[resenha] Maus

Ao fundo, o campo de concentração de Auschwitz, talvez o mais conhecido entre os campos de concentração da Segunda Guerra. No pico da guerra, o local recebia carregamentos diários de judeus em trens, em vagões de carga como da foto, abarrotados de homens, mulheres e crianças. Nem todos conseguiram sair vivos de lá. Parte da história de Maus acontece atrás daquelas paredes ao fundo.

A história da humanidade é um instrumento poderoso a qual podemos vislumbrar o passado, ver os erros e acertos e entender o porque do mundo atual ser o que é. Apesar da história trabalhar com o passado, ela nos permite fazer suposições sobre o futuro, já que a humanidade tem a péssima mania de não aprender direito com os erros do passado.

Existem várias formas de classificar a história: a maioria segue a tradição clássica, em cinco partes: Pré-História, História Antiga, Média, Moderna e Contemporânea[1]. Já outras pessoas podem dividi-la em apenas duas partes. As pessoas que a dividem assim não deixam de estar erradas, já que o marco da divisão é, de fato, um evento que marcou o mundo profundamente. Para elas, existe uma humanidade antes e uma humanidade depois da Segunda Guerra Mundial.

A Segunda Guerra Mundial (2GM) foi um dos maiores conflitos armados da história da humanidade, com um dos maiores eventos de logística do mundo, deslocando mais de 100 milhões de soldados para diversas partes do mundo, com uma das maiores baixas entre militares e civis, com pelo menos 50 milhões de mortos[2] entre 1939 e 1945.

Provavelmente todos nós já ouvimos e estudamos um pouco que seja da história da 2GM e como os números podem nos impressionar pela grandiosidade. Assunto de inúmeros livros e documentários, a 2GM é um retrato da história muito bem conhecida e trabalhada. Mas, ainda assim, muitas vezes, esses números e esses registros não trazem para perto de nós a sensação de que era ter vivido essa época.

É aí que entra toda a sensibilidade e a destreza de Spiegelman, que traz o sofrimento e as histórias de seu pai judeu como prisioneiro de guerra durante a 2GM. Ele nos conta como era a vida na Polônia antes da guerra e como foi principalmente ter a sensação da morte sempre por perto e de como essa sensação ia crescendo a cada dia, assim como a fome e a perda dos entes queridos.

O autor se utiliza de sua maior habilidade para trazer essa história para nós: através de quadrinhos. Retratando os judeus como ratos (maus, em alemão) sempre fugindo dos nazistas caricaturados como gatos, Artie (como é chamado o autor pelo próprio pai na HQ) consegue fazer a gente se questionar em como tudo aquilo foi possível de ter acontecido. Pior, como alguém consegue sobreviver a tudo aquilo e chegar a contar sua história de vida para a posteridade.

Mas, o que realmente impressiona, e sinto isso principalmente na segunda parte da HQ[3], é que a Guerra mexeu não apenas com quem a viveu, com que a sentiu em suas entranhas e mentes. Ela mexe com todos ao seu redor. Inclusive com quem nasceu anos depois do terror.

Artie usa de uma metalinguagem absurdamente bem encaixada na HQ, em que ele se desenha conversando com o pai, em que ele mostra os dilemas e os problemas em conversar com seu pai, que mistura os eventos da Guerra com as coisas que acontecem na época em que o autor montava as memórias para criar a própria HQ. Isso se soma aos problemas aos quais o autor sofre, já que ele mesmo pensa se seria honrado ele ter a vida que tinha pois não tinha sofrido uma ínfima parte daquilo que seus pais haviam passado.

Assim, Artie traz para gente a clara sensação de que, de certa forma, a Guerra foi um evento traumático demais para ficar presa em uma única geração. Até os filhos e vizinhos de quem sofreu com a guerra também sofrem. O autor brinca que seu pai é um tanto caricato, a versão do judeu muquirana que não abre mão de gastar 20 centavos a mais para ter uma coisinha um pouquinho melhor. Mas, a sensação que se tem, é que isso não é gratuito. Ele não é assim por ser assim: ele aprendeu que ser assim é melhor. Ao longo da leitura isso vai ficando claro como a água (apesar de Artie discordar desse exagero de seu pai).

A HQ é um convite para sentirmos na pele uma pequena fração do que os judeus passaram durante o Holocausto na 2GM. Várias vezes eu parava a leitura no meio e sentia um arrepio na espinha só de imaginar aquele cenário que o pai de Artie viveu[4: com spoiler]. A perda de amigos e familiares, a sensação de que nada mais daria certo, as pequenas esperanças ao encontrar alguém disposto a ajudar[5] e, principalmente, a constante sensação da fome e de que aquele dia seria o último da pessoa incomodam e nos faz sempre ter em mente do sofrimento que foi esse triste registro da história.

Mas com certeza é essa sensação que o autor quer deixar para gente: de que ninguém ganha com a Guerra. Suas marcas e suas cicatrizes ficam para sempre na memória e no corpo e até mesmo quem não viveu a Guerra as sente diariamente.

Recomendo a leitura, sobretudo para quem se interessa sobre a história das guerras mundiais. É um complemento humano que vai além dos números de soldados, do número de vítimas e de dias que levaram para a guerra chegar ao fim. Lembre-se: essa obra não ganhou o Pulitzer à toa.

Maus
Art Spiegelman
296 páginas
Companhia das Letras, 2009.

Você encontra em lojas online e físicas.







Rodapé:
[1]: a tradição clássica, que orienta a maioria dos estudos de história, coloca a Pré-História como sendo o período do surgimento da humanidade (sobretudo da cultura humana) até a invenção da escrita (datada por volta de 4 mil AeC). Então entramos na Antiguidade, com o alvorecer e queda de grandes civilizações antigas, desde egípcias, gregas, babilônicas e persas. O fim da Antiguidade se dá em 476 DeC, com a queda do Império Romano Ocidental. Em seguida, Idade Média, com o aumento populacional e o mundo europeu dominado pela relação feudal entre susseranos e vassalos. Termina em 1453, com a queda do Império Romano do Oriente, depois da queda de Constantinopla pelos turcos. Já a Idade Moderna mostra as grandes explorações e o desenvolvimento do modelo capitalista. O Renascimento das artes e ciência e a Revolução Francesa são dessa era, que encerra essa idade em 1789. Já a última Idade, a Contemporânea é a qual vivemos hoje. Vemos o desenvolvimento da indústria, dos motores e dos meios de transporte. Viajamos para a Lua e dominamos tecnologia avançada e foi marcada por guerras mundiais e por conflitos na África, além do desenvolvimento da medicina e da erradicação de doenças.

