Cientistas deveriam falar diretamente com o público

Nosso trabalho ajuda a responder alguns dos maiores desafios da sociedade, mas frequentemente é divulgado em linguagem técnica em revistas científicas que a maioria das pessoas nunca verão.

Por Esther Ngumbi para a Scientific American.
Traduzido por Wesley Santos para o Do Nano ao Macro.

A imagem de fundo veio de um trabalho que conseguiu armazenar e reproduzir com sucesso esse pequeno vídeo no DNA de uma bactéria usando uma técnica que insere trechos de DNA no organismo, chamada de CRISPR. A técnica, apesar de estar dando seus primeiros passos, apresenta ser promissora em áreas que vão além da biologia. Feito por pesquisadores de Harvard, o trabalho foi publicado no começo de julho de 2017 na prestigiosa revista Nature.

A ciência e a pesquisa científica são importantes já que fornecem respostas para as facetas mais desafiadoras da sociedade, incluindo mudanças climáticas, saúde pública e segurança alimentar.

Ainda assim, essas respostas são publicadas apenas em revistas com revisão de pares[1]. Cerca de 2,5 milhões de novos artigos científicos são publicados todos os anos. Somado a isso, as bibliotecas estão cheias de pesquisas originais em formas de teses e dissertações. O frustrante é que muitas dessas descobertas são significantes apenas para a comunidade científica, já que ninguém mais lê esses documentos.

Eu posso relacionar. Eu sou uma cientista e escrevi uma tese, uma dissertação e muitos manuscritos em tópicos relacionados à tolerância a seca mediada por bactérias e a ecologia química na interação inseto-planta. De forma geral, minha pesquisa tem uma grande aplicação para a segurança alimentar e problemas ambientais. Infelizmente, a maioria dos meus achados acabaram sendo um dos muitos que pararam em artigos revisados por pares que nunca foram compartilhados com o público.

O mais frustrante é o fato de que passei dias e noites sem dormir e incontáveis horas lendo a literatura científica para formar ideias para meus questionamentos, rascunhando os objetivos da pesquisa e do desenho experimental, fazendo os experimentos e, então, escrevendo o manuscrito. Então, ele passará pelo cruel processo de revisão por pares. É uma prova de drenagem mental que os cientistas passam dia a dia.

Diante de todo esse trabalho, acaba sendo vergonhoso que os cientistas e a comunidade científica ainda não tenham encontrado maneiras de transmitir os seus conhecimentos para o público. Sem sombra de dúvidas, uma razão pela qual não é priorizada é que a cultura acadêmica do “publicar ou perecer”[2] valoriza apenas as publicações e recompensa os cientistas que publicam frequentemente sem necessariamente valorizar se alguma dessas publicações são amplamente divulgadas ao público ou se tem algum impacto.

Então quais são os pequenos passos que os cientistas e a comunidade científica podem tomar para mudar essa cultura e começar a compartilhar as nossas descobertas científicas para o público?

Primeiro e acima de tudo as universidades, institutos de pesquisa, agencias de financiamento como a Capes, Fapesp e outras Fapes[3], juntamente com outras organizações profissionais, devem apoiar e incentivar os pesquisadores a compartilhar a pesquisa que estão fazendo uma vez publicada para o público em geral. Eu acredito que, para cada manuscrito aceito em uma revista científica, as universidades deveriam solicitar aos pesquisadores do trabalho uma forma de disseminar esses achados para o público[4]. Essas vias de disseminação podem ser singelas colunas de opinião, colunas nos jornais locais ou entrevistas com as redes de rádio e televisão públicas.

A boa notícia é que isso já está em vigor[5], e a importância de comunicar a ciência ao público em geral ganhou um interesse renovado:

A American Association for the Advancement of Science (AAAS) através do Center for Public Engagement with Science & Technology – ambos nos Estados Unidos – fornece aos cientistas e comunidade científica o suporte e recursos necessários para comunicar efetivamente a sua ciência para o público. O Entomological Society of America oferece o Science Policy Fellows Program que treina cientistas e os oferece as habilidades para comunicar sobre pesquisas de entomologia – pesquisas relacionados a insetos – para o público e para os políticos eleitos. O NSF oferece um guia para comuncação e pede que os cientistas busquem fundos para explicar como os resultados poderiam ser compartilhados amplamente para melhorar o conhecimento científico e tecnológico.

Segundo, os jornais que publicam os achados científicos também deve encontrar meios inovadores para compartilhar esses achados para o público. Atualmente muitas revistas científicas pedem aos pesquisadores que submetam um “resumo ilustrado”[6] junto com o seu manuscrito. Esse resumo da pesquisa em uma página apresenta uma imagem que captura a essência do trabalho e serve para capturar a atenção do leitor. Talvez as revistas científicas deveriam tomar outro passo, pedindo aos pesquisadores que submetessem um outro resumo ilustrado para ser entendido pelo público.

