A mágica do diagnóstico - post 4


Essa postagem faz parte de uma série sobre exames e testes feitos em laboratórios. Veja a primeira sobre o sistema imune, a segunda sobre sorologia e a terceira de exames moleculares.

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A ciência voltada para detecção de doenças em laboratório evoluiu muito. Hoje, embora com um valor bem alto, podemos saber quantos parasitas existem dentro de uma amostra. Essa técnica seria inviável apenas alguns anos atrás. Embora eu ainda não tenha falado, podemos detectar o funcionamento do cérebro por meio de exames de imagens sem precisar abrir a cabeça do paciente. Tudo isso graças aos avanços no entendimento de como o corpo funciona.

Entretanto, algumas técnicas que usamos ainda hoje são as mesmas usadas a décadas. Veremos hoje uma dos exames mais comuns, que é feito de forma rotineira em diversos laboratórios de análises clínicas. Algumas técnicas são tão simples que podem ser feitas no meio da floresta, bastando ter apenas lâminas de vidro e um microscópio.

Parasitológico
Os parasitas povoam a Terra. Em todos os lugares que olhamos, podemos cutucar e acharemos vermes e protozoários prontos para atacar plantas, fungos e animais. Nathan Cobb, considerado o pai da nematologia[1] americana escreveu, em 1914 que “se toda a matéria do universo exceto os nematóides fosse varrida, nosso mundo ainda seria vagamente reconhecível, e se, como espíritos sem corpo, pudéssemos então pesquisa-lo, deveríamos encontrar montanhas, vales, rios, lagos e oceanos representados por um fino filme de nematóides”. Essa grande citação de Cobb nos lembra que, embora com os avanços na higienização e saneamento, boa parte da população mundial e do Brasil estão em áreas onde as chances de se infectarem por parasitas dos mais diversos tipos ainda é alta[2]. Até mesmo em grandes cidades o risco existe. Alimentos mal processados ou de origem duvidosa podem ser encontrados em feiras e supermercados. Por isso a regra de ouro de higienizar bem alimentos que serão consumidos crus ou mal cozidos se faz valer em todos os lugares.

Os exames parasitológicos são um dos mais antigos. Ele também é um exame óbvio e direto. O objetivo principal é encontrar o parasita (ou, dependendo do caso, os ovos deles) na amostra estudada. Para tanto é preciso conhecer o ciclo de vida do que está sendo pesquisado. Por exemplo, não faz sentido eu pesquisar por malária usando amostras de fezes de um paciente sabendo que o ciclo do Plasmodium, o causador da doença, tem a maior parte do ciclo no sangue. Por isso os exames parasitológicos podem ser de vários tipos. Os dois mais comuns que citarei logo abaixo são o parasitológico de sangue e de fezes.

Sangue
Alguns parasitas vivem e possuem a parte do ciclo no sangue do hospedeiro. Geralmente essas doenças são transmitidas por vetores que carregam o parasita em glândulas salivares ou no intestino. A malária, citada acima, causada por vários protozoários do gênero Plasmodium, são transmitidos por mosquitos do gênero Anopheles[3]. O parasita possui diversas fases dentro do corpo, mas a maior parte do ciclo ocorre no sangue (veja um pouco sobre a malária nessa postagem). Portanto, usamos uma amostra de sangue para procurar pelo protozoário, caso ele esteja lá. No infográfico abaixo é possível ver uma breve apresentação da técnica de gota espessa e de esfregaço sanguíneo.

Infográfico simples sobre parasitológico de sangue. Clique para ampliar.

Ambas as técnicas utilizam materiais simples. Isso permite que esse procedimento possa ser realizado em incursões floresta a dentro - muito útil para pesquisadores e médicos que estão na linha de frente contra a malária na Amazônia, por exemplo[4]. A gota espessa, considerada o padrão ouro para a malária, permite verificar, em uma pequena área da lâmina, a presença do Plasmodium no sangue. Como a técnica da gota espessa deixa as células do sangue mais próximas uma das outras, o microscopista gasta menos tempo observando a lâmina, já que tem uma área menor para observar. Ao mesmo tempo, ele pode ver, em poucos campos de visão do microscópio, se o paciente tem ou não o parasita no sangue.

Já o esfregaço sanguíneo coloca a amostra do paciente em uma grande área. Com isso é possível discernir melhor as células do sangue. O ponto negativo é que é preciso varrer uma grande área da lâmina para encontrar o que deseja.

Imagens de lâminas de esfregaços sanguíneos para malária
doença de Chagas e Leishmaniose. Clique para ampliar.
Tirando as hemácias que são naturalmente avermelhadas[5], a maioria das células são transparentes. Para torná-las mais fáceis de identificar no microscópio nós coramos o material. Existem inúmeras técnicas para corar material biológico, como o citado acima, que é feito com um corante azulado chamado Giemsa. Existem diversos corantes, cada um indicado para ressaltar alguma estrutura ou componente celular. Corantes com prata ou ouro são bons para se ligar a componentes específicos de células neuronais, por exemplo.

Com essa técnica, vários tipos de parasitas que são encontrados no sangue podem ser detectados, como os causadores da malária (Plasmodium sp), filariose (causada por um verme que vive no sangue e linfa, o Wuchereria bancrofti), leishmaniose (Leishmania sp) e doença de Chagas (ou tripanossomíase americana, causada pelo Trypanosoma cruzi[6]), por exemplo.

Mas existem parasitas que não são detectáveis desse jeito no sangue. Isso ocorre pelo simples fato de seu ciclo de vida não ocorrer nele. A importância de conhecer o ciclo de vida dos organismos é a possibilidade de saber qual o melhor meio de detectá-lo para termos meios de curar o paciente. Por isso, outro importante exame que é pedido por médicos, causando um pouco de incômodo nos pacientes é muito importante: o parasitológico de fezes.

