O que sabemos sobre eclipses?


A série especial do blog ‘O que sabemos?’, visa adentrar um pouco mais sobre um determinado assunto, afim de compreender um pouco mais sobre o que está sendo abordado. Dessa vez, depois de algum tempo sem novidades, vamos esmiuçar um pouco mais sobre um dos fenômenos da natureza mais curiosos, mais temidos e que mais chamam a atenção das pessoas: o eclipse.

Falar de eclipse e dizer que é apenas a passagem da Lua na frente do Sol (eclipse solar) ou que a Terra projeta uma sombra na Lua (eclipse lunar), apesar de estar correto, traz uma simplicidade absurda e esconde toda a história e toda a física por trás deste belo fenômeno. Vamos entender um pouco mais sobre a história dos eclipses, como eles são formados e por que não os vemos todos os dias. Ao longo do texto coloquei algumas notas de rodapé. Elas são importantes para complementar a informação, mas sem poluir tanto o texto principal. Espero que gostem das imagens que montei, deram um trabalhão fazê-las, mas elas nos ajudam a compreender melhor sobre o fenômeno.

Dragões, deuses e antiguidade
A palavra eclipse chegou até nós vindo do latim, com origem grega ἔκλειψις (lê-se ekleipsis), que significa ‘ser ocultado, ser deixado para trás’.

Contudo, antes da acepção mais conhecida da palavra, o eclipse era um fenômeno que causava um certo pavor e admiração nas pessoas. Os céus tinham seus fenômenos que ocorriam normalmente quase todos os dias e quando algo perturbava esse suposto equilíbrio celeste, muito provavelmente algo de errado estava acontecendo (seja com os deuses e entidades que viviam lá em cima, seja com as pessoas que viviam na Terra). Quase todos os povos antigos tinham explicações curiosas sobre os eclipses, como os egípcios que acreditavam que Rá, inimigo do deus Sol, ficava entre ele e sua amante, a Lua, impedindo que sua luz chegasse até ela. Já os chineses e alguns povos asiáticos acreditavam que um dragão (ou serpente) engolia os astros que estavam sendo eclipsados e, depois de algum tempo, eles eram regurgitados e voltavam a aparecer nos céus - para alívio das pessoas.

Mas, um dos relatos mais antigos de eclipses com embasamento histórico conhecidos é a famosa Batalha de Hális, também conhecida como Batalha do Eclipse. Nesse evento, que ocorreu provavelmente em maio de 585 AeC, os lídios e os medos[1] estavam em uma guerra que durava seis anos. Durante uma incisiva batalha entre os dois povos, Heródoto em seu ‘Histórias’, nos conta que a batalha não estava inclinada para favorecer nenhum dos lados e que, durante o calor da batalha, “o dia virou noite”.

Conta-se que os dois povos acreditaram na hora que os deuses estavam mandando um sinal de que ocorresse uma trégua e que a paz fosse assinada. E foi realmente que isso aconteceu: o temor dos homens que estavam em campo, assim como dos reis dos dois povos, fizeram assinar um acordo de paz, o qual os filhos dos reis se casaram e o rio Hális (hoje chamado de rio Quizil-Irmaque, na atual Turquia) foi definido como fronteira entre os dois povos.

Heródoto nos diz ainda que Tales de Mileto, filósofo grego pré-socrático, previu a ocorrência desse eclipse tempos antes. E isso nos mostra que, apesar do temor de que algo de muito errado estaria acontecendo nos céus, os eclipses começaram a serem vistos como algo previsível, decorrente de fenômenos naturais que aconteciam no cosmos.

Sabe-se que há mais de 2 mil anos antes da Era Comum, os chineses já estudavam e compreendiam a previsibilidade dos eclipses e os gregos, como Pitágoras e Aristarco, já usavam os eclipses para apontar a curvatura da Terra, entendendo que durante o eclipse lunar, a sombra da Terra era projetava na Lua[2].

Contudo, como veremos mais para frente, foi ficando claro que os fenômenos dos eclipses solares e lunares tinham uma relação e que era possível prevê-los com base nas observações feitas. Mas para que possamos compreender mais sobre os eclipses, é preciso entender primeiro o que acontece normalmente com o Sol e com a Lua para depois vermos sobre como esses corpos celestes se comportam durante os eclipses.

O dia-a-dia…
Na imensa maioria dos dias que vivemos, o céu segue um padrão bem conhecido: um período claro seguido de um período escuro. Tirando as condições meteorológicas, como nuvens, chuvas e neve, podemos ver de forma destacada dois corpos no céu: o Sol e a Lua.

Até o presente momento, sabemos que a Terra orbita ao redor do Sol. Sua órbita segue um plano bem definido denominado eclíptica (imagine a eclíptica como se fosse uma mesa plana em que a Terra usa como base para poder girar ao redor do Sol sem oscilar para cima e para baixo. Esse seria o plano da eclíptica). Esse será nosso primeiro infográfico, que mostra o comportamento dos corpos celestes em nosso cotidiano.

Infográfico sobre a Lua no dia-a-dia. Clique para ampliar.

Enquanto a Terra gira ao redor do Sol seguindo a eclíptica, o mesmo ocorre com a Lua orbitando ao redor da Terra. O fato curioso aqui é que a órbita da Lua com a Terra tem uma leve inclinação em relação à eclíptica, de pouco mais de 5º.

Pode até parecer pouco essa inclinação, mas considerando a distância da Lua em relação à Terra e do tamanho da própria Lua, esses cinco graus são mais que suficientes para colocá-la em uma posição longe o suficiente da eclíptica. Se não houvesse essa inclinação, nunca veríamos uma Lua cheia da Terra, já que sempre que ela estivesse na posição para a Lua cheia (na imagem 1, lua C), a sombra da Terra cobriria a Lua.

Detalhe sobre as fases da Lua, visto nos dois hemisférios terrestres. Clique para ampliar.

Graças a essa inclinação, a Lua consegue escapar da sombra da Terra e podemos ver todas as fases daqui. Assim, quando a Lua está entre a Terra e o Sol (lua A), temos a Lua nova. A medida que a Lua se desloca em sentido anti horário, teremos a Lua crescente (lua B), seguida da Lua cheia (C), caminhando em seguida para a Lua minguante (lua D), voltando novamente à Lua nova[3].

A Lua durante o eclipse…
Por causa da inclinação, como vimos, a Lua não se encontra no mesmo nível da eclíptica e podemos vê-la sempre.

