Dinossauros: árvore genealógica recebe um grande chacoalho

Análise dos ossos dos dinossauros que “modificarão livros” altera as relações entre esses animais que eram aceitas há décadas

Escrito por Sid Perkins para a Nature
Traduzido por Wesley Santos para o Do Nano ao Macro

O Tyrannosaurus rex pode ser mais próximo dos dinossauros 'pélvis de ave' do que acreditava ser até então.

A já bem estabelecida divisão dos dinossauros em espécies “pélvis de ave” incluindo o Stegosaurus e sua contraparte os animais “pélvis de lagarto” como os Brachiosaurus e Tyrannosaurus pode não ser mais válido, de acordo com um novo estudo publicado dia 22 de março de 2017 no periódico Nature. Entre as propostas de alterações para a árvore genealógica dos dinossauros, os herbívoros pescoçudos e os saurópodes gigantescos do hemisfério Sul como o Brachiosaurus já não estão mais intimamente relacionados com os terópodes bípedes e carnívoros como os T. rex, como estavam antes.

“Isto é uma mudança dos livros – se continuar desse jeito”, disse Thomas Holtz, paleontólogo de vertebrados da Universidade de Maryland em College Park. “É somente uma análise, mas é a análise”.

O novo estudo avalia o parentesco entre 74 espécies de dinossauros que constituem na árvore filogenética, na base de similaridades e diferenças em mais de 450 estruturas anatômicas, disse Matthew Baron, paleontólogo de vertebrados da Universidade de Cambridge, Reino Unido, que liderou o estudo.

Reagrupando dinossauros
A maioria das espécies de dinossauros considerados no estudo viveram nos primeiros 100 milhões de anos do reinado dos dinossauros. O mais antigo fóssil conhecido data de 243 milhões de anos, e o último dinossauro – junto com uma miríade de espécies – morreram em um evento em massa há 66 milhões de anos, deixando os pássaros como seus descendentes, depois de um asteroide chocar no mar onde atualmente é a península de Yacatán, no México.

A notável revisão de Baron e seus colegas coloca a linhagem dos terópodes pélvis de lagarto (Saurischia) no ramo que contém todos os dinossauros pélvis de ave (Ornithischia), como os Stegosaurus e Triceratops. A análise do grupo indicou que os membros de ambos os grupos principais compartilham 21 traços anatômicos, variando desde um cume distintivo em sua mandíbula superior até a fusão de alguns ossos específicos dos pés. Para esse ramo recém-criado da árvore genealógica dos dinossauros, o grupo ressuscitou um nome proposto nos anos 1870, mas que caiu em desuso – os Ornithoscelida, que significa ‘membro de ave’, do grego.

Além do passar de décadas de sabedoria aceita sobre a relação de várias linhagens de dinossauros, o novo estudo sugere que os primeiros dinossauros surgiram cerca de 247 milhões de anos atrás, um pouco antes do que se suspeitava. Eles também podem ter se originado no que é atualmente a América do Norte, antes sendo a Gondwana – a porção sul do supercontinente Pangeia – que se presume ter sido o berço dos dinossauros.

Reavaliação provocativa
Em um outro artigo publicado no Nature News & Views[1], Kevin Padian, paleontólogo de vertebrados da Universidade da Califórnia, diz que os achados do grupo de pesquisadores como uma “reavaliação original e provocativa da origem dos dinossauros e suas relações”. E devido a Baron e seus colegas terem usados métodos bem estabelecidos, ele adiciona, os resultados não podem ser deixados de lado como uma opinião ou uma mera especulação. “Esse estudo vai mandar as pessoas de volta à mesa de estudos”, ele observa em sua entrevista[2].

A tradicional árvore genealógica dos dinossauros (a primeira) dividia dos dinossauros
em duas linhagens principais, os Ornithischia (pélvis de ave) e os Saurischia
(pélvis de lagarto), junto com um grupo primitivo de dinossauros carnívoros, os
Herrerasauridae, ramificando em vários galhos na árvore dos dinossauros. Na nova
classificação proposta, os terópodes como os T. rex estariam mais próximos do ponto
de vista filogenético com os Ornithischia, como os Stegosaurus.

