O que sabemos sobre Coronavírus?


Essa publicação faz parte da série especial ‘O que sabemos?’ mantida aqui no Do Nano ao Macro. Veja outras publicações no link.

O início de 2020 chegou preocupando autoridades médicas e de saúde em todo o mundo. A China reportou a circulação de uma variante de um vírus da família Coronaviridae altamente transmissível entre humanos e que estava associado a mortes no país. O aviso dos chineses acendeu o alerta vermelho em todo o mundo, já que o vírus é velho conhecido da comunidade científica. Vamos entender um pouco mais sobre o vírus e os problemas associados a ele.

Coronavírus
Dentro das dezenas de famílias de vírus catalogadas pelo Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV), a família Coronaviridae é uma velha conhecida entre os virologistas. Ela infecta naturalmente aves e mamíferos, tanto os silvestres como os de criação e domésticos. Algumas variantes também infectam os humanos, tanto que é um dos vírus mais comuns encontrado nas amostras de pessoas com resfriados em todo o mundo.

Nos animais elas podem desencadear problemas respiratórios, principalmente em aves, como os de criação, e problemas gastrointestinais, como já relatado em animais domésticos, como em cães e gatos.

Aspecto geral de um coronavírus, visto em
microscopia eletrônica de transmissão.
A família Coronaviridae recebe esse nome pois suas glicoproteínas presentes no seu envelope – responsáveis por ela se ligar às células que irão infectar – ficam parecendo, quando vistas no microscópio eletrônico, a coroa solar, como se fossem os raios solares emanando a partir da bolinha que é o vírus.

Como todo vírus que se preze, o coronavírus tem como objetivo utilizar o maquinário da célula hospedeira para gerar novas cópias de si. Ele lança seu material genético – no caso uma fita simples de RNA – dentro da célula que, não sabendo diferenciar o material genético dela própria e do vírus, acaba incorporando a replicação desse material em seus afazeres celulares, criando cópias do vírus, que acabam sendo lançadas para fora da célula, as disseminando para infectar outras células, reiniciando o ciclo.

Quando eu disse um pouco para cima que o vírus já é conhecido da comunidade científica, eu não me referia apenas pelo fato dela causar resfriados comuns. Ela foi responsável por dois grandes surtos recentes em nossa história: a SARS e a MERS.

SARS e MERS
A SARS – Síndrome Respiratória Aguda Grave – foi a primeira epidemia problemática que ocorreu com um coronavírus que temos ciência. Iniciando no fim de 2002, passando por 2003, a doença foi provocada pelo vírus do mesmo nome[1] e infectou pouco mais de oito mil pessoas, com cerca de 770 mortes, com letalidade de menos de 10%[2]. Iniciou-se na China, provavelmente circulando entre animais em mercados populares de animais vivos em algumas províncias chinesas.

Até então, o vírus provavelmente circulou entre os animais sem ter a capacidade de infectar humanos. Contudo, uma característica dos vírus é sua alta mutabilidade, ou seja, a capacidade de modificar a cada replicação – já que ele não tem nenhum mecanismo de correção –. Assim, ao ser transmitir para inúmeros animais próximos, ele ganhou a capacidade de infectar humanos. No começo, a infecção era apenas animal-humano-animal, mas as novas mutações levaram a capacidade de infecção humano-humano, o que explica sua disseminação pelo mundo na época.

Já a MERS – Síndrome Respiratório do Oriente Médio – foi uma epidemia com alta taxa de letalidade quando comparada com a SARS. Mesmo tendo uma disseminação muito inferior à SARS, infectando pouco mais de 2,5 mil pessoas, ela matou mais de 850, com uma taxa de letalidade de quase 35%.

Surgiu nos países do Oriente Médio em 2013 e a alta taxa de letalidade preocupou a comunidade científica rapidamente. Hoje os cientistas acreditam que ela tenha se originado a partir de vírus que circulavam entre camelos e dromedários e ganhou a capacidade de infectar humanos. Ao contrário da SARS, a MERS ainda circula em alguns países no mundo, e a OMS (Organização Mundial da Saúde), ainda monitora a doença.

COVID-19[3]
Os primeiros relatos ocorreram ainda em dezembro de 2019, após o médico chinês Li Wenliang ter reportado o surgimento de casos de uma doença respiratória desconhecida semelhante ao SARS[4]. Mas o mundo só ficou sabendo do problema em janeiro de 2020, após chegarmos a milhares de casos registrados.