[2]: baseado em estimativas mais conservadoras. Talvez nunca saberemos o número exato (ou o mais próximo possível), visto que muitas pessoas (famílias e comunidades inteiras) foram exterminadas e sequer deixaram algum tipo de registro.

[3]: a HQ saiu em duas partes, em anos diferentes de lançamento. A versão que li, e a mais fácil de achar, é a versão completa, com as duas partes reunidas em um único volume.

[4]: ❗ essa nota de rodapé contém spoiler: uma parte que talvez nunca me esqueça é de quando o pai de Artie diz, quando estava no campo de concentração, que ele precisava ir ao banheiro durante a noite. O banheiro ficava no subterrâneo, onde os corpos eram jogados. Ele tinha que pisar por cima dos corpos magros e das cabeças escorregadias para chegar ao banheiro. Ele temia e chorava ao pensar que no dia seguinte alguém poderia estar passando e pisando em cima dele da mesma forma.

[5]: como podemos ver depois, ninguém ajuda ninguém realmente. Sempre é preciso pagar pela ajuda.

Com imagem por alanbatt no Pixabay.

[resenha] Darwin Sem Frescura

A Teoria da Evolução, ao contrário das demais teorias científicas, é atacada constantemente pelas pessoas justamente por não compreenderem exatamente sobre como a teoria vê a vida na Terra como também por tocar em assuntos delicados demais para as pessoas, como a nossa relação com os demais animais da Terra.

Um assunto difícil de se tratar, até mesmo entre os que estão envolvidos com ele, é a Evolução[1]. A Evolução é uma teoria científica que, apesar de ter um caminhão de evidências ao seu favor, ainda encontra muita resistência entre as pessoas. Muito dessa resistência vem do fato da evolução, quando começamos a ler sobre ela, a mexer com algumas ideias pré-concebidas que temos, que adquirimos geralmente dos pais ou da sociedade. Questões como a origem da vida e da diversificação dos humanos a partir de um ramo dentro dos primatas são coisas que podem chacoalhar a visão de mundo de algumas pessoas.

Contudo, outro grande problema da evolução é que, querendo ou não, ela não é tão simples assim de entender de primeira. Como parte da ciência, ela tem seus termos e detalhezinhos cheios de complicação que pode afastar um pouco mais ainda as pessoas.

Com isso em mente, o grande Reinaldo J. Lopes (doidinho por coisas do Tolkien e da Terra-Média (e repórter divulgador de ciência, of course)) e o Pirula (sim, ele mesmo, o youtuber divulgador de ciência e de outras coisinhas mais, especialista em zoologia), se uniram para trazer um belo livro que, como o título já diz, tenta trazer as ideias e o desenvolvimento da teoria proposta por tio Darwin de uma forma mais simples de entender para o leitor.

Mas já adianto: eles não deixaram de falar de assuntos complexos e, em alguns casos, polêmicos que envolvem a evolução. Mesmo trazendo esses assuntos, o leitor não sai com a sensação de que coisas importantes foram deixadas de lado, afim de valorizar a simplicidade. Tanto é que o livro me traz a sensação de ser uma espécie de introdução aos assuntos que ele aborda, já que cada capítulo é recheado de referências a livros e artigos científicos sobre o assuntos que foram abordados, de forma a induzir o leitor a ir atrás das fontes originais e aprender mais por conta própria.

Tanto é que, a medida que lia, percebi que o livro acaba sendo uma ótima fonte de consulta rápida para algum assunto voltado para a evolução tanto por conta da facilidade de ler e entender o texto, como pelas referências que estão lá, esperando para serem consultadas. Sou biólogo, mas meu foco não é evolução. Mas como biólogo, é preciso sempre estar por dentro da evolução, já que ela permeia todo o entendimento da vida como a conhecemos[2]. Foi bom ler eles tratando sobre cladística, genética e assuntos tão complexos como homossexualidade e a evolução dos hominídeos, além de temas como extinções em massa e desenvolvimento da ética e da moral em um texto rápido e agradável de ler.

Para quem é da área de biológicas, considero o livro um bom local para atualizar seus conhecimentos em evolução e reforçar a argumentação quando o assunto vier a tona. Para não biólogos, o livro pode ser lido sem problemas, já que a linguagem acessível e a explicação constante dos termos, ajudam o leitor a não perder o fio da meada. Tanto é que, quem está mais por dentro do assunto, a linguagem simples usada pela dupla pode até parecer um tanto chata, mas não se engane: eles tiveram um puta trabalho para trazer essa simplicidade para os assuntos complexos os quais eles abordam ao longo das cerca de 240 páginas.

Se você acabou de chegar na Terra e nunca ouviu falar de evolução, ou já sabe mas quer aprender mais, recomendo fortemente aprender sem frescuras o que a evolução nos ensina sobre a vida na Terra e sobre nós mesmos.

Darwin Sem Frescuras
Pirula e Reinaldo J. Lopes
240 páginas.
Editora Harpen Collins. 2019.

