A idade da vida, das rochas e da Terra

Somos curiosos quando crianças. Não devemos deixar essa curiosidade morrer quando crescemos. Parafraseando Neil deGrasse Tyson, os poucos que crescem e ainda são curiosos, viram cientistas.

Eu sempre fui uma criança curiosa. Não tanto no sentido de deixar minha mãe com vergonha ao me levar em visita à casa dos amigos dela (apesar de passar algum tempo estudando a estante da pessoa e ver um jeito de abrir a porta ou gaveta sem que as coisas caíssem e denunciassem minha presença), mas curioso do ponto de vista de querer entender porque o mundo era o que era.

Apesar de não-praticante, fui criado em uma família católica[1], e a bíblia era um dos livros expostos em casa[2]. Lá, o Gênesis se fazia presente e lá descobri sobre os ritos de criação do mundo que os católicos e cristãos em geral sabem de cor. Vi as provações que a humanidade e os animais passaram por causa do dilúvio e todas as dificuldades que a fuga do Egito causaram.

Entretanto, fui apresentado a outros livros com o passar do tempo. Esses livros mostravam outras coisas sobre as origens das coisas, a idade das coisas e a composição das coisas. Esses livros de ciências apontavam que a Terra não tinham alguns poucos milhares de anos, nem alguns milhões de anos: tinha bilhões. Esses livros mostraram que os animais e plantas e bactérias nem sempre estiveram aqui: eles tinham outras caras e formas e que passaram por processos evolutivos, como resposta as mudanças sofridas no ambiente.

Talvez, por não ter entendido direito sobre a evolução na época em que li, o que me chamou mais a atenção na época foi sobre a idade das coisas. Os caras sabiam dizer quantos anos tinham os fósseis que eles encontravam, as rochas que eles perfuravam e até mesmo a idade do planeta em que vivemos. Como assim?[3]

Os cientistas que realizam a datação de algum fóssil ou rocha usam do conhecimento científico sobre a natureza física e química que compõe as coisas para realizar esses procedimentos e descobrir a idade do objeto que ele está pesquisando. Um dos princípio-chave que esses cientistas usam é a meia-vida.

Meia-vida e a datação radioisotópica
Antes de tudo: leia as notas de rodapé, elas são importantes!

Nada é eterno na natureza. As coisas sempre mudam. Com os elementos químicos, acontece coisa semelhante. Apesar de alguns elementos químicos serem mais estáveis, muitos deles (sobretudo os radioativos), estão em mudança constante. Isso acontece pelo fato de alguns elementos estarem sempre emitindo energia para o meio externo. Essa energia jogada dos átomos que compõem esses elementos acabam modificando a estrutura física dos átomos, realmente o transformando em outros elementos.

Um dos exemplos mais conhecidos e mais utilizados em alguns ramos da ciência é a datação por carbono-14. O carbono existe em vários formatos na natureza - chamamos de isótopos -, sendo a mais estável (e a mais conhecida) o carbono-12. O carbono-12 possui em sua composição 6 prótons e 6 nêutrons[4] e 98,9% do carbono que existe na natureza é dessa forma. Ele é o que compõe eu, você e tudo que tem carbono nessa vida. Mas existe outros isótopos na natureza, menos comuns, como o carbono-14. Ele possui os mesmos 6 prótons, mas possui 8 nêutrons. Representando uma fração do carbono na natureza, ele ainda é um carbono e pode participar dos processos metabólicos dos organismos vivos.

Diferenças esquemática entre os núcleos dos átomos de carbono-12 e carbono-14. Os prótons (em amarelo) são constantes para cada elemento químico. As diferenças entre os nêutrons (roxo) são os responsáveis pela variedade de isótopos de um elemento químico. Tanto o carbono-12 como o carbono-14 são isótopos do elemento carbono.

O diferencial desse isótopo carbono-14 é que ele é instável. Isso significa que sua composição não permite mantê-lo da mesma forma para sempre. Com o tempo, a energia nesse sistema que mantém todos esses nêutrons a mais no carbono-14 cai naturalmente[5], em um processo radioativo chamado 'decaimento Beta'. Nessa forma de decaimento Beta, o carbon-14 emite radiação beta (nessa caso, um elétron energético) acompanhado de mais uma partícula leve (o antineutrino do elétron), como podemos ver no esquema abaixo:

Esquema do decaimento Beta minus do carbono-14. Com a transformação de um nêutron em próton, o elemento químico muda (já que temos um próton a mais agora), em um processo chamado transmutação nuclear. Assim, o carbono-14 transforma-se em nitrogênio-14, a forma estável do elemento nitrogênio. Nesse decaimento, ocorre liberação de radiação beta, na forma de elétron e de uma partícula chamada antineutrino do elétron.

Não entraremos em muitos detalhes, mas o mais importante aqui é que o carbono-14 transmuta um de seus nêutrons e um próton. Ao fazer isso, o que era seis prótons, passam a ser sete (assim como o que era oito nêutrons, passam a ser sete). Contudo, ao mudar a quantidade de prótons, o elemento químico muda. Assim, durante esse processo de decaimento beta, o carbono-14 se transforma em nitrogênio-14. Ao fazer isso, essa maçaroca de partículas se estabiliza.

Perceberam o que aconteceu aqui? Um elemento químico (o carbono) se transformou em outro (nitrogênio). Agora vem a melhor parte dessa história: apesar desse fenômeno acontecer de forma aleatória em um átomo individual, ele possui uma padrão temporal quando observamos esses átomos de carbono-14 em grupo. Sim, podemos estimar a quantidade do carbono-14 decaindo (virando nitrogênio) ao longo do tempo.