Bom, na maioria das vezes, sim. Mas tem vezes que não.

A inclinação de 5,14º da órbita da Lua em relação à eclíptica deixa claro uma coisa: ela precisa atravessar a eclíptica alguma vez, já que o centro da órbita é o planeta Terra e o nosso planeta está na eclíptica. Na maioria das vezes, nada de impressionante vai acontecer quando a Lua atravessar o plano da eclíptica.

Mas existem momentos em que a Lua está exatamente no mesmo alinhamento de Terra e Sol (linha dos nodos)[4]. Quando este alinhamento acontece no plano da eclíptica, temos o tão famoso eclipse.

Infográfico detalhando os alinhamentos dos corpos celestes durante o eclipse. Clique para ampliar.

Na imagem acima, podemos ver o eclipse ocorrerá apenas quando ocorrer um alinhamento entre os três ocorrer em poucos momentos do ano, durante a passagem da Lua pela linha dos nodos.

Naturalmente, os eclipses solares e lunares, apesar de ocorrerem com os mesmos corpos celestes, são eventos diferentes um do outro. Isso ocorre devido a posição que estes estão nos céus durante esses eventos, sobretudo da Lua.

Detalhes sobre a mecânica celeste durante os eclipses. Clique para ampliar.

Quando temos a Terra entre Lua e Sol, o nosso planeta projeta uma sombra pelo espaço o qual a Lua passará. Como a Lua deixa de receber a luz do Sol a qual ela reflete, temos o eclipse lunar.

Já quando é a Lua que está entre Terra e Sol, temos a seguinte situação: apesar da Lua ser cerca de 400 vezes menor que o Sol, o Sol está muito mais distante. Com isso, durante a passagem da Lua na frente do Sol (para nós, observadores da Terra), a Lua consegue cobrir o disco solar de forma completa[5], eclipsando o sol. Nesse momento, temos o eclipse solar.

Eclipse lunar
Como disse acima, os eclipses são eventos astronômicos que possuem diferenças entre eles, com participação importante da Lua no desenrolar desses eventos. Contudo, nem sempre o eclipse da Lua será total, onde ela toda é encoberta pela sombra da Terra. O que vemos é resultado de onde estamos na Terra durante o eclipse e, principalmente, qual a área do espaço pela qual a Lua irá passar.

O Sol, apesar de estar distante, é um corpo celeste enorme e sua luz se espalha para todas as direções. Quando essa luz encontra um corpo como a Terra, a porção não iluminada projeta atrás de si uma sombra, que é a denominação de uma área sem luz. Mas a trajetória da luz de um corpo tão extenso acaba competindo com as áreas sombreadas. Essa área de ‘meia-luz’, recebe o nome de penumbra.

Características de um eclipse lunar e suas configurações. Clique para ampliar.

Assim, na hora em que acontece o eclipse, o local onde estamos na Terra e a trajetória da Lua sobre a penumbra e a umbra (sombra) são determinantes para dizer se veremos um eclipse total, parcial ou até mesmo se não veremos um eclipse.

Infográfico detalhando a formação da Lua de Sangue.
Clique para ampliar.
Na imagem acima, os personagens 1 e 5 não poderão ver o eclipse, já que a Lua ou já se pôs no momento em que o eclipse acontece ou a Lua ainda não nasceu para ele e quando a Lua aparecer no céu, ela já terá saído da trajetória da sombra da Terra. Já o personagem 2 poderá ver quase todo o eclipse, mas a Lua irá se por antes do seu fim. O mesmo acontece com o personagem 4, que verá quase todo o eclipse, menos o seu começo, já que ela já havia começado antes da Lua aparecer no horizonte. O mais privilegiado será o personagem 3, que conseguirá ver todo o desenrolar do eclipse, do início ao fim.

Durante o eclipse lunar (sobretudo o total), a superfície da Lua iluminada pelo Sol vai sendo encoberta pela sombra da Terra. A medida que isso ocorre, o ofuscamento da luz vai diminuindo, já que há menos luz chegando na superfície lunar e o contraste do que estamos vendo aumenta. Ao ponto máximo do eclipse lunar, a lua pode ganhar uma cor avermelhada (a famosa Lua de Sangue (Blood Moon)), provocada pela dispersão da luz solar pela atmosfera terrestre, onde as cores avermelhadas são mais orientadas para a Lua.

Eclipse solar
Enquanto o eclipse lunar ocorre quando a Lua atravessa a trajetória da sombra da Terra, no eclipse solar é a Lua que projeta uma sombra na superfície terrestre, já que ela fica entre nós e o Sol. Novamente, dependendo de onde estamos será determinante para vermos o eclipse solar, seja total ou parcial. É claro que é preciso ser dia claro para que ocorra, já que durante a noite o Sol já terá ido embora ou nem tenha nascido ainda.

Os tipos de eclipses solares e detalhes sobre a observação. Clique para ampliar.

Na imagem acima, os nossos personagens 1 e 3 estão presenciando apenas o eclipse parcial, já que estão em pontos na Terra em que apenas uma porção do Sol é encoberto pela Lua. Já o personagem 2 é o que poderá assistir o evento de forma completa, do início ao fim.

Contudo, mesmo dentro do eclipse total solar, ele pode ser de dois tipos: o total, o qual a Lua encobre totalmente o Sol, e o que vemos é a coroa solar, uma aura de plasma emanada pelo Sol, responsável em grande parte pelo brilho da estrela e que tem mais de um milhão de graus de temperatura. Observar esse fenômeno só é possível graças ao eclipse total, já que o brilho do Sol no dia-a-dia impossibilita de ver a coroa solar[6].

Já o segundo tipo de eclipse solar é o anular, o qual o disco lunar é insuficiente para cobrir completamente o disco solar, formando um eclipse em forma de anel. Apesar de ambos acontecerem na mesma situação, o qual a Lua encobre o Sol, a diferença entre os dois reside pelas distâncias as quais os corpos celestes então no momento do evento.

Há situações em que a Lua está em máxima aproximação da Terra, enquanto o Sol está em mínima aproximação[7], fazendo o tamanho aparente da Lua ser maior, o suficiente para cobrir completamente o Sol. Já há situações em que o Sol está em máxima aproximação e a Lua está em mínima aproximação, e a Lua não tem tamanho aparente o suficiente para cobrir o Sol, formando o eclipse anular.