Os primeiros casos ocorreram na cidade de Wuhan, província de Hubei. Com mais de 11 milhões de pessoas, Wuhan é um centro comercial, cultural, econômico e educacional da região central da China, o que a faz dela um local com uma enorme circulação de pessoas, tanto dentro como de fora do país.

Contudo, práticas antigas ainda persiste nesse meio que é a China moderna, com mercados de animais vivos que são pouco tradicionais de serem vistos por nós, ocidentais. Acredita-se que a circulação de pessoas e animais capturados tenha propiciado que uma variante do coronavírus que circula entre morcegos e pangolins[5] – que são animais utilizados na culinária chinesa e na medicina tradicional chinesa – tenha mutado e ganhado capacidade de infectar humanos. Daí foi um pulo até ganhar capacidade de transmissão humano-humano.

Nesse presente momento em que escrevo (atualizado em 26/02/2020, com dados do dia anterior), a OMS reportou mais de 80 mil casos de COVID-19 (≈99% sendo apenas na China), com mais de 2,6 mil mortes (letalidade de cerca de 3%). A OMS está liberando boletins quase diários atualizando o número de casos e mortes: assim, é mais válido acessar o site da OMS nesse link e acompanhar as atualizações por lá.

O que chama a atenção para o COVID-19 em relação à suas primas virais é a diferença entre a taxa de infecção e a de letalidade. SARS e MERS infectaram bem menos pessoas na época do surto, mas tiveram taxas de letalidade consideráveis, passando do 30% para o caso do MERS. COVID-19, contudo, infectou muito mais pessoas, mas sua letalidade está abaixo dos 3%.

Os especialistas acreditam que SARS e MERS tinha baixa capacidade de infecção, mas maior letalidade por atingir principalmente as vias aéreas inferiores, como os pulmões, onde o risco à saúde é muito maior. Já o COVID-19 consegue dispersar com muito mais facilidade entre as pessoas, mas atinge principalmente as vias aéreas superiores, como nariz e garganta, o que apresenta menor risco à saúde.

Além disso, muito das mortes até o momento parece estar associado a conhecidos fatores de risco para muitas doenças respiratórias, como a idade (pessoas mais velhas são mais suscetíveis que mais novas), condições de saúde (pessoas que já tem problemas respiratórios, por exemplo) e se usam muitos medicamentos (o que pode comprometer a imunidade).

Portanto, apesar da baixa taxa de letalidade, o mundo se assustou com a doença, que parece avançar rápido. Devido a sua origem em um país superpopuloso como a China, em uma região com um enorme fluxo de pessoas, onde animais capturados convivem lado-a-lado com animais domesticados e humanos. Com certeza, do ponto de vista epidemiológico, é o inferno na Terra.

Apesar da onda de pânico, lembre-se que existem doenças que já causam muitas dores de cabeça em nosso país que são mais difíceis de serem controladas do que o COVID-19. Mesmo com vacinas, quase mil pessoas morreram devido a Influenza no Brasil em 2019. Isso representa quase 27% do total de mortes associadas a síndromes respiratórias registradas no país. Das quase mil mortes, pouco mais de 64% foram causadas pela Influenza A H1N1, a variante responsável pela pandemia de 2009. Ou seja, muitas doenças mais sérias circulam entre a gente.

Claro que o COVID-19 merece sua atenção e cuidado. Por isso, é sempre válido prestar atenção principalmente para as pessoas que estavam ou estão na China, sobretudo na região de Wuhan, epicentro do COVID-19 (mais informações em Update 1, abaixo). Além do mais, o simples gesto de lavar as mãos e evitar contato próximo com as pessoas é mais que o suficiente para evitar qualquer tipo de infecção por esse vírus.

O trabalho dos virologistas, epidemiologistas e médicos é de sempre acompanhar qualquer atividade desse vírus e reportar para a comunidade, mas a não ser que você esteja na região de risco ou trabalhe com isso, não é preciso se preocupar. Mas, como sempre no mundo da virologia, as coisas podem mudar repentinamente. Por isso, é sempre importante ficar de olho nas notícias a partir de fontes confiáveis. Nossa página no Facebook está sempre de olho nas novidades e colocamos as mais relevantes por lá. Por isso, não esqueça de nos seguir por lá!

Atualização:
Update 1, 26/02/2020: nos últimos dias explodiu o caso de COVID-19 fora da China, em especial na Coreia do Sul e em países da Europa, sobretudo na Itália. Agora a recomendação é de atenção para pessoas que viajam ou entraram em contato com pessoas que vieram dos países de risco.

