Homeopatia: ou funciona ou você não acredita


Últimas décadas do século XVIII. A sociedade inglesa começava a experimentar uma revolução, em que vapor movia engrenagens, gerando força de trabalho. Apesar disso, tanto a Inglaterra como o resto do mundo ainda viviam na escuridão. Escuridão do conhecimento.

Imagine-se em uma época em que a espectativa de vida era cerca de 45 anos. Uma época em que ainda achava-se que os maus odores eram responsáveis por doenças. Uma época em que charlatões vendiam comprimidos ou xaropes com urina, mercúrio ou chumbo, com promessas de cura para todos os males. Os tratamentos médicos mais recomendados para qualquer enfermidade eram sangrias e ventosas.

Uma ideia diferente
Samuel Hahnemann sabia que esses procedimentos não surtiam efeito. Nascido no Sacro Império Romano-Germânico (mais precisamente na Saxônia, um dos atuais Estados que formam a Alemanha), Hahnemann voltou-se para a prática médica, viajando por diversas regiões da Império. Seu descontentamento voltou-se para essas práticas médicas, que pensava fazer mais mal que bem, o fazendo ficar os primeiros anos de sua vida médica dedicados à leitura e à química.

Durante seus trabalhos de tradução de documentos, Hahnemann ficou sabendo de um planta peruana, a Chinchona, que era administrada em pacientes com malária, sendo relatado melhora nesses pacientes. Hahnemann sabia que uma das característica da planta é sua adstringência. Ele relacionou que outras plantas com a mesma característica não teriam o mesmo efeito para tratar malária. Em um auto-experimento, ele administrou chinchona em si próprio. Hahnemann percebeu que teve sintomas semelhantes à malária. Isso o levou aos primeiros estudos que levaram ao desenvolvimento da homeopatia.

Semelhante cura semelhante
Hahnemann postulou que determinado princípio ativo causa um conjunto de sintomas quando dado a uma pessoa saudável, essa mesma substância poderá curar uma pessoa doente que tenha esses mesmos sintomas. O princípio da cura pelo semelhante é a base da homeopatia atual.

Seguindo essa ideia, a chinchona deveria ser administrada em pessoas com malária pela justificativa de que a planta causa os sintomas semelhantes de malária em uma pessoa saudável. O que faz sentido. Hahnemann usou um trabalho pioneiro de Anton von Störck que catalogou a toxicidade de diversas substâncias e resolveu testar seus sintomas em pessoas saudáveis, afim de saber qual substância deveria ser empregada para tratar determinado mal.

Mas Hahnemann percebeu que algumas substâncias não poderiam ser usadas em sua forma pura, por serem tóxicas demais. Ele resolveu criar uma técnica de diluição para tornar a substância menos tóxica, mas que ainda mantivesse seu poder. Ele desenvolveu a potencialização, uma técnica em que a substância original (a tintura-mãe) é diluída e agitada vigorosamente (sucussão). Assim, o efeito tóxico é reduzido, mas a potencialidade da substância ainda é mantida. Tanto que quanto mais diluído é uma substância, mais 'forte' ela é.

Avanços científicos e o problema da diluição
Na época em que Hahnemann começou a advogar a favor da homeopatia e de sua forma de administração, várias lacunas no conhecimento científico no mundo químico, físico e biológico ainda existiam. O avanço do conhecimento nessas áreas começaram a bater de frente com o que os princípios básicos da homeopatia postulavam.

O principal foco de crítica dos cientistas atualmente envolve o tal fator de diluição usado na homeopatia. Para a ciência, a diluição ultrapassa as leis da natureza.

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O que os cientistas criticam nesse ponto da homeopatia é que, quanto mais diluído for o preparado, as chances de você encontrar uma molécula sequer da substância original no frasquinho que você está levando para casa é quase nula. Pegue, por exemplo, um preparado de Natrum muriaticum[1]. Ele é indicado pelos homeopatas para tratar mágoas, depressão e irritabilidade. Em uma diluição usual de 12C, a solução original foi diluído em 1 x 10^-24. Para ter uma noção de quão baixo é isso, seria semelhante a diluir (e deixar muito bem misturado) pouco mais de 0,5g de cloreto de sódio no oceano Atlântico inteiro. Estamos falando de 3,5 x 10^20 litros de água.

