Cinco coisas que talvez você não saiba sobre lavar as mãos

No Brasil, muitas pessoas conhecem a música ‘Lavar as Mãos’ que era exibido no ‘Castelo Ra Tim Bum’ da TV Cultura. Mas podemos aprender mais sobre um ato tão simples que pode fazer a diferença.

Escrito por CDC[1]
Traduzido por Wesley Santos para o Do Nano ao Macro


Manter suas mãos limpas é uma das mais importantes coisas que você pode fazer para evitar ficar doente e passar micro-organismos para as pessoas ao seu redor. Muitas doenças e condições são dispersadas entre as pessoas justamente por elas não lavarem as mãos de forma correta. Veja as cinco coisas importantes que talvez você não saiba sobre lavar as mãos e porque elas são importantes.

1. O sabonete é a chave: lavar as mãos com sabonete remove os micro-organismos de forma mais efetiva que usando apenas água. Os componentes, chamado surfactantes, existentes no sabonete ajudam a remover a sujeira e os micróbios de sua pele. Você também tende a esfregar suas mãos de forma mais eficaz quando está usando o sabonete, que também ajuda a remover os micro-organismos.

2. Leve mais tempo do que você acha: a quantidade ideal de tempo para lavar as mãos depende de muitos fatores, incluindo o tipo e quantidade de sujeira em suas mãos[2]. Evidências mostram que lavar as mãos [com sabonete] por 15 a 30 segundos remove mais micro-organismos que lavar as mãos por períodos menores. O CDC recomenda lavar as suas mãos por cerca de 20 segundos, o que equivale o tempo de você cantar o famoso ‘parabéns para você’ duas vezes do começo ao fim.

3. Tudo depende da técnica: tenha certeza de limpar áreas das mãos em que a maioria das pessoas esquecem com mais frequência. Tome atenção especial para o dorso de suas mãos, entre os dedos e debaixo das unhas. Ensaboe e esfregue suas mãos criando fricção, que ajuda a remover a sujeira, óleo e micróbios de sua pele.

4. Não esqueça de secá-las: micro-organismos podem ser transferidos mais facilmente para as mãos se estiverem molhadas, portanto seque-as bem depois de lavá-las. Estudos mostraram que usar uma toalha limpa ou deixar suas mãos secarem no ar seco são os melhores métodos de secar suas mãos[3].

5. Higienizador de mãos é uma opção: se você não pode ou não consegue lavar suas mãos com água e sabonete, use um higienizador de mãos à base de álcool, que contenha pelo menos 60% de álcool. Tenha certeza de usar quantidade suficiente para cobrir toda a superfície de suas mãos. E não enxague ou limpe as mãos antes do higienizador secar.

Nota importante: o higienizador de mãos não matará todos os micro-organismos, especialmente se suas mãos estiverem visivelmente sujas ou com óleo, portanto é importante você lavar as mãos com sabonete e água tão quanto possível depois de usar esses produtos.

E por quê lavar as mãos é tão importante?
Lembre-se sempre, lavar as mãos salva vidas. Doenças diarreicas e pneumonia são as duas principais doenças que matam crianças ao redor do mundo, matando 1,8 milhão de crianças abaixo dos cinco anos todos os anos. Entre as crianças, a lavagem de mãos com sabonete previne uma de cada três doenças diarreicas e uma de cada cinco infecções respiratórias como a pneumonia em todo o mundo.

Dia 15 de Outubro é o Dia Global de Lavagem das Mãos
Lavar as mãos é para todo mundo, em qualquer lugar. O Dia Global de Lavagem de Mãos é uma oportunidade de instruir as pessoas sobre a cultura de lavar as mãos com água e sabonete, de fazer uma estrela brilhar em cada lugar do mundo sobre esse ato simples e mostrar os benefícios de lavar as mãos com sabonete. Apesar de muitas pessoas ao redor do mundo lavarem suas mãos com água, muito poucas usam o sabonete para essa tarefa já que sabonete e água para lavar as mãos podem ser pouco acessíveis em países em desenvolvimento.

Participe! 👍

Compartilhe e espalhe os benefícios de lavar as mãos usando #GlobalHandwashingDay no Twitter e Facebook. Façamos a diferença: um ato simples que pode salvar vidas!

Veja a publicação original no site da CDC aqui. No final da publicação, o CDC reservou 13 artigos científicos sobre a importância de lavar as mãos e que sustentam as informações que foram passadas acima. Vale a pena conhecer mais!

