Dendrocronologia: as árvores contam a história


Hoje, graças aos registros e, principalmente, ao trabalho árduo dos historiadores, a História nos é conhecida. Talvez uma das mais belas e complexas ciências que estuda justamente o homem e toda sua relação com o espaço e o tempo o qual foi contemporâneo. Muito longe de ser "apenas aquela matéria chata de escola" que você tem que ficar decorando datas, lugares e nomes para as provas. A História permite criar um vislumbre da sociedade naquela época em que estava inserida e como esses processos levaram a nossa atual civilização. Não pense que o que aconteceu no Império Romano durante a Antiguidade ficou apenas lá[1].

Na ficção científica em suas histórias[2] sobre viagens no tempo, sempre pensamos na possibilidade de viajar para algum evento histórico importante - assassinato de Júlio Cesar, Galileu usando o telescópio pela primeira vez ou ir na festa que Stephen Hawking deu para viajantes do tempo[3] - afinal de contas, viver no mesmo momento em que ocorreu a História deve ser incrível.

Infelizmente, nossas vidas não são lá muito longas. A pessoa que mais viveu no mundo foi a francesa Jeanne Calment, com pouco mais de 122 anos e 5 meses de vida. Ela nasceu em 1875 e faleceu em 1997. Para você ter uma ideia da coisa toda ainda tínhamos a escravidão no Brasil quando ela nasceu e Marconi só começou a trabalhar com ondas de rádio nas comunicações quase 20 anos depois. Isso sem contar os clássicos que ela vivenciou as duas grandes guerras, a queda do Império Russo e a ascensão do socialismo soviético, a construção e queda do Muro de Berlin e, praticamente, vivenciou o surgimento da maioria dos estilos musicais existentes. Se contar que a internet para todos estava dando seus primeiros passos em seus últimos dias de vida.

Apesar de ela ter visto tanta coisa (afinal de contas, muitas coisas aconteceram nos últimos 150 anos), ela viveu apenas uma fração do tempo que a História engloba. E nessa hora que entram as árvores, as nossas contadoras de histórias.


Naturalmente as árvores não vão sair falando por aí, mas elas podem nos contar alguns aspectos do passado, como o clima. Além disso, permitem os pesquisadores datarem melhor alguns achados importantes para a ciência. Para tanto olhamos para o padrão do desenvolvimento da árvore, em busca dos anéis de crescimento.

A árvore possui um interessante padrão de crescimento[4] em que uma nova camada de seu caule vai se formando, deixando a camada já lenificada para trás (ou melhor, para dentro). Assim a árvore cresce tanto para cima como para os lados. Esse padrão de crescimento ocorre de acordo com as condições ambientais, sobretudo o clima e os nutrientes disponíveis no solo. Além disso, a estação do ano influencia fortemente na formação dos aneis, que se formam principalmente na primavera e verão, época em que a árvore aproveita das melhores condições para crescer e armazenar energia para o outono e inverno, onde as condições tendem a ser mais difíceis[5].

Com esse conhecimento que a dendrocronologia trabalha: cada anel de crescimento da árvore representam um período completo de crescimento, que se dá em um ano. Contando de fora para dentro, podemos voltar para o passado e descobrir como estavam as condições climáticas na época. E melhor: os dendrocronologistas comparam material de diversas árvores e comparam os padrões de crescimento para ir cada vez mais para o passado. Graças a essas análises, podemos voltar quase 14 mil anos no passado. Para você ter uma ideia, a espécie humana estava começando a ter suas primeiras tentativas de prática sedentária nessa época.

Ter todos esses dados sobre o passado da Terra é importantíssimo para os cientistas terem um vislumbre de uma época em que não existiam equipamentos para coletar esses tipos de dados e entender como as mudanças atuais podem impactar o nosso futuro.

Tive a ideia dessa postagem depois de visitar o Jardim Botânico de Bauru, no interior paulista, e lá ter um corte transversal de um tronco de uma copaíba, árvore bem comum do cerrado. O corte, praticamente apresenta alguns dos fatos mais interessantes que ocorreram nos últimos 70 anos. Muito legal!


Clicando na imagem você consegue ler a descrição das principais datas e onde elas se localizam nos aneis de crescimento da árvore. Vale lembrar que houve um equívoco na data da 'Queda do Muro de Berlim', que ocorreu em 1989 e não em 1985, como registrado na imagem.

Agora a questão é: o que será que as árvores irão contar para as pessoas do futuro sobre como estamos lidando com o clima atual da Terra, com tantas pessoas negando a ação do homem na mudança climática?

Rodapé:
[1]: se você usa o alfabeto latino, por exemplo, agradeça a forte influência que o Império Romano teve na Antiguidade ao abraçar praticamente a Europa toda, disseminando sua cultura para quase todo o mundo antigo. Algumas tradições políticas e comerciais também vieram deles. Até o largura dos trilhos de trem atualmente é devido à largura das estradas romanas antigas (valeu TV Escola por me agraciar com essa informação).

[2]: foi proposto a divisão do termo História (a ciência) e história (contos) chamando a segunda opção de 'estória'. Além de ser feio pra burro, o termo nunca pegou muito, por ser algo completamente desnecessário. Ou seja, a palavra história pode ser usada em ambas as situações sem problemas. Vale frisar que não é necessário deixar a primeira letra da palavra em maiúsculo (assim como escrevemos em física, biologia ou sociologia). Entretanto, escrevi com inicial maiúscula apenas para satisfazer minha necessidade de deixar claro que estou falando da História como ciência e não como conto. Sim, sou meio doido.

[3]: sim, em 2009 ele deu uma festa para viajantes do tempo. É uma história bem conhecida entre os físicos (talvez os mais aptos a construir uma máquina do tempo), o que faz com que o convite sempre esteja de pé, já que basta um cara do futuro voltar para o passado e ir à festa. Uma pena que ninguém apareceu, o que pode mostrar que viagens no tempo para o passado podem não ser possíveis de ocorrer. Veja a incrível festa do Hawking aqui.

[4]: esse efeito ocorre apenas em árvores e arbustos, naturalmente. Diversas plantas da família Poaceae, como o trigo, cana-de-açúcar, milho, bambu, entre outros, não possuem esse padrão de crescimento. Já muitas plantas da família Fabaceae, como a copaíba e o pau-brasil, são lenhosas e possuem esses aneis de crescimento. Curiosamente, essa característica de crescimento não é exclusivo de uma família. Diversas espécies dentro de Fabaceae não apresentam esse padrão de crescimento, como o amendoim e o feijão. Como segunda nota de curiosidade, as Facabeae também são conhecidas como leguminosas, já que seus frutos são geralmente secos, com sementes grandes e consumíveis em muitos casos.

[5]: essas condições incluem, principalmente, a incidência de luz (o inverno, sobretudo, há menos raios de sol incidindo por cm² na superfície terrestre que em outras épocas do ano) e o regime de chuvas (em muitas regiões do mundo, como o centro-sul do Brasil, o inverno é caracterizado por ser seco, com índices pluviométricos bem baixos quando comparado com o verão, que é chuvoso).

Imagem que abre a postagem aqui.
Reimer et al. IntCal13 and Marine13 Radiocarbon Age Calibration Curves 0–50,000 Years cal BP. Radiocarbon. 55, 4, 2013. DOI: 10.2458/azu_js_rc.55.16947

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