Terceiro, nós podemos ajudar com vias novas e inovadoras de comunicar ciência ao público. Por exemplo, Sara Elshafie, bióloga integrativa da Universidade da Califórnia, adaptou as estratégias de storytelling da indústria cinematográfica para comunicar ciência[7]. Durante o ano passado ela realizou diversas palestras para estudantes, ensinando-os a como contar histórias sobre suas pesquisas que as façam serem compreendidas pelo público. Há também organizações de notícias que focam em resumir os achados científicos a partir de revistas com revisão de pares para o público em formato que chamam a atenção. O site phys.org, por exemplo, apresenta várias áreas da ciência nesse estilo, incluindo nanotecnologia, biologia, química e botânica.

Quanto a mim mesma, trabalho duro para compartilhar minha pesquisa com o público desde que o treinamento do Write to Change the World oferecido pelo OpEd Project através do programa The Aspen Institute New Voices Fellowship. Desde que aprendi a arte da escrita sobre minha pesquisa e outros assuntos a cerca de dois anos e meio, escrevi mais de 40 pequenas colunas para meios de comunicação como a revista Time, a Scientific American e Los Angeles Times. Eu só queria ter treinado essa habilidade no início de minha carreira.

Então como os novatos devem começar?

Comecem pelos recursos já existentes. A AAAS, por exemplo, tem um site que oferece ferramentas e recursos para iniciantes. Há também artigos online com dicas para os novatos. O OpEd Project oferece um curso de um dia em diversas cidades americanas sobre o assunto e tem parceria em várias universidades. Além disso, universidades e instituições de pesquisa americanas possuem profissionais treinados em comunicação científica e especialistas em m´dia que podem ajudar os pesquisados a compartilhar com o público alguns de suas descobertas científicas de ponta publicados.

A ciência continuará a contribuir com respostas para os desafios persistentes da atualidade. Mais do que nunca nós, cientistas, precisamos compartilhar abertamente sobre a importância da ciência para o público e garantir que nossas descobertas ajudarão a melhorar nessa economia, saúde, segurança alimentar e meio ambiente.

Veja o texto original aqui.

* * *

O texto da Dra. Esther Ngumbi, pesquisadora do Departmento de Entomologia e Patologia de Plantas da Auburn University no Alabama mostra algumas questões que estão surgindo no meio científico, sobretudo nos Estados Unidos, que estão enfrentando algumas políticas um tanto indigestas por parte do presidente Donald Trump, sobretudo na questão de energias renováveis e aquecimento global antropogênica.

Aqui no Brasil não existe praticamente nenhum incentivo para que os pesquisadores reservem uma parte de suas obrigações acadêmicas e burocráticas na ciência para a comunicação com o público. Isso acaba sendo, de certa forma, um tanto hipócrita. A grande parte da pesquisa nacional é financiada com dinheiro público – estadual ou federal – e não há nenhum retorno desse conhecimento para o financiador dessas pesquisas – o público.

Com os recentes cortes que a ciência nacional está sofrendo, a sensação que se passa é que ninguém no Brasil liga para a ciência. E, infelizmente, é exatamente isso que acontece: a maioria das pessoas acham que a ciência é um punhado de nomes complicados, fórmulas impossíveis e ciclos intermináveis de coisas que levam a lugar nenhum. Não surpreende acreditar que as pessoas acham dispensável investir em ciência se podem destinar o dinheiro para qualquer outra coisa. Afinal de contas: por que gastar tanto dinheiro com essas coisas que ninguém entende mesmo?

Existem iniciativas particulares e privadas de divulgação de conteúdo científico no Brasil. O Nerdologia, apresentado pelo biólogo Atila Iamarino e pelo historiador Filipe Figueiredo possuem ótimos conteúdos relacionados à História e Ciência. O Manual do Mundo, do Iberê, usa do conhecimento científico e de engenharia para construir e ensinar coisas diversas. Foco no conteúdo dos amigos blogueiros Aline Ghilardi e Tito Aureliano, do Colecionadores de Ossos que contam as boas novas da paleontologia e o Canal do Pirula, que apresenta um coquetel de assuntos. Apesar de bons e recomendar muito, ainda focam em reapresentar um conteúdo que era para ter sido assimilado em sala de aula de uma forma menos maçante[8].