Fezes
Lembro-me até hoje de uma cena do filme 'Jurassic Park' (1993) em que a doutora enfia o braço em uma pequena montanha de fezes, dizendo que dava para saber como andava a saúde dos dinossauros analisando "aquilo". Nada mais verdadeiro. Por meio de uma simples inspeção nas fezes podemos dizer informações como se o paciente ou animal está consumindo a quantidade correta de água, se está com problemas biliares, se está com infecção bacteriana ou distúrbio na microbiota (fezes liquefeitas, como na diarreia, por exemplo) e se está comendo fibras e outros alimentos que ajudam na saúde geral do indivíduo.

Mas, analisando mais atentamente, com auxílio de microscópios, por exemplo, podemos buscar por mais informações, como a presença de algum parasita que está acometendo o animal ou humano. Geralmente doenças intestinais causam perda de peso e fraqueza e o médico provavelmente irá suspeitar de um parasita intestinal. O parasitológico de fezes irá mostrar ao médico (ou veterinário) qual parasita é para, assim, indicar o melhor tratamento.

Infográfico apresentando o método de Faust para o parasitológico de fezes. Clique para ampliar.

O infográfico acima apresenta uma das técnicas mais simples para visualizar alguns tipos de parasitas que podem viver nos intestinos. Com ela, podemos muitas vezes encontrar evidências indiretas dos parasitas, já que, em muitos casos, o parasita em si não é detectado nas fezes, mas seus ovos sim.

Diversos parasitas podem viver muito tempo dentro do intestino humano (e de animais). Durante esse tempo eles podem se reproduzir e eliminar ovos que serão expelidos pelas fezes. Esses ovos contaminam o ambiente e conseguem chegar até outros animais e pessoas por ingestão ou contato e infectá-los também. Então, vendo a presença dos ovos nas fezes, conseguimos descobrir se a pessoa ou animal está infectado por algum parasita. E como cada espécie possui diferentes tipos de ovos, através da morfologia do ovo, sabemos qual é a espécie parasita.

Embora casos de verminoses tenham caído consideravelmente no país todo graças, principalmente, a ações públicas de saneamento básico, algumas regiões do Brasil ainda carecem de um sistema básico de coleta de esgoto e tratamento de água, o que torna algumas populações no Norte e Nordeste, sobretudo, ainda suscetíveis a parasitas intestinais. Exames desse tipo ajudam os médicos a nortear o melhor tratamento para cada caso.

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Vimos, ao longo das quatro postagens dessa série, uma pequena amostra de técnicas que são feitas no laboratório e que permitem pesquisadores e médicos a detectar vários tipos de doenças. Eu, a princípio, iria focar apenas nesses tipos de exames, que são os que mais conheço. Entretanto, existem tantos, mas tantos mais que eles mereceriam ser citados em várias outras postagens.

Gostaria de chamar amigos blogueiros e cientistas a colaborar com textos e infográficos desse tipo, que permitam aos leitores entenderem como descobrimos qual doença acomete ou acometeu o paciente.

Pretendo, assim que possível, continuar a escrever um pouco mais sobre outras técnicas. Tem alguma sugestão? Entre em contato e fique de olho aqui no blog. =D

Agradecimentos:
Agradeço à Prof. Dra. Simone Lucheis, minha orientadora, e que mostrou a importância de não ficar apenas no molecular e olhar para o parasita no microscópio, fixado ou não, lindão na lâmina. Agradeço à Prof. Dra. Rosana Rossi, que aprendi um pouco sobre parasitológico e que compartilhei com vocês. Com pessoas assim sabemos a importância de compartilhar o conhecimento. Obrigado.

Rodapé:
[1]: o grupo Nematoda são vermes cilíndricos aparentemente simples em sua composição corporal. Entretanto o grupo é um dos mais bem sucedidos da Terra, encontrados em praticamente todos os ambientes existentes. Eles variam de alguns milímetros de tamanho, em espécies que parasitam insetos, até mais de 10 metros, em algumas espécies que parasitam baleias, por exemplo.

[2]: apenas lembrando que os nematoides não são os únicos invertebrados a causarem doenças. As tênias, por exemplo, são platelmintos (grupo Platyhelminthes).

[3]: algumas palavras em latim possuem pronúncias diferentes do que é escrito. No caso, para falarmos a palavra Anopheles, dizemos 'anófeles' (o ph é substituído por F). Prometo que escrevo uma postagem complementar á série 'O latim nosso de cada dia' apenas falando sobre a pronúncia.

[4]: durante minha graduação, a minha professora de parasitologia disse que, durante a graduação dela, participou do Projeto Rondon. Ela disse que amostras de sangue de suspeitos de malária chegavam para o seu grupo e grande parte do trabalho era feito em um barco. Pode parecer estranho, mas fazer o trabalho com o barco em movimento, com lâminas de vidro e microscópio de cinco quilos em uma mesa é possível de ser feito.

[5]: isso se deve ao ferro que existe nas moléculas de hemoglobina, que servem para o transporte de gases.

[6]: existem outros tipos de tripanossomas que causam outras doenças, assim como àqueles que nada causam. Na África, por exemplo, existe a tripanossomíase humana africana, causada pelo Trypanosoma brucei. A doença é mais conhecida como 'doença do sono', e é transmitido pelo mosquito tsé-tsé.

Imagem que abre a postagem estava em cache, no Google. Imagem e infográficos feitos por mim, protegidos por Creative Commons. Quer uma versão para impressão? Fale comigo nos comentários.

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