Um brasileiro de 61 anos retornou de viagem da Itália para São Paulo e apresentou sintomas compatíveis com COVID-19 e seus resultados apontaram positividade para o vírus, sendo o primeiro caso da doença no país, com confirmação na data desta atualização (link). Informações atualizadas podem ser acompanhadas na página no site no Facebook.

Abaixo, você poderá ver os dados atualizados sobre o o quão rápido a doença se dissemina, o total de casos no mundo (ou por país) e também os registros de mortes a partir dos dados compilados pelo Our World in Data.






Rodapé:
[1]: os virologistas não são lá muito criativos na hora de nomear os vírus. Apesar da taxonomia seguir algumas regras de Lineu, os vírus não possuem um nome científico latinizado, sendo chamado geralmente pela doença que provocam. Assim, o vírus causador da SARS é chamado de SARS-CoV (Coronavírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave). A dengue é causada, por exemplo, pelo Vírus da Dengue e a febre amarela pelo Vírus da Febre Amarela.

[2]: a taxa de letalidade, isto é, a proporção de infectados conhecidos (sobretudo por diagnóstico laboratorial, mas também por laudo clínico) sobre o número de mortes. A porcentagem indica a letalidade da doença. Doenças com baixa porcentagem são pouco letais (mas não significam que não causam transtornos, apenas que matam menos). Vários fatores influenciam a letalidade de fato de alguma doença. Muitas doenças, mesmo as menos letais, podem ser mais perigosas para idosos e pessoas em situação de risco. Doenças respiratórios tendem a ser mais letais na população que já tem problemas respiratórios, por exemplo. Ou seja, apesar da letalidade baixa, a letalidade de uma doença pode ser alta quando se leva outros fatores em consideração.

[3]: apenas na segunda semana de fevereiro que a OMS, juntamente com ICTV, o surto recebeu seu nome oficial, sendo chamado de COVID-19, provocado pelo SARS-CoV-2. Até então o mundo tratava ele como sendo 2019-nCoV. Portanto, será comum ver esses termos na internet, além de ‘novo coronavírus’ ou, ainda, ‘surto de Wuhan’. 

[4]: as autoridades da China acusaram o médico de causar alarde sem fundamento na época. No fim das contas, o alerta do médico se mostrou verdadeiro, mas infelizmente ele acabou contraindo a doença e morreu no começo de fevereiro vítima da própria doença que ele havia detectado.

[5]: pangolim são mamíferos pequenos que possuem a pele semelhante a uma couraça e que são naturais da África e da Ásia.

Informe epidemiológica de Influenza no país, citado no texto, aqui. Imagem que abre a postagem baseada em CDC. Imagem do coronavírus em CDC. Gráficos atualizados por Our World In Data.

[resenha] Maus

Ao fundo, o campo de concentração de Auschwitz, talvez o mais conhecido entre os campos de concentração da Segunda Guerra. No pico da guerra, o local recebia carregamentos diários de judeus em trens, em vagões de carga como da foto, abarrotados de homens, mulheres e crianças. Nem todos conseguiram sair vivos de lá. Parte da história de Maus acontece atrás daquelas paredes ao fundo.

A história da humanidade é um instrumento poderoso a qual podemos vislumbrar o passado, ver os erros e acertos e entender o porque do mundo atual ser o que é. Apesar da história trabalhar com o passado, ela nos permite fazer suposições sobre o futuro, já que a humanidade tem a péssima mania de não aprender direito com os erros do passado.

Existem várias formas de classificar a história: a maioria segue a tradição clássica, em cinco partes: Pré-História, História Antiga, Média, Moderna e Contemporânea[1]. Já outras pessoas podem dividi-la em apenas duas partes. As pessoas que a dividem assim não deixam de estar erradas, já que o marco da divisão é, de fato, um evento que marcou o mundo profundamente. Para elas, existe uma humanidade antes e uma humanidade depois da Segunda Guerra Mundial.

A Segunda Guerra Mundial (2GM) foi um dos maiores conflitos armados da história da humanidade, com um dos maiores eventos de logística do mundo, deslocando mais de 100 milhões de soldados para diversas partes do mundo, com uma das maiores baixas entre militares e civis, com pelo menos 50 milhões de mortos[2] entre 1939 e 1945.

Provavelmente todos nós já ouvimos e estudamos um pouco que seja da história da 2GM e como os números podem nos impressionar pela grandiosidade. Assunto de inúmeros livros e documentários, a 2GM é um retrato da história muito bem conhecida e trabalhada. Mas, ainda assim, muitas vezes, esses números e esses registros não trazem para perto de nós a sensação de que era ter vivido essa época.