Hans-Dieter Sues, paleontólogo de vertebrados do Museu Nacional de História Natural do Instituto Smithsonian em Washington, EUA disse que o estudo alimentará uma discussão. “Mas tenho receio em reorganizar totalmente a árvore genealógica dos dinossauros ainda”, ele disse. Por um lado, as análises dos paleontólogos sobre as relações de espécies são muito sensíveis em relação a quais espécies consideradas, bem como quais e quantas características anatômicas foram incluídas no estudo, ele completa.

A descoberta de uma nova espécie de dinossauro ou espécimes mais completos daqueles já conhecidos podem também levar as análises futuras de volta para os arranjos mais aceitos atualmente para a árvore genealógica dos dinossauros, disse Sues. Nos últimos anos, a América do Sul trouxe uma enxurrada de novos dinossauros. E, ele adiciona, as rochas da América do Norte estabelecidas para o alvorecer dos dinossauros não foram profundamente exploradas como as rochas sul-americanas da mesma idade.

“Em muitas partes do mundo, há tanta coisa que não sabemos sobre o registro fóssil”, ele complementa.

Veja a matéria original, em inglês, aqui.

Rodapé:
[1]: ePDF disponível online para leitura (conteúdo em inglês):

[2]: quase que mudei a fala dele para essa.

Imagens obtidas na publicação original.

Imagem médica: remoção de tênia pela boca


❗❗ Atenção: contém imagens que podem ser fortes para o público mais sensível ❗❗

A teníase pode parecer uma doença um tanto distante da realidade das pessoas que vivem em grandes centros urbanos, já que sua associação com a falta de saneamento básico parece estar ligado a regiões rurais ou extremamente pobres. Apesar disso ser verdade, a teníase ainda é um problema sério em diversas regiões do mundo, inclusive no Brasil, onde é considerado endêmico.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), há 50 milhões de casos de epilepsia devido ao complexo teníase/cisticercose. Um terço dos casos ocorrem em países endêmicos para Taenia solium, que naturalmente infecta porcos e é transmitido através do consumo da carne mal processada desses animais. A OMS reforça que a incidência é maior em regiões do mundo onde esses animais são criados livres, sem condições básicas de higiene e com condições de abate totalmente informais (sem nenhum controle de higiene).

Considerado uma Doença Tropical Negligenciada visto que não grandes esforços para o combate à doença, condições de sanidade básica, como o descarte correto do esgoto e controle de higiene animal são procedimentos que aumentariam de forma surpreendente o controle da doença. Apesar do Brasil ainda ser endêmico para a doença, a doença se encontra sob controle no país[1].

Infelizmente esse cenário ainda está distante da realidade em muitos locais do mundo. Na Índia, onde a situação é muito pior que aqui: enquanto no Brasil (em 2014), cerca de 85% dos domicílios tinham acesso à água tratada e 64% ao sistema de esgoto, na Índia mais de 620 milhões de pessoas (três vezes a população do Brasil[2]) ainda defecam ao ar livre, sendo expostos a essa sujeira todos os dias. Por isso, a situação descrita abaixo acaba não sendo tão impressionante, apesar de impactar.

Publicado no fim de janeiro de 2017 no periódico The New England Journal of Medicine, os médicos Cyriac Philips e Amrish Sahney do Institute of Liver and Biliary Sciences em Nova Delhi contaram a história de um homem de 48 anos que apresentava desconforto abdominal fazia dois meses. O exame de sangue apontou uma leve anemia[3].

Exames mais detalhados mostraram que ele estava sendo parasitado por uma grande tênia (T. solium), com 1,88 m de comprimento. Estava localizada próximo ao duodeno, a primeira porção do intestino após o estômago. Os médicos resolveram extrair a tênia pela boca do paciente e iniciar o tratamento com um dos medicamentos padrões para essa verminose: praziquantel.

Reforço que a imagem e o vídeo pode não ser muito agradável para as pessoas mais sensíveis.

Retirada da tênia do paciente indiano pela boca e o verme inteiro exposto após sua retirada.

Os médicos fizeram um pequeno vídeo que está disponível para visualização no site do periódico (infelizmente não consegui incorporá-lo aqui na publicação).

📹 Veja o vídeo aqui 📹

A publicação informa que o paciente recebeu tratamento e estava assintomático após a retirada do verme.