Você encontra o livro nas melhores livrarias físicas e online. Como não tenho nenhum link de livraria ou coisa do tipo, e fiz a resenha depois de alguns amigos perguntarem sobre o livro, com certeza não estou ganhando nada em cima dessa publicação. 😅




Rodapé:
[1]: já adianto que, ao contrário do senso comum, a evolução biológica nada tem a ver com a ideia de melhoria, aperfeiçoamento, ideal. A evolução nos mostra em como os organismos (seja ele quais forem) mais bem adaptados tendem, em média, sobreviver por mais tempo e ter mais descendentes que aqueles que não estão tão adaptados assim. Essas adaptações são inerentes aos indivíduos que, com o passar do tempo, se tornam mais frequentes na população (ou seja, se o indivíduo (ou grupo de indivíduos) possui alguma leve vantagem em algum mecanismo útil, a frequência dessa vantagem pode aumentar com o passar do tempo na população, se tornando comum entre eles. Facilidade em metabolizar determinado alimento ou simplesmente correr um pouquinho mais rápido já são vantagens adaptativas que podem ser fixadas na população.

[2]: e até a da vida que não conhecemos. A busca por vida alienígena é um grande desafio para os cientistas, já que a única referência de vida que temos (e olha que nem sabemos como defini-la ainda) é a que temos na Terra. Mas muitos pesquisadores concordam que a vida, independente de onde esteja ou como seja, siga a evolução darwiniana, já que os recursos na natureza são finitos e provavelmente haverá competição entre eles quando os organismos estão confinados em um espaço limitado.

Imagem que abre a postagem vista primeiro em Nautilus. Imagem interna do livro feita por mim.

10 anos Do Nano ao Macro

Usei essa mesma imagem no aniversário de um ano do Do Nano ao Macro. Nunca pensaria que voltaria a vê-la (e usá-la) para comemorar o décimo aniversário. Veja a postagem de um ano aqui.

O que você estava fazendo há 10 anos? Bom, se nada em especial aconteceu com você nesse dia, você provavelmente dirá que foi mais um dia normal. Talvez não se lembre fez tempo firme ou se caiu alguma chuva. Pode ser que você estivesse viajando, estudando para alguma prova ou simplesmente tirado o dia para sair ou namorar alguém.

Há 10 anos, em 2009, eu era mais novo (naturalmente). Era uma época em que trabalhava em uma farmácia em minha cidade e me preparava para o vestibular. Contudo, exatos dez anos atrás, em 27 de setembro de 2009, eu lembro exatamente o que estava fazendo: olhava para a tela do Blogger e lá ficava um cursor de texto piscando despreocupado na tela. Ao lado do cursor piscante, estava a pergunta: Nome do blog.

Me lembro de ficar vários e vários minutos pensando sobre o assunto. Pedi ajuda à minha mãe e, para alegrar minha irmã novinha, a ela também.

Queria um nome o qual evocasse o que é realmente a ciência: um corpo de conhecimento que permeia nossa compreensão acerca das coisas que nos cercam, desde o mundo do muito pequeno, até o mundo do muito grande. A ciência consegue vislumbrar coisas menores que os átomos e passa por estruturas tão grandes como superaglomerados de galáxias. O nome tinha que ter esse poder de sair do nano e ir para o macro.

Do Nano ao Macro.

Naturalmente, não tem como abordar temas tão díspares como átomos e galáxias, fósseis e geologia, evolução e bioquímica. Sou formado em biologia e mestre em doenças tropicais. Sempre toquei o site - que seguiram caminho também no Facebook, Instagram e Twitter - sozinho (e, às vezes, com os pitacos e colaborações de minha namorada, a Livinha). Portanto, dizer que o intuito era abordar tudo que existe chega a ser presunçoso. Mas, como um site de divulgação científica, queria passar a imagem que a ciência pode ter essa presunção de fazê-lo, já que ela permeia por todos os cantos.

Ao longo dessas 10 voltas que a Terra deu ao redor do Sol, muita coisa mudou, tanto aqui no site como fora dele. O desenho do site mudou, mudando logotipo e cores. Ganhou ares no Facebook, onde o mundo da ciência roda a um ritmo alucinante e consigo compartilhar notícias relevantes por lá - além de memes, vídeos e outras coisinhas para passar o tempo, já que ninguém é de ferro. Essas mudanças seguiram aquelas que aconteceram fora do site, graças principalmente ao maior consumo de informação rápida e que seja feito em qualquer lugar. Lembre-se, há 10 anos, a internet no celular ainda estava engatinhando e o principal consumo era pelo computador.

Mudanças realizadas ao longo dos 10 anos do blog. Alterações tanto no visual como no estilo de escrita e de conteúdo.

E cá estamos, 10 anos depois, mais de 460 publicações e 400 mil visualizações no site. A ciência não deixou de ser atual. Na realidade, ela é o centro das atenções em muitas questões atuais, desde os cortes orçamentários até os avanços que são feitos no campo da medicina e espacial. Contudo, mesmo na era da informação, estamos às voltas com pessoas dizendo que a Terra é plana e que vacinas são maléficas.

A minha ideia principal de fazer o Do Nano ao Macro 10 anos atrás foi de ajudar os divulgadores de ciência online na época - muitos dos quais acabei conhecendo melhor pela internet e no mundo real também - a divulgar e propagar ciência, que estava sendo poluída por pseudociências e conteúdos falsos.

E, nesse ponto, parece que isso foi a única coisa que não mudou em 10 anos.

Mas não é motivo para desânimo. Os elogios que recebo de forma esporádica aqui no site como em comentários no Facebook dão o gás para mostrar que aquele conteúdo complicado, aquele assunto que parece distante da pessoa, foi transposto para a mente dela e ela saiu com uma informação nova, uma informação que ela levará para a vida.

Agora me parece que 10 anos é muito pouco tempo para ajudar as pessoas a entender da importância da ciência para a sociedade, para a indústria, para a alimentação e para as nossas vidas.

Espero ter mais ânimo ainda para continuar por mais 10, mais 10 e mais 10 anos. Quantos anos forem precisos para divulgar essa bela dama de quase cinco séculos de idade e que nos permite compreender desde o mundo do muito pequeno até o mundo do muito grande.

A ciência.

A todos que me ajudaram de forma direta ou indireta a construção e o aprimoramento dessa caminhada que marcou meus últimos 10 anos… obrigado.

Imagem que abre a postagem por vonzilla em seu DeviantART. Capturas de tela do blog obtidos pelo Wayback Machine - Internet Archive.

[SORTEIO] 10 anos Do Nano ao Macro


É sério: nunca pensei que estaria aqui, na frente do computador, escrevendo uma publicação comemorando os 10 anos do Do Nano ao Macro. Ao longo dos anos, o site sempre teve minha atenção especial (e a página no Facebook também, onde sempre compartilho notícias, imagens e vídeos voltados para a ciência). Naturalmente há momentos em que a vida real bate mais forte e colocava ele um pouquinho de lado, mas nunca desisti dele.

E cá estamos, comemorando 10 aninhos de vida, com mais de 400 publicações, mais de 300 mil acessos ao longo desse tempo, mais de 3 mil curtidores na página na empresa do senhor Zuckeberg e bastante feliz por ver que chegamos depois de tanto tempo até aqui.

Naturalmente não poderia deixar de comemorar com vocês e partilhar parte da minha felicidade com os seguidores, curtidores e todos aqueles que caem às vezes aqui no site depois de alguma busca curiosa nos motores de busca internet afora.

Por isso, para comemorar 10 anos do Do Nano ao Macro, ao melhor estilo ‘o aniversário é nosso, mas o presente é seu’, vamos sortear um kit com 10 incríveis itens. É isso mesmo, uma pessoa vai levar 10 coisinhas bacanudas de uma vez.


Vou descrever brevemente os itens que estão no sorteio e que você vai levar de uma vez: Um bottom com tema 'Pilares da Criação'. É um belo bottom com uma imagem super colorida da nebulosa da Águia, cerca de 7 mil anos-luz daqui para você prender na sua bolsa, mochila ou qualquer lugar legal para você sempre andar por aí. E se você gosta do observar o céu noturno, você terá o auxílio de um belo planisfério, feito especialmente para os observadores no Brasil. Basta você ajustar data e horário aproximados no planisfério e pronto, os nomes dos principais pontos luminosos no céu aparecem para você, podendo identificá-los no céu noturno muito mais facilmente.

Além desses dois itens, o kit do sortudo vai receber ainda oito livros, entre livros de ciência e divulgação, além de HQs de ciências e ficção científica (já que a gente precisa se divertir mais um pouquinho ainda, né?). A gente começa falando do 'A Terra em que vivemos', livro do Dr. Rodolpho Caniato, em que apresenta textos e atividades que irão auxiliar o entendimento em ciências para o público leigo. Já o biólogo Rafael Rigolon, nos presenteia o excelente 'A pronúncia do latim científico', essencial para sabermos como se fala corretamente aquele nome científico complicado daquele animalzinho ou planta. Outro livro é uma breve biografia de Galileu, um dos pilares da ciência moderna. Escrito por Steve Pinker, 'Galileu e o universo' vem com ilustrações e nos conta sua vida e as suas observações de Júpiter e suas luas. Outro livro, apesar de ser mais lúdico e voltado para o público infanto-juvenil, é um encanto: 'Ver por dentro do corpo humano' é um belo livro escrito por Luann Colombo, com destaque para o corpo humano no centro, em que vamos descobrindo (literalmente), a cada página virada.

Já no mundo das HQs temos o imenso prazer de trazer duas belas obras: a primeira é 'Darwin no Brasil', produzida por Flávio de Almeida. Nela, vemos ilustrado os principais momentos de Charles Darwin em nosso país e suas impressões durante sua viagem com o Beagle. O segundo é a bela obra 'O método científico', escrito pelo Dr. Leopoldo de Meis, com ilustrações de Diucênio Rangel. Nela, conhecemos o avanço do saber e como chegamos ao conhecimento científico atual, graças a nossa metodologia científica. E, para fechar, duas HQs de ficção científica cheias de graça. Baseado no blockbuster Star Wars, o kit irá com as histórias e ilustrações de Jeffrey Brown: 'A princesinha de Vader' e 'Darth Vader e filho'. Afinal de contas, nós sabemos que apesar dele ser do lado sombrio da força, ele não deixa de ser um excelente pai.

O livro 'A Terra em que vivemos', o planisfério e o bottom são presentes obtidos em parceria com o Observatório Didático Astronômico “Lionel José Andriatto”, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) de Bauru, São Paulo. Um abraço especial para a Sione Rodrigues, que me ajudou com o aquisição dos presentinhos e ao Prof. Dr. Rodolfo Langhi, responsável pelo observatório, sempre solícito para com todos que conversam com ele.

Se você passar por Bauru, interior de São Paulo, visite o Observatório. O local sempre está com alguma atividade aberta ao público, desde observação do céu noturno até a venda de livros, pôsteres e outras coisinhas para os amantes do espaço. É claro que vocês podem acompanhar as atividades do Observatório tanto no site, como no Facebook e Instagram. No canal Futura (na internet no Futura Play) e TV Unesp vocês podem acompanhar o Astrolab, curtas em que o Observatório traz um pouco do Universo para dentro de sua casa. Vamos ajudar a divulgar a ciência e a divulgação de ciência em nosso país!

Além disso quero agradecer imensamente ao Rafael Rigolon que nos mandou gentilmente uma cópia do 'A pronúncia do latim científico' para esse sorteio. Ele mantém o excelente e fantástico 'Nomes Científicos', página no Facebook e Instagram onde ele mostra a origem e a evolução de muitas palavras que usamos no dia-a-dia, além de dicas de pronúncia do latim que são uma verdadeira mão na roda científica. Curtam, pois vale muita a pena.

Tudo muito legal, mas como faço para participar?


Viu como é simples para participar? Coloque os dados no formulário abaixo e envie para nós. Lembrando que, como o sorteio é aberto ao público em geral, criamos algumas regrinhas básicas para que tudo aconteça da melhor forma possível, evitando qualquer tipo de problemas.

Apenas lembrando que você só pode participar uma única vez.



O sorteio será realizado no dia 27 de setembro de 2019 e o resultado será divulgado no mesmo dia, nas redes sociais e por aqui. Nas regras gerais estão os detalhes de como entraremos em contato e o envio do kit do sorteio.