E essa diluição ainda é considerada muito baixa para os homeopatas. Hahnemann indicava uma média de 30 diluições (30C) para a maioria dos preparados. Plumbum metallicum é uma substância homeopática indicada para quem tem medo de ser assassinado ou envenenado ou, ainda, quem tem atrofia muscular[3]. Embora o chumbo seja tóxico (não existindo níveis seguros para exposição a esse metal), pacientes que usam essa homeopatia podem ficar tranquilos. Em 30C, a substância original foi diluída em 1 x 10^-60.

Seria preciso tomar quase um sol para tomar a substância original junto em uma diluição de 30C.

Entretanto, existem preparações homeopáticas em que são realizadas 200 diluições, como no caso do preparado a base de Oscillococcinum, oriundo de fígado de pato, usado para tratar gripe. Nesse ponto, a substância original foi diluída em 1 x 10^-400, muito além do que existe no Universo observável.

Uma diluição de 200C ultrapassa, e muito, toda a matéria detectável no Universo.

Ou seja, do ponto de vista química e físico, as diluições usados na homeopatia fogem do conhecimento atual que temos sobre a composição das coisas que existem no Universo. Hoje sabemos que os átomos existem e eles possuem um limite detectável pela física, assim como um valor padrão na química (a velha constante do Avogadro).

A ideia empregada pela homeopatas de que quanto menor a concentração (maior a diluição), melhor será a potencialização dos efeitos da homeopatia não faz sentido do ponto de vista biológico. Uma célula só desencadeia uma resposta mediante a presença de uma molécula que faça tal ação. Por exemplo, o paracetamol, conhecido anti-inflamatório e anti-pirético age ao inibir a síntese de um conjunto de moléculas iniciadas pelo ácido araquidônico. Com isso, ela impede a produção de prostaglandinas, que são moléculas responsáveis pelo processo inflamatório. Para que esse processo seja interrompido, é preciso a presença real do paracetamol na corrente sanguínea[5]. A não presença da substância original faz com que não ocorra a cura realmente dos sintomas.

Mas por que temos relatos de que a homeopatia funciona?

Efeito memória ou placebo?
Os homeopatas se armam do argumento de que o solvente em que a substância está sendo diluída (água ou álcool) retêm uma espécie de memória da substância que passou por ela. Essa memória se resume a uma mudança no estado físico das moléculas do solvente que, quando ingeridas, interagem com as células do corpo, que desencadearia na cura[6].

Entretanto, um problema enfrentado pelos homeopatas é a seletividade dessa memória. Como o homeopata sabe que a água armazena apenas a substância que ele quer que o solvente memorize? Provavelmente a água, um dos mais usados, passou por inúmeros lugares antes de chegar nas mãos do homeopata para ser preparado. Ela não retém a memória de substâncias que passou por ela no passado também?

Embora digam que a homeopatia passa pelo processo de sucussão, em que ele é agitado vigorosamente para que potencialize o efeito, não podemos afirmar que aquela água não pode ter sido usada antes para fazer isso ou que esse processo não ocorra de forma natural, visto que os adeptos da medicina alternativa focam o uso de métodos naturais.

Para a ciência e médicos que estudam a interação entre o paciente e medicamento, a homeopatia não passa de um fenômeno chamado placebo[7]. Nele, o efeito psicológico sobre a ação de qualquer produto inerte, procedimento ou manipulação irá causar o efeito desejado. A ciência atual apoia que a homeopatia, o reiki, a acupuntura, e outros métodos alternativos se utilizam do efeito placebo para trazer melhora ao paciente.

Mas não se engane pensando que o placebo aflige apenas pessoas de "mente fraca". Ele é um efeito tão poderoso que testes com novos medicamentos consideram o efeito placebo durante a análise estatística. Pois mesmo no grupo de pessoas que não tomam nada além de um comprimido vazio, alguns dizem terem sentido melhora. Isso é importante para verificar a eficácia de um medicamento que, a priori, deve ser melhor que o placebo.

Em uma das maiores revisões sistemáticas já feitas, publicado em 2005 na revista The Lancet[8], Shang e colaboradores se debruçaram em mais de 110 trabalhos com temática homeopática e compararam com dados de 110 trabalhos médicos testando medicamentos convencionais. Os dados mostraram que a homeopatia é, na melhor das hipóteses, resultado do efeito placebo, já que não houve diferenças entre o grupo que recebeu um material inerte e o grupo que recebeu homeopatia.