Previsibilidade e o ciclo de Saros
O conhecimento da mecânica celeste permite prever quando e onde os eclipses ocorrerão. No passado, apenas baseado nas observações, os gregos, chineses e árabes conseguiam prever em que dia determinado eclipse iria ocorrer. Hoje, com a ajuda dos computadores calculando diversas variáveis, desde a ação da gravidade e força de marés, conseguimos prever com exatidão de segundos a hora exata do eclipse e qual é o melhor lugar da Terra para estar para observá-lo. Claro que, assim como acontece no clássico de Isaac Asimov[8], os eclipses mais próximos possuem as previsões mais certeiras.

Desde a época dos babilônios, remontando mais de 500 AeC, foi notado uma certa regularidade entre os eclipses. Graças ao registros da época, percebeu-se que existia um ciclo o qual os eclipses aconteciam. Esse mesmo padrão foi percebido pelos gregos, como Hiparco e Ptolomeu. A famosa máquina de Anticítera, um computador analógico grego datado do primeiro século antes da Era Comum, tinha por finalidade realizar cálculos astronômicos, astrológicos e incluía o cálculo para sazonalidade dos eclipses. Apenas em 1691 que o astrônomo Edmund Halley formalizou o conhecimento sobre os ciclos dos eclipses e usou o nome de saros, nome usado como unidade de medida entre os babilônios.

Eclipses solares que seguem o Saros 127.
Hoje, os saros são períodos de 18 anos, 11 dias e 8 horas (6585,3 dias) os quais eclipses semelhantes estão relacionados a um mesmo ciclo. Por exemplo, em 2 de julho de 2019 aconteceu o eclipse solar total (foi parcial para os observadores no Brasil, já que como vimos na imagem acima, estávamos em uma posição menos favorável para a observação). Um eclipse solar total, muito parecido com este último, ocorreu em 21 de junho de 2001, pouco mais de 18 anos antes. Um eclipse solar total semelhante ocorrerá 18 anos para frente deste último de 2019, em 13 de julho de 2037.

Mas isso não quer dizer que próximo eclipse solar vai acontecer em 2037. No dia 26 de dezembro de 2019 teremos um eclipse solar anular e em 21 de junho de 2020 também teremos outro.

O que acontece é que cada eclipse está dentro de um ciclo de Saros e vários Saros estão acontecendo ao mesmo tempo. O eclipse de julho de 2019 pertence ao Saro ciclo 127. O eclipse de dezembro de 2019 está no ciclo 132 e o eclipse de junho de 2020 está no ciclo 137.

Em cada Saro acontece aproximadamente 70 a 80 eclipses (solares ou lunares, já que existem calendários de Saros próprios para o eclipse lunar e solar). Um Saro começa com o primeiro eclipse em um dos polos do planeta e, a medida que os eclipses dentro de um mesmo Saro ocorrem, o local onde o ponto máximo do eclipse ocorre vai se deslocando para o outro polo do planeta, onde se encerra. Cada ciclo de Saros pode levar mais de 1400 anos para se completar. Para se ter uma ideia, todos os eclipses que estamos vendo atualmente são um dos quase 40 ciclos de Saros, sendo o ciclo 117 que começou no ano 792 DeC e vai até 2054 até o ciclo 156, que começou em 2011 e vai até 3237.

Por isso pode haver a confusão, principalmente da mídia, de que quando um eclipse ocorre, os jornalistas dizem que o próximo irá ocorrer depois de tantos anos, justamente pelo fato de que, o eclipse com características semelhantes (pertencente ao mesmo ciclo de Saro) realmente irá acontecer daqui a 18 anos, mas outro eclipse de um outro Saro irá acontecer normalmente, mas em outra parte do mundo ou de forma diferente do anterior. Apenas isso.

Por isso, sempre é bom consultar as tabelas e calendários de eclipses que estão disponíveis na internet para descobrir de forma segura onde e quando ocorrerá determinado eclipse. Com as vantagens de sabermos com precisão sobre os eclipses, você pode até programar suas viagens de turismo para vislumbrar os eclipses em outros pontos do planeta.

Como observar os eclipses?
Bom, ao “longo deste longo texto” vimos os tipos de eclipses e como é a mecânica celeste básica para que eles ocorram. Naturalmente, como não precisamos mais acreditar que um eclipse é o fim do mundo, podemos aproveitar o momento para observá-lo, desde para fins de estudo e compreensão até mesmo para momentos de diversão.


A observação dos eclipses podem ser simples, mas exigem cuidados, principalmente para a observação do eclipse solar. Mesmo durante o eclipse parcial, o Sol ainda emite muita luz e energia para a superfície terrestre e sua observação direta pode prejudicar os olhos e equipamentos de fotografias, digitais ou não.

Os telescópios e lunetas só devem ser usados para observação de eclipse solar (e do Sol em si) apenas com o uso de filtros especiais que são acoplados no instrumento com essa finalidade. Câmeras fotográficas também podem queimar os filmes (câmeras analógicas) e danificar os sensores (digitais) se forem apontadas diretamente para o Sol.

O uso de películas de disquetes, CD’s, filmes fotográficos revelados e imagens de raios-X, apesar de escurecer e oferecer algum conforto para a observação, são desaconselhados para a observação do eclipse, já que eles não são projetados para absorver os mais diversos tipos de radiação que o Sol emite além da luz visível, como a radiação ultravioleta, que é extremamente nociva aos olhos.

A melhor forma de observar os eclipses solares é com auxílio de filtros feitos para o fim de observar o Sol ou a observação indireta, como o uso de pinhole, o qual um pequeno orifício é feito em uma placa e a luz do Sol é projetada sobre alguma superfície plana ou o uso de um espelho para refletir o Sol em alguma superfície também são formas seguras de se ver o Sol durante o eclipse.

Já o eclipse lunar é muito mais tranquilo quanto a sua observação, inclusive direta, já que o brilho da Lua é cerca de 4 mil vezes menos brilhante que 1% do disco solar. Para contemplar a Lua durante o eclipse, basta olhar para ela sem problemas.

Se sua cidade organiza eventos para a observação do céus durante eclipses, geralmente feito por professores ou por observatórios astronômicos ou até mesmo por amantes de astronomia, vá. É muito legal observar a curiosidade das pessoas para esses eventos e até mesmo a oportunidade de observar os céus com auxílio de algum instrumento, como algum telescópio, luneta ou filtro para observação do Sol.