Não sei se esse caso de retirada do verme pela boca é mais comum do que parece ou se foi apenas um caso isolado, mais raro, devido ao tamanho do verme e pela dificuldade em eliminá-lo pela via intestinal. A OMS indica o uso de laxativos para o início do tratamento, o que leva a crer que esse procedimento foi uma decisão local dos médicos que assinaram o trabalho.

Portanto, apesar dos riscos serem menores no Brasil em pessoas desenvolverem essa verminose, ainda não estamos livres dela. Consumo de carne passada (e inspecionada obtida de abatedouros certificados), além de consumir água tratada e ter um destino correto do esgoto são ações importantes para evitar que novos casos do tipo ocorram.

Rodapé:
[1]: infelizmente não encontrei dados em órgãos de saúde que corroborem essa informação. Apesar de ser um tanto achismo essa minha afirmação, a fiz baseado no aumento do acesso ao sistema de água tratada e de coleta de esgoto, além do maior controle do abate de carne consumido no país, geralmente inspecionada. Se algum leitor souber onde encontro dados recentes sobre teníase/cisticercose no Brasil comente abaixo. 😊

[2]: baseado na projeção da população brasileira realizado pelo IBGE, o qual informa que somos mais de 207 milhões de brasileiros. Disponível aqui.

[3]: 9,2 g de hemoglobina por decilitro de sangue. Os parâmetros normais são de 12 a 15 gramas por decilitro).

Imagem que abre a postagem é Taenia sp via microscopia eletrônica em Fine Art America. Imagem do paciente e verme obtida em Philips e Sahney (2017).
DONADEU, M., LIGHTOWLERS, M. W., FAHRION, A. S., KESSELS, J., ABELA-RIDDER, B. Taenia solium: WHO endemicity map update. Weekly Epidemiological Record, 49/50, 2016. Disponível em: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/251908/1/WER9149_50.pdf?ua=1. Acesso em: 16 fev. 2017.
PHILIPS, C. A., SAHNEY, A. Taenia solium. The New England Journal of Medicine, 376:e4, 2017. Disponível em: http://www.nejm.org/doi/pdf/10.1056/NEJMicm1606747. Acesso em: 15 fev. 2017.

O que sabemos sobre a Febre Amarela?


Mal começamos 2017 e o Ministério da Saúde do Brasil notifica a Organização Mundial da Saúde (OMS) de casos humanos (com mortes) de febre amarela. Dezenas de casos já foram registrados, principalmente em Minas Gerais, onde os primeiros casos foram registrados.

A febre amarela é uma doença conhecida a séculos pelo homem e, apesar de bem conhecida, ainda é um desafio e saúde pública por sua fácil disseminação e alta taxa de mortalidade se não tratada a tempo. Adicionando mais conhecimento, a série 'O que sabemos?' ganha mais uma publicação, dessa vez sobre a doença que sempre nos rondou e que resolveu mostrar as caras agora.

* * *

Originária da África, a doença originalmente circulava no meio silvestre infectando macacos e outros primatas não-humanos. Os africanos, misturados nessa paisagem natural, faziam parte do ciclo da doença, contraindo o vírus da febre amarela. Análises apontam que a origem mais provável do vírus ocorreu no Leste africano, se disseminando ao longo do tempo para o resto da África tropical[1].

O vírus do gênero Flavivirus (mesmo gênero dos conhecidos vírus da dengue e da febre zika) tem material genético de RNA fita simples de sentido positivo[2], infectando diversas células do corpo, sobretudo monócitos e macrófagos (células de defesa). O nome do gênero (e da família Flaviviridae) foi dado devido aos estudos com o vírus da febre amarela. Flavus significa 'amarelo' em latim.

O ciclo do vírus da febre amarela no corpo humano é semelhante a outros flavivírus, como da dengue e zika.
Em (1), o mosquito fêmea pica a pessoa em busca de sangue para alimentar seus ovos. Ao inocular a saliva
anestésica na picada, libera vírus da febre amarela, que caem na corrente sanguínea (2). Ao adentrar nas células
do corpo (3), o vírus libera o seu RNA, que será lido para sintetizar as informações contidas nesse material
genético pelo ribossomo (4). Novos vírus são gerados por essa informação que, ao encherem a célula, acabam
rompendo a membrana celular (5), liberando novos vírus no sangue. Um novo mosquito, ao picar essa pessoa (6),
suga o sangue contendo os vírus, que poderão ser transmitidos para outras pessoas e animais.