É aí que entra toda a sensibilidade e a destreza de Spiegelman, que traz o sofrimento e as histórias de seu pai judeu como prisioneiro de guerra durante a 2GM. Ele nos conta como era a vida na Polônia antes da guerra e como foi principalmente ter a sensação da morte sempre por perto e de como essa sensação ia crescendo a cada dia, assim como a fome e a perda dos entes queridos.

O autor se utiliza de sua maior habilidade para trazer essa história para nós: através de quadrinhos. Retratando os judeus como ratos (maus, em alemão) sempre fugindo dos nazistas caricaturados como gatos, Artie (como é chamado o autor pelo próprio pai na HQ) consegue fazer a gente se questionar em como tudo aquilo foi possível de ter acontecido. Pior, como alguém consegue sobreviver a tudo aquilo e chegar a contar sua história de vida para a posteridade.

Mas, o que realmente impressiona, e sinto isso principalmente na segunda parte da HQ[3], é que a Guerra mexeu não apenas com quem a viveu, com que a sentiu em suas entranhas e mentes. Ela mexe com todos ao seu redor. Inclusive com quem nasceu anos depois do terror.

Artie usa de uma metalinguagem absurdamente bem encaixada na HQ, em que ele se desenha conversando com o pai, em que ele mostra os dilemas e os problemas em conversar com seu pai, que mistura os eventos da Guerra com as coisas que acontecem na época em que o autor montava as memórias para criar a própria HQ. Isso se soma aos problemas aos quais o autor sofre, já que ele mesmo pensa se seria honrado ele ter a vida que tinha pois não tinha sofrido uma ínfima parte daquilo que seus pais haviam passado.

Assim, Artie traz para gente a clara sensação de que, de certa forma, a Guerra foi um evento traumático demais para ficar presa em uma única geração. Até os filhos e vizinhos de quem sofreu com a guerra também sofrem. O autor brinca que seu pai é um tanto caricato, a versão do judeu muquirana que não abre mão de gastar 20 centavos a mais para ter uma coisinha um pouquinho melhor. Mas, a sensação que se tem, é que isso não é gratuito. Ele não é assim por ser assim: ele aprendeu que ser assim é melhor. Ao longo da leitura isso vai ficando claro como a água (apesar de Artie discordar desse exagero de seu pai).

A HQ é um convite para sentirmos na pele uma pequena fração do que os judeus passaram durante o Holocausto na 2GM. Várias vezes eu parava a leitura no meio e sentia um arrepio na espinha só de imaginar aquele cenário que o pai de Artie viveu[4: com spoiler]. A perda de amigos e familiares, a sensação de que nada mais daria certo, as pequenas esperanças ao encontrar alguém disposto a ajudar[5] e, principalmente, a constante sensação da fome e de que aquele dia seria o último da pessoa incomodam e nos faz sempre ter em mente do sofrimento que foi esse triste registro da história.

Mas com certeza é essa sensação que o autor quer deixar para gente: de que ninguém ganha com a Guerra. Suas marcas e suas cicatrizes ficam para sempre na memória e no corpo e até mesmo quem não viveu a Guerra as sente diariamente.

Recomendo a leitura, sobretudo para quem se interessa sobre a história das guerras mundiais. É um complemento humano que vai além dos números de soldados, do número de vítimas e de dias que levaram para a guerra chegar ao fim. Lembre-se: essa obra não ganhou o Pulitzer à toa.

Maus
Art Spiegelman
296 páginas
Companhia das Letras, 2009.

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Rodapé:
[1]: a tradição clássica, que orienta a maioria dos estudos de história, coloca a Pré-História como sendo o período do surgimento da humanidade (sobretudo da cultura humana) até a invenção da escrita (datada por volta de 4 mil AeC). Então entramos na Antiguidade, com o alvorecer e queda de grandes civilizações antigas, desde egípcias, gregas, babilônicas e persas. O fim da Antiguidade se dá em 476 DeC, com a queda do Império Romano Ocidental. Em seguida, Idade Média, com o aumento populacional e o mundo europeu dominado pela relação feudal entre susseranos e vassalos. Termina em 1453, com a queda do Império Romano do Oriente, depois da queda de Constantinopla pelos turcos. Já a Idade Moderna mostra as grandes explorações e o desenvolvimento do modelo capitalista. O Renascimento das artes e ciência e a Revolução Francesa são dessa era, que encerra essa idade em 1789. Já a última Idade, a Contemporânea é a qual vivemos hoje. Vemos o desenvolvimento da indústria, dos motores e dos meios de transporte. Viajamos para a Lua e dominamos tecnologia avançada e foi marcada por guerras mundiais e por conflitos na África, além do desenvolvimento da medicina e da erradicação de doenças.