Finalizando…
Os eclipses encantaram, assustaram e fizeram parte da história da humanidade, mudando guerras, casamentos, reinos e reis. Hoje, eles são objeto de curiosidade e de admiração por parte dos amantes dos céus e de estudos para reforçar nossos conhecimentos sobre o Universo[9]. Com os devidos cuidados, os eclipses são um excelente momento para contemplação da natureza e de como o nosso entendimento da mecânica celeste permite compreender esse fenômeno com clareza.

Fique de olho na internet e tire uns minutinhos do dia para observar o eclipse quando ele pintar novamente. Bons céus!

P.s.: gostaria de agradecer imensamente ao professor Dr. Ricardo Boczko, professor aposentado do IAG/USP que gentilmente cedeu suas aulas para os participantes da V Semana da Imersão Total em Astronomia, realizado pelo Observatório Didático de Astronomia da UNESP, com a supervisão do Dr. Rodolpho Langhi. As aulas e o que aprendi foram a inspiração e a base para a construção desta publicação. Obrigado.

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Rodapé:
[1]: são povos antigos que viveram na região do Oriente Médio. Os medos tem esse nome pois, apesar de ter origem no mesmo tronco linguístico que o latim (a qual deriva nossa língua), a sua origem é mais distante. De acordo com alguns linguistas, os Medo tem origem no tronco linguístico chamado proto-indo-europeu (med), que significa ‘central, que está no meio’. Apesar de distante, o latim trouxe a palavra ‘med’ para si como ‘medium’, que surgiu no português como ‘meio, que está na região central’.

[2]: os caras lá na Grécia já sabiam de tudo isso há dois mil anos e hoje em dia estamos às voltas com essa coisa de Terra Plana. Sério, o que aconteceu com a gente?

[3]: onde estamos no planeta é importante para determinar como vemos e como entendemos o movimento das coisas no céu. Muitas das referências que adotamos são baseadas em observações feitas no hemisfério Norte e convencionadas assim. Contudo, as observações das fases da Lua são importante de serem discriminadas em como o hemisfério Norte e Sul às veem para que fique claro em que como o referencial é importante. Apesar de sermos um pontinho no planeta olhando para a Lua, a posição desse pontinho é muito importante.

[4]: o alinhamento entre três corpos celestes ligados gravitacionalmente é denominado sizígia.

[5]: ou quase completamente, dependendo de qual eclipse estamos tratando.

[6]: hoje os cientistas usam equipamentos próprios para observação direta da coroa solar sem depender dos eclipses para tal, mas até então, tudo que sabíamos sobre a coroa solar era a partir de observações durante eclipses.

[7]: é importante lembrar que as órbitas dos corpos celestes não são esferas perfeitas. Elas são elípticas e há momentos em que o corpo que orbita o outro está mais próximo e momentos que está mais distante. No caso da Lua e Terra, o perigeu da órbita lunar é de 362.600 km de distância da Terra, enquanto o apogeu é de 405.400 km. Esses valores representam uma mudança do diâmetro angular de 4º. Lembre-se que a inclinação de apenas 5º da Lua em relação à eclíptica é o suficiente para não vermos eclipses o tempo todo e termos a Lua cheia.

[8]: a série de livros de Asimov, Fundação, apresenta o uso da psico-história para prever o futuro e saber como o comportamento da sociedades no futuro ocorrerão. Por usar de análise matemática sobre eventos sociais e culturais, a previsão da psico-história é mais certeira quanto mais próximo do presente, se tornando mais nebuloso ao longo dos séculos. Os cálculos da mecânica celeste funcionam de forma semelhante. Teremos grandes precisões em datas mais próximas, contudo, com o passar dos séculos, forças e ações que podem estar sendo desconsideradas ou calculadas de forma errada por nossos computadores tornam as previsões de eclipses futuros menos precisas. Não é que não ocorrerão, mas a certeza de hora e local de máxima observação poderão ser comprometidos.

[9]: uma das primeiras comprovações da teoria da relatividade de Einstein ocorreu justamente durante a observação de um eclipse, feito em Sobral, Ceará, em 1919 por uma equipe internacional de cientistas.

Todas as imagens foram feitas para o Do Nano ao Macro, protegidas por CC. Você pode baixar, imprimir e modificar, mas sempre referenciando o trabalho original. Contém informações de:
Imagem de eclipse solar obtida em ESA.
Lexico from Oxford; Wikipedia (1) e (2); Astronoo e NASA: Solar Eclipses of Saros Series.
Boczko, R. Fases da Lua e eclipses. Conteúdo cedido gentilmente pelo professor. 2019.
Reis, NTO. Eclipses ao longo dos séculos. Conteúdo online do MEC. Disponível aqui (em PDF).

Ovelha Dolly: Arquivo Scientia - 05 de julho de 1996


Nosso Arquivo Scientia abre mais uma página dentro do mês de Julho. Desta vez viajamos para o ano de 1996, onde o dia 05 de julho via o nascimento do primeiro mamífero clonado do mundo. Até então, muitos animais já haviam sido clonados, tanto mamíferos como outros grupos animais.

Contudo, a ovelha Dolly entrou para a história ao ser o primeiro mamífero clonado do mundo que teve sua informação genética vinda de um animal adulto. Até então, era comum a clonagem de organismos a partir de células embrionárias. O caso da ovelha Dolly, relatado em alguns artigos científicos publicados na época, conta dos desafios e das aventuras que Ian Wilmut, Keith Campbell e sua equipe do Instituto Roslim, que pertence à Universidade de Edimburgo, na Escócia enfrentaram ao longo do desenvolvimento dessa técnica de clonagem.

Células mamárias de uma ovelha foram tratadas em laboratório e tiveram seu núcleo removido. É no núcleo celular que se encontra todas as informações necessárias para o funcionamento normal das células e, em consequência, do organismo todo.

A equipe de cientistas após capturarem o núcleo da célula mamária da ovelha doadora, eles pegaram um ovócito de uma segunda doadora. O ovócito é a célula reprodutiva feminina. Ela também tem seu material genético e precisou ser removido antes, para que o núcleo da primeira ovelha doadora fosse inserido no ovócito[1].

Essa nova união celular (o núcleo da primeira ovelha somado com o ovócito da segunda ovelha) foram estimulados a se multiplicar por pulsos elétricos. Assim que essa nova célula começou a se multiplicar, elas produziram os primeiros estágios do desenvolvimento embrionário, indicando que tudo havia dado certo. O embrião foi implantado no útero de uma terceira ovelha, para que ela servisse de barriga-de-aluguel e desenvolvesse o filhote de forma saudável.