E, embora seja fácil encontrar diversos estudos mostrando os efeitos da homeopatia em diversos testes, uma análise mais detalhada mostra possíveis falhas no desenho do experimento. Um dos exemplos é a falta de um simples teste cego. Querendo ou não, o pesquisador pode inferir o resultado do experimento já que suas ações estão com viés, ou seja, estão tendendo para algo. Por exemplo, um pesquisador que sabe que, entre 5 amostras, a amostra número 4 é positiva. A tendência dele é tomar mais atenção e cuidados com àquela amostra em detrimento das demais. Essa atenção pode se refletir em pipetar volumes certos para determinado experimento, coisa que ele não faria com tanta atenção se ele achasse que essa amostra fosse como outra qualquer.

De mesma forma, o pesquisador sabe qual cobaia ou qual paciente está usando a homeopatia e qual não. Assim, ele tende a achar que qualquer manifestação de melhora em quem tomou homeopatia como sendo certo e acabar descartando a mesma melhora em quem não tomou[9]. Testes cegos reduzem esse viés e permite obter dados da amostra de forma mais fiel e analisá-las de forma menos subjetiva.

Mas mesmo que você esteja certo e for apenas água, ele não dá problema nenhum. Será?

O risco da homeopatia
Mas, se a pessoa toma água pura, mesmo sendo enganada, ela melhora. Então não haveria problemas em administrar homeopatia para essas pessoas já que, como dito anteriormente, elas não estão ingerindo a substância original, o que não traria nenhum efeito colateral. Ou, trocando em miúdos: o fim justifica os meios.

Isso pode até ser válido para uma dor de cabeça corriqueira causado pelo estresse do dia-a-dia ou aquela batida no braço na maçaneta da porta. O organismo realmente tenta se arrumar das coisas que acontecem. Afinal de contas, mesmo você não tomando nenhum medicamento, aquela dor de cabeça acabou passando, não é? Talvez o efeito placebo causado pela homeopatia acelerasse isso, o que é uma ideia bacana. Mas, e quando o tratamento homeopático tenta intervir na administração de medicamentos mais sérios, como para câncer e doenças infecciosas?

O problema começa aí: as pessoas não tem entendem os limites entre situações corriqueiras e situações sérias, que exigem "medicamento de verdade". Me lembro de uma triste notícia de 2009, quando pais de um bebê na Austrália mataram a própria filha devido a complicações de uma doença tratável pois simplesmente deram homeopatia em detrimento da medicina convencional.

Hoje se encontra preparados homeopáticos para diversas doenças, como dengue, aids e cânceres. Muitas pessoas, acreditando que estão usando um meio alternativo, mais natural, que sobrepuja a medicina capitalista, usam sem pesar as consequências para a própria saúde (ou a saúde de quem está sob responsabilidade deles).

O problema não é apenas as pessoas estarem sendo enganadas. O risco de morte é real em alguns casos, o que seria suficiente para eliminar essa prática alternativa como uma opção para o paciente. Mas, assim como a indústria farmacêutica tem seu lobby para se manter forte, a indústria homeopática também tem. A Boiron, uma das maiores indústrias homeopáticas do mundo teve lucros superando a marca de 500 milhões de euros (em 2010, algo em torno de 2,2 bilhões de reais, sem a correção da época). Operando em quase 60 países (incluindo o Brasil), a empresa é referência em venda de preparados homeopáticos para manipulação em todo o mundo. Assim como a indústria farmacêutica, a homeopática tem seu impacto no mercado mundial.

* * *

Essa é uma daquelas publicações em que sempre quis escrever mas simplesmente não tinha tempo. Embora simples, a homeopatia é uma atividade médica que existe a mais de 200 anos e possui adeptos no mundo inteiro. No Brasil existe a Associação Médica Homeopática Brasileira que reúne os médicos homeopatas. Reconhecido como atividade médica válida, o Sistema Único de Saúde fornece medicamento homeopático para a população, mesmo em que estudos sérios publicados em revistas conceituadas na área médica indicando que a homeopatia não é melhor que o placebo.

Embora as associações médicas pedem para que os pacientes não abandonem a medicina convencional (usar a homeopatia como complemento), muitos adeptos da prática acreditam que os remédios tiram a harmonia das energias do corpo, indicando apenas homeopatias para seu tratamento. E o perigo mora nessas situações.