E, naturalmente, não ia deixar de colocar a música que fez a infância de muitos brasileiros nos anos 1990.


Rodapé:
[1]: O Centers for Disease Control and Prevention (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados Unidos é uma referência no trabalho de saúde em todo o mundo.

[2]: basta pensar suas mãos sujas com tinta guache ou apenas depois de passar as mãos sobre o teclado do computador [NT].

[3]: evite usar aqueles secadores de ar quente que é comum em banheiros de shopping, por exemplo. Já foi demostrado que esses aparelhos acabam acumulando grande carga de micro-organismos que existem nesses banheiros e podem ser jogados em suas mãos a medida que o ar quente passa por elas [NT].

Imagem por justinblackphotos em seu deviantART.

Câmera e asas de passarinho


Câmeras e dispositivos de gravação de imagens são tão comuns que carregamos em nossos bolsos, temos guardados em casa e somos quase indiferentes a elas ao encontrarmos algumas nas ruas e estabelecimentos comerciais - nesse caso, sempre acompanhadas de um: sorria, você está sendo filmado.

Apesar de toda a evolução das câmeras, saindo das modestas câmeras que registravam as imagens em filmes de péssima qualidade até as modernas câmeras Full HD, até mesmo 4K ou 8K[1], todas elas trabalham com o conceito de cadência.

A cadência é o registro de um conjunto de imagens em um determinado período de tempo. Talvez você conheça como "quadros por segundo", ou por 'fps' (frames per second, em inglês)[2]. Toda e qualquer produção ou reprodução de imagens trabalha com essa ideia. A maioria das câmeras tradicionais capturam cerca de 24 a 28 quadros por segundo. Ou seja, a cada segundo que se passa, a câmera registra 24 a 28 quadros daquilo que se está gravando. Existem câmeras que gravam 60fps, ou seja, 60 quadros por segundo, como nesse vídeo apresentando as belezas do Peru.

É necessário colocar em alguma resolução HD para ver o vídeo em 60fps

Bom, apesar dos vídeos nada mais serem que muitos quadros serem reproduzidos um seguido do outro, nos dando a ilusão de movimento, algo curioso pode ser percebido quando ocorre uma espécie de sincronização entre os ciclos de gravação (o número de quadros gravados por segundo) e o bater das asas de um pássaro.


O vídeo traz a sensação de que o pássaro está levitando na frente da câmera quando, na verdade, o momento em que a câmera registra as imagens do pássaro coincide com a posição em que a asa do pássaro está no momento da captura, dando a sensação de que ele não está movendo a asa.

Infelizmente não descobri onde esse pequeno vídeo foi registrado. Mas vale a curiosidade em saber mais sobre o registro de imagens e sobre o pássaro estar levitando na frente da câmera...

🐦📹😱

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[1]: embora protótipos de diversos tipos de resolução sejam constantemente desenvolvidas e testadas, resoluções maiores que 4K acabam não fazendo tanto sentido. Uma coisa a ser observada é a resolução do próprio olho humano, em reconhecer pontos indistinguíveis. Resoluções maiores que 4K querem dizer que existem mais pontos em uma determinada área da tela que o olho humano simplesmente não vai conseguir definir. Ou seja, você aumentando a resolução não significa que a imagem vai ficar definida, já que seu olho não vai conseguir distinguir a diferença. Apesar disso, os fabricantes podem colocar outros incrementos na fabricação de câmeras e televisões modernas, como alta taxa de frames ou reprodução HDR.

[2]: gamers que jogam pelo computador são particularmente preocupados com isso. Para que o jogo tenha fluidez na tela (não fique travando) e alta responsividade é preciso ter, além de um bom computador, uma ótima placa de vídeo para renderizar os gráficos do jogo de forma mais realista possível (como o reflexo da água, gotas de chuva, grama ou cabelos).

Imagem que abre a postagem visto em Outside My Window.

Cientistas deveriam falar diretamente com o público

Nosso trabalho ajuda a responder alguns dos maiores desafios da sociedade, mas frequentemente é divulgado em linguagem técnica em revistas científicas que a maioria das pessoas nunca verão.

Por Esther Ngumbi para a Scientific American.
Traduzido por Wesley Santos para o Do Nano ao Macro.

A imagem de fundo veio de um trabalho que conseguiu armazenar e reproduzir com sucesso esse pequeno vídeo no DNA de uma bactéria usando uma técnica que insere trechos de DNA no organismo, chamada de CRISPR. A técnica, apesar de estar dando seus primeiros passos, apresenta ser promissora em áreas que vão além da biologia. Feito por pesquisadores de Harvard, o trabalho foi publicado no começo de julho de 2017 na prestigiosa revista Nature.