Esquema simplificado do mecanismo utilizado pelos cientistas para criar a ovelha Dolly.
Clique para ampliar.

Assim, em 05 de julho de 1996 os pesquisadores da Escócia viram o nascimento da primeira ovelha clonada a técnica de transferência nuclear somática, advindo de um organismo adulto. Contudo, o mundo só descobriu a existência da ovelha quase um ano depois, quando foi divulgada pela comunidade científica em fevereiro de 1997. Na época, houve intensos debates (tanto no meio científico como popular) sobre o impacto da pesquisa, sobre ética e os avanços da ciência que poderiam criar monstros, o que ajudou a definir algumas diretrizes importantes na prática científica mundo afora.

A ovelha recebeu o nome de Dolly em homenagem à cantora americana Dolly Parton, famosa por seus seios avantajados. Como a ovelha era fruto de clonagem oriunda das células mamárias, os pesquisadores associaram o nome da cantora à ovelha. Apesar das brincadeiras típicas de um ambiente de pesquisa, o mais importante por trás da ciência da clonagem da ovelha Dolly foi a confirmação de que mesmo células adultas, que já passaram pelas fases de diferenciação, são ainda capazes de reverter para o estágio totipotente embrionário, o qual elas podem se transformar em qualquer tipo de tecido ou órgão (ou até mesmo em um organismo completo, como no caso de Dolly).

Comprovando a eficiência da técnica de clonagem, Dolly teve seis filhotes ao longo de sua vida, todos sendo criados no Instituto Roslin, onde foi desenvolvida.

Contudo, em 14 de fevereiro de 2003, com pouco mais de seis anos, a ovelha Dolly se despediu do mundo. Acometida de uma doença pulmonar desencadeada por um vírus, a ovelha não resistiu e acabou morrendo. A doença não foi exclusiva da ovelha clonada e a morte não foi associada por ela ter sido criada pela técnica em laboratório.

Hoje, muitos pesquisadores do mundo estudam e pesquisam as vantagens de regredir células adultas ao estágio embrionário, na busca de melhor compreender os mecanismos moleculares envolvidos e no desenvolvimento de tratamentos como a criação de órgãos em laboratório usando células dos próprios pacientes para serem transplantados, sem o risco de rejeição e até mesmo a possibilidade de curar doenças que afligem pessoas e animais.

Muitos animais já foram clonados após Dolly e aprendemos muito com o desenvolvimento nessa área da ciência. Por isso, pelos avanços não só técnicos como científicos, a ovelha Dolly entra para a história da ciência e é merecido ela ser lembrada no Arquivo Scientia.

Rodapé:
[1]: é preciso ter em mente que as células de um organismo formado são diploicas (2n), ou seja, elas possuem as informações genéticas vindas tanto do macho como da fêmea que o geraram. Essa união acontece durante a concepção, quando tanto o espermatozoide como o ovócito se unem. Ambos (espermatozoide e ovócito) são aplóides (n) e possuem apenas metade da informação genética do organismo. Ao se unirem, elas se tornam diplóides (2n). Os pesquisadores estavam trabalhando com um núcleo de um organismo adulto (2n) e iriam implantar em um ovócito não fecundado (n). Assim, eles precisaram remover o núcleo do ovócito da segunda ovelha doadora pois poderia acontecer de surgir um organismo 3n, o que é inviável biologicamente.

Referências:
Campbell, K. H. S., McWhir, J., Ritchie, W. A., & Wilmut, I. (1996). Sheep cloned by nuclear transfer from a cultured cell line. Nature, 380(6569), 64–66. doi:10.1038/380064a0 
Wilmut, I., Schnieke, A. E., McWhir, J., Kind, A. J., & Campbell, K. H. S. (1997). Viable offspring derived from fetal and adult mammalian cells. Nature, 385(6619), 810–813. doi:10.1038/385810a0
Repercussão na mídia na época da divulgação da clonagem da ovelha Dolly pode ser visto no Acervo O Globo.
Imagens feitas por Wesley Santos, para o Do Nano ao Macro e protegidas por CC. Imagem 1 na publicação vista em Phys.org e Imagem 2 na publicação vista em Wikipedia.

A idade da vida, das rochas e da Terra

Somos curiosos quando crianças. Não devemos deixar essa curiosidade morrer quando crescemos. Parafraseando Neil deGrasse Tyson, os poucos que crescem e ainda são curiosos, viram cientistas.

Eu sempre fui uma criança curiosa. Não tanto no sentido de deixar minha mãe com vergonha ao me levar em visita à casa dos amigos dela (apesar de passar algum tempo estudando a estante da pessoa e ver um jeito de abrir a porta ou gaveta sem que as coisas caíssem e denunciassem minha presença), mas curioso do ponto de vista de querer entender porque o mundo era o que era.

Apesar de não-praticante, fui criado em uma família católica[1], e a bíblia era um dos livros expostos em casa[2]. Lá, o Gênesis se fazia presente e lá descobri sobre os ritos de criação do mundo que os católicos e cristãos em geral sabem de cor. Vi as provações que a humanidade e os animais passaram por causa do dilúvio e todas as dificuldades que a fuga do Egito causaram.

Entretanto, fui apresentado a outros livros com o passar do tempo. Esses livros mostravam outras coisas sobre as origens das coisas, a idade das coisas e a composição das coisas. Esses livros de ciências apontavam que a Terra não tinham alguns poucos milhares de anos, nem alguns milhões de anos: tinha bilhões. Esses livros mostraram que os animais e plantas e bactérias nem sempre estiveram aqui: eles tinham outras caras e formas e que passaram por processos evolutivos, como resposta as mudanças sofridas no ambiente.

Talvez, por não ter entendido direito sobre a evolução na época em que li, o que me chamou mais a atenção na época foi sobre a idade das coisas. Os caras sabiam dizer quantos anos tinham os fósseis que eles encontravam, as rochas que eles perfuravam e até mesmo a idade do planeta em que vivemos. Como assim?[3]

Os cientistas que realizam a datação de algum fóssil ou rocha usam do conhecimento científico sobre a natureza física e química que compõe as coisas para realizar esses procedimentos e descobrir a idade do objeto que ele está pesquisando. Um dos princípio-chave que esses cientistas usam é a meia-vida.