E aí que chegamos na meia-vida! A meia-vida é a quantidade de tempo em que um amontoado de um isótopo radioativo leva para decair e se tornar uma forma mais estável. O carbono-14, por exemplo, tem uma meia-vida de mais ou menos 5.730 anos. Ou seja, quando analisamos uma amostra, por exemplo, verificamos a quantidade de carbono-14 que ela apresenta. Se ela tiver cerca de metade do total que deveria ter, podemos supor que a amostra tem aproximadamente 5.730 anos! Não é demais!

Simplificação das etapas de meia-vida do carbono-14 em uma amostra de interesse. As bolas verdes em destaque do osso amostrado é apenas uma representação, já que não é assim que os pesquisadores estimam o isótopo radioativo da amostra, mas serve de apoio visual. Com o passar do tempo, a quantidade de carbono-14 que decaiu em nitrogênio aumenta, reduzindo a quantidade de carbono-14 na amostra em si. Depois de 5.730 anos, metade do carbono-14 ainda está presente (uma meia-vida). Passados mais 5.730 anos, a metade da metade original decaiu (segunda meia-vida). Isso ocorre de forma intermitente, até atingirmos níveis indetectáveis.

Com isso, podemos usar as diferenças entre a quantidade de carbono-14 esperada e o encontrado em um fóssil, por exemplo, e conseguiremos saber a idade daquilo que estamos trabalhando![6]

O carbono-14 é um dos mais conhecidos métodos de datação por meia-vida conhecidos, mas ele tem uma séria limitação: sua meia-vida é relativamente boa para datações curtas (usados na arqueologia, por exemplo, e em fósseis que suspeitamos serem novos (quando encontramos ossadas de algum cemitério antigo, por exemplo)), mas começa a pecar em datas muito antigas (acima de 40 a 50 mil anos). Além disso, o carbono-14 é sensível a contaminação do mundo moderno (já que testes e acidentes nucleares, por exemplo, podem criar mais carbono-14 em um determinado local do que o esperado, o que pode atrapalhar as análises).

Existem alguns isótopos que decaem tão rápido que simplesmente não podem ser usados para esse fim de datações longas. Alguns isótopos de boro, como o boro-18 (5 prótons e 13 nêutrons) são muito instáveis e decaem por volta de 30 nanossegundos, rápidos demais para serem usados em análises de fósseis e de rocha, por exemplo. Mas existem outros elementos, úteis em análises de rochas, como o plutônio-239 (94 prótons e 145 nêutrons), com meia-vida de mais de 24 mil anos. O urânio-235 (92 prótons e 143 nêutrons) tem meia-vida de mais de 703 milhões de anos, o que é muito útil para determinar com grande precisão a idade de rochas super antigas e até mesmo da própria Terra [7].

Ou seja, com o conhecimento sobre a natureza dos elementos químicos e radioativos, podemos mensurar com alto grau de confiabilidade, a idade das coisas antigas. Com isso, podemos reconstruir o passado da Terra, já que podemos construir um panorama detalhado e relacionar os fósseis que encontramos e colocá-los em uma linha coerente no tempo. Assim, misturando aquilo que eu comecei a entender quando criança com aquilo que ainda não entendia, podemos ver a evolução se formando diante de nós.

Por isso que, quando criança, achei isso uma das coisas mais incríveis que a ciência estava mostrando para mim. Entender a datação radioisotópica e como funciona o conceito de meia-vida, simplesmente metade dos problemas em entendermos sobre o passado da Terra somem.

Na realidade, ainda vejo como uma das coisas mais incríveis que a ciência tem para mostrar para gente! 

Rodapé:
[1]: sim, fiz comunhão e crisma e até mesmo cogitei a possibilidade de me tornar padre.

[2]: lembro de meu avô (in memoriam) lendo diariamente uma versão levemente surrada de uma bíblia que ele deixava exposta em seu quarto. Ganhei dele, na época, uma enorme bíblia, de capa dura preta e com o miolo com as bordas das folhas pintadas de dourado. Ricamente ilustrado, as primeiras dezenas de páginas continham reproduções de grandes obras de arte que ilustravam a vida de Cristo e, mais para o meio, mais ilustrações trazendo a Via Sacra. Com um português antes de 1960, o livro é um desafio para ser lido (mais pelo peso do que pela gramática em si).

[3]: isso surgiu depois de uma saudável discussão no laboratório - o qual eu desenvolvo meu doutorado - sobre várias coisas que os biólogos e o pessoal da ciências da vida adoram debater: sobre doenças, evolução e como as coisas são o que são. Num dado momento, estávamos falando sobre a idade das coisas e como isso tudo se encaixa na evolução. Nesse momento, me vi novamente na infância, com algum livro na mão descobrindo tudo isso.

[4]: apenas para refrescar a memória: os prótons são os responsáveis por identificar o elemento químico. Assim, o carbono sempre vai ter o mesmo número de prótons, independente do seu isótopo. Assim, o que determina as diferenças nos isótopos é a quantidade de nêutrons que ele possui.

[5]: existe toda uma explicação na física de partículas sobre essa perda de energia. De forma simplificada, ocorre uma mudança na força fraca, que mantém a estrutura atômica coesa. Com a mudança da força fraca, a quantidade dos quarks que compõem os nêutrons mudam, mudando-os para prótons. Durante esse processo, ocorre uma perda de energia em forma de partícula que, no caso do carbono-14, é liberado um elétron e um antineutrino de elétron.

