One Health: a saúde como algo global

Devemos ver a saúde como algo único, global; não segregada.

Para os amigos que me seguem nas redes sociais devem ter visto que participei, recentemente, a um ciclo de palestras oferecidas pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Universidade Estadual Paulista, UNESP, sobre o One Health Summer School. Em uma espécie sem fins lucrativos de joint venture, professores da UNESP, USP e da canadense University of Saskatchewan apresentaram seus trabalhos e visões sobre a saúde de forma ampla. Aprendi sobre esse conceito e gostaria de compartilhar um pouquinho do que descobri com vocês, queridos leitores. Mas antes, quero apresentar alguns dados e uma pequena história.

"Os dados"
O Brasil está passando por uma epidemia de dengue das grandes. O último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde[1] já conta com mais de 224 mil casos de dengue registrados apenas em 2015. Isso é quase três vezes maior que o total de casos em todo ano de 2014. Mais da metade dos casos de 2015 estão apenas no Estado de São Paulo (mais de 123 mil). Até o momento, 52 pessoas morreram em todo o Brasil vítimas da doença.

"A pequena história"
Dona Tereza, uma senhora de 57 anos que vive no interior paulista foi conduzida as pressas pelo seu filho mais velho até o pronto socorro da cidade. A enfermeira da unidade tomou a temperatura da Dona Tereza e anotou no formulário que o termômetro marcara 40,2 ºC. Apresentava mialgia (dores musculares) e dores nos olhos. Um medicamento para dores e febre foi administrado. O médico plantonista a recebe e pede uma coleta de sangue para exame. Entretanto, pelo diagnóstico clínico, o médico fecha o quadro com dengue. Dona Tereza informa o médico que no ano retrasado ela teve dengue e que tem medo de que "algo pior aconteça". O médico acalma a paciente e informa que espera que os sintomas melhorem com o passar do dia e pede ao filho que estava acompanhando para manter a medicação para dor e febre e hidratar bem. Dias após, entretanto, o filho também apresentou os mesmos sintomas e fez os mesmos procedimentos que a mãe.

Enquanto estavam em casa, o resultado de sangue saiu com positivo para dengue. Há melhora do estado geral e voltam a atividades normais.

* * *

A historinha, curtinha, ilustra uma situação que está comum em várias regiões do país. Há cidades em que famílias de ruas inteiras estão doentes. Com isso em mente, vamos entender o tal de One Health.

"O tal de One Health"
Para tratar Dona Tereza da dengue foi preciso o trabalho de um enfermeiro e um médico, ambos da área da saúde humana. Ela e seu filho se recuperaram e voltaram a viver normalmente. Mas, eles foram realmente "tratados"? Eles recuperaram a "saúde plena"? Ganharam mais "saúde"?

Não. Não. E, quanto a última pergunta: um sonoro 'não'!

Embora tudo tenha dado certo com eles, o problema não foi resolvido em sua totalidade. A dengue ainda está lá, o mosquito transmissor da dengue ainda está lá. Se fosse outra doença (como a leishmaniose, por exemplo), animais domésticos também estariam ali, servindo de reservatórios da doença.

Ou seja, Dona Tereza ainda continua doente, animais que vivem próximo a ela estão doentes e o ambiente em si está doente.

É aí que entra o conceito de One Health[2]. Essa saúde única (ou global) olha para a doença não apenas na questão médica mas com a ajuda de especialistas de diferentes áreas: veterinários, entomólogos, microbiologistas, parasitologistas, ecólogos e quaisquer outra especializações necessárias para trazer o bem-estar físico, mental e social[3] necessários para que a sociedade humana, os animais domésticos e o ambiente estejam 'saudáveis'. Afinal de contas, a saúde é algo complexo e ela não se limita apenas a questão humana: é multidisciplinar.

Para trazer saúde de fato a Dona Tereza, é preciso, além de medicá-la, descobrir como ela vive, onde ela vive e como a sociedade ao redor dela estão vivendo. Assim, especialistas irão até o bairro dela e verão que o Aedes aegypti, o mosquito transmissor da dengue, foi encontrado no bairro[4]. Educadores e professores orientarão alunos e pais sobre os riscos de ter água parada nas casas. Outros profissionais irão tentar reduzir o número de mosquito com ação direta nas casas, eliminando as larvas e recolhendo o lixo para ser descartado de forma correta. Biólogos e outros especialistas poderão desenvolver outras abordagens para resolver o problema de transmissão, como a criação de machos estéreis para serem dispersados na cidade[5].

Se estivéssemos falando de outra doença que envolva animais domésticos, como os cães, por exemplo, veterinários ajudariam ao medicar e/ou vacinar esses animais e participar de campanhas de castração reduzindo, a longo prazo, o número de animais errantes na rua e que estariam suscetíveis a serem reservatórios de doenças.

Acredito que o curioso leitor já tenha entendido o que significa o One Health. É, de fato, ver a saúde lá de cima, como se fôssemos um astronauta que olha lá de cima para a Terra e começa a apontar para um país e diz:
-- Lá tem determinada doença. Essa doença fica em um animal doméstico e é transmitido para o homem e para outros animais por meio do mosquito. O mosquito está lá pois o homem deixa criadouros por toda a cidade. A cidade está assim pois a mata, local onde o inseto vivia normalmente foi destruída para plantação de um alimento. O alimento precisa de veneno para conter insetos. O alimento precisa, também, de nutrientes e usam esterco para isso. O veneno contamina a água e solo, além do próprio alimento. As pessoas daquela cidade consomem água a alimentos com veneno. Consomem, também, ovos de parasitas que estavam presentes no esterco de adubação. O homem fica suscetível a mais doenças...

Viu, não tem como levar uma saúde plena a Dona Tereza pois estaremos resolvendo apenas um pequeno ponto de algo muito grande. Apenas com o trabalho conjunto de diferentes áreas do saber e o conceito global das enfermidades poderemos trazer o 'completo bem-estar físico, mental e social' que a sociedade tanto almeja. O trabalho é duro, mas todos (todos mesmo) se beneficiarão dos resultados. Vamos todos ajudar a construir uma saúde única, em prol de nós, dos animais e do ambiente.

Rodapé:
[1]: boletim epidemiológico volume 46, nº 8, com dados até 07/03/2015. Ele pode ser acessado aqui (em .pdf).

[2]: One Health "é o resultado de esforços colaborativos de de múltiplas disciplinas trabalhando local, nacional e globalmente para um ótimo de saúde para pessoas, animais e ambiente".

[3]: a definição da Organização Mundial da Saúde (OMS) para saúde é "um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças.". A definição de saúde é um conceito importante: é a partir dele que governos e empresas se baseiam para organizar a sociedade e os recursos financeiros. Apesar disso, essa definição recebe críticas por ser um conceito inatingível: afinal, o que seria "completo bem-estar" (no sentido de 'é possível mensurar isso?'). Entretanto, apesar da crítica, a definição nos mostra que não basta apenas não estar doente para estar com saúde.

[4]: o Aedes sp. é o mosquito transmissor da dengue mas, também, é agente transmissor de diversos outros vírus no meio urbano, como os causadores da febre amarela e chikungunya.

[5]: pode parecer uma coisa absurda espalhar milhares de milhares de mosquitos transmissores da dengue na população. Mas graças ao conhecimento acumulado sobre a biologia do inseto e a epidemiologia da dengue, podemos fazer essas coisas que, a princípio, parecem não ajudar em nada. Na espécie Aedes, apenas a fêmea é hematófaga (ela se alimenta de sangue). Ela o faz pois precisa do sangue para nutrir os ovos fecundados. O macho é silvestre e se alimenta de néctar das plantas. Imagine liberar milhões de machos estéreis que irão acasalar com essas fêmeas (mas não fecundá-las) e, no final das contas, não gerar mais mosquitos. De fato, um estudo piloto conduzido em dois bairros de Juazeiro, na Bahia, mostraram que a soltura de machos estéreis reduziu a população de mosquitos em até 90%. Menos mosquitos no ambiente, menos chance de transmitir a doença. Além disso, a técnica não utiliza venenos ou outros compostos químicos que possam agredir os animais ou o ambiente.

Imagem aqui. Com informações de:
American Veterinary Medical Association. One Health: A New Professional Imperative. Disponível em: https://www.avma.org/KB/Resources/Reports/Documents/onehealth_final.pdf. 2008.
BRASIL. Boletim Epidemiológico: Monitoramento dos casos de dengue e febre de chikungunya até a Semana Epidemiológica 9, 2015. v. 46, n. 8, 2015.
FIOCRUZ. Rede dengue. Mosquito transgênico e estéril combaterá a dengue, Disponível em: http://www.fiocruz.br/rededengue/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=154&sid=3. 2012.
SEGRE, Marco; FERRAZ, Flávio Carvalho. O conceito de saúde. Rev. Saúde Pública,  São Paulo ,  v. 31, n. 5, 1997.
Wikipedia contributors. "One Health." Wikipedia, The Free Encyclopedia. Wikipedia, The Free Encyclopedia, 11 Mar. 2015. Web. 2015.

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