em um segundo, quanto ela percorreria em um ano? Após fazer os cálculos, sabemos que a luz percorrerá, mais ou menos, 9,5 trilhões de quilômetros (muitos arredondam para 10 trilhões) em 31.536.000 segundos, ou em um ano. Por isso que os astrônomos usam a expressão 'ano-luz' para designar distância. Pois saberemos que 25 anos-luz é longe pra burro equivalerá a 250 trilhões de quilômetros.

[3]: um sinal de rádio nada mais é do que uma onda eletromagnética. Usamos muito esse tipo de frequência de onda para a comunicação, seja por rádio (dã), televisão, celular e internet. Existem outras ondas eletromagnéticas, como a micro-ondas, infravermelho (usado em seu controle remoto (ligue a câmera do celular e aponte aquela lampadinha do controle remoto para ela e aperte qualquer tecla e veja o que acontece)), o ultravioleta (bronzeadores artificiais usam essa luz, e para esterilização também (ela danifica o DNA; por isso não use esses aparelhos de bronzeamento artificial por luz UV e use filtro solar)), e a luz visível.

[4]: ficaria confuso para um extraterrestre receber sinais da década de 70. Ao mesmo tempo em que mensagens de paz e amor (hippies estão eternizados nas ondas de rádio) atravessam o universo, imagens da Guerra do Vietnã, com milhares de mortos, acompanhando junto a transmissão os faria, provavelmente, a criar uma área psiquiatria ET: tratamento pós-traumático de imagens terrestres.

[5]: o livro usa o termo 'vegano' pois refere-se ao extraterrestres de Vega. Não tem nenhuma relação com o hábito alimentar de não consumir nenhum alimento de origem animal.

[6]: acredito que o Papa Francisco iria reagir bem se um sinal extraterrestre viesse agora para a Terra. Pela primeira vez em séculos, a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) tem um representante mais antenado com a realidade que o cerca. É um passo importante para a instituição religiosa mais influente do mundo.

[7]: óbvio, imaginando que isso aconteça em buracos negros e não a ideia de que ele simplesmente destrói todo tipo de matéria que exista. A ideia dos buracos de minhoca é interessante: ela supõe a existência de túneis pelo universo ligando pontos distantes dele. Imagine que o Universo seja apenas a casca de uma maçã (sim, apenas a casca e não ele todo). Você pode ir de um lado a outro da maçã-universo indo seguindo a casca. Entretanto, se você fizer um atalho, perfurando o tecido espacial (ou a casca), passando pelo meio e saindo do outro lado, você chegará onde quer, percorrendo uma distância menor, em menos tempo. Essa é a ideia por trás do buraco de minhoca, ou buraco de verme. Mas é apenas uma hipótese sem comprovação científica sólida.

Imagem que abre a postagem por Kieer em seu deviantART. Imagens do pôster do filme e capa do livro vistos no Wikipédia correspondente de cada obra (em inglês).

2 comentários:

  1. Sou estudante do 3° ano de Bio e fico grato pelo seu blog, pois nossa profissão possui tanta informação que me sinto perdido. Obrigado por compartilhar sua sabedoria!!!

    ResponderExcluir
  2. Olá Renato,


    obrigado pelo elogio! Blogar é algo que faço com bastante carinho e gosto de compartilhar o pouco que sei.


    Abraços!

    ResponderExcluir