[6]: o caso do carbono-14 é especial, já que sua forma estável é o nitrogênio-14, que é gasoso. Ou seja, ele não fica na amostra que estamos trabalhando. Contudo, os níveis de carbono-14 na natureza são estáveis (eles são gerados quando o nitrogênio recebe radiação cósmica em altas altitudes, por exemplo). Esse carbono é absorvido pelas plantas e entra no ciclo orgânico. Os animais mantém o carbono-14 ao ingerir as plantas ou animais que se alimentaram de plantas com carbono-14. Assim, ele se mantém estável e podemos mensurar a quantidade esperada em uma amostra. Ao morrerem, o carbono-14 para de ser reposto no organismo, e assim podemos estimar a data do fóssil baseado na quantidade restante de carbono-14 ainda detectável no organismo, quando comparamos com o níveis esperados se ele tivesse morrido na hora da análise.

[7]: a idade da Terra foi calculada usando dados tanto de amostras coletadas em diversos pontos do planeta como amostras que vieram das missões Apollo à Lua. Como a lua e os planetas (incluindo a Terra) tem origem na mesma massa de poeira que circundava o Sol, uma fonte externa ao planeta garantiu melhor veracidade aos dados, onde os cientistas descobriram que a Terra tem cerca de 4,54 bilhões de anos de idade.

Imagem que abre a postagem por Fruitmixer em seu deviantART. Demais imagens produzidas por mim, Wesley Santos, para o Do Nano ao Macro e protegidas por CC.

Precisamos ser velas!

"Ciências acima de tudo, educação acima de todos". Cartaz durante manifestação pela educação em Bauru, SP.

Os últimos anos têm sido difíceis para a educação e para a ciência nacional. Cortes e restrições orçamentárias cada vez mais violentas tem tornado cada vez mais difícil ensinar e aprender no Brasil. O ano de 2019 mostrou que o ruim poderia ficar pior. Alegando queda na arrecadação, a educação no Brasil sofreu uma contingenciamento que, somado aos sucessivos cortes anteriores, tem tornado a prática de fazer ciência no Brasil insustentável.

"Girls just wanna have funding for science"
(Garotas querem investimento para ciência), cartaz
brinca com a famosa canção de Cindy Lauper onde
garotas querem apenas diversão. Queremos diversão,
mas queremos dinheiro para pesquisas também.
O Ministério da Educação (MEC) repassou um corte de cerca de 30% para as universidades, restringindo os valores para pagamentos como água, energia e pesquisa. Somado a isso, houve corte no número de bolsas CAPES de todos os programas de pós-graduação do país. As bolsas, que aguardavam ser transferidas para novos alunos que entravam no mundo da pós-graduação, foram congeladas e não podiam ser passadas para frente. Com isso, muitos pesquisadores e novos cientistas encontraram mais um obstáculo, o financeiro pessoal, como limitador para a formação de novas mentes[1].

Clamando por maior visibilidade e apontando para o erro em não investir na ciência e educação, dia 15 de maio de 2019 foi realizado uma manifestação nacional em prol da educação e da ciência. Em mais de 100 cidades de todos os estados brasileiros, alunos, professores, pesquisadores e todos aqueles que sabem da importância da ciência e educação foram às ruas.

Em Bauru, interior de São Paulo, onde desenvolvo meu doutorado, milhares de estudantes (estimativa de 10 mil) do ensino médio e das duas universidades públicas estaduais (USP e UNESP) foram às ruas centrais da cidade, somado à professores e outras categorias. Acompanhei brevemente a concentração e os primeiros movimentos dos manifestantes, o que trouxe um breve lampejo de esperança, sabendo que ainda há pessoas que acreditam na importância da educação em nossos dias.

Ao contrário do que disse o presidente Jair Bolsonaro, o qual chamou os manifestantes de 'idiotas úteis' e 'massa de manobra', a manifestação a favor da educação mostra justamente que é preciso mais desses movimentos para mostrar, tanto à população como ao próprio presidente, a importância da educação tanto para o nosso dia-a-dia, como para a formação das pessoas como cidadãos em uma sociedade em constante mudança.

"Em defesa da ciência, o caminho contra a alienação #15demaio", cartaz na manifestação pela educação em Bauru.

Cortar investimentos em ciência e educação é colocar as pessoas à mercê de aceitarem vozes de autoridade sem questionamento, de voltarmos a acreditar em coisas tão pífias como terra plana ou que vacinas fazem mal[2]. De passarmos a aceitar que o código de Hamurabi[3] deveria voltar a ser aplicado em nossa sociedade. Até mesmo de acharmos que existem pessoas mais iguais a outras pessoas[4]. Só a educação e o conhecimento permitem abrir nossas mentes e vermos que o mundo pode ser muito mais estranho e maravilhoso do que querem mostrar para gente.

Precisamos ser cada vez mais as velas que iluminam os cantos escuros da ignorância e do misticismo. Só o conhecimento pode nos mostrar o brilhante futuro que podemos ver à frente.

Cartazes em protesto contra os cortes e restrições no orçamento para a educação e ciência.

"Não fazemos balbúrdia, fazemos ciência"

"Eu luto pela pesquisa"

Rodapé:
[1]: sem contar que as bolsas não sofrem reajuste há mais de cinco anos, sendo mantidas, até o momento, com 1,8 mil e 2,2 mil reais para pós-graduando em mestrado e doutorado, respectivamente.

[2]: esses movimentos, que crescem a cada dia, mostram em como estamos voltando no tempo.

[3]: a famosa máxima 'olho por olho, dente por dente'.