O principal motivo da crítica da autora e que me motivou a traduzir o texto foi justamente a falta de participação dos cientistas e da comunidade científica e apresentar a novidade, aquilo que está sendo feito no laboratório ou onde quer que seja feita a ciência. Sei do que alguns amigos fazem na ciência quando eles compartilham os seus artigos no Facebook. Isso é bom[9], mas isso é uma linguagem a qual eu estou acostumado. Muitas pessoas ainda não entendem inglês – não estou dizendo que meu é impecável, deixemos claro – e a esmagadora maioria não vai entender nada do que está escrito se estiver recheado com o típico jargão científico, recheado de palavras difíceis e bonitas. 

Precisamos fazer ciência? Claro que sim. Precisamos escrever artigos relatando as descobertas? Claro que sim. Precisamos escrever complicado pois nossos pares entenderão o que escrevemos. Claro que sim. Mas precisamos também escrever para o público que precisa entender com o que trabalhamos, como trabalhamos e por que trabalhamos. Só assim, talvez, a visão da população sobre a ciência mude e, com ela, a de nossos governantes.

Fazer ciência não é um luxo, é uma constante necessidade. 

Rodapé:
[1]: são as famosas revistas peer-reviewed, o qual os trabalhos submetidos são analisados por dois ou três revisores, afim de avaliar a qualidade do trabalho. As revistas mais reconhecidas e com alto fator de impacto trabalham dessa forma [NT].

[2]: o ‘publish or perish’ é um assunto bem discutido no exterior, com direito a publicação sobre o assunto, como esse.

[3]: o texto original aponta para órgãos de fomento americanos, o National Science Foundation (NSF) e a National Institutes of Health (NIH). Para regionalizar o assunto, substitui por conhecidos órgãos de fomento brasileiros, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e demais Fundações de Amparo à Pesquisas dos demais Estados brasileiros. Por morar no Estado de São Paulo, tenho mais conhecimento de causa da Fapesp, que mantém a Revista Fapesp (versão impressa e online, incluindo redes sociais), que compartilham pesquisas relevantes no país e internacional, a maioria fomentada pelo órgão estadual. Apesar disso, esses tipos de publicação ainda mantém um nicho muito restrito, voltado principalmente para docentes e discentes de pós-graduação [NT].

[4]: acredito que a maioria das universidades sérias ao redor do mundo possuem uma revista ou algum meio de divulgar os principais achados que ocorreram em suas universidades. No Brasil, em especial em São Paulo, a USP possui o ‘Jornal da USP’, Unesp possui a ‘Unesp Ciência’ e a Unicamp possui o ‘Jornal da Unicamp’. Entretanto, sua inserção em mostrar mais da pesquisa que ocorre em seus espaços ainda é tímido demais e, tirando o episódio da homeopatia que ocorreu no Jornal da USP, essas publicações mal atingem os próprios alunos dessas universidades [NT].

[5]: no Brasil esse movimento é tímido demais e nada obriga os pesquisadores a divulgar para o público os seus achados [NT]

[6]: o graphical abstract nada mais é que um resumo do trabalho de forma gráfica. Geralmente é uma montagem em que os autores explicam, sem palavras, o que fizeram ou o que descobriram. Acaba sendo uma ótima forma de simplificar o trabalho (o que pode ser uma dor de cabeça, dependendo do manuscrito) [NT].

[7]: o storytelling é um meio de apresentar o que deseja rodeado por uma história relevante (ou seja, que se encaixe com o produto). Muito usado pelo marketing, todos nós somos bombardeados por esse tipo de narrativa comercial. Pense nas propagandas do ‘O Boticário’ rem que associa as festas de fim de ano ou dos dia das mães com o seu produto. Eles vendem o produto sem precisar dizer para o cliente comprar [NT].

[8]: salvo exceções em que alguma coisa muito bombástica ocorre e esses canais vem em nosso auxílio para esclarecer sobre o assunto, o propósito da crítica não é desestimular, muito pelo contrário. Adoro o conteúdo apresentado e até eu mesmo quero fazer algo semelhante. O que falta realmente é o cientista, aquele que fica na bancada, aquele que fica no meio do mato por três semanas, aquele que fica no mercadão cheirando a peixe, aquele que fica no meio do maquinário de milhões de reais, aquele que faz ciência, a vir ao público e dizer o que esteve fazendo e qual o motivo daquilo.
Por favor amigos, continuem com seus canais de divulgação: somos muitos e ainda assim, somos poucos em divulgar ciência. Estou descobrindo que a divulgação científica é um caminho curioso que sai de diversos pontos, com o intuito de se encontrarem em um único final: o público.

[9]: é estranho e curioso pensar que tenho muitos colegas e amigos na pós-graduação que apenas descubro o que fazem quando publicam seus achados. De certa forma, parece que não sabemos nos comunicar nem entre nós mesmos.

A imagem que abre a postagem foi publicada por Harvard Medical School e divulgada pela Nature.

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