Genoma de formiga reescreve história do istmo do Panamá

Análise genética sugere que conexão entre as Américas emergiu milhões de anos antes do que se pensava.

Carrie Arnold para a Nature
Traduzido por Wesley Santos para o Do Nano ao Macro


A colisão de placas tectônicas no passado acabaram emergindo uma estreita faixa de terra do fundo do oceano que separava a América do Norte da América do Sul, formando o istmo do Panamá. Um estudo mostrou agora que isso ocorreu milhões de anos antes do que os cientistas acreditavam até agora.

Evolucionistas e dados de genética de populações das formigas do gênero Eciton, que só podem caminhar em terreno seco, mostraram que o istmo do Panamá se formou entre quatro a oito milhões de anos atrás. A pesquisa, publicada em 25 de outubro de 2016 no Molecular Ecology, mudou a ideia de que a ligação entre os continentes não ocorreu mais do que três milhões de anos atrás.

“Nossos dados genômicos formam uma evidência muito forte de que essas formigas atravessaram essa região [o istmo] muito antes no tempo que o modelo da simples emergência de terra na região sugeria”, disse Corrie Moreau, curadora assistente do Field Museum em Chicago, EUA e co-autora do estudo. Ela observa que recentes estudos geológicos também apontavam que o istmo poderia ter emergido antes de três milhões de anos atrás.

Moreau começou o estudo como uma tentativa de entender a diversidade das formigas, que são os maiores predadores e muitas florestas tropicais da América Latina, logo se viu no meio de uma controversa geológica. As formigas rainhas e trabalhadoras não possuem asas, o que as torna incapazes de viajar através da água. As novas colônias são formadas apenas quando uma rainha organiza metade da colônia original e as realoca a uma grande distância de dispersão.

“Ela trabalhou com a espécie perfeita para esse estudo”, disse Brian Fisher, entomólogo da Academia de Ciências da Califórnia, São Francisco.

Genética e geologia colidem
Moreau e seus colegas usaram uma técnica chamada de ‘genotipagem’ para sequenciar pequenos fragmentos de DNA do genoma de múltiplos indivíduos de todos as nove espécies do gênero Eciton, que são encontrados do Brasil ao sul do México. Isso permitiu aos pesquisadores compararem as variações genética entre as espécies e as diferenças individuais entre os indivíduos da mesma espécie.

Camilo Montes, geólogo da Universidade dos Andes, em Bogotá, Colômbia, notou que a data da formação do istmo sugerido pelo estudo genético com as formigas estava condizendo com os resultados que ele obteve ao datar urânio em cristais de zircônio preservados em rochas próximas ao istmo. “Esses dados moleculares são completamente diferentes de nossos resultados geológicos. Isso fornece uma outra forma de ver como esses eventos ocorreram, que faz o estudo ser tão importante”, ele disse.

Outra recente evidência biológica e geológica também sugere que o istmo emergiu antes, através de um processo mais complexo. A evidência inclui fósseis de dentes de macacos ancestrais, que sugere que esses primatas atravessaram essa região entre os continentes cerca de 18 milhões de anos atrás. E fósseis de 20 milhões de anos encontrados durante a escavação do novo Canal do Panamá em 2012 também desafiam a data aceita para o istmo.

Ainda assim, esses resultados não irão encerrar o debate entre geólogos. Fisher observa que um grupo irmão das formigas Eciton, as Neivamyrmex, são capazes de atravessar o Caribe, talvez pegando carona em grandes furacões ou deslizamentos de terra. Isso permite deixar a opção aberta para as formigas Eciton também, já que a distância entre os dois continentes é relativamente pequena.

Anthony Coates, geólogo do Instituto de Pesquisa Tropical do Smithsonian na Cidade do Panamá é cético para qualquer evidência de que o istmo do Panamá tenha mais de três milhões de anos. “Há uma série de investigações em diferentes disciplinas as quais todas convergem para o mesmo número ao redor de três milhões de anos atrás. É uma evidência extremamente forte”, ele disse.

As linhas de batalhas geológicas, ao que tudo indica, foram formadas. Se elas podem formar um ‘istmo ideológico’ similar à forma física talvez teremos que esperar um pouco mais para ver.

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Veja a matéria original, em inglês.

Imagem por João P. Burini no Flickr.

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