[4]: recomendo o excelente 'A Revolução dos Bichos', de George Orwell.

Informações:
Com notícia de G1 e sobre Bauru também. Imagens feitas por mim, protegidas por CC. Se você se reconheceu ou reconheceu alguém nas fotos, entre em contato.

O futuro do Universo

Em 'Interestelar', a equipe de efeitos especiais utilizou de equações e dados de observação para construir o melhor modelo de um buraco negro até então. Provavelmente o futuro do Universo residirá em uma competição ferrenha de buracos negros ao longo de bilhões de anos. O Gargantua, nome do buraco negro no filme, é resultado de uma versão mais maquiada e menos poluída da 'realidade', mas os dados que eles obtiveram com a construção do modelo foram tão boas que um artigo científico sobre o assunto foi publicado em 2015.

Como será o último instante de vida do Universo? Será que ele acabará com um grande colapso ou será sutil? Acabará em chamas ou no mais completo gelo?

Desde quando começamos a entender mais sobre a física do Universo e entender que o Big Bang, evento que culminou no Universo o qual vivemos hoje, se mostra uma melhores formas de explicar uma porção de coisas[1], esse tipo de questionamento saiu do puramente metafísico e ganhou o status de ser cosmologicamente válida. Afinal de contas, se o Universo teve um começo, que se iniciou há 13,8 bilhões de anos, é sensato pensar que ele ainda está envelhecendo e que coisas poderão acontecer com ele no futuro.

Mas que tipo de coisas? Quando será esse futuro?

Essas questões é que movem as cabeças dos cosmólogos e dos astrofísicos teóricos. Apesar de nossa compreensão da física ter crescido enormemente ao longo do último século, muita coisa ainda é desconhecida por nós. A falta de informações que nos mostra um panorama mais "real da realidade" acaba trazendo dificuldades para que possamos entender como será o futuro do Universo[2].

Mas isso não significa que não podemos tentar.

Apesar de nosso conhecimento limitado, a humanidade conseguiu acumular um grande volume de dados apenas olhando para o céu noturno (e mandando alguns brinquedinhos para o espaço).

O vídeo abaixo, uma compilação animada (e muito bem feita) mostra o que sabemos sobre como será o derradeiro fim do Universo. Observe que as escalas de tempo se tornam cada vez mais impossíveis de serem compreendidos pelo ser humano, a ponto de que o tempo perde completamente a importância, já que eternidades se passarão para que alguns eventos ocorram.

Legendas em português disponível nas configurações do vídeo.

Com o que temos até o momento é possível criar uma possível história para o fim do Universo, cheio de coisas estranhas e com muita ação, encerrando de forma sutil e gélida.

Quanto mais conhecimento tivermos daqui para a frente, melhor será nosso entendimento sobre o passado do Universo, como ele é atualmente e como será o futuro dele. Para tanto, não podemos parar de olhar para cima, quebrar a cabeça para entendê-lo e, até mesmo, usar a nossa boa imaginação para contemplar o nosso lar cósmico.

Bons céus!

🔭🌌

Rodapé:
[1]: a ideia do Big Bang veio a partir dos trabalhos do sueco Georges Lemaître com seu 'ovo primordial'. Os dados que surgiam na época mostravam que o Universo estava em expansão, visto que as galáxias estavam se afastando mutualmente uma das outras. Lemaître propos que, no passado, todas elas estariam mais próximas e, no passado mais distante, elas estariam todas juntas em um único ponto, o 'átomo primordial'. Naturalmente a hipótese, com o passar do tempo, ganhou adeptos e foi sendo refinada. Hoje, a teoria do Big Bang explica uma gama de fenômenos observados no universo, desde a radiação cósmica de fundo em micro-ondas e existência do hidrogênio. Apenas o surgimento do universo nesse tipo de evento sustenta o observado atualmente.

[2]: as principais limitações que envolvem entender o Universo (tanto o passado como o futuro) residem em nossa ignorância sobre a energia escura, uma energia hipotética que se espalharia por todo o espaço e permitiria explicar a expansão acelerada do Universo (já que o Universo está se expandido a uma taxa acelerada, ou seja, algo está empurrando cada vez mais essa expansão). O problema da energia escura é que ela surge apenas para explicar as observações atuais sobre o Universo e, até o presente momento, nunca foi vista diretamente ou nada do tipo. Outro problema é justamente sobre a geometria do Universo (qual a forma dele). Apesar do senso comum apontar para um universo esférico, a matemática aponta mais de uma possibilidade de forma (além da esférica, teríamos uma em forma de sela de cavalo ou plana). E a forma do universo é de extrema importância para sabermos como será o futuro dele.

Imagem que abre a postagem aqui.

O melhor em 2018!


Em algum ponto do Universo observável, dentro de Laniakea*, vamos em direção ao Grupo Local que fica dentro do Superaglomerado de Virgem. Nesse ponto, existe uma galáxia espiral com quatro braços. Em um desses braços, com milhares de estrelas, uma não se destaca em relação as demais, apesar de formas de carbono que evoluíram em um pequeno planeta ao redor dessa estrela a considerarem como a coisa mais importante. Essas formas de carbono, primatas em sua essência, desenvolveram um sistema cultural e comportamental complexo, a ponto de entender um pouco sobre as coisas ao seu redor e até mesmo inferir explicações sobre o universo onde vivem.

Esses humanos, formas derivadas de primatas ancestrais, comemoram toda vez em que seu planeta, uma pequena rocha orbitando a pequena estrela amarelada dentro dessa galáxia de nome bonitinho e cheio de contexto histórico**, completa um ciclo de translação.