A ciência e a pesquisa científica são importantes já que fornecem respostas para as facetas mais desafiadoras da sociedade, incluindo mudanças climáticas, saúde pública e segurança alimentar.

Ainda assim, essas respostas são publicadas apenas em revistas com revisão de pares[1]. Cerca de 2,5 milhões de novos artigos científicos são publicados todos os anos. Somado a isso, as bibliotecas estão cheias de pesquisas originais em formas de teses e dissertações. O frustrante é que muitas dessas descobertas são significantes apenas para a comunidade científica, já que ninguém mais lê esses documentos.

Eu posso relacionar. Eu sou uma cientista e escrevi uma tese, uma dissertação e muitos manuscritos em tópicos relacionados à tolerância a seca mediada por bactérias e a ecologia química na interação inseto-planta. De forma geral, minha pesquisa tem uma grande aplicação para a segurança alimentar e problemas ambientais. Infelizmente, a maioria dos meus achados acabaram sendo um dos muitos que pararam em artigos revisados por pares que nunca foram compartilhados com o público.

O mais frustrante é o fato de que passei dias e noites sem dormir e incontáveis horas lendo a literatura científica para formar ideias para meus questionamentos, rascunhando os objetivos da pesquisa e do desenho experimental, fazendo os experimentos e, então, escrevendo o manuscrito. Então, ele passará pelo cruel processo de revisão por pares. É uma prova de drenagem mental que os cientistas passam dia a dia.

Diante de todo esse trabalho, acaba sendo vergonhoso que os cientistas e a comunidade científica ainda não tenham encontrado maneiras de transmitir os seus conhecimentos para o público. Sem sombra de dúvidas, uma razão pela qual não é priorizada é que a cultura acadêmica do “publicar ou perecer”[2] valoriza apenas as publicações e recompensa os cientistas que publicam frequentemente sem necessariamente valorizar se alguma dessas publicações são amplamente divulgadas ao público ou se tem algum impacto.

Então quais são os pequenos passos que os cientistas e a comunidade científica podem tomar para mudar essa cultura e começar a compartilhar as nossas descobertas científicas para o público?

Primeiro e acima de tudo as universidades, institutos de pesquisa, agencias de financiamento como a Capes, Fapesp e outras Fapes[3], juntamente com outras organizações profissionais, devem apoiar e incentivar os pesquisadores a compartilhar a pesquisa que estão fazendo uma vez publicada para o público em geral. Eu acredito que, para cada manuscrito aceito em uma revista científica, as universidades deveriam solicitar aos pesquisadores do trabalho uma forma de disseminar esses achados para o público[4]. Essas vias de disseminação podem ser singelas colunas de opinião, colunas nos jornais locais ou entrevistas com as redes de rádio e televisão públicas.

A boa notícia é que isso já está em vigor[5], e a importância de comunicar a ciência ao público em geral ganhou um interesse renovado:

A American Association for the Advancement of Science (AAAS) através do Center for Public Engagement with Science & Technology – ambos nos Estados Unidos – fornece aos cientistas e comunidade científica o suporte e recursos necessários para comunicar efetivamente a sua ciência para o público. O Entomological Society of America oferece o Science Policy Fellows Program que treina cientistas e os oferece as habilidades para comunicar sobre pesquisas de entomologia – pesquisas relacionados a insetos – para o público e para os políticos eleitos. O NSF oferece um guia para comuncação e pede que os cientistas busquem fundos para explicar como os resultados poderiam ser compartilhados amplamente para melhorar o conhecimento científico e tecnológico.

Segundo, os jornais que publicam os achados científicos também deve encontrar meios inovadores para compartilhar esses achados para o público. Atualmente muitas revistas científicas pedem aos pesquisadores que submetam um “resumo ilustrado”[6] junto com o seu manuscrito. Esse resumo da pesquisa em uma página apresenta uma imagem que captura a essência do trabalho e serve para capturar a atenção do leitor. Talvez as revistas científicas deveriam tomar outro passo, pedindo aos pesquisadores que submetessem um outro resumo ilustrado para ser entendido pelo público.