Qualquer dúvida, deixe seu comentário aqui na publicação ou entre em contato na aba de contato abaixo do título do site.

Boa sorte!

Imagens utilizadas para divulgação obtidas em Pixabay, com uso livre pelos autores.

O que sabemos sobre eclipses?


A série especial do blog ‘O que sabemos?’, visa adentrar um pouco mais sobre um determinado assunto, afim de compreender um pouco mais sobre o que está sendo abordado. Dessa vez, depois de algum tempo sem novidades, vamos esmiuçar um pouco mais sobre um dos fenômenos da natureza mais curiosos, mais temidos e que mais chamam a atenção das pessoas: o eclipse.

Falar de eclipse e dizer que é apenas a passagem da Lua na frente do Sol (eclipse solar) ou que a Terra projeta uma sombra na Lua (eclipse lunar), apesar de estar correto, traz uma simplicidade absurda e esconde toda a história e toda a física por trás deste belo fenômeno. Vamos entender um pouco mais sobre a história dos eclipses, como eles são formados e por que não os vemos todos os dias. Ao longo do texto coloquei algumas notas de rodapé. Elas são importantes para complementar a informação, mas sem poluir tanto o texto principal. Espero que gostem das imagens que montei, deram um trabalhão fazê-las, mas elas nos ajudam a compreender melhor sobre o fenômeno.

Dragões, deuses e antiguidade
A palavra eclipse chegou até nós vindo do latim, com origem grega ἔκλειψις (lê-se ekleipsis), que significa ‘ser ocultado, ser deixado para trás’.

Contudo, antes da acepção mais conhecida da palavra, o eclipse era um fenômeno que causava um certo pavor e admiração nas pessoas. Os céus tinham seus fenômenos que ocorriam normalmente quase todos os dias e quando algo perturbava esse suposto equilíbrio celeste, muito provavelmente algo de errado estava acontecendo (seja com os deuses e entidades que viviam lá em cima, seja com as pessoas que viviam na Terra). Quase todos os povos antigos tinham explicações curiosas sobre os eclipses, como os egípcios que acreditavam que Rá, inimigo do deus Sol, ficava entre ele e sua amante, a Lua, impedindo que sua luz chegasse até ela. Já os chineses e alguns povos asiáticos acreditavam que um dragão (ou serpente) engolia os astros que estavam sendo eclipsados e, depois de algum tempo, eles eram regurgitados e voltavam a aparecer nos céus - para alívio das pessoas.

Mas, um dos relatos mais antigos de eclipses com embasamento histórico conhecidos é a famosa Batalha de Hális, também conhecida como Batalha do Eclipse. Nesse evento, que ocorreu provavelmente em maio de 585 AeC, os lídios e os medos[1] estavam em uma guerra que durava seis anos. Durante uma incisiva batalha entre os dois povos, Heródoto em seu ‘Histórias’, nos conta que a batalha não estava inclinada para favorecer nenhum dos lados e que, durante o calor da batalha, “o dia virou noite”.

Conta-se que os dois povos acreditaram na hora que os deuses estavam mandando um sinal de que ocorresse uma trégua e que a paz fosse assinada. E foi realmente que isso aconteceu: o temor dos homens que estavam em campo, assim como dos reis dos dois povos, fizeram assinar um acordo de paz, o qual os filhos dos reis se casaram e o rio Hális (hoje chamado de rio Quizil-Irmaque, na atual Turquia) foi definido como fronteira entre os dois povos.

Heródoto nos diz ainda que Tales de Mileto, filósofo grego pré-socrático, previu a ocorrência desse eclipse tempos antes. E isso nos mostra que, apesar do temor de que algo de muito errado estaria acontecendo nos céus, os eclipses começaram a serem vistos como algo previsível, decorrente de fenômenos naturais que aconteciam no cosmos.

Sabe-se que há mais de 2 mil anos antes da Era Comum, os chineses já estudavam e compreendiam a previsibilidade dos eclipses e os gregos, como Pitágoras e Aristarco, já usavam os eclipses para apontar a curvatura da Terra, entendendo que durante o eclipse lunar, a sombra da Terra era projetava na Lua[2].

Contudo, como veremos mais para frente, foi ficando claro que os fenômenos dos eclipses solares e lunares tinham uma relação e que era possível prevê-los com base nas observações feitas. Mas para que possamos compreender mais sobre os eclipses, é preciso entender primeiro o que acontece normalmente com o Sol e com a Lua para depois vermos sobre como esses corpos celestes se comportam durante os eclipses.

O dia-a-dia…
Na imensa maioria dos dias que vivemos, o céu segue um padrão bem conhecido: um período claro seguido de um período escuro. Tirando as condições meteorológicas, como nuvens, chuvas e neve, podemos ver de forma destacada dois corpos no céu: o Sol e a Lua.

Até o presente momento, sabemos que a Terra orbita ao redor do Sol. Sua órbita segue um plano bem definido denominado eclíptica (imagine a eclíptica como se fosse uma mesa plana em que a Terra usa como base para poder girar ao redor do Sol sem oscilar para cima e para baixo. Esse seria o plano da eclíptica). Esse será nosso primeiro infográfico, que mostra o comportamento dos corpos celestes em nosso cotidiano.

Infográfico sobre a Lua no dia-a-dia. Clique para ampliar.

Enquanto a Terra gira ao redor do Sol seguindo a eclíptica, o mesmo ocorre com a Lua orbitando ao redor da Terra. O fato curioso aqui é que a órbita da Lua com a Terra tem uma leve inclinação em relação à eclíptica, de pouco mais de 5º.

Pode até parecer pouco essa inclinação, mas considerando a distância da Lua em relação à Terra e do tamanho da própria Lua, esses cinco graus são mais que suficientes para colocá-la em uma posição longe o suficiente da eclíptica. Se não houvesse essa inclinação, nunca veríamos uma Lua cheia da Terra, já que sempre que ela estivesse na posição para a Lua cheia (na imagem 1, lua C), a sombra da Terra cobriria a Lua.