Meia-vida e a datação radioisotópica
Antes de tudo: leia as notas de rodapé, elas são importantes!

Nada é eterno na natureza. As coisas sempre mudam. Com os elementos químicos, acontece coisa semelhante. Apesar de alguns elementos químicos serem mais estáveis, muitos deles (sobretudo os radioativos), estão em mudança constante. Isso acontece pelo fato de alguns elementos estarem sempre emitindo energia para o meio externo. Essa energia jogada dos átomos que compõem esses elementos acabam modificando a estrutura física dos átomos, realmente o transformando em outros elementos.

Um dos exemplos mais conhecidos e mais utilizados em alguns ramos da ciência é a datação por carbono-14. O carbono existe em vários formatos na natureza - chamamos de isótopos -, sendo a mais estável (e a mais conhecida) o carbono-12. O carbono-12 possui em sua composição 6 prótons e 6 nêutrons[4] e 98,9% do carbono que existe na natureza é dessa forma. Ele é o que compõe eu, você e tudo que tem carbono nessa vida. Mas existe outros isótopos na natureza, menos comuns, como o carbono-14. Ele possui os mesmos 6 prótons, mas possui 8 nêutrons. Representando uma fração do carbono na natureza, ele ainda é um carbono e pode participar dos processos metabólicos dos organismos vivos.

Diferenças esquemática entre os núcleos dos átomos de carbono-12 e carbono-14. Os prótons (em amarelo) são constantes para cada elemento químico. As diferenças entre os nêutrons (roxo) são os responsáveis pela variedade de isótopos de um elemento químico. Tanto o carbono-12 como o carbono-14 são isótopos do elemento carbono.

O diferencial desse isótopo carbono-14 é que ele é instável. Isso significa que sua composição não permite mantê-lo da mesma forma para sempre. Com o tempo, a energia nesse sistema que mantém todos esses nêutrons a mais no carbono-14 cai naturalmente[5], em um processo radioativo chamado 'decaimento Beta'. Nessa forma de decaimento Beta, o carbon-14 emite radiação beta (nessa caso, um elétron energético) acompanhado de mais uma partícula leve (o antineutrino do elétron), como podemos ver no esquema abaixo:

Esquema do decaimento Beta minus do carbono-14. Com a transformação de um nêutron em próton, o elemento químico muda (já que temos um próton a mais agora), em um processo chamado transmutação nuclear. Assim, o carbono-14 transforma-se em nitrogênio-14, a forma estável do elemento nitrogênio. Nesse decaimento, ocorre liberação de radiação beta, na forma de elétron e de uma partícula chamada antineutrino do elétron.

Não entraremos em muitos detalhes, mas o mais importante aqui é que o carbono-14 transmuta um de seus nêutrons e um próton. Ao fazer isso, o que era seis prótons, passam a ser sete (assim como o que era oito nêutrons, passam a ser sete). Contudo, ao mudar a quantidade de prótons, o elemento químico muda. Assim, durante esse processo de decaimento beta, o carbono-14 se transforma em nitrogênio-14. Ao fazer isso, essa maçaroca de partículas se estabiliza.

Perceberam o que aconteceu aqui? Um elemento químico (o carbono) se transformou em outro (nitrogênio). Agora vem a melhor parte dessa história: apesar desse fenômeno acontecer de forma aleatória em um átomo individual, ele possui uma padrão temporal quando observamos esses átomos de carbono-14 em grupo. Sim, podemos estimar a quantidade do carbono-14 decaindo (virando nitrogênio) ao longo do tempo.

E aí que chegamos na meia-vida! A meia-vida é a quantidade de tempo em que um amontoado de um isótopo radioativo leva para decair e se tornar uma forma mais estável. O carbono-14, por exemplo, tem uma meia-vida de mais ou menos 5.730 anos. Ou seja, quando analisamos uma amostra, por exemplo, verificamos a quantidade de carbono-14 que ela apresenta. Se ela tiver cerca de metade do total que deveria ter, podemos supor que a amostra tem aproximadamente 5.730 anos! Não é demais!

Simplificação das etapas de meia-vida do carbono-14 em uma amostra de interesse. As bolas verdes em destaque do osso amostrado é apenas uma representação, já que não é assim que os pesquisadores estimam o isótopo radioativo da amostra, mas serve de apoio visual. Com o passar do tempo, a quantidade de carbono-14 que decaiu em nitrogênio aumenta, reduzindo a quantidade de carbono-14 na amostra em si. Depois de 5.730 anos, metade do carbono-14 ainda está presente (uma meia-vida). Passados mais 5.730 anos, a metade da metade original decaiu (segunda meia-vida). Isso ocorre de forma intermitente, até atingirmos níveis indetectáveis.

Com isso, podemos usar as diferenças entre a quantidade de carbono-14 esperada e o encontrado em um fóssil, por exemplo, e conseguiremos saber a idade daquilo que estamos trabalhando![6]

O carbono-14 é um dos mais conhecidos métodos de datação por meia-vida conhecidos, mas ele tem uma séria limitação: sua meia-vida é relativamente boa para datações curtas (usados na arqueologia, por exemplo, e em fósseis que suspeitamos serem novos (quando encontramos ossadas de algum cemitério antigo, por exemplo)), mas começa a pecar em datas muito antigas (acima de 40 a 50 mil anos). Além disso, o carbono-14 é sensível a contaminação do mundo moderno (já que testes e acidentes nucleares, por exemplo, podem criar mais carbono-14 em um determinado local do que o esperado, o que pode atrapalhar as análises).

Existem alguns isótopos que decaem tão rápido que simplesmente não podem ser usados para esse fim de datações longas. Alguns isótopos de boro, como o boro-18 (5 prótons e 13 nêutrons) são muito instáveis e decaem por volta de 30 nanossegundos, rápidos demais para serem usados em análises de fósseis e de rocha, por exemplo. Mas existem outros elementos, úteis em análises de rochas, como o plutônio-239 (94 prótons e 145 nêutrons), com meia-vida de mais de 24 mil anos. O urânio-235 (92 prótons e 143 nêutrons) tem meia-vida de mais de 703 milhões de anos, o que é muito útil para determinar com grande precisão a idade de rochas super antigas e até mesmo da própria Terra [7].