Terceiro, nós podemos ajudar com vias novas e inovadoras de comunicar ciência ao público. Por exemplo, Sara Elshafie, bióloga integrativa da Universidade da Califórnia, adaptou as estratégias de storytelling da indústria cinematográfica para comunicar ciência[7]. Durante o ano passado ela realizou diversas palestras para estudantes, ensinando-os a como contar histórias sobre suas pesquisas que as façam serem compreendidas pelo público. Há também organizações de notícias que focam em resumir os achados científicos a partir de revistas com revisão de pares para o público em formato que chamam a atenção. O site phys.org, por exemplo, apresenta várias áreas da ciência nesse estilo, incluindo nanotecnologia, biologia, química e botânica.

Quanto a mim mesma, trabalho duro para compartilhar minha pesquisa com o público desde que o treinamento do Write to Change the World oferecido pelo OpEd Project através do programa The Aspen Institute New Voices Fellowship. Desde que aprendi a arte da escrita sobre minha pesquisa e outros assuntos a cerca de dois anos e meio, escrevi mais de 40 pequenas colunas para meios de comunicação como a revista Time, a Scientific American e Los Angeles Times. Eu só queria ter treinado essa habilidade no início de minha carreira.

Então como os novatos devem começar?

Comecem pelos recursos já existentes. A AAAS, por exemplo, tem um site que oferece ferramentas e recursos para iniciantes. Há também artigos online com dicas para os novatos. O OpEd Project oferece um curso de um dia em diversas cidades americanas sobre o assunto e tem parceria em várias universidades. Além disso, universidades e instituições de pesquisa americanas possuem profissionais treinados em comunicação científica e especialistas em m´dia que podem ajudar os pesquisados a compartilhar com o público alguns de suas descobertas científicas de ponta publicados.

A ciência continuará a contribuir com respostas para os desafios persistentes da atualidade. Mais do que nunca nós, cientistas, precisamos compartilhar abertamente sobre a importância da ciência para o público e garantir que nossas descobertas ajudarão a melhorar nessa economia, saúde, segurança alimentar e meio ambiente.

Veja o texto original aqui.

* * *

O texto da Dra. Esther Ngumbi, pesquisadora do Departmento de Entomologia e Patologia de Plantas da Auburn University no Alabama mostra algumas questões que estão surgindo no meio científico, sobretudo nos Estados Unidos, que estão enfrentando algumas políticas um tanto indigestas por parte do presidente Donald Trump, sobretudo na questão de energias renováveis e aquecimento global antropogênica.

Aqui no Brasil não existe praticamente nenhum incentivo para que os pesquisadores reservem uma parte de suas obrigações acadêmicas e burocráticas na ciência para a comunicação com o público. Isso acaba sendo, de certa forma, um tanto hipócrita. A grande parte da pesquisa nacional é financiada com dinheiro público – estadual ou federal – e não há nenhum retorno desse conhecimento para o financiador dessas pesquisas – o público.

Com os recentes cortes que a ciência nacional está sofrendo, a sensação que se passa é que ninguém no Brasil liga para a ciência. E, infelizmente, é exatamente isso que acontece: a maioria das pessoas acham que a ciência é um punhado de nomes complicados, fórmulas impossíveis e ciclos intermináveis de coisas que levam a lugar nenhum. Não surpreende acreditar que as pessoas acham dispensável investir em ciência se podem destinar o dinheiro para qualquer outra coisa. Afinal de contas: por que gastar tanto dinheiro com essas coisas que ninguém entende mesmo?

Existem iniciativas particulares e privadas de divulgação de conteúdo científico no Brasil. O Nerdologia, apresentado pelo biólogo Atila Iamarino e pelo historiador Filipe Figueiredo possuem ótimos conteúdos relacionados à História e Ciência. O Manual do Mundo, do Iberê, usa do conhecimento científico e de engenharia para construir e ensinar coisas diversas. Foco no conteúdo dos amigos blogueiros Aline Ghilardi e Tito Aureliano, do Colecionadores de Ossos que contam as boas novas da paleontologia e o Canal do Pirula, que apresenta um coquetel de assuntos. Apesar de bons e recomendar muito, ainda focam em reapresentar um conteúdo que era para ter sido assimilado em sala de aula de uma forma menos maçante[8].

O principal motivo da crítica da autora e que me motivou a traduzir o texto foi justamente a falta de participação dos cientistas e da comunidade científica e apresentar a novidade, aquilo que está sendo feito no laboratório ou onde quer que seja feita a ciência. Sei do que alguns amigos fazem na ciência quando eles compartilham os seus artigos no Facebook. Isso é bom[9], mas isso é uma linguagem a qual eu estou acostumado. Muitas pessoas ainda não entendem inglês – não estou dizendo que meu é impecável, deixemos claro – e a esmagadora maioria não vai entender nada do que está escrito se estiver recheado com o típico jargão científico, recheado de palavras difíceis e bonitas. 

Precisamos fazer ciência? Claro que sim. Precisamos escrever artigos relatando as descobertas? Claro que sim. Precisamos escrever complicado pois nossos pares entenderão o que escrevemos. Claro que sim. Mas precisamos também escrever para o público que precisa entender com o que trabalhamos, como trabalhamos e por que trabalhamos. Só assim, talvez, a visão da população sobre a ciência mude e, com ela, a de nossos governantes.

Fazer ciência não é um luxo, é uma constante necessidade. 

Rodapé:
[1]: são as famosas revistas peer-reviewed, o qual os trabalhos submetidos são analisados por dois ou três revisores, afim de avaliar a qualidade do trabalho. As revistas mais reconhecidas e com alto fator de impacto trabalham dessa forma [NT].

[2]: o ‘publish or perish’ é um assunto bem discutido no exterior, com direito a publicação sobre o assunto, como esse.

[3]: o texto original aponta para órgãos de fomento americanos, o National Science Foundation (NSF) e a National Institutes of Health (NIH). Para regionalizar o assunto, substitui por conhecidos órgãos de fomento brasileiros, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e demais Fundações de Amparo à Pesquisas dos demais Estados brasileiros. Por morar no Estado de São Paulo, tenho mais conhecimento de causa da Fapesp, que mantém a Revista Fapesp (versão impressa e online, incluindo redes sociais), que compartilham pesquisas relevantes no país e internacional, a maioria fomentada pelo órgão estadual. Apesar disso, esses tipos de publicação ainda mantém um nicho muito restrito, voltado principalmente para docentes e discentes de pós-graduação [NT].

[4]: acredito que a maioria das universidades sérias ao redor do mundo possuem uma revista ou algum meio de divulgar os principais achados que ocorreram em suas universidades. No Brasil, em especial em São Paulo, a USP possui o ‘Jornal da USP’, Unesp possui a ‘Unesp Ciência’ e a Unicamp possui o ‘Jornal da Unicamp’. Entretanto, sua inserção em mostrar mais da pesquisa que ocorre em seus espaços ainda é tímido demais e, tirando o episódio da homeopatia que ocorreu no Jornal da USP, essas publicações mal atingem os próprios alunos dessas universidades [NT].

[5]: no Brasil esse movimento é tímido demais e nada obriga os pesquisadores a divulgar para o público os seus achados [NT]

[6]: o graphical abstract nada mais é que um resumo do trabalho de forma gráfica. Geralmente é uma montagem em que os autores explicam, sem palavras, o que fizeram ou o que descobriram. Acaba sendo uma ótima forma de simplificar o trabalho (o que pode ser uma dor de cabeça, dependendo do manuscrito) [NT].

[7]: o storytelling é um meio de apresentar o que deseja rodeado por uma história relevante (ou seja, que se encaixe com o produto). Muito usado pelo marketing, todos nós somos bombardeados por esse tipo de narrativa comercial. Pense nas propagandas do ‘O Boticário’ rem que associa as festas de fim de ano ou dos dia das mães com o seu produto. Eles vendem o produto sem precisar dizer para o cliente comprar [NT].

[8]: salvo exceções em que alguma coisa muito bombástica ocorre e esses canais vem em nosso auxílio para esclarecer sobre o assunto, o propósito da crítica não é desestimular, muito pelo contrário. Adoro o conteúdo apresentado e até eu mesmo quero fazer algo semelhante. O que falta realmente é o cientista, aquele que fica na bancada, aquele que fica no meio do mato por três semanas, aquele que fica no mercadão cheirando a peixe, aquele que fica no meio do maquinário de milhões de reais, aquele que faz ciência, a vir ao público e dizer o que esteve fazendo e qual o motivo daquilo.
Por favor amigos, continuem com seus canais de divulgação: somos muitos e ainda assim, somos poucos em divulgar ciência. Estou descobrindo que a divulgação científica é um caminho curioso que sai de diversos pontos, com o intuito de se encontrarem em um único final: o público.

[9]: é estranho e curioso pensar que tenho muitos colegas e amigos na pós-graduação que apenas descubro o que fazem quando publicam seus achados. De certa forma, parece que não sabemos nos comunicar nem entre nós mesmos.