Detalhe sobre as fases da Lua, visto nos dois hemisférios terrestres. Clique para ampliar.

Graças a essa inclinação, a Lua consegue escapar da sombra da Terra e podemos ver todas as fases daqui. Assim, quando a Lua está entre a Terra e o Sol (lua A), temos a Lua nova. A medida que a Lua se desloca em sentido anti horário, teremos a Lua crescente (lua B), seguida da Lua cheia (C), caminhando em seguida para a Lua minguante (lua D), voltando novamente à Lua nova[3].

A Lua durante o eclipse…
Por causa da inclinação, como vimos, a Lua não se encontra no mesmo nível da eclíptica e podemos vê-la sempre.

Bom, na maioria das vezes, sim. Mas tem vezes que não.

A inclinação de 5,14º da órbita da Lua em relação à eclíptica deixa claro uma coisa: ela precisa atravessar a eclíptica alguma vez, já que o centro da órbita é o planeta Terra e o nosso planeta está na eclíptica. Na maioria das vezes, nada de impressionante vai acontecer quando a Lua atravessar o plano da eclíptica.

Mas existem momentos em que a Lua está exatamente no mesmo alinhamento de Terra e Sol (linha dos nodos)[4]. Quando este alinhamento acontece no plano da eclíptica, temos o tão famoso eclipse.

Infográfico detalhando os alinhamentos dos corpos celestes durante o eclipse. Clique para ampliar.

Na imagem acima, podemos ver o eclipse ocorrerá apenas quando ocorrer um alinhamento entre os três ocorrer em poucos momentos do ano, durante a passagem da Lua pela linha dos nodos.

Naturalmente, os eclipses solares e lunares, apesar de ocorrerem com os mesmos corpos celestes, são eventos diferentes um do outro. Isso ocorre devido a posição que estes estão nos céus durante esses eventos, sobretudo da Lua.

Detalhes sobre a mecânica celeste durante os eclipses. Clique para ampliar.

Quando temos a Terra entre Lua e Sol, o nosso planeta projeta uma sombra pelo espaço o qual a Lua passará. Como a Lua deixa de receber a luz do Sol a qual ela reflete, temos o eclipse lunar.

Já quando é a Lua que está entre Terra e Sol, temos a seguinte situação: apesar da Lua ser cerca de 400 vezes menor que o Sol, o Sol está muito mais distante. Com isso, durante a passagem da Lua na frente do Sol (para nós, observadores da Terra), a Lua consegue cobrir o disco solar de forma completa[5], eclipsando o sol. Nesse momento, temos o eclipse solar.

Eclipse lunar
Como disse acima, os eclipses são eventos astronômicos que possuem diferenças entre eles, com participação importante da Lua no desenrolar desses eventos. Contudo, nem sempre o eclipse da Lua será total, onde ela toda é encoberta pela sombra da Terra. O que vemos é resultado de onde estamos na Terra durante o eclipse e, principalmente, qual a área do espaço pela qual a Lua irá passar.

O Sol, apesar de estar distante, é um corpo celeste enorme e sua luz se espalha para todas as direções. Quando essa luz encontra um corpo como a Terra, a porção não iluminada projeta atrás de si uma sombra, que é a denominação de uma área sem luz. Mas a trajetória da luz de um corpo tão extenso acaba competindo com as áreas sombreadas. Essa área de ‘meia-luz’, recebe o nome de penumbra.

Características de um eclipse lunar e suas configurações. Clique para ampliar.

Assim, na hora em que acontece o eclipse, o local onde estamos na Terra e a trajetória da Lua sobre a penumbra e a umbra (sombra) são determinantes para dizer se veremos um eclipse total, parcial ou até mesmo se não veremos um eclipse.

Infográfico detalhando a formação da Lua de Sangue.
Clique para ampliar.
Na imagem acima, os personagens 1 e 5 não poderão ver o eclipse, já que a Lua ou já se pôs no momento em que o eclipse acontece ou a Lua ainda não nasceu para ele e quando a Lua aparecer no céu, ela já terá saído da trajetória da sombra da Terra. Já o personagem 2 poderá ver quase todo o eclipse, mas a Lua irá se por antes do seu fim. O mesmo acontece com o personagem 4, que verá quase todo o eclipse, menos o seu começo, já que ela já havia começado antes da Lua aparecer no horizonte. O mais privilegiado será o personagem 3, que conseguirá ver todo o desenrolar do eclipse, do início ao fim.

Durante o eclipse lunar (sobretudo o total), a superfície da Lua iluminada pelo Sol vai sendo encoberta pela sombra da Terra. A medida que isso ocorre, o ofuscamento da luz vai diminuindo, já que há menos luz chegando na superfície lunar e o contraste do que estamos vendo aumenta. Ao ponto máximo do eclipse lunar, a lua pode ganhar uma cor avermelhada (a famosa Lua de Sangue (Blood Moon)), provocada pela dispersão da luz solar pela atmosfera terrestre, onde as cores avermelhadas são mais orientadas para a Lua.

Eclipse solar
Enquanto o eclipse lunar ocorre quando a Lua atravessa a trajetória da sombra da Terra, no eclipse solar é a Lua que projeta uma sombra na superfície terrestre, já que ela fica entre nós e o Sol. Novamente, dependendo de onde estamos será determinante para vermos o eclipse solar, seja total ou parcial. É claro que é preciso ser dia claro para que ocorra, já que durante a noite o Sol já terá ido embora ou nem tenha nascido ainda.

Os tipos de eclipses solares e detalhes sobre a observação. Clique para ampliar.

Na imagem acima, os nossos personagens 1 e 3 estão presenciando apenas o eclipse parcial, já que estão em pontos na Terra em que apenas uma porção do Sol é encoberto pela Lua. Já o personagem 2 é o que poderá assistir o evento de forma completa, do início ao fim.

Contudo, mesmo dentro do eclipse total solar, ele pode ser de dois tipos: o total, o qual a Lua encobre totalmente o Sol, e o que vemos é a coroa solar, uma aura de plasma emanada pelo Sol, responsável em grande parte pelo brilho da estrela e que tem mais de um milhão de graus de temperatura. Observar esse fenômeno só é possível graças ao eclipse total, já que o brilho do Sol no dia-a-dia impossibilita de ver a coroa solar[6].

Já o segundo tipo de eclipse solar é o anular, o qual o disco lunar é insuficiente para cobrir completamente o disco solar, formando um eclipse em forma de anel. Apesar de ambos acontecerem na mesma situação, o qual a Lua encobre o Sol, a diferença entre os dois reside pelas distâncias as quais os corpos celestes então no momento do evento.

Há situações em que a Lua está em máxima aproximação da Terra, enquanto o Sol está em mínima aproximação[7], fazendo o tamanho aparente da Lua ser maior, o suficiente para cobrir completamente o Sol. Já há situações em que o Sol está em máxima aproximação e a Lua está em mínima aproximação, e a Lua não tem tamanho aparente o suficiente para cobrir o Sol, formando o eclipse anular.

Previsibilidade e o ciclo de Saros
O conhecimento da mecânica celeste permite prever quando e onde os eclipses ocorrerão. No passado, apenas baseado nas observações, os gregos, chineses e árabes conseguiam prever em que dia determinado eclipse iria ocorrer. Hoje, com a ajuda dos computadores calculando diversas variáveis, desde a ação da gravidade e força de marés, conseguimos prever com exatidão de segundos a hora exata do eclipse e qual é o melhor lugar da Terra para estar para observá-lo. Claro que, assim como acontece no clássico de Isaac Asimov[8], os eclipses mais próximos possuem as previsões mais certeiras.

Desde a época dos babilônios, remontando mais de 500 AeC, foi notado uma certa regularidade entre os eclipses. Graças ao registros da época, percebeu-se que existia um ciclo o qual os eclipses aconteciam. Esse mesmo padrão foi percebido pelos gregos, como Hiparco e Ptolomeu. A famosa máquina de Anticítera, um computador analógico grego datado do primeiro século antes da Era Comum, tinha por finalidade realizar cálculos astronômicos, astrológicos e incluía o cálculo para sazonalidade dos eclipses. Apenas em 1691 que o astrônomo Edmund Halley formalizou o conhecimento sobre os ciclos dos eclipses e usou o nome de saros, nome usado como unidade de medida entre os babilônios.

Eclipses solares que seguem o Saros 127.
Hoje, os saros são períodos de 18 anos, 11 dias e 8 horas (6585,3 dias) os quais eclipses semelhantes estão relacionados a um mesmo ciclo. Por exemplo, em 2 de julho de 2019 aconteceu o eclipse solar total (foi parcial para os observadores no Brasil, já que como vimos na imagem acima, estávamos em uma posição menos favorável para a observação). Um eclipse solar total, muito parecido com este último, ocorreu em 21 de junho de 2001, pouco mais de 18 anos antes. Um eclipse solar total semelhante ocorrerá 18 anos para frente deste último de 2019, em 13 de julho de 2037.

Mas isso não quer dizer que próximo eclipse solar vai acontecer em 2037. No dia 26 de dezembro de 2019 teremos um eclipse solar anular e em 21 de junho de 2020 também teremos outro.

O que acontece é que cada eclipse está dentro de um ciclo de Saros e vários Saros estão acontecendo ao mesmo tempo. O eclipse de julho de 2019 pertence ao Saro ciclo 127. O eclipse de dezembro de 2019 está no ciclo 132 e o eclipse de junho de 2020 está no ciclo 137.

Em cada Saro acontece aproximadamente 70 a 80 eclipses (solares ou lunares, já que existem calendários de Saros próprios para o eclipse lunar e solar). Um Saro começa com o primeiro eclipse em um dos polos do planeta e, a medida que os eclipses dentro de um mesmo Saro ocorrem, o local onde o ponto máximo do eclipse ocorre vai se deslocando para o outro polo do planeta, onde se encerra. Cada ciclo de Saros pode levar mais de 1400 anos para se completar. Para se ter uma ideia, todos os eclipses que estamos vendo atualmente são um dos quase 40 ciclos de Saros, sendo o ciclo 117 que começou no ano 792 DeC e vai até 2054 até o ciclo 156, que começou em 2011 e vai até 3237.

Por isso pode haver a confusão, principalmente da mídia, de que quando um eclipse ocorre, os jornalistas dizem que o próximo irá ocorrer depois de tantos anos, justamente pelo fato de que, o eclipse com características semelhantes (pertencente ao mesmo ciclo de Saro) realmente irá acontecer daqui a 18 anos, mas outro eclipse de um outro Saro irá acontecer normalmente, mas em outra parte do mundo ou de forma diferente do anterior. Apenas isso.

Por isso, sempre é bom consultar as tabelas e calendários de eclipses que estão disponíveis na internet para descobrir de forma segura onde e quando ocorrerá determinado eclipse. Com as vantagens de sabermos com precisão sobre os eclipses, você pode até programar suas viagens de turismo para vislumbrar os eclipses em outros pontos do planeta.

Como observar os eclipses?
Bom, ao “longo deste longo texto” vimos os tipos de eclipses e como é a mecânica celeste básica para que eles ocorram. Naturalmente, como não precisamos mais acreditar que um eclipse é o fim do mundo, podemos aproveitar o momento para observá-lo, desde para fins de estudo e compreensão até mesmo para momentos de diversão.


A observação dos eclipses podem ser simples, mas exigem cuidados, principalmente para a observação do eclipse solar. Mesmo durante o eclipse parcial, o Sol ainda emite muita luz e energia para a superfície terrestre e sua observação direta pode prejudicar os olhos e equipamentos de fotografias, digitais ou não.

Os telescópios e lunetas só devem ser usados para observação de eclipse solar (e do Sol em si) apenas com o uso de filtros especiais que são acoplados no instrumento com essa finalidade. Câmeras fotográficas também podem queimar os filmes (câmeras analógicas) e danificar os sensores (digitais) se forem apontadas diretamente para o Sol.