Os africanos estavam relativamente acostumados com a doença. Casos registrados em populações africanas dificilmente levavam à morte. Entretanto, quando surtos da doença ocorriam, as principais mortes registradas eram entre os colonos europeus, que não estavam acostumados com a doença.

A febre amarela saiu da África e ganhou a América muito provavelmente no século XVII, com o tráfico de escravos para as colônias americanas, tanto na América do Norte (Estados Unidos), quanto na América Central (sobretudo no Caribe) e América do Sul (principalmente Brasil). O principal transmissor da doença, o mosquito Aedes aegypti, natural da África, também veio para a América nesse período[3]. Em 1647 foi registrado o primeiro surto da doença na América, nas ilhas caribenhas de Barbados. Os europeus, além de levarem os escravos, a doença e o mosquito para essas regiões, provocaram um distúrbio ecológico ao modificar o ambiente para a plantação da monocultura da cana-de-açúcar[4], o que contribuiu para a rápida disseminação da doença nos locais onde ela foi levada. E isso foi constatado ainda em meados do século XVII, apontando a importância do estudo do ambiente na emergência das doenças[5].

Sintomas
O nome da doença remete por duas principais características dos doentes, a presença de febre e pelo tom amarelado que a pele e olhos ficam devido ao comprometimento do trabalho do fígado.


O vírus tem um período de incubação entre três a seis dias (que é o período o qual o vírus se multiplica e se espalha pelo organismo), sendo seguido pela primeira fase da doença, mais leve, que inclui febre, dor de cabeça e nas costas, perda de apetite e vômitos. Esses sintomas permanecem cerca de quatro dias. Na maioria dos casos, os doentes melhoram depois desse período.

Entretanto, cerca de 15% das pessoas avançam para a fase dois, que ocorre cerca de um dia depois das melhoras de alguns dos sintomas da fase um. Essa fase é a mais tóxica, que inclui comprometimento de órgãos importantes, como o fígado e rins. O comprometimento desses órgãos levam ao amarelamento da pele, chamada de icterícia. Vômitos e urinas com sangue também são comuns, além de sangramentos e febre alta. Dados da OMS apontam que metade dos pacientes que entram na segunda fase morrem entre sete a dez dias após o início dos sintomas.

O esquema acima ilustra as principais etapas da doença, desde a inoculação do vírus pelo mosquito Aedes[6] até o fim nos casos graves.

Vacina
Apesar dos problemas sérios causados pela doença, ela pode ser facilmente evitada através do controle do mosquito[7] e por vacinação. As primeiras vacinas começaram a ser desenvolvidas nas primeiras décadas do século XX, após o descobrimento de que a febre amarela era causada por um vírus e não por uma bactéria[8]. Em 1927 foi isolado o vírus a partir de uma amostra de sangue de um sobrevivente na África de 28 anos. Asibi, assim chamado, acabou nomeando o isolado viral, que serviu de ponto de partida para o desenvolvimento das vacinas atuais.

Max Theiler, trabalhando para o Instituto Rockefeller[9], após anos de estudo, desenvolveu a vacina usando ovos de galinha como fonte de cultivo dos vírus. A vacina 17D para febre amarela foi desenvolvida em 1937 por Theiler e sua equipe. Em 1938, a vacina foi testada pela primeira vez pelo Instituto Rockefeller no Brasil em 1938. Nessa época, como veremos abaixo, o país estava no combate à doença.

A vacina foi considerada um sucesso, com alto nível de segurança para aplicação em grande escala. Ao longo dos 60 anos, mais de 400 milhões de doses de vacina 17D foram aplicadas em todo o mundo, com grande sucesso. Essa vacina é utilizada até hoje.

Por sua colaboração, Theiler foi laureado com o Nobel de Medicina em 1951 "por suas descobertas sobre a febre amarela e como combate-la".

Hoje, de acordo com dados da OMS, a primeira dose da vacina oferece 95% de proteção nos primeiros 10 dias após a aplicação, subindo para 99% no primeiro mês. Apesar dos anos passados recomendarem doses de reforço a cada 10 anos, sabe-se que pessoas saudáveis permanecem protegidas por décadas com apenas uma única dose. Em áreas de epidemias, recomenda-se apenