9 Meses - post 6

Carlos adora lasanha. Mal sabe em que Ana pode transformá-lo para explicar embriologia ao seu marido.

Vínculo
Ana observa. Fez uma leve cara feia para o que viu. Fica sentada por alguns segundos antes de vestir novamente. Sabia que já passara 28 dias desde sua última menstruação. Embora seu ciclo sempre ficasse entre 28 e 30 dias ela, prevenida como toda mulher, estava usando absorventes íntimos desde o dia anterior.

Estava perto da hora do almoço e Carlos estava para chegar. Nesse sábado Ana resolveu cozinhar o tempo e demorou para sair da cama. Voltara ao trabalho na segunda-feira e seu corpo ainda não havia acostumado com o acordar cedo e o trampo na empresa de Biotecnologia onde trabalhava. Foi acordada lá pelas dez da manhã com um telefonema de Carlos dizendo que estava afim de comer no restaurante que ficava perto do trabalho dele. "Eles devem ter feito 'aquela' lasanha e ele sentiu o cheiro de onde trabalha", disse para si mesma logo depois de desligar o telefone.

Na hora do almoço, Carlos estava esperando por Ana no restaurante. Durante o almoço, Ana comenta que sua menstruação ainda não tinha chegado.

-- É mesmo querida? Mas pode estar atrasada, não é?

-- Também acho... ainda mais que meu ciclo nunca foi certinho. Ele vive mudando.

-- Aham - disse concordando com a cabeça - amor, a mulher ovula quantos dias antes da menstruação?

-- Na maioria dos casos, 14 dias antes. Por quê?

-- Se a mulher ficar grávida, o que era para estar acontecendo no dia que era para ela menstruar?

-- Hum... deixe-me pensar - Ana fica pensando em um jeito de explicar ao marido o que estaria acontecendo quando uma ideia vem em sua mente - Carlos, espere um pouco... - ela sai com seu prato da mesa. Segundos depois ela volta com um pedaço de lasanha e uma almondega com um pouco de molho no prato. O marido, pronto para atacar um pedaço da comida, é impedido por Ana.

-- Espera, depois você come... eu vou usar isso aqui para explicar para você o que tinha me perguntado.

-- Hã? Mas com um pedaço de lasanha e uma almondega?

-- Sim, sim... confie em mim. Preste atenção. - e mexendo os alimentos com o garfo, começou - imagine que a almondega é o embrião, certo? A superfície da lasanha será o lado interno do útero, tudo bem? - o marido concordava com aquilo com expressão de achar que sua mulher definitivamente havia ficado doida - Pois bem, o embrião chega ao útero como sendo uma bolinha de células. Podemos ver nitidamente três porções bem definidas: as células do lado de fora recebem o nome de trofoblasto e um punhado no lado de dentro, de embrioblasto. Há, ainda, um espaço cheio de líquido chamado de cavidade do blastocisto, já que essa bolinha é chamada de blastocisto[1] - disse, apontando para a almondega.

-- Pois bem - disse, empurrando a almondega sobre a lasanha - quando o blastocisto chega ao útero, a primeira coisa que ela faz é encontrar uma região onde ele possa se fixar. Achando um lugar, as células do trofoblasto que estão em contato com o útero começam a sofrer mitoses continuamente (ou seja, se multiplicam). O diferencial dessas novas células é que elas não apresentam uma membrana que as separe. Ou seja, temos, na verdade, uma massa de uma grande célula com vários núcleos. Na biologia, chamamos isso de sincicio. Como essas células vieram do trofoblasto, as chamamos de sinciciotrofoblasto. Vou representar esse sinciciotrofoblasto com o molho - disse, pegando rapidamente a almondega com o garfo e jogando um pouco de molho com uma colher entre a lasanha e a almondega - as células que não estão em contato com o útero ou não viraram uma massa única de células, denominam-se citotrofoblasto.

-- Esse 'sincicioalgumacoisa' vai ancorar o futuro bebê na barriga da mãe como um lustre?

-- Não, esse molho aqui na realidade irá entrar no endométrio da mãe, ganhando espaço por entre as células dela. Ele vai se fixando e adentrando completamente dentro do útero da mãe - nisso ela faz um buraco na lasanha, joga um pouco de molho dentro e mergulha a almondega - ele faz isso pois é preciso que ele tenha um meio de ganhar nutrientes que proveem da mãe. A medida que esse sinciciotrofoblasto vai adentrando no endométrio do útero, ele vai encontrando vasos sanguíneos e glândulas e isso vai permitir que o futuro bebê tenha um meio para receber nutrientes e trocar gases.

-- Interessante, ele fica praticamente dentro do corpo da mãe.

-- Exatamente. Muitas pessoas pensam que ele fica solto dentro do útero da mãe, sendo preso apenas pelo cordão umbilical, mas na verdade ele fica intimamente ligado á mãe, já que ele se desenvolve dentro do endométrio.

-- E demora muito tempo para que ele fica completamente dentro desse endométrio?

-- Não, cerca de 10 dias depois da fecundação, essa bolinha de células já está complemente dentro do endométrio, com o sinciciotrofoblasto totalmente ao seu redor - nisso, ela aumenta um buraco que tinha feito na lasanha, coloca mais molho e joga a almondega dentro, que é coberto complemente pelo molho. Nisso, ela pega um pouco da lasanha que ela havia cortado e cobre o buraco, indicando, logo em seguida, que o útero ajuda na fixação do embrião, fechando o local onde ele havia se implantado.

-- Nossa... - disse o marido se inclinando para trás.

-- Além disso, o citotrofoblasto cria projeções de células em alguns pontos que servem para aumentar a área de contato entre o cito e o sinciciotrofoblasto. Essas projeções são chamadas de vilosidades coriônicas primárias.

-- Caramba, e tudo isso acontece apenas do lado de fora dessa bola de células?

-- Exatamente... no lado de dentro acontece muito mais coisas interessantes. Mas isso eu explico mais tarde para você, tudo bem? Aí eu te mostro algumas ilustrações pra te ajudar...

-- Ah, melhor...

-- Bom, agora você quer a lasanha com uma almondega de brinde? - perguntou empurrando o prato em direção de Carlos.

-- Ana, você sabia que eu adorava lasanha... eu ADORAVA lasanha... - disse, se lamentando ao ver seu prato favorito ter sido alvo de uma aula de embriologia.

Informações adicionais:
[1]: veja as etapas que levam a formação dessas estruturas no post anterior da série.

Com imagem por ~Nightblue-art em seu deviantART.

Um desenho para a natureza!


Desenho das estruturas reprodutivas masculinas e femininas, além das células reprodutivas. Vi em Scientific Illustration.

O maior espetáculo da Terra!

Não, não estou aqui para falar do livro de Richard Dawkins que tem o mesmo título do post. Acaba de sair do forno o 13º clip musical do Symphony of Science onde vozes de cientistas e divulgadores de ciências são emprestadas para divulgar um pouco do que sabemos através da música. No vídeo, sir David Attenborough, apresentador de grandes séries e documentários para a BBC de Londres "canta" ao lado de Richard Dawkins, zoólogo e evolucionista de carteirinha e, também, Bill Nye, educador da ciência e famoso nos EUA pelo seu programa de divulgação científica, sendo chamado de 'science guy', o cara da Ciência. A Evolução, grande mestra da diversidade da vida na Terra, é a homenageada nessa grande empreitada de divulgação feito em Symphony of Science. Aproveite!


Para baixar a música em .mp3, ver a letra da música ou ajudar o projeto, clique aqui!

9 Meses - post 5

Aproximadamente após seis horas desde a fecundação, o zigoto realiza a sua primeira divisão.
A partir dela, diversas divisões celulares irão ocorrer para dar origem ao organismo completo.

Futura mãe...
Seis horas. O incessante e irritante pém-pém-pém do relógio da cabeceira os lembrava que as férias haviam chegado ao fim. Pelo menos para Carlos, que voltara na última quarta-feira. Ana voltaria ao seu trabalho na segunda-feira seguinte mas o barulho do despertador não perdoava ninguém. Depois de um rápido café da manhã, Ana se encontrava sozinha em sua casa. Resolvera fazer uma limpeza geral.

Depois de um tempo limpando o quarto, ela encontrou, no fundo do guarda-roupa quase esquecido, um livro de embriologia que ela estava procurando fazia um bom tempo. Ela chegou a pensar que teria emprestado o livro a alguém e não havia devolvido. Mas ele estava lá, com a velha capa que a fez lembrar dos tempos de faculdade, onde saia com os amigos para ir em bares e festas. Resolveu folhear um pouco para ver como andava a memória sobre os eventos que aprendera a alguns anos atrás. O texto dizia:

"Logo após o encontro com o espermatozóide [ainda com acento], o óvulo completa sua segunda fase da divisão meiótica (veja no capítulo 2), liberando o segundo corpúsculo polar. Logo após esse processo, teremos uma única grande célula denominada zigoto. O zigoto irá se preparar para que ocorra a primeira divisão mitótica (veja no capítulo 2), aproximadamente seis horas após o seu surgimento. Nesse processo..."

Ela parou de ler. Tinha esquecido o quão chato era aquele livro. Tanto que, lembrou logo em seguida, praticamente não o usava, graças ao seu professor de Embriologia que explicava as etapas que parecia serem simples para entenderem, mesmo sendo complexas. Isso explicava o livro estar guardado no fundo do guarda-roupa. Entretanto, gostava das imagens que existiam nele, muito bem detalhadas. Então resolveu ir lembrando das etapas que ocorriam logo após a fecundação e ir verificando com as imagens do livro. Começou a falar sozinha, enquanto se sentava com as pernas cruzadas em um sofá da sala.

-- Quando o ovócito é fecundado, os cromossomos dele com o do espermatozoide se encontram e se fundem, gerando um núcleo com 46 cromossomos, no caso de nós, humanos. Temos então, uma grande célula com material genético do pai e da mãe, que chamamos de zigoto - ela ia dizendo para alguém imaginário que estaria disposto a ouvi-la - Esse zigoto, com o passar das horas, se prepara para se dividir[1], já que o organismo humano é feito de bilhões de células. Aproximadamente seis horas após a formação do zigoto, ocorre a primeira divisão, formando o que chamamos de blastômero, que é nada mais que as células-filhas resultantes do zigoto. Esse blastômero continua a se dividir originando, em seguida, quatro células e depois oito.

Ana lembra que esse grupo de células estão sendo levados em direção ao útero e, para tornar a sua auto-explicação mais didática, ela resolve caminhar pela casa com o livro em mãos.

-- A próxima divisão resultará em 16 células. Olhando para o microscópio, esse amontoado de células ficam parecidas com uma amora. Por isso, nesse estágio esse amontoado recebe o nome de mórula. A divisão continua a todo o vapor. Pois bem, durante todo esse tempo, as células estavam dentro da zona pelúcida que conferia uma espécie de lar enquanto elas são levadas em direção ao útero. Isso é importante já que no começo, essas células não possuem especializações de membrana que permitem que todas se mantenham juntas. Se a zona pelúcida não existisse, a cada divisão celular, as células iam se separando e 'desgarrando' uma das outras. E como para as pequenas células o corpo da mulher é um lugar muito grande, todas se perderiam uma das outras. Entretanto, com o passar dos dias e com as divisões celulares, começam a surgir algumas especializações de membranas de modo que aquela bolota de células fiquem juntas, mesmo sem a zona pelúcida para mantê-las unidas. Tanto é que, quando a mórula vai se aproximando do útero, a zona pelúcida começa a degenerar.

Essa degeneração faz com que o muco que fica na tuba uterina e no próprio útero comece a entrar em contato com essa células, escorrendo por entre elas. Em pouco tempo temos dois tipos de células bem visíveis e que ditarão o futuro do embrião. No lado de fora, formando uma capa externa, temos o trofoblasto. No lado de dentro, um grupinho de células que serão as responsáveis em dar origem ao embrião propriamente dito: o embrioblasto. Esse conjunto de células saem do fase de mórula e entram, agora, na fase de blástula. O líquido que entrou por entre as células se acumulam entre elas, formando um espaço, que é chamado de cavidade blastocística.

Ana dá um sorriso de satisfação por se lembrar quase perfeitamente das etapas quando comparou com as imagens do livro. Ela então percebe que, enquanto ia explicando ao seu aluno imaginário, ela foi parar no quintal de sua casa e a vizinha, acabou pegando a parte final da aula. Envergonhada, ela pede desculpas por ficar falando alto. A vizinha dá um sorriso despreocupado, mostrando que estava acostumada com a mania de Ana andar falando sozinha. Ana entra novamente para dentro de casa.

Desenho ilustrando a primeira semana de desenvolvimento embrionário. Em 'A' o zigoto recém-formado. Essa
grande célula irá se dividir continuamente, visto em 'B', 'C' e 'D'. Quando temos mais de 16 células, recebe o
nome de mórula, em alusão a uma amora, já que as células ficam semelhantes ao fruto, como vemos em 'E'.
Em 'F', o embrião se encontra em fase de blástula. Na parte inferior à esquerda da imagem, uma ampliação
de 'F' indicando as estruturas que são possíveis ver nessa fase.

-- Mas não posso nem falar sozinha mais por aqui! - nesse momento, ela pensa um pouco e achou que realmente não é comum ver pessoas falando sozinhas sobre desenvolvimento embrionário - bom, é melhor eu deixar isso para depois. Logo logo esse embrião se fixa no útero e daí não paro mais de falar.

Ela deixou o livro em uma mesa no pequeno escritório do marido e voltou a fazer a faxina. Mais a noite, a vizinha contou ao seu marido que ouviu Ana falando sozinha e que, possivelmente estava brava, tanto que xingava em até outros idiomas. Ela se lembrava apenas de trofobasto, ou blasto... ou coisa assim...

Informações extras:
[1]: o processo de divisão recebe o nome de clivagem, já que há um aumento no número de células, mas uma diminuição no tamanho das mesmas. Isso corre pois todo o material que deu origem a todas elas estava lá desde o início. Isso explica o fato do ovócito ser uma célula muito grande. Ela terá que dar conta de si própria por, aproximadamente uma semana.

P.s.: o trecho citado por Ana quando lia o livro foi criado por mim. Qualquer semelhança com um livro de verdade não passa de mera coincidência.

Imagem disponível aqui. Desenho esquemático feito por mim, protegido por CC.

Um Universo a partir do nada!

Imagem feita pelo satélite WMAP (em 2010) mostrando as diferenças de temperatura
da radiação cósmica de fundo em micro-ondas. Essa radiação é um remanescente do
Big Bang, que dera origem a todo Universo. Veja mais aqui.

Confesso que demorei alguns dias para assistir o vídeo de 53 minutos. Mas confesso também  que, como gosto do assunto, me odiei por não tê-lo visto antes. A palestra ministrada por Lawrence Krauss para a Fundação Rickard Dawkins (RDF) aborda sobre a origem do Universo, as teorias científicas que muitas vezes previram o que foi observado anos mais tarde, as observações e as conclusões sobre o que ocorrerá daqui a bilhões de anos no Universo. Cético e grande defensor da Ciência, Krauss mostra que é possível um Universo sem deidades e que sim, ele pode surgir do nada! Acontece que esse 'nada' não é exatamente o 'nada' que conhecemos.

Recomendo que reserve uma horinha de seu dia para apreciar informação científica de qualidade com um pouquinho de humor. Atento que, às vezes, os balões de explicações de textos que aparecem na apresentação confundam quem está lendo as legendas das falas. Há não ser que você saiba muito inglês e não precise da legenda ou consiga ler tudo ao mesmo tempo, recomendo que pause o vídeo e leia com atenção. Bom vídeo!


Lawrence Krauss é físico teórico e professor de Física da Universidade do Arizona, além de educador da Ciência. Divulgador da Ciência, popularizando-a, escreveu diversos livros voltados para o mundo da Ciência.

Com imagem por Wikipedia e informações em Wikipedia.

9 Meses - post 4

Depois de uma incrível viagem de dezenas de centímetros (imagine-se pequenos como
os espermatozoides, que possuem cerca de 2 µm de tamanho (cada 1mm tem 1000µm)), o
espermatozoide encontra o prêmio no fim do corredor: o ovócito pronto para ser
fecundado. Graças a esse momento, todos nós existimos.

União
Passos calmos. Uma porta é aberta sem fazer barulho. Por alguns segundos se observa nua no espelho pendurado logo à sua frente. Ana sabe que tem um corpo bonito. A roupa suja, que começa a fazer um certo volume na cesta, serve de lembrete para Ana colocar tudo aquilo no dia seguinte bem cedo na máquina de lavar. Poucos segundos depois, uma água fria começa a correr em seu corpo. O chuveiro ainda não havia esquentado a água na temperatura desejada. Embora evitasse ao máximo, já que desperdiçava uma certa quantidade de água, Ana vivia “filosofando” debaixo do chuveiro. Sabia que já haviam passados 14 dias desde quando começou a menstruar. Ela ficou imaginando o que deveria estar acontecendo em seu corpo naquele momento, enquanto tomava seu banho no fim de tarde. 

Ela se imaginou bem pequena, do tamanho para poder explorar o interior do corpo feminino. Se viu dentro de uma das tubas uterinas. Aos seus pés, as células epiteliais ciliadas davam a sensação de ela estar em um campo de grama alta. Esses cílios ajudam a levar o ovócito em direção ao útero. Lembrando disso, ela se vira para trás e leva um susto. Uma bola enorme vinha em sua direção, lembrando o filme ‘Os Caçadores da Arca Perdida’, onde Indiana Jones corre para escapar de ser esmagado por uma bola de pedra. 

Entretanto, essa bola grande estava vindo relativamente devagar, o que permitiu Ana vê-la com mais detalhes. Sabia que era o ovócito que ela muito bem conhecia desde a época de faculdade. Observou que o ovócito estava acompanhado por várias células foliculares que formavam a corona radiata. Essa corona estava ligada não diretamente ao ovócito, mas a uma barreira acelular, chamada de zona pelúcida[1]. Essa zona pelúcida conferia uma proteção extra ao ovócito antes e depois da fecundação. 

Nisso, ela ouve um alvoroço do outro lado. Ela percebe que está observando um momento único: os espermatozoides estão indo ao encontro do ovócito. Para evitar ser atropelada (ou ser “seduzida”) por eles, ela se pôs um pouco mais distante do evento, onde ela poderia ver o que acontecia com mais segurança. Os espermatozoides, muitíssimos menores que o ovócito, mal chegavam e já iam tentar furar a barreira que os separava do grande prêmio. No topo da cabeça do espermatozoide havia uma grande vesícula cheia de enzimas digestivas. Esse topo, chamado de acrossomo, era liberado pelo espermatozoide para digerir as células foliculares e a zona pelúcida. O trabalho deve ser rápido já que apenas um espermatozoide consegue fazer o serviço completo e conseguir fecundar o ovócito[2]. 

Mesmo naquele alvoroço espermático, ela percebe que em um lado do ovócito, um espermatozoide está se dando bem. Ele liberou suas enzimas digestivas que estão abrindo um espaço na zona pelúcida. Ana levanta de onde estava. Nisso o espermatozoide consegue perfurar por completo a zona pelúcida e ocorre a fusão das membranas celulares. Nesse fusão, o material genético do espermatozoide é liberado dentro do citoplasma do ovócito. Enquanto isso, ocorre uma cascata de reações químicas na zona pelúcida, a tornando impenetrável. A ação dos espermatozoides do lado de fora será inútil a partir de agora. É o fim da linha para eles. 

Esquema ilustrando as etapas da fecundação. Em 'A', o espermatozoide se aproxima da corona radiata.
Em 'B', o espermatozoide libera sua carga enzimática que fica localizada no acrossoma. Essas enzimas
auxiliam o espermatozoide a penetrar as células foliculares e a zona pelúcida, vista em 'C'. Assim,
ocorre a fusão de membranas (do ovócito e espermatozoide), onde o material genético e todo conteúdo
citoplasmático do espermatozoide é jogado no interior do ovócito, em 'D'. Em 'E', 'F' e 'G', ocorrem as etapas
de fusão dos pronúcleos (feminino e masculino) que levarão a formação do zigoto.

Ana observa animada os eventos que estão ocorrendo no ovócito recém-fecundado. Os cromossomos do ovócito e do antigo espermatozoide se encontram, formando o famoso zigoto. Essa bola de células já havia andado um pouco pelo tapete de células que a empurrava. Sem perceber, Ana estava sendo levada também e nem percebera que estava relativamente longe do local onde sua história começou. 

-- Ana?! Você está bem? 

-- Ah! – Ana leva a mão no coração. Estava tão perdida em sua imaginação fértil que nem vira o marido entrar no banheiro. 

-- Achei estranho, você está mais de 20 minutos no banho. O que aconteceu? 

-- Estou todo esse tempo no banho? – ela olha para suas mãos, que ficaram enrugadas por causa da água – eu estava pensando em algumas coisas... biológicas sabe... – Carlos dá uma risada, com um olhar do tipo ‘você vive fazendo isso’. Ana fica levemente sem graça, mas ri também. 

Naquela noite, Ana começa a se insinuar para Carlos. Ele, que estava lendo um livro, observa sua mulher realizando uma leve dança sensual. Carlos gostava quando ela fazia isso, mesmo não tendo grande prática. Ela sabia que Carlos gostava de vê-la dançando, mas não sabia muito bem o que fazer. Entretanto, naquela noite, ela quis fazer uma dancinha para o marido. Ela sabia que os hormônios a estavam empurrando para esse momento, visto que ela deveria estar ovulando. Mas não ligou. Minutos mais tarde, o livro que Carlos lia estava em algum lugar debaixo da cama. 

Depois do momento único do casal, Carlos já dormia. Ana, que estava pronta para dormir, coloca as mãos em seu ventre e indaga se o que ela imaginou no banho estaria para acontecer com ela em breve. Um suspiro a puxa para dormir profundamente. Boa noite. 

Informações extras: 
[1]: isso não é bem verdade. Na verdade as células da corona radiata apresentam ‘projeções’ citoplasmáticas que atravessam espaços da zona pelúcida e encontram o ovócito. Como as células foliculares da corona ajudam a nutrir o ovócito nos primeiros momentos de existência, é necessário haver um meio para o transporte dessas substâncias. Entretanto, a maior parte das células se fixam diretamente à zona pelúcida e não ao ovócito. 

[2]: embora seja exceção, há casos em que dois ou mais espermatozoides conseguem fecundar o ovócito. Nesse caso surge uma aberração em que o zigoto tem um número maior de cromossomos do que devia ter. Geralmente ocorre aborto espontâneo ou nasce morto.

Com imagem em Wikipedia. Desenho esquemático feito por mim, protegido por CC. Com informações em VisionLearning e:
SCHOENWORF, Gary C. et al. Larsen embriologia humana. Rio de Janeiro, Elsevier, 2009.

9 Meses - post 3


Prazer e amor
Ana não demorou muito a perceber que Carlos estava "fogoso". Logo de manhã foi acordada com o marido passando as mãos em seu corpo. Mesmo estando de férias, a empresa onde Carlos trabalha o chamou para resolver uma situação urgente. Perto da hora do almoço, Carlos chega em casa e aperta por alguns segundos o bumbum de Ana. Depois de umas risadinhas e beijinhos, Ana percebe que a vizinha da casa ao lado viu tudo. Só não sabe se a vizinha a viu ficando vermelha de vergonha.

Durante todo o dia, Carlos ia amolecendo Ana com palavrinhas sacanas no pé do ouvido. Desde um "te amo", abraçando-a por trás enquanto cuidava de algumas plantas, indo para um "gostosa", enquanto se preparava para o banho.

"Hoje quero que seja especial", pensou ela no banho. Ana resolveu por seu melhor lingerie. Ficou surpresa ao ver que o marido havia comprado o jantar em um restaurante italiano ali perto. Viu na mesa o excelente vinho que ambos gostavam.

-- Uau, você está lindo... - disse Ana sensualmente ao descer as escadas.

-- Você que está, querida... - ele a encontra no fim da escada e lhe dá um demorado beijo. Ana percebe que ele está usando o perfume que lhe dera no último Natal. Sente um leve arrepio quando Carlos coloca a mão em sua nuca.

Não demorou muito para o casal aparecer no quarto. Em meio a beijos a abraços, eles se levam até à cama, onde a troca de carícias continua. Excitados, começam o longo e prazeroso momento de tirar as peças de roupa um do outro. Toques, carinhos, sussurros provocantes ao pé do ouvido e, enfim, o encontro dos corpos. Momento onde os dois se tornam um. Gemidos, pernas e braços levemente trêmulos e o clímax enfim alcançado.

Vários minutos depois, Ana exibia um leve sorrisinho que não conseguia segurar. Ela observa Carlos, lhe toca a face com uma das mãos e se inclina, recebendo um ardente beijo. Logo depois, ele exclama;

-- Nossa, porque isso é tão bom?

-- Ora querido, se não fosse assim, possivelmente nossa espécie não existiria...

-- Quer dizer que nossa espécie existe pra podermos ter prazer?

-- Não, não é isso... o que eu quis dizer é que, se não fosse por causa dessa sensação, o ser humano não existiria pois ninguém iria procriar sem ter um bom motivo.

-- Quer dizer que procuramos sexo por motivo de procriação?

-- Bom, basicamente sim... - Ana percebe que seu lado científico acabou de disparar e resolve explicar para ele um pouco sobre o assunto (mesmo achando que o momento não seria muito apropriado) - Querido, pense um pouco: a procriação gera um gasto de energia muito grande. Isso sem falar que a mulher carrega o bebê por nove meses dentro da barriga. Pense bem, que indivíduo, em sã consciência, iria ter uma gasto energético absurdo para nada?

-- Ora, nenhuma...

-- Pois é, nenhuma. Por isso a natureza foi criando[1] meios de que as espécies que conseguissem se reproduzir mais facilmente tinham mais chances em relação àqueles que não tinham. Em nós, favoreceu aqueles que iam atrás de fazer 'coisinhas' porque sentiam alguma coisa boa do que aqueles que nem estavam aí pro assunto, já que fazer e não fazer dava no mesmo...

-- Mas então o que acontece com a gente quando estamos...

-- ... quando estamos tendo um orgasmo? - Carlos concorda com a cabeça - bom, o orgasmo nada mais é do que contrações rápidas dos músculos das regiões sexuais. Ele é mediado pelo sistema nervoso autônomo. Esse sistema é responsável pela coisas mais básicas do organismo como, por exemplo, respirar, bater o coração, digerir os alimentos no trato digestivo e, também, reprodutivo. Alguns hormônios, como a ocitocina e a prolactina também aumentam no sangue depois do orgasmo. A ocitocina é responsável, principalmente em dar aquela sensação de prazer em ter alguém por perto. Ele regula, também as contrações uterinas e de ejetar o leite das mamas. Além disso, estimular as mamas ajuda a aumentar a quantidade desse hormônio no sangue - nisso, Ana dá um sorrisinho, se lembrando de algo semelhante, minutos atrás. Carlos percebe o porquê do sorriso.

-- Bom, que tal fazermos você produzir mais um pouquinho de ocitocina, hein?

-- Hum, só você pra querer mais mesmo depois de uma aula dessas... 

-- Sempre tive um fetiche com uma professorinha... - disse com um sorriso levemente sarcástico no rosto. Logo Ana se rende aos beijos de seu amado.

Informações extras:
[1]: O termo "criando"pode desagradar alguns mais puristas com a língua pois na natureza não há um criador que orquestra toda a vida. Sabemos, através de inúmeras evidências observadas em natureza ou em laboratório que essa 'criação' é, na verdade, a seleção natural da teoria da Evolução atuando nos organismos. Bom, agora posso estar desagradando alguns religiosos sobre o assunto envolvente a criação, mas como um blog voltado para a divulgação de Ciências, eu valorizo pelo conteúdo publicado cientificamente.

Imagem por ~Nefertiti-92 em seu deviantART.