[2]: baseado em estimativas mais conservadoras. Talvez nunca saberemos o número exato (ou o mais próximo possível), visto que muitas pessoas (famílias e comunidades inteiras) foram exterminadas e sequer deixaram algum tipo de registro.

[3]: a HQ saiu em duas partes, em anos diferentes de lançamento. A versão que li, e a mais fácil de achar, é a versão completa, com as duas partes reunidas em um único volume.

[4]: ❗ essa nota de rodapé contém spoiler: uma parte que talvez nunca me esqueça é de quando o pai de Artie diz, quando estava no campo de concentração, que ele precisava ir ao banheiro durante a noite. O banheiro ficava no subterrâneo, onde os corpos eram jogados. Ele tinha que pisar por cima dos corpos magros e das cabeças escorregadias para chegar ao banheiro. Ele temia e chorava ao pensar que no dia seguinte alguém poderia estar passando e pisando em cima dele da mesma forma.

[5]: como podemos ver depois, ninguém ajuda ninguém realmente. Sempre é preciso pagar pela ajuda.

Com imagem por alanbatt no Pixabay.

[resenha] Darwin Sem Frescura

A Teoria da Evolução, ao contrário das demais teorias científicas, é atacada constantemente pelas pessoas justamente por não compreenderem exatamente sobre como a teoria vê a vida na Terra como também por tocar em assuntos delicados demais para as pessoas, como a nossa relação com os demais animais da Terra.

Um assunto difícil de se tratar, até mesmo entre os que estão envolvidos com ele, é a Evolução[1]. A Evolução é uma teoria científica que, apesar de ter um caminhão de evidências ao seu favor, ainda encontra muita resistência entre as pessoas. Muito dessa resistência vem do fato da evolução, quando começamos a ler sobre ela, a mexer com algumas ideias pré-concebidas que temos, que adquirimos geralmente dos pais ou da sociedade. Questões como a origem da vida e da diversificação dos humanos a partir de um ramo dentro dos primatas são coisas que podem chacoalhar a visão de mundo de algumas pessoas.

Contudo, outro grande problema da evolução é que, querendo ou não, ela não é tão simples assim de entender de primeira. Como parte da ciência, ela tem seus termos e detalhezinhos cheios de complicação que pode afastar um pouco mais ainda as pessoas.

Com isso em mente, o grande Reinaldo J. Lopes (doidinho por coisas do Tolkien e da Terra-Média (e repórter divulgador de ciência, of course)) e o Pirula (sim, ele mesmo, o youtuber divulgador de ciência e de outras coisinhas mais, especialista em zoologia), se uniram para trazer um belo livro que, como o título já diz, tenta trazer as ideias e o desenvolvimento da teoria proposta por tio Darwin de uma forma mais simples de entender para o leitor.

Mas já adianto: eles não deixaram de falar de assuntos complexos e, em alguns casos, polêmicos que envolvem a evolução. Mesmo trazendo esses assuntos, o leitor não sai com a sensação de que coisas importantes foram deixadas de lado, afim de valorizar a simplicidade. Tanto é que o livro me traz a sensação de ser uma espécie de introdução aos assuntos que ele aborda, já que cada capítulo é recheado de referências a livros e artigos científicos sobre o assuntos que foram abordados, de forma a induzir o leitor a ir atrás das fontes originais e aprender mais por conta própria.

Tanto é que, a medida que lia, percebi que o livro acaba sendo uma ótima fonte de consulta rápida para algum assunto voltado para a evolução tanto por conta da facilidade de ler e entender o texto, como pelas referências que estão lá, esperando para serem consultadas. Sou biólogo, mas meu foco não é evolução. Mas como biólogo, é preciso sempre estar por dentro da evolução, já que ela permeia todo o entendimento da vida como a conhecemos[2]. Foi bom ler eles tratando sobre cladística, genética e assuntos tão complexos como homossexualidade e a evolução dos hominídeos, além de temas como extinções em massa e desenvolvimento da ética e da moral em um texto rápido e agradável de ler.