Apesar das nossas comemorações parecerem algo totalmente sem sentido quando vemos ‘mais do alto’***, a espécie humana que habita praticamente todos os pontos do planeta Terra vivenciam tantas situações, que temos o ambíguo sentimento de querer recordar e, ao mesmo tempo, deixar o passado para trás e pensar nas novas coisas que encontraremos pela frente.

A virada de um novo ano para nossa espécie é mais do que simplesmente pular um dia para o outro. Representa fechar portas e abrir outras. Deixar o ar pesado e puxar ares mais frescos em nossos pulmões. Nossa psicologia é complexa demais para deixar esse evento de lado. Por isso, apesar de parecer sem sentido, acabam fazendo muito sentido para nós.

Nossa espécie sempre encontra coisas novas todos os anos. Que área mais instigante que da ciência e da tecnologia para nos mostrar isso. Como de hábito, reuni as principais notícias relacionados ao mundo da ciência, desde notícias de saúde, computação e astronomia nessa super retrospectiva da ciência 2018. Os links das notícias estão entre chaves. Vamos lá?



No começo do ano a OMS resolveu mudar o protocolo de vacinação para dengue, devido ao número de casos de dengue hemorrágica em pessoas vacinadas que não tinham contraído a doença antes. Agora, apenas pessoas que já tiveram a doença podem ser vacinadas [1]. E, graças a campanhas de antivacinação, uma comunidade nos Estados Unidos sofre com surto de catapora em crianças [2].

O mundo dos tratamentos médicos teve avanços como a liberação nos EUA de um novo medicamento para enxaquecas crônicas [3] e de uma nova pomada brasileira para picadas de aranha-marrom [4]. Ainda assim, a OMS coloca a saúde mundial em risco ao endossar a medicina alternativa, como método equivalente à medicina tradicional [5].

Os casos de ebola voltaram a assombrar a Rep. Dem. Congo, com diversas mortes, trazendo preocupações para ONGs assistenciais [6]. No Brasil, diversos casos de Doença de Chagas oral foram relatados ao longo de 2018, mostrando que a doença ainda está longe de ser combatida no país [7]. Também no Brasil tivemos o incrível surto de toxoplasmose em Santa Maria, RS, atingindo centenas de pessoas. Os pesquisadores apontaram que a água da cidade estava contaminada [8].

Finalizando as principais notícias de medicina e saúde em 2018, tivemos a publicação do artigo contando sobre o primeiro bebê a nascer depois de um transplante de útero de uma doadora morta [9]. Pesquisadores descobriram também que abusos sofridos por crianças podem deixar marcas permanentes em seu DNA, o que implica que podem ser passados para as gerações futuras [10]. E foi descoberto que não há níveis seguros de consumo de álcool, onde até mesmo pequenas doses podem trazer problemas para a saúde [11], assim como a proposta de especialistas de que cabecear bolas de futebol podem trazer traumas para o cérebro [12].



Começamos revirando o passado biológico da Terra, com a descoberta do fóssil de crocodilo mais antigo do mundo [1] e do fóssil de baleia com mais de 30 milhões de anos [2], seguido pela descoberta de que os neandertais já usavam ferramentas para produzir fogo [3].

Já atualidade, o mundo ficou chocado com a notícia de uma mulher na China deu a luz crianças que tiveram seu DNA editados pela revolucionária técnica de CrisprCas9. Os cientistas chineses fizeram as meninas serem naturalmente imunes ao HIV. Apesar do trabalho ainda não ter sido publicado, a pesquisa já trouxe inúmeros questionamentos éticos. Inclusive, o pesquisador desapareceu depois de dar uma entrevista no país [4, 5, 6, 7]. Em outubro outro grupo chinês já havia anunciado o nascimento de camundongos oriundos de dois pais e duas mães [8]. Finalizando as novidades na pesquisa biológica experimental, foi realizada esse ano também a primeira clonagem de células de primatas [9].

Os felinos foram os destaques desse ano, infelizmente não tanto da forma como gostaríamos algumas vezes. Pesquisadores dizem que restam menos de 300 onças na Mata Atlântica [10]. E registros raros também foram feitos, como da onça-parda com leucismo sendo feito na Serra dos Órgãos [11] e de uma pantera negra no cerrado [12].

E a nossa mania de causar desiquilíbrio na natureza tem seu preço: aumenta a infestação de escorpiões pelo país, sobretudo no interior de São Paulo, provocando acidentes e mortes [13] e uma baleia com seis quilos de plástico no estômago é encontrada morta na Indonésia [14]. Além disso, a ararinha-azul, famosa no filme de animação Rio é declarada extinta na natureza. Os espécimes agora só são vistos em zoológicos e centros de conservação [15]. Somado a isso, morreu o último rinoceronte branco macho no Quênia [16] e também Koko, a famosa gorila que havia aprendido a língua de sinais [17], que fez o mundo aprender mais sobre eles e sobre nós mesmos.



Um campo que nunca decepciona em trazer novidades e emoção é a astronomia. Nesse ano, a sonda InSight pousou com sucesso em Marte, para delírio dos pesquisadores. Seu objetivo é investigar a geologia do planeta [1, 2]. E o planeta vermelho ainda atrai os olhares da humanidade. O rover Curiosity fotografou um objeto brilhante no planeta vermelho [3] e novas pesquisas apontam para a presença de água líquida no planeta [4]. Infelizmente nem tudo são flores: depois de uma tempestade de areia, o rover Opportunity não respondeu mais aos comandos da NASA e a agência espacial pensa em abandoná-la [5].

A NASA também encerrou as atividades do incrível telescópio espacial Kepler, que expandiu nossos conhecimentos sobre exoplanetas [6]. E a agência divulgou no fim desse ano que a Voyager-2 finalmente chegou ao espaço interestelar, sendo o segundo objeto a alcançar o feito, depois de sua irmã Voyager-1 [7]. Finalizando toda as aventuras na astronáutica, ainda temos a aproximação da sonda Osiris-Rex ao asteroide Bennu [8].

Já no campo das descobertas astronômicas, os cientistas descobriram que a nossa galáxia provavelmente tinha uma irmã que foi engolida pela galáxia de Andrômeda [9] e que um buraco negro descoberto gira tão rápido que o próprio espaço ao redor também gira [10]. E, mais recentemente, um novo planeta mais distante dentro do sistema solar foi descoberto, há mais de 120UA (Unidades Astronômicas, onde cada 1UA equivale a distância média da Terra ao Sol, 150 milhões de quilômetros) [11]. Encerrando as descobertas desconcertantes, um novo mapa 3D do Universo confunde os pesquisadores e traz mais dúvidas que respostas [12].

Encerrando a área da astronomia e espaço, não poderia faltar o espetacular feito marqueteiro que Elon Musk fez em 2018, ao usar um dos mais potentes foguetes já feitos pela SpaceX, o Falcon Heavy para lançar um carro Tesla com um boneco vestido de astronauta no espaço! Apesar de supérfluo, o feito rendeu ótimas imagens e momentos fan-service, como o painel do carro estar escrito ‘Don’t Panic!’ e dentro do porta-luvas ter uma edição do Guia do Mochileiro das Galáxias [13].



O mundo atômico se fez presente nesse ano, com breves notícias como a descoberta que os prótons possui uma altíssima pressão em seu interior [1]. E na busca pela compreensão da física das massas, físicos criam em laboratório massa negativa [2] e uma nova teoria busca explicar o restante da matéria do universo [3]. E os chineses redefinem a constante gravitacional [4].

Mas, talvez, a notícia mais legal desse ano nesse campo foi a inauguração do novo e lindão acelerador de partículas brasileiro, o Sirius. Um dos mais modernos do mundo, ele auxiliará os físicos na busca em compreender o interior do átomo [5].



A Inteligência Artificial (IA) foi, mais uma vez, assunto do momento na computação. Começamos pela incrível capacidade da IA do Google em manter conversas com pessoas reais pelo telefone, imitando até mesmo trejeitos naturais de uma pessoa [1], sem contar na capacidade do Google de conseguir extrair vozes individuais em uma multidão [2]. Outra gigante que está entrando no mundo da IA é a Nvidia, famosa pelas placas de vídeo para computadores. Voltado para o mundo visual, a IA da Nvidia já consegue reconstruir fotos antigas e danificadas sozinha [3] e até mesmo criar rostos coloridos tridimensionais [4]. Contudo, infelizmente, as facilidades da IA podem ser usadas para coisas não muito boas, como a criação de deepfakes, onde rostos de personalidades e políticas são inseridos ou manipulados e inseridos em montagens pornográficas ou dizendo coisas que não falaram na verdade [5]. Apesar disso, tirando todos os problemas éticos e de privacidade envolvidos, a polícia chinesa conseguiu encontrar um foragido em meio a 60 mil pessoas usando IA após analisar câmeras de vídeo [6].

O mundo do entretenimento também se fez presente esse ano: ficamos boquiabertos com a notícia de que ‘Vingadores: Guerra Infinita’ precisou de quase 100 mil HDs de 1 TB cada para armazenar todos os efeitos visuais utilizados e produzidos no filme [7]. E, de forma curiosa, o sistema antipirataria utilizado por desenvolvedores de jogos foi quebrado antes mesmo do jogo ser lançado oficialmente [8]. E uma grave falha em praticamente todos os processadores lançados nos últimos anos se mostrou uma grande dor de cabeça para os fabricantes [9].

E esse ano foi aconteceu o escândalo do vazamento e uso inapropriado de dados de quase 100 milhões de usuários do Facebook, que enviou diversos tipos de informações para a empresa Cambridge Analytica. Esses dados foram usados para disparar e manipular informações tendenciosas em campanhas eleitorais americanas [10, 11]. Outra dor de cabeça aconteceu com os usuários do app de paquera gay Grindr, que tiveram seus dados sobre serem HIV-positivo para empresas terceiras sem consentimento [12]. Outra informação curiosa é a mineração de dados impressionante que o Google consegue fazer a partir de usuários de celulares Android. O número de dados que consegue obter a partir desses celulares é 50x maior do que os obtidos por celulares iPhone, da Apple [13].

Finalizamos com o trágico acidente entre um carro autônomo da Uber e uma pedestre nos EUA. Ainda em fase de testes, o veículo não interpretou a presença de uma pedestre na rua como sendo um obstáculo real e acabou atropelando a pessoa. Os testes foram interrompidos por um tempo [14, 15]. E uma startup que prometia um aparelho que realizava inúmeros exames médicos se mostrou uma farsa sem tamanho [16].



O presidente americano Donald Trump diz não acreditar no relatório gerado pela própria Casa Branca sobre as mudanças climáticas e nos impactos no futuro do planeta [1]. Além disso, as mudanças propostas pelo governo de Emmanuel Macron não agradou os franceses. Propondo aumentar o preço dos combustíveis como uma forma de amenizar a liberação de gases de efeito estufa, o país passou por grandes protestos dos famosos ‘coletes amarelos’ [2]. Enquanto isso, um relatório pede que brasileiros consumam menos carne afim de amenizar os efeitos da produção de carne no clima [3]. Enquanto discutimos sobre todos esses aspectos e pesquisadores precisam lidar com negacionistas do clima, o permafrost fica cada vez mais fraco e regiões no ártico não conseguem mais ter o solo congelado mesmo no inverno [4].

As ações humanas fizeram a Terra perder cerca de 60% dos seus animais apenas nas últimas décadas, o que mostra o impacto de nossa espécie sobre as demais [5]. Outra notícia que chamou a atenção foi um iceberg com bordas perfeitas na Antártica. A imagem do iceberg retangular correu o mundo [6].

Já no nordeste brasileiro, um cupinzeiro gigante de 4 mil anos foi descoberto por pesquisadores [7]. Ainda no Brasil, a greve dos caminhoneiros que atingiu diversos estados teve um efeito curioso e previsível na maior cidade do país: o índice de poluição reduziu em São Paulo durante os dias em que os caminhões não trafegaram nas vias da cidade [8].

Finalizamos as notícias de nosso planeta mostrando que novas linhas em Nazca, no Peru foram descobertas [9] e, incrivelmente, um caminhoneiro resolveu passar por cima de várias das famosas linhas, danificando os desenhos milenares [10].



O ano foi dominado por notícias sobre a séria crise de investimentos que o país está passando na área de ciências. Os cortes massivos de recursos nessa área estão cada vez mais preocupantes, fazendo pesquisadores no Rio apelarem para vaquinhas para obter dinheiro para continuar a conduzir as pesquisas [1], sem contar os alertas públicos que o CNPq e Capes, os principais órgãos de fomento da ciência nacional estão fazendo sobre a falta de dinheiro para 2019 para o pagamento de bolsas e de investimentos. Marchas para a ciência organizados pelas redes sociais aconteceram em algumas cidades do Brasil neste ano. [2, 3, 4, 5].

E, naturalmente, o fazer ciência está cada vez mais comprometido, tanto com as possibilidades de pesquisas sérias contra o HIV serem interrompidas pelo presidente Trump [6], como pela exploração de pós-doutorandos estrangeiros nos EUA [7], passando por fraudes em publicações científicas envolvendo células-tronco [8] e até mesmo desvio das escassas bolsas da Capes [9].

Fechamos o assunto com o nascimento do Instituto Questão de Ciência, que visa combater a pseudociência que se instala cada vez mais na sociedade atual, sobretudo em áreas importantes do governo, como a saúde [10]. Além disso, ficamos surpresos pelo imperador japonês, aos 84 anos de idade, ainda publicar artigos científicos sobre peixes, área o qual se especializou [11]. Fantástico!


Esse ano duas notícias mereceram destaque extra em relação ao maior e mais reconhecido prêmio do mundo. Pela primeira vez em 55 anos, uma mulher é agraciada com o Nobel de física [1] e, devido a casos de escândalo sexual envolvendo membros da Academia Sueca, o prêmio Nobel de Literatura desse ano não foi anunciado. Acredita-se que dois prêmios serão oferecidos em 2019 [2].



O ano de 2018 também foi de grandes perdas para a humanidade. Homens e mulheres importantes que influenciaram o mundo de diversas formas deixaram a saudade e seus méritos para trás.

Alan Bean,
quarto homem a pisar na Lua [1];

Evelyn Berezin,
criadora do primeiro processador de texto moderno [2];

John Young,
astronauta [3];

Ruth Nussenzweig,
percursora nos estudos com vacina contra a malária [4];

Stan Lee,
desenhista e criador de icônicos personagens da Marvel [5];

Stephen Hawking,
cosmólogo inglês [6, 7, 8].



O ano de 2018 entrou para história como o ano em que perdemos parte do nosso passado. O começo de setembro viu a história do Brasil e do mundo virar fumaça e cinzas com o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro. O acervo de 20 milhões de itens contava com registros únicos da história humana e biológica, desde itens indígenas latino-americanos passando por relíquias egípcias e por fósseis tão importantes como Luzia, a primeira brasileira. Embora parte do acervo seja recuperado, o que perdemos no contexto de conhecimento e de informações é imensurável [1, 2, 3, 4, 5].

O ano no Brasil também foi marcado pelas eleições. A vitória de Jair Bolsonaro à presidente do país acendeu o alerta para a possibilidade de afrouxamento da legislação ambiental. Contudo, Bolsonaro convidou o primeiro astronauta brasileiro Marcos Pontes para assumir o Ministério da Ciência, o que agradou alguns especialistas [6, 7, 8].

Outras notícias que correram o mundo em 2018 foi a curiosa situação dos cães farejadores americanos que perderam o emprego em alguns estados onde a maconha é permitida [9]. No Brasil, um garoto brinca com onças e a foto agitou as redes sociais, muitos achando que não passava de uma montagem [10]. Nos Estados Unidos novamente, 16 enfermeiras de um mesmo hospital ficam grávidas quase ao mesmo tempo [11]. O astrofísico Neil deGrasse Tyson foi acusado de assédio sexual por mulheres no EUA [12].

Doze crianças e um técnico de futebol ficaram presos em uma caverna na Tailândia após uma chuva ter fechado a entrada da caverna. Em um esforço internacional, todos foram resgatados com vida [13]. Gravuras rupestres no Xingu são destruídas [14] após visita de pesquisadores ao local e pesquisa mostrou que o shoyu brasileiro quase nada tem de soja e a maior parte dele é feito de milho [15].