A imagem que abre a postagem foi publicada por Harvard Medical School e divulgada pela Nature.

Desconstruindo o Modelo Padrão

O universo é uma coisa muito, mas muito complicada de entender matematicamente. Ele não é algo que se resume em uma simples tabela.

Texto por Rashmim Shivni no Symmetry.
Traduzido por Wesley Santos para o Do Nano ao Macro.


Modelo Padrão da física. Clique para ampliar.
O modelo padrão da física de partículas é frequentemente visualizado em uma tabela, similar à tabela periódica dos elementos da química – que deixam os alunos doidos – e é utilizado para descrever as propriedades da partícula física, como a massa, a carga e o spin – tipo de giro.

A tabela também é organizada para representar como esses minúsculos pedações de matéria interagem com as forças fundamentais da natureza – o eletromagnetismo, a gravidade, a força nuclear forte e a fraca.

Mas isso não começou como uma tabela.

A grande teoria de quase tudo isso representa uma coleção de vários modelos matemáticos que se provaram ser interpretações atemporais das leis da física.

Abaixo faremos um breve passeio nessa gigantesca equação, destrinchando as principais partes.

Modelo Padrão lagrangiano. Clique para ampliar.

Essa versão do Modelo Padrão está escrito na forma da mecânica Lagrangiana[1]. A forma Lagrangiana é uma jeito elegante de escrever uma equação para determinar o estação da mudança do sistema e explicar o máximo de energia possível que esse sistema pode manter.

Tecnicamente, o Modelo Padrão pode ser escrito em diversas formulações matemáticas mas, apesar do que parece, o Lagrangiano é uma das mais fáceis e mais compactas formas de apresentar a teoria.

Parte 1: o começo do modelo padrão é altamente específico para o glúon, o bóson que carrega a força nuclear forte. Os glúons se apresentam em oito tipos, interagem entre si e apresentam o que chamamos de cargas de cores.

Parte 2: ocupando quase metade da equação, essa parte dedica-se a explicar as interações entre bósons, especialmente os bósons W e Z.

Os bósons são partículas carreadoras de força e há quatro tipos de bósons que interagem com outras partículas usando três forças fundamentais. Os fótons carregam o eletromagnetismo, os gluóns carregam a força nuclear forte e os bósons W e Z levam a força fraca. O mais recente bóson descoberto, o bóson de Higgs, é um pouco diferente e sua interação aparece na próxima parte dessa equação.

Parte 3: essa parte da equação descreve como as partículas elementares interagem com a força fraca. De acordo com essa fórmula, as partículas massivas chegam em três gerações, cada um com massas diferentes. A força fraca ajuda as partículas massivas decaírem em partículas menos massivas.

Essa parte da equação também inclui a interação básica com o campo de Higgs, o qual algumas partículas elementares obtém a massa.

Entretanto, esse pedaço da equação assume uma contradição que foi descoberto pelos físicos recentemente. Ele incorretamente assume que as partículas chamadas neutrinos não tem massa.

Parte 4: na mecânica quântica, não há uma posição ou trajetória particular que uma partícula pode tomar o que, por vezes, redundâncias aparecem nesse tipo de formulação matemática. Para limpar essas redundâncias, os teóricos físicos usam partículas virtuais que chamamos de fantasmas.

Essa parte da equação descreve como as partículas massivas interagem com fantasmas de Higgs, artefatos virtuais vindos do campo de Higgs.

Parte 5: a última parte da equação inclui mais fantasmas. Uma delas são os fantasmas de Faddeev-Popov, e eles cancelam as redundâncias que ocorrem através das interações das forças fracas.

Nota: Thomas Gutierrez, professor assistente de física da Universidade Estadual Politécnica da Califórnia transcreveu o Modelo Padrão Lagrangiano para a internet. Ele o derivou da Diagramática, uma referência da física teórica escrita pelo laureado no Nobel, Martinus Veltman. Na transcrição de Gutierrez, ele notou um erro de sinal em alguma parte dessa equação. Boa sorte para acha-lo!

* * *

Sim, a ciência é linda e maravilhosa, mas não deixa de ser bem complicada.

Veja a publicação original aqui. O site publica conteúdo dos laboratórios Fermilab e SLAC (Stanford Linear Accelerator Center), dois importantes laboratórios de física de partículas.

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[1]: esse nome foi dado em homenagem ao matemático italiano Joseph Louis Lagrange (1736-1813). Ele foi orientado pelo famosíssimo Leonhard Euler, matemático suíço que foi um dos criadores da matemática moderna. NT.