Para quem é da área de biológicas, considero o livro um bom local para atualizar seus conhecimentos em evolução e reforçar a argumentação quando o assunto vier a tona. Para não biólogos, o livro pode ser lido sem problemas, já que a linguagem acessível e a explicação constante dos termos, ajudam o leitor a não perder o fio da meada. Tanto é que, quem está mais por dentro do assunto, a linguagem simples usada pela dupla pode até parecer um tanto chata, mas não se engane: eles tiveram um puta trabalho para trazer essa simplicidade para os assuntos complexos os quais eles abordam ao longo das cerca de 240 páginas.

Se você acabou de chegar na Terra e nunca ouviu falar de evolução, ou já sabe mas quer aprender mais, recomendo fortemente aprender sem frescuras o que a evolução nos ensina sobre a vida na Terra e sobre nós mesmos.

Darwin Sem Frescuras
Pirula e Reinaldo J. Lopes
240 páginas.
Editora Harpen Collins. 2019.

Você pode comprar através de nosso link da Amazon (e ajuda a gente um bocadinho).





Rodapé:
[1]: já adianto que, ao contrário do senso comum, a evolução biológica nada tem a ver com a ideia de melhoria, aperfeiçoamento, ideal. A evolução nos mostra em como os organismos (seja ele quais forem) mais bem adaptados tendem, em média, sobreviver por mais tempo e ter mais descendentes que aqueles que não estão tão adaptados assim. Essas adaptações são inerentes aos indivíduos que, com o passar do tempo, se tornam mais frequentes na população (ou seja, se o indivíduo (ou grupo de indivíduos) possui alguma leve vantagem em algum mecanismo útil, a frequência dessa vantagem pode aumentar com o passar do tempo na população, se tornando comum entre eles. Facilidade em metabolizar determinado alimento ou simplesmente correr um pouquinho mais rápido já são vantagens adaptativas que podem ser fixadas na população.

[2]: e até a da vida que não conhecemos. A busca por vida alienígena é um grande desafio para os cientistas, já que a única referência de vida que temos (e olha que nem sabemos como defini-la ainda) é a que temos na Terra. Mas muitos pesquisadores concordam que a vida, independente de onde esteja ou como seja, siga a evolução darwiniana, já que os recursos na natureza são finitos e provavelmente haverá competição entre eles quando os organismos estão confinados em um espaço limitado.

Imagem que abre a postagem vista primeiro em Nautilus. Imagem interna do livro feita por mim.

10 anos Do Nano ao Macro

Usei essa mesma imagem no aniversário de um ano do Do Nano ao Macro. Nunca pensaria que voltaria a vê-la (e usá-la) para comemorar o décimo aniversário. Veja a postagem de um ano aqui.

O que você estava fazendo há 10 anos? Bom, se nada em especial aconteceu com você nesse dia, você provavelmente dirá que foi mais um dia normal. Talvez não se lembre fez tempo firme ou se caiu alguma chuva. Pode ser que você estivesse viajando, estudando para alguma prova ou simplesmente tirado o dia para sair ou namorar alguém.

Há 10 anos, em 2009, eu era mais novo (naturalmente). Era uma época em que trabalhava em uma farmácia em minha cidade e me preparava para o vestibular. Contudo, exatos dez anos atrás, em 27 de setembro de 2009, eu lembro exatamente o que estava fazendo: olhava para a tela do Blogger e lá ficava um cursor de texto piscando despreocupado na tela. Ao lado do cursor piscante, estava a pergunta: Nome do blog.

Me lembro de ficar vários e vários minutos pensando sobre o assunto. Pedi ajuda à minha mãe e, para alegrar minha irmã novinha, a ela também.

Queria um nome o qual evocasse o que é realmente a ciência: um corpo de conhecimento que permeia nossa compreensão acerca das coisas que nos cercam, desde o mundo do muito pequeno, até o mundo do muito grande. A ciência consegue vislumbrar coisas menores que os átomos e passa por estruturas tão grandes como superaglomerados de galáxias. O nome tinha que ter esse poder de sair do nano e ir para o macro.

Do Nano ao Macro.

Naturalmente, não tem como abordar temas tão díspares como átomos e galáxias, fósseis e geologia, evolução e bioquímica. Sou formado em biologia e mestre em doenças tropicais. Sempre toquei o site - que seguiram caminho também no Facebook, Instagram e Twitter - sozinho (e, às vezes, com os pitacos e colaborações de minha namorada, a Livinha). Portanto, dizer que o intuito era abordar tudo que existe chega a ser presunçoso. Mas, como um site de divulgação científica, queria passar a imagem que a ciência pode ter essa presunção de fazê-lo, já que ela permeia por todos os cantos.