Ou seja, com o conhecimento sobre a natureza dos elementos químicos e radioativos, podemos mensurar com alto grau de confiabilidade, a idade das coisas antigas. Com isso, podemos reconstruir o passado da Terra, já que podemos construir um panorama detalhado e relacionar os fósseis que encontramos e colocá-los em uma linha coerente no tempo. Assim, misturando aquilo que eu comecei a entender quando criança com aquilo que ainda não entendia, podemos ver a evolução se formando diante de nós.

Por isso que, quando criança, achei isso uma das coisas mais incríveis que a ciência estava mostrando para mim. Entender a datação radioisotópica e como funciona o conceito de meia-vida, simplesmente metade dos problemas em entendermos sobre o passado da Terra somem.

Na realidade, ainda vejo como uma das coisas mais incríveis que a ciência tem para mostrar para gente! 

Rodapé:
[1]: sim, fiz comunhão e crisma e até mesmo cogitei a possibilidade de me tornar padre.

[2]: lembro de meu avô (in memoriam) lendo diariamente uma versão levemente surrada de uma bíblia que ele deixava exposta em seu quarto. Ganhei dele, na época, uma enorme bíblia, de capa dura preta e com o miolo com as bordas das folhas pintadas de dourado. Ricamente ilustrado, as primeiras dezenas de páginas continham reproduções de grandes obras de arte que ilustravam a vida de Cristo e, mais para o meio, mais ilustrações trazendo a Via Sacra. Com um português antes de 1960, o livro é um desafio para ser lido (mais pelo peso do que pela gramática em si).

[3]: isso surgiu depois de uma saudável discussão no laboratório - o qual eu desenvolvo meu doutorado - sobre várias coisas que os biólogos e o pessoal da ciências da vida adoram debater: sobre doenças, evolução e como as coisas são o que são. Num dado momento, estávamos falando sobre a idade das coisas e como isso tudo se encaixa na evolução. Nesse momento, me vi novamente na infância, com algum livro na mão descobrindo tudo isso.

[4]: apenas para refrescar a memória: os prótons são os responsáveis por identificar o elemento químico. Assim, o carbono sempre vai ter o mesmo número de prótons, independente do seu isótopo. Assim, o que determina as diferenças nos isótopos é a quantidade de nêutrons que ele possui.

[5]: existe toda uma explicação na física de partículas sobre essa perda de energia. De forma simplificada, ocorre uma mudança na força fraca, que mantém a estrutura atômica coesa. Com a mudança da força fraca, a quantidade dos quarks que compõem os nêutrons mudam, mudando-os para prótons. Durante esse processo, ocorre uma perda de energia em forma de partícula que, no caso do carbono-14, é liberado um elétron e um antineutrino de elétron.

[6]: o caso do carbono-14 é especial, já que sua forma estável é o nitrogênio-14, que é gasoso. Ou seja, ele não fica na amostra que estamos trabalhando. Contudo, os níveis de carbono-14 na natureza são estáveis (eles são gerados quando o nitrogênio recebe radiação cósmica em altas altitudes, por exemplo). Esse carbono é absorvido pelas plantas e entra no ciclo orgânico. Os animais mantém o carbono-14 ao ingerir as plantas ou animais que se alimentaram de plantas com carbono-14. Assim, ele se mantém estável e podemos mensurar a quantidade esperada em uma amostra. Ao morrerem, o carbono-14 para de ser reposto no organismo, e assim podemos estimar a data do fóssil baseado na quantidade restante de carbono-14 ainda detectável no organismo, quando comparamos com o níveis esperados se ele tivesse morrido na hora da análise.

[7]: a idade da Terra foi calculada usando dados tanto de amostras coletadas em diversos pontos do planeta como amostras que vieram das missões Apollo à Lua. Como a lua e os planetas (incluindo a Terra) tem origem na mesma massa de poeira que circundava o Sol, uma fonte externa ao planeta garantiu melhor veracidade aos dados, onde os cientistas descobriram que a Terra tem cerca de 4,54 bilhões de anos de idade.

Imagem que abre a postagem por Fruitmixer em seu deviantART. Demais imagens produzidas por mim, Wesley Santos, para o Do Nano ao Macro e protegidas por CC.

Precisamos ser velas!

"Ciências acima de tudo, educação acima de todos". Cartaz durante manifestação pela educação em Bauru, SP.

Os últimos anos têm sido difíceis para a educação e para a ciência nacional. Cortes e restrições orçamentárias cada vez mais violentas tem tornado cada vez mais difícil ensinar e aprender no Brasil. O ano de 2019 mostrou que o ruim poderia ficar pior. Alegando queda na arrecadação, a educação no Brasil sofreu uma contingenciamento que, somado aos sucessivos cortes anteriores, tem tornado a prática de fazer ciência no Brasil insustentável.

"Girls just wanna have funding for science"
(Garotas querem investimento para ciência), cartaz
brinca com a famosa canção de Cindy Lauper onde
garotas querem apenas diversão. Queremos diversão,
mas queremos dinheiro para pesquisas também.
O Ministério da Educação (MEC) repassou um corte de cerca de 30% para as universidades, restringindo os valores para pagamentos como água, energia e pesquisa. Somado a isso, houve corte no número de bolsas CAPES de todos os programas de pós-graduação do país. As bolsas, que aguardavam ser transferidas para novos alunos que entravam no mundo da pós-graduação, foram congeladas e não podiam ser passadas para frente. Com isso, muitos pesquisadores e novos cientistas encontraram mais um obstáculo, o financeiro pessoal, como limitador para a formação de novas mentes[1].

Clamando por maior visibilidade e apontando para o erro em não investir na ciência e educação, dia 15 de maio de 2019 foi realizado uma manifestação nacional em prol da educação e da ciência. Em mais de 100 cidades de todos os estados brasileiros, alunos, professores, pesquisadores e todos aqueles que sabem da importância da ciência e educação foram às ruas.

Em Bauru, interior de São Paulo, onde desenvolvo meu doutorado, milhares de estudantes (estimativa de 10 mil) do ensino médio e das duas universidades públicas estaduais (USP e UNESP) foram às ruas centrais da cidade, somado à professores e outras categorias. Acompanhei brevemente a concentração e os primeiros movimentos dos manifestantes, o que trouxe um breve lampejo de esperança, sabendo que ainda há pessoas que acreditam na importância da educação em nossos dias.