Finalizando a sessão de notícias extras que foram importantes no mundo da ciência, temos a descoberta da máscara mais antiga já encontrada [16] e de um navio grego de mais de 2 mil anos encontrado bem conservado no fundo do mar [17].

* * *

Espero que tenha gostado de relembrar os principais eventos da ciência em 2018. Foram 112 notícias espalhadas em nove temas principais. Como sempre, coisas boas e coisas ruins aconteceram, portas foram fechadas e portas foram abertas. Nos resta torcer para que novos ares entrem em nosso mundo em 2019.

Feliz 2019 a todos, com muita ciência e informação! 😉

Rodapé:
*: Laniakea (céu imensurável em havaiano), é o nome dado ao superaglomerado de galáxias, o qual engloba vários aglomerados e grupos de galáxias, sendo uma das maiores estruturas do universo conhecido.

**: Via Láctea, do latim ‘via lactea’, representa a visão dos povos antigos ao associar a mancha que aparece no céu noturno, causada pelas milhares de estrelas que ficam indistinguíveis a olho nu, a um caminho de leite no céu. Os povos antigos forneciam diversas explicações sobre o fenômeno, sendo a da cultura grega a mais conhecida atualmente, de que Hércules que estava sendo amamentado por Hera enquanto ela dormia. Assim que acordou, Hera afastou Hércules de sua mama, jorrando o leite pelo tecido do espaço.

***: e, na verdade, são bem nada a ver. 🤷

As imagens presentes nessa publicação estão disponíveis nas fontes citadas ao longo da publicação.

Sobre animes e corpo humano

"Olá, trouxe a sua encomenda de oxigênio de hoje".

Nos úiltimos anos, tenho me interessado cada vez mais em animes, os famosos desenhos animados japoneses[1], indo um pouco na contramão da maioria das pessoas, que preferem séries de TV que existem aos montes nas Netflix da vida.

Apesar dos animes serem material de entretenimento, os japoneses são especialistas em nos surpreender[2]. Acompanhando as ondas de lançamentos que ocorrem todos os anos no Japão[3], saiu recentemente o anime Hataraku Saibou (はたらく細胞), ou Cells at Work! (células em trabalho), do mangaká Akane Shimizu. Nesse anime, baseado em um mangá do mesmo nome, acompanhamos as aventuras das mais diversas células e estruturas do corpo humano em seus trabalhos. As hemácias, células de defesa, neurônios e tudo mais que existe dentro da gente foram antropomorfizados em típicos personagens de anime, os quais desempenham suas funções seguindo aquilo que a ciência conhece sobre elas.

Olha as simpáticas plaquetas (kesshouban (血小板). 💙
Assim, vemos as hemácias (em japonês sekkekkyu (赤血球))[4] fazendo a principal função: transporte de gases (o oxigênio e gás carbônico). Para tanto, as numerosas hemácias usando suas roupinhas vermelhas carregam caixas e caixas contendo o gás para as mais diversas partes do corpo. Temos também os glóbulos brancos (hakkekkyu (白血球)) com sua função principal, que é caçar e matar agentes estranhos ao corpo.

Com as explições esporádicas de uma narradora, as mais diferentes células do corpo são apresentadas, os quais suas funções são explicadas e por que elas possuem aquele comportamento.

Apesar de ser um anime que tem como função principal o entretenimento, o anime é bem-vindo para apresentar informações interessantes sobre o funcionamento do corpo humano. Tanto que escolas estão usando imagens do anime para complementar as aulas sobre o sistema imune e coagulação, por exemplo[5].

Ficou curioso? A primeira temporada completa já saiu e você encontra oficialmente no Crunchyroll ou em outros sites por aí...



Rodapé:
[1]: o anime (em japonês アニメ), é todo e qualquer desenho animado oriundo do Japão ou que possui traços típicos japoneses. Não confundir com mangá (漫画) que significa, literalmente, história em quadrinhos. Os animes e mangás são os meios os quais os desenhos são produzidos, sendo o último geralmente impresso, em histórias em quadrinhos mesmo. Muitos animes são baseados em mangás, mas nem todos. O famoso anime 'Kimi no na wa.' (君の名は。, literalmente 'Seu Nome' ou 'Your Name', como ficou conhecido do grande público fora do Japão), de Makoto Shinkai é um exemplo oposto, o qual foi lançado o filme primeiro e uma versão em mangá foi produzido depois.

[2]: a cultura e o modo de viver dos japoneses pode (e na verdade consegue) surpreender os ocidentais. Séculos de desenvolvimento cultural afastados dos ocidentais, com pensamentos e modos de construção da sociedade totalmente diferentes do nosso, é sensato sentir um choque quando você é apresentado à cultura da Terra do Sol Nascente.

[3]: os animes, geralmente, saem em temporadas no Japão. São famosas as temporadas de inverno e verão, os quais a imprensa japonesa fala bastante, já que é um produto muito consumido no país.

[4]: as técnicas de romanização, ou seja, transformar o idioma japonês em uma variante com alfabeto latino possui algumas regras. No caso, quando se dobra uma consoante depois de uma vogal (no caso da hemácia em japonês), isso indica ao leitor que, na verdade, o som da vogal (a letra E, no caso, que está antes do duplo K) deve ser mais pronunciado, ou seja, mais longo. Ou seja, a gente falaria sekekiu, mas puxando mais os Es durante a pronúncia.

[5~]: na realidade, os produtores do anime liberaram imagens para serem usadas de forma livre em aulas . Veja aqui.

Imagens obtidas aqui.