Ao longo dessas 10 voltas que a Terra deu ao redor do Sol, muita coisa mudou, tanto aqui no site como fora dele. O desenho do site mudou, mudando logotipo e cores. Ganhou ares no Facebook, onde o mundo da ciência roda a um ritmo alucinante e consigo compartilhar notícias relevantes por lá - além de memes, vídeos e outras coisinhas para passar o tempo, já que ninguém é de ferro. Essas mudanças seguiram aquelas que aconteceram fora do site, graças principalmente ao maior consumo de informação rápida e que seja feito em qualquer lugar. Lembre-se, há 10 anos, a internet no celular ainda estava engatinhando e o principal consumo era pelo computador.

Mudanças realizadas ao longo dos 10 anos do blog. Alterações tanto no visual como no estilo de escrita e de conteúdo.

E cá estamos, 10 anos depois, mais de 460 publicações e 400 mil visualizações no site. A ciência não deixou de ser atual. Na realidade, ela é o centro das atenções em muitas questões atuais, desde os cortes orçamentários até os avanços que são feitos no campo da medicina e espacial. Contudo, mesmo na era da informação, estamos às voltas com pessoas dizendo que a Terra é plana e que vacinas são maléficas.

A minha ideia principal de fazer o Do Nano ao Macro 10 anos atrás foi de ajudar os divulgadores de ciência online na época - muitos dos quais acabei conhecendo melhor pela internet e no mundo real também - a divulgar e propagar ciência, que estava sendo poluída por pseudociências e conteúdos falsos.

E, nesse ponto, parece que isso foi a única coisa que não mudou em 10 anos.

Mas não é motivo para desânimo. Os elogios que recebo de forma esporádica aqui no site como em comentários no Facebook dão o gás para mostrar que aquele conteúdo complicado, aquele assunto que parece distante da pessoa, foi transposto para a mente dela e ela saiu com uma informação nova, uma informação que ela levará para a vida.

Agora me parece que 10 anos é muito pouco tempo para ajudar as pessoas a entender da importância da ciência para a sociedade, para a indústria, para a alimentação e para as nossas vidas.

Espero ter mais ânimo ainda para continuar por mais 10, mais 10 e mais 10 anos. Quantos anos forem precisos para divulgar essa bela dama de quase cinco séculos de idade e que nos permite compreender desde o mundo do muito pequeno até o mundo do muito grande.

A ciência.

A todos que me ajudaram de forma direta ou indireta a construção e o aprimoramento dessa caminhada que marcou meus últimos 10 anos… obrigado.

Imagem que abre a postagem por vonzilla em seu DeviantART. Capturas de tela do blog obtidos pelo Wayback Machine - Internet Archive.

[SORTEIO] 10 anos Do Nano ao Macro


É sério: nunca pensei que estaria aqui, na frente do computador, escrevendo uma publicação comemorando os 10 anos do Do Nano ao Macro. Ao longo dos anos, o site sempre teve minha atenção especial (e a página no Facebook também, onde sempre compartilho notícias, imagens e vídeos voltados para a ciência). Naturalmente há momentos em que a vida real bate mais forte e colocava ele um pouquinho de lado, mas nunca desisti dele.

E cá estamos, comemorando 10 aninhos de vida, com mais de 400 publicações, mais de 300 mil acessos ao longo desse tempo, mais de 3 mil curtidores na página na empresa do senhor Zuckeberg e bastante feliz por ver que chegamos depois de tanto tempo até aqui.

Naturalmente não poderia deixar de comemorar com vocês e partilhar parte da minha felicidade com os seguidores, curtidores e todos aqueles que caem às vezes aqui no site depois de alguma busca curiosa nos motores de busca internet afora.

Por isso, para comemorar 10 anos do Do Nano ao Macro, ao melhor estilo ‘o aniversário é nosso, mas o presente é seu’, vamos sortear um kit com 10 incríveis itens. É isso mesmo, uma pessoa vai levar 10 coisinhas bacanudas de uma vez.


Vou descrever brevemente os itens que estão no sorteio e que você vai levar de uma vez: Um bottom com tema 'Pilares da Criação'. É um belo bottom com uma imagem super colorida da nebulosa da Águia, cerca de 7 mil anos-luz daqui para você prender na sua bolsa, mochila ou qualquer lugar legal para você sempre andar por aí. E se você gosta do observar o céu noturno, você terá o auxílio de um belo planisfério, feito especialmente para os observadores no Brasil. Basta você ajustar data e horário aproximados no planisfério e pronto, os nomes dos principais pontos luminosos no céu aparecem para você, podendo identificá-los no céu noturno muito mais facilmente.