Realmente gostaria que a homeopatia funcionasse tal qual os adeptos preconizam: por que eu seria tolo o suficiente para recusar um medicamento que promete a cura (ou melhora) sem efeitos colaterais e, em média, mais barato e simples de tomar que os medicamentos de referência? A ciência infelizmente aponta para o caminho inverso: a homeopatia não passa de um placebo que visa enganar psicologicamente quem o toma, criando uma melhora que pode ser temporária, mas não é efetiva.

A ciência é uma ótima ferramenta para entendermos não apenas do que são feitas as coisas em nossa volta, mas como essas coisas funcionam. Os avanços nos últimos 200 anos de ciência não podem ser deixados de lado devido aos trabalhos de um médico que queria fazer as coisas melhor. Pelo seu histórico, parece-me que sua atitude foi louvável, ao buscar métodos alternativos à época. Mas as coisas mudaram: hoje temos medicamentos eficazes que ajudam os médicos a tratar os mais diversos males. Óbvio que muitas coisas ainda precisam ser resolvidas, mas ficar preso ao pensamento do passado não é uma das melhores formas de resolver os problemas do futuro.

Rodapé:
[1]: o Natrum muriaticum é o nome em latim para cloreto de sódio ou o popular sal de cozinha. Embora o sal de cozinha contenha outros minerais em sua composição, o cloreto de sódio é a base do sal.

[2]: geralmente os pacotinhos de sal servidos em bares e restaurantes são de 1g (ou 1000mg).

[3]: Plumbum metallicum, para quem se lembrou das aulas de química, se refere ao chumbo (símbolo Pb, de plumbum, na tabela periódica).

[4]: área do universo em que a luz alcança todos os pontos a partir do centro de observação. Quanto mais profundo observamos o universo, mais antigo ele o é, visto que a luz levou muito tempo para nos alcançar.

[5]: geralmente administrado em comprimidos de 750mg, o paracetamol se faz sentir os primeiros efeitos cerca de meia hora após a ingestão. A meia-vida no sangue é de cerca de 4 horas (ou seja, a molécula é consumida e posteriormente descartada, sendo metabolizada no rim, e eliminado na urina até 24 horas após a administração.

[6]: de forma mais homeopática, a homeopatia visa reequilibrar as energias do corpo. Quando o paciente se encontra doente, suas energias estão desequilibradas. O medicamento homeopático visa restaurar essa energia do corpo, fazendo-o funcionar normalmente. Só resta saber que energia é essa.

[7]: placebo vem do latim e significa 'agradarei' ou 'irei agradar'.

[8]: fundada em 1823 por um médico britânico, a revista é uma das mais antigas e mais prestigiadas do mundo na área médica. Em 2014, o seu fator de impacto (IF) era de 45.217. O IF reflete o número médio de citações que determinada revista teve durante um período. Embora bastante criticado por não representar bem a realidade, o IF é um indicativo da qualidade da revista: quanto maior o número, maior alcance dentro da comunidade científica. A revista científica com maior IF medido pelo ISI Web of Knowledge é 'CA: a Cancer Journal for Clinicians', da editora Wiley, com 144.800 (2014). Provavelmente por ser uma revista muito específica que envolve um assunto muito importante, a revista tenho esse alto IF. A Nature, talvez a revista mais conhecida do grande público, tem IF de 41.456 (2014). Embora menor, a revista tem mais alcance entre a comunidade científica por ser uma revista mais eclética, publicando artigos de diversas áreas. Dessa forma, o IF mostra que ele não é um valor considerado ótimo para ser seguido, embora seja o mais usado.

[9]: o pesquisador, muitas vezes, não está agindo de má-fé. É uma questão inerente ao ser humano. Sempre tendemos a achar que um dos grupos vai dar certo e outro não. E, obviamente, tendemos a acreditar que o grupo que recebe o tratamento melhore. Isso ocorre, inclusive, com animais.

Com informações de Guia do Estudante, Guia da Farmácia e Snif Brasil, além de Wikipedia e:
SHANG et al. Are the clinical effects of homoeopathy placebo effects? Comparative study of placebo-controlled trials of homoeopathy and allopathy. Lancet, n. 366, v. 9487, 2005.
Imagem que abre a postagem aqui. Demais imagens foram feitas por mim, protegidas por CC.

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