Ao contrário do que disse o presidente Jair Bolsonaro, o qual chamou os manifestantes de 'idiotas úteis' e 'massa de manobra', a manifestação a favor da educação mostra justamente que é preciso mais desses movimentos para mostrar, tanto à população como ao próprio presidente, a importância da educação tanto para o nosso dia-a-dia, como para a formação das pessoas como cidadãos em uma sociedade em constante mudança.

"Em defesa da ciência, o caminho contra a alienação #15demaio", cartaz na manifestação pela educação em Bauru.

Cortar investimentos em ciência e educação é colocar as pessoas à mercê de aceitarem vozes de autoridade sem questionamento, de voltarmos a acreditar em coisas tão pífias como terra plana ou que vacinas fazem mal[2]. De passarmos a aceitar que o código de Hamurabi[3] deveria voltar a ser aplicado em nossa sociedade. Até mesmo de acharmos que existem pessoas mais iguais a outras pessoas[4]. Só a educação e o conhecimento permitem abrir nossas mentes e vermos que o mundo pode ser muito mais estranho e maravilhoso do que querem mostrar para gente.

Precisamos ser cada vez mais as velas que iluminam os cantos escuros da ignorância e do misticismo. Só o conhecimento pode nos mostrar o brilhante futuro que podemos ver à frente.

Cartazes em protesto contra os cortes e restrições no orçamento para a educação e ciência.

"Não fazemos balbúrdia, fazemos ciência"

"Eu luto pela pesquisa"

Rodapé:
[1]: sem contar que as bolsas não sofrem reajuste há mais de cinco anos, sendo mantidas, até o momento, com 1,8 mil e 2,2 mil reais para pós-graduando em mestrado e doutorado, respectivamente.

[2]: esses movimentos, que crescem a cada dia, mostram em como estamos voltando no tempo.

[3]: a famosa máxima 'olho por olho, dente por dente'.

[4]: recomendo o excelente 'A Revolução dos Bichos', de George Orwell.

Informações:
Com notícia de G1 e sobre Bauru também. Imagens feitas por mim, protegidas por CC. Se você se reconheceu ou reconheceu alguém nas fotos, entre em contato.

O futuro do Universo

Em 'Interestelar', a equipe de efeitos especiais utilizou de equações e dados de observação para construir o melhor modelo de um buraco negro até então. Provavelmente o futuro do Universo residirá em uma competição ferrenha de buracos negros ao longo de bilhões de anos. O Gargantua, nome do buraco negro no filme, é resultado de uma versão mais maquiada e menos poluída da 'realidade', mas os dados que eles obtiveram com a construção do modelo foram tão boas que um artigo científico sobre o assunto foi publicado em 2015.

Como será o último instante de vida do Universo? Será que ele acabará com um grande colapso ou será sutil? Acabará em chamas ou no mais completo gelo?

Desde quando começamos a entender mais sobre a física do Universo e entender que o Big Bang, evento que culminou no Universo o qual vivemos hoje, se mostra uma melhores formas de explicar uma porção de coisas[1], esse tipo de questionamento saiu do puramente metafísico e ganhou o status de ser cosmologicamente válida. Afinal de contas, se o Universo teve um começo, que se iniciou há 13,8 bilhões de anos, é sensato pensar que ele ainda está envelhecendo e que coisas poderão acontecer com ele no futuro.

Mas que tipo de coisas? Quando será esse futuro?

Essas questões é que movem as cabeças dos cosmólogos e dos astrofísicos teóricos. Apesar de nossa compreensão da física ter crescido enormemente ao longo do último século, muita coisa ainda é desconhecida por nós. A falta de informações que nos mostra um panorama mais "real da realidade" acaba trazendo dificuldades para que possamos entender como será o futuro do Universo[2].

Mas isso não significa que não podemos tentar.

Apesar de nosso conhecimento limitado, a humanidade conseguiu acumular um grande volume de dados apenas olhando para o céu noturno (e mandando alguns brinquedinhos para o espaço).

O vídeo abaixo, uma compilação animada (e muito bem feita) mostra o que sabemos sobre como será o derradeiro fim do Universo. Observe que as escalas de tempo se tornam cada vez mais impossíveis de serem compreendidos pelo ser humano, a ponto de que o tempo perde completamente a importância, já que eternidades se passarão para que alguns eventos ocorram.

Legendas em português disponível nas configurações do vídeo.

Com o que temos até o momento é possível criar uma possível história para o fim do Universo, cheio de coisas estranhas e com muita ação, encerrando de forma sutil e gélida.

Quanto mais conhecimento tivermos daqui para a frente, melhor será nosso entendimento sobre o passado do Universo, como ele é atualmente e como será o futuro dele. Para tanto, não podemos parar de olhar para cima, quebrar a cabeça para entendê-lo e, até mesmo, usar a nossa boa imaginação para contemplar o nosso lar cósmico.

Bons céus!

🔭🌌

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[1]: a ideia do Big Bang veio a partir dos trabalhos do sueco Georges Lemaître com seu 'ovo primordial'. Os dados que surgiam na época mostravam que o Universo estava em expansão, visto que as galáxias estavam se afastando mutualmente uma das outras. Lemaître propos que, no passado, todas elas estariam mais próximas e, no passado mais distante, elas estariam todas juntas em um único ponto, o 'átomo primordial'. Naturalmente a hipótese, com o passar do tempo, ganhou adeptos e foi sendo refinada. Hoje, a teoria do Big Bang explica uma gama de fenômenos observados no universo, desde a radiação cósmica de fundo em micro-ondas e existência do hidrogênio. Apenas o surgimento do universo nesse tipo de evento sustenta o observado atualmente.

[2]: as principais limitações que envolvem entender o Universo (tanto o passado como o futuro) residem em nossa ignorância sobre a energia escura, uma energia hipotética que se espalharia por todo o espaço e permitiria explicar a expansão acelerada do Universo (já que o Universo está se expandido a uma taxa acelerada, ou seja, algo está empurrando cada vez mais essa expansão). O problema da energia escura é que ela surge apenas para explicar as observações atuais sobre o Universo e, até o presente momento, nunca foi vista diretamente ou nada do tipo. Outro problema é justamente sobre a geometria do Universo (qual a forma dele). Apesar do senso comum apontar para um universo esférico, a matemática aponta mais de uma possibilidade de forma (além da esférica, teríamos uma em forma de sela de cavalo ou plana). E a forma do universo é de extrema importância para sabermos como será o futuro dele.

Imagem que abre a postagem aqui.