Além desses dois itens, o kit do sortudo vai receber ainda oito livros, entre livros de ciência e divulgação, além de HQs de ciências e ficção científica (já que a gente precisa se divertir mais um pouquinho ainda, né?). A gente começa falando do 'A Terra em que vivemos', livro do Dr. Rodolpho Caniato, em que apresenta textos e atividades que irão auxiliar o entendimento em ciências para o público leigo. Já o biólogo Rafael Rigolon, nos presenteia o excelente 'A pronúncia do latim científico', essencial para sabermos como se fala corretamente aquele nome científico complicado daquele animalzinho ou planta. Outro livro é uma breve biografia de Galileu, um dos pilares da ciência moderna. Escrito por Steve Pinker, 'Galileu e o universo' vem com ilustrações e nos conta sua vida e as suas observações de Júpiter e suas luas. Outro livro, apesar de ser mais lúdico e voltado para o público infanto-juvenil, é um encanto: 'Ver por dentro do corpo humano' é um belo livro escrito por Luann Colombo, com destaque para o corpo humano no centro, em que vamos descobrindo (literalmente), a cada página virada.

Já no mundo das HQs temos o imenso prazer de trazer duas belas obras: a primeira é 'Darwin no Brasil', produzida por Flávio de Almeida. Nela, vemos ilustrado os principais momentos de Charles Darwin em nosso país e suas impressões durante sua viagem com o Beagle. O segundo é a bela obra 'O método científico', escrito pelo Dr. Leopoldo de Meis, com ilustrações de Diucênio Rangel. Nela, conhecemos o avanço do saber e como chegamos ao conhecimento científico atual, graças a nossa metodologia científica. E, para fechar, duas HQs de ficção científica cheias de graça. Baseado no blockbuster Star Wars, o kit irá com as histórias e ilustrações de Jeffrey Brown: 'A princesinha de Vader' e 'Darth Vader e filho'. Afinal de contas, nós sabemos que apesar dele ser do lado sombrio da força, ele não deixa de ser um excelente pai.

O livro 'A Terra em que vivemos', o planisfério e o bottom são presentes obtidos em parceria com o Observatório Didático Astronômico “Lionel José Andriatto”, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) de Bauru, São Paulo. Um abraço especial para a Sione Rodrigues, que me ajudou com o aquisição dos presentinhos e ao Prof. Dr. Rodolfo Langhi, responsável pelo observatório, sempre solícito para com todos que conversam com ele.

Se você passar por Bauru, interior de São Paulo, visite o Observatório. O local sempre está com alguma atividade aberta ao público, desde observação do céu noturno até a venda de livros, pôsteres e outras coisinhas para os amantes do espaço. É claro que vocês podem acompanhar as atividades do Observatório tanto no site, como no Facebook e Instagram. No canal Futura (na internet no Futura Play) e TV Unesp vocês podem acompanhar o Astrolab, curtas em que o Observatório traz um pouco do Universo para dentro de sua casa. Vamos ajudar a divulgar a ciência e a divulgação de ciência em nosso país!

Além disso quero agradecer imensamente ao Rafael Rigolon que nos mandou gentilmente uma cópia do 'A pronúncia do latim científico' para esse sorteio. Ele mantém o excelente e fantástico 'Nomes Científicos', página no Facebook e Instagram onde ele mostra a origem e a evolução de muitas palavras que usamos no dia-a-dia, além de dicas de pronúncia do latim que são uma verdadeira mão na roda científica. Curtam, pois vale muita a pena.

Tudo muito legal, mas como faço para participar?


Viu como é simples para participar? Coloque os dados no formulário abaixo e envie para nós. Lembrando que, como o sorteio é aberto ao público em geral, criamos algumas regrinhas básicas para que tudo aconteça da melhor forma possível, evitando qualquer tipo de problemas.

Apenas lembrando que você só pode participar uma única vez.



O sorteio será realizado no dia 27 de setembro de 2019 e o resultado será divulgado no mesmo dia, nas redes sociais e por aqui. Nas regras gerais estão os detalhes de como entraremos em contato e o envio do kit do sorteio.

Qualquer dúvida, deixe seu comentário aqui na publicação ou entre em contato na aba de contato abaixo do título do site.

Boa sorte!

Imagens utilizadas para divulgação obtidas em Pixabay, com uso livre pelos autores.