Imagem por Yvonne Tang, SLAC National Accelerator Laboratory, modificada para Do Nano ao Macro. Equação do modelo padrão por Thomas Gutierrez.

Câncer homúnculo: quando o câncer se transforma


No começo dos anos 1990 a comunidade científica internacional iniciou um esforço conjunto para decodificar o genoma humano, que é a sequência completa de todas as letras químicas que compõe o DNA humano. O Projeto Genoma Humano envolveu milhares de cientistas de centenas de instituições de pesquisas espalhados em dezenas de países. A princípio, os pesquisadores acreditavam que a espécie humana teria mais de 100 mil genes codificadores de proteínas[1]. Porém temos uma quantidade bem mais singela de genes, girando em torno de 19 mil genes[2].

Nós ganhamos todos esses genes no momento de nossa concepção, quando recebemos o material genético de nossos pais. Esses genes irão orquestrar a formação de tecidos, órgãos e sistemas, que irão constituir nossos corpos.

Por todas terem uma origem em comum, todas as células do corpo possuem o genoma completo (ou seja, todos os genes que nos forma). Ou seja, as células do fígado possuem os genes com as instruções para a formação dos rins, do coração, do sangue e do cérebro.


Como assim, cara?

Exatamente. Em qualquer célula de nosso corpo existem instruções para a construção de qualquer tipo de tecido ou órgão.

Você deve estar se perguntando: mas porque então as células não ficam loucas e começam a fazer a criar órgãos novos em lugares onde não eram para criar? Acontece, nobre padawan, que durante o período embrionário em que as células começam a se especializar, vários genes que não são mais importantes para as funções que as células está ganhando são desligados. Com isso, apenas os genes que são realmente importantes permanecem ativos. Por isso que o fígado não irá virar um rim, por exemplo. Apenas os genes necessários para o funcionamento da célula hepática, o que inclui a produção de enzimas de digestão que são específicas desse órgão, permanecem ativos. Todos os demais genes estão desligados, mesmo eles estando na fita de DNA dessa célula.

Entretanto, existem situações em que as células saem de controle: o câncer é a principal delas.

Algumas células, por diversas razões, podem perder o controle de seu desenvolvimento normal e começar a se multiplicar de forma desordenada no tecido onde se encontram. Temos o início do tumor. Dependendo de como evoluiu o tumor, ele pode se desenvolver para uma fase mais perigosa, maligna, o qual ele pode se espalhar pelo corpo e se fixar em outros tecidos e se desenvolver mais. Nessa fase, o câncer torna-se mais perigoso e o tratamento, mais complicado[3].

Por esses células terem o genoma completo da pessoa, eles podem acabar ligando genes que estavam previamente desligados, criando células, tecidos e até mesmo órgãos que não eram para estarem lá. Foi o que uma equipe japonesa relatou em 2004 de uma moça japonesa de 25 anos que teve um teratoma ovariano, um tipo de tumor que se forma a partir dos tecidos germinativos (ovários e testículos). Apesar de ser um trabalho antigo, o que me chamou a atenção para ele foi como o câncer se desenvolveu:

Imagem do teratoma ovariano retirado da moça japonesa. Em (A), vista lateral do tumor, onde é possível ver a formação básica em cabeça, tronco e membros. O asterisco aponta um primórdio da orelha e a seta preta indica uma protuberância semelhante a um olho, que pode ser visto em (B). O asterisco em (B) aponta para uma hérnia abdominal. A imagem (C) é uma visão dorsal do tumor, com destaque para os cabelos e a espinha bífida (na seta). Na radiografia (D), a seta branca aponta para dentes e as setas pretas para um primórdio de coluna vertebral. Pulando para a figura (F), o asterisco aponta para a formação de tecido cerebral e a seta para o olho, finalizando com a figura (G), com a seta apontando para uma estrutura primitiva de um falo. Legenda adaptada da publicação original.

O tumor que a moça desenvolveu nos ovários obteve um grau altíssimo de diferenciação celular, transformando as células do ovário em diferentes tecidos e quase órgãos completos. Kuno e colegas, que assinaram o artigo, apontam para a formação de cérebro, olho, ouvido, dentes, nervo espinhal, glândula tireoide, osso, medula espinhal, parte do trato digestivo e vasos sanguíneos no tumor, tudo confirmado via exame microscópico[4]. No artigo os pesquisadores dizem que o teratoma "demonstrou considerável diferenciação, formando uma estrutura parecida com um boneco". O nome homúnculo, que também é tratado no artigo, vem do latim e significa 'homenzinho', justamente por ser praticamente uma versão mini da pessoa.