O uso de películas de disquetes, CD’s, filmes fotográficos revelados e imagens de raios-X, apesar de escurecer e oferecer algum conforto para a observação, são desaconselhados para a observação do eclipse, já que eles não são projetados para absorver os mais diversos tipos de radiação que o Sol emite além da luz visível, como a radiação ultravioleta, que é extremamente nociva aos olhos.

A melhor forma de observar os eclipses solares é com auxílio de filtros feitos para o fim de observar o Sol ou a observação indireta, como o uso de pinhole, o qual um pequeno orifício é feito em uma placa e a luz do Sol é projetada sobre alguma superfície plana ou o uso de um espelho para refletir o Sol em alguma superfície também são formas seguras de se ver o Sol durante o eclipse.

Já o eclipse lunar é muito mais tranquilo quanto a sua observação, inclusive direta, já que o brilho da Lua é cerca de 4 mil vezes menos brilhante que 1% do disco solar. Para contemplar a Lua durante o eclipse, basta olhar para ela sem problemas.

Se sua cidade organiza eventos para a observação do céus durante eclipses, geralmente feito por professores ou por observatórios astronômicos ou até mesmo por amantes de astronomia, vá. É muito legal observar a curiosidade das pessoas para esses eventos e até mesmo a oportunidade de observar os céus com auxílio de algum instrumento, como algum telescópio, luneta ou filtro para observação do Sol.

Finalizando…
Os eclipses encantaram, assustaram e fizeram parte da história da humanidade, mudando guerras, casamentos, reinos e reis. Hoje, eles são objeto de curiosidade e de admiração por parte dos amantes dos céus e de estudos para reforçar nossos conhecimentos sobre o Universo[9]. Com os devidos cuidados, os eclipses são um excelente momento para contemplação da natureza e de como o nosso entendimento da mecânica celeste permite compreender esse fenômeno com clareza.

Fique de olho na internet e tire uns minutinhos do dia para observar o eclipse quando ele pintar novamente. Bons céus!

P.s.: gostaria de agradecer imensamente ao professor Dr. Ricardo Boczko, professor aposentado do IAG/USP que gentilmente cedeu suas aulas para os participantes da V Semana da Imersão Total em Astronomia, realizado pelo Observatório Didático de Astronomia da UNESP, com a supervisão do Dr. Rodolpho Langhi. As aulas e o que aprendi foram a inspiração e a base para a construção desta publicação. Obrigado.

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Rodapé:
[1]: são povos antigos que viveram na região do Oriente Médio. Os medos tem esse nome pois, apesar de ter origem no mesmo tronco linguístico que o latim (a qual deriva nossa língua), a sua origem é mais distante. De acordo com alguns linguistas, os Medo tem origem no tronco linguístico chamado proto-indo-europeu (med), que significa ‘central, que está no meio’. Apesar de distante, o latim trouxe a palavra ‘med’ para si como ‘medium’, que surgiu no português como ‘meio, que está na região central’.

[2]: os caras lá na Grécia já sabiam de tudo isso há dois mil anos e hoje em dia estamos às voltas com essa coisa de Terra Plana. Sério, o que aconteceu com a gente?

[3]: onde estamos no planeta é importante para determinar como vemos e como entendemos o movimento das coisas no céu. Muitas das referências que adotamos são baseadas em observações feitas no hemisfério Norte e convencionadas assim. Contudo, as observações das fases da Lua são importante de serem discriminadas em como o hemisfério Norte e Sul às veem para que fique claro em que como o referencial é importante. Apesar de sermos um pontinho no planeta olhando para a Lua, a posição desse pontinho é muito importante.

[4]: o alinhamento entre três corpos celestes ligados gravitacionalmente é denominado sizígia.

[5]: ou quase completamente, dependendo de qual eclipse estamos tratando.

[6]: hoje os cientistas usam equipamentos próprios para observação direta da coroa solar sem depender dos eclipses para tal, mas até então, tudo que sabíamos sobre a coroa solar era a partir de observações durante eclipses.

[7]: é importante lembrar que as órbitas dos corpos celestes não são esferas perfeitas. Elas são elípticas e há momentos em que o corpo que orbita o outro está mais próximo e momentos que está mais distante. No caso da Lua e Terra, o perigeu da órbita lunar é de 362.600 km de distância da Terra, enquanto o apogeu é de 405.400 km. Esses valores representam uma mudança do diâmetro angular de 4º. Lembre-se que a inclinação de apenas 5º da Lua em relação à eclíptica é o suficiente para não vermos eclipses o tempo todo e termos a Lua cheia.

[8]: a série de livros de Asimov, Fundação, apresenta o uso da psico-história para prever o futuro e saber como o comportamento da sociedades no futuro ocorrerão. Por usar de análise matemática sobre eventos sociais e culturais, a previsão da psico-história é mais certeira quanto mais próximo do presente, se tornando mais nebuloso ao longo dos séculos. Os cálculos da mecânica celeste funcionam de forma semelhante. Teremos grandes precisões em datas mais próximas, contudo, com o passar dos séculos, forças e ações que podem estar sendo desconsideradas ou calculadas de forma errada por nossos computadores tornam as previsões de eclipses futuros menos precisas. Não é que não ocorrerão, mas a certeza de hora e local de máxima observação poderão ser comprometidos.

[9]: uma das primeiras comprovações da teoria da relatividade de Einstein ocorreu justamente durante a observação de um eclipse, feito em Sobral, Ceará, em 1919 por uma equipe internacional de cientistas.

Todas as imagens foram feitas para o Do Nano ao Macro, protegidas por CC. Você pode baixar, imprimir e modificar, mas sempre referenciando o trabalho original. Contém informações de:
Imagem de eclipse solar obtida em ESA.
Lexico from Oxford; Wikipedia (1) e (2); Astronoo e NASA: Solar Eclipses of Saros Series.
Boczko, R. Fases da Lua e eclipses. Conteúdo cedido gentilmente pelo professor. 2019.
Reis, NTO. Eclipses ao longo dos séculos. Conteúdo online do MEC. Disponível aqui (em PDF).