E se você se questionou se os médicos não removeram na realidade um feto com má-formação, os próprios autores já elucidam a questão apontando para o fato da japonesa ser virgem e que a massa removida por eles sabidamente é um tumor de origem das próprias células da japonesa. Os autores até mesmo discutem em que estágio da multiplicação celular esse tumor pode ter tido origem.

Imagens em diversas técnicas feitas da japonesa com teratoma ovariano benigno. O asterisco aponta o local onde o teratoma estava localizado. A barra na imagem (B) e (E) está em escala: 5 cm. Essa bola na imagem nada mais é que o cisto onde o tumor se desenvolveu internamente.

Talvez você tenha notado para a formação de um tecido fálico que citei na legenda da imagem anterior. Os autores apontam que esse tipo de tecido é comum em ser encontrado nesse tipos de homúnculos tumorais (até mesmo com a formação do corpo cavernoso[5]). Tanto os tecidos do corpo do pênis como do clítoris possuem a mesma origem embrionário, portanto faz sentido ele apresentar essa protuberância.

Já tinha sido registrado antes na literatura científica casos em que teratomas desenvolveram tecidos diferentes, como cartilagens e ossos, mas nunca haviam encontrado em um nível de diferenciação tão alto como o registrado nesse trabalho. Esse "teratoma fetiforme" pode ser um evento raro no universo de casos de tumores ovarianos que são, em sua maioria, benignos. Os autores apenas apontam que esse tumores atípicos são importantes para o estudo sobre a origem e desenvolvimento de estruturas em células em que muitos genes estavam desligados para a formação de tantos tipos diferentes de tecidos.

* * *

A saber, aparentemente o tumor foi removido com facilidade pela equipe médica e a moça saiu sem problemas da cirurgia.

Rodapé:
[1]: a informação contida no DNA no interior do núcleo de nossas células é lido para a construção de proteínas para o correto funcionamento do corpo. Veja uma postagem que fiz explicando sobre técnicas de biologia molecular, como a PCR, onde explico de forma breve como é feita a síntese de proteínas nas células (com direito a infográfico).

[2]: depois que o projeto genoma foi finalizado, nos deparamos com a realidade. Muitos dos genes que trazem a informação para nos constituir acabam, na realidade, regulando a ação de outros genes. Pelo visto, fomos um pouquinho arrogantes ao achar que nossa suposta complexidade seria expressa também nos genes. Para se ter uma ideia o genoma do arroz tem mais de 55 mil genes, contra 19 mil de nossa espécie.

[3]: de forma geral, o tumor é o nome que se dá para esse grupo de células que crescem de forma desordenada mas são, contudo, benignos, com pouco potencial de sair do seu local de origem. Já o câncer são os tumores malignos, que possuem potencial de metástase, ou seja, de migrarem para outras partes do corpo.

[4]: quando as células se diferenciam no organismo elas apresentam, além das diferenciações na síntese proteica, diferenças morfológicas, que são distinguíveis entre si no microscópio. Células do sistema nervoso são bem diferentes das células do sistema digestório.

[5]: o corpo cavernoso é um tecido esponjoso que se enche de sangue durante a excitação sexual, enrijecendo o órgão. O pênis fica ereto devido a acúmulo de sangue nesse corpo cavernoso. O clítoris também possui constituição similar e pode ficar enrijecido da mesma forma.

As imagens que compõe a publicação foram obtidas a partir de Kuno et al., 2004.
Você pode consultar o trabalho do Projeto Genoma do Arroz aqui. Mais dados obtidos a partir de INCA. Demais referências:
EZKURDIA I, JUAN D, RODRIGUES JM, FRANKISH A, DIEKHANS M, HARROW J, VASQUES J, VALENCIA A, TRESS ML. Multiple evidence strands suggest that there may be as few as 19 000 human protein-coding genes. Hum Mol Genet 2014; 23 (22): 5866-5878. doi: 10.1093/hmg/ddu309
KUNO N, KADOMATSU K, NAKAMURA M, MIWA-FUKUCHI T, HIROBAYASHI N, ISHIZUKA T. Mature ovarian cystic teratoma with a highly differentiated homunculus: a case report. Birth Defects Research (Part A) 2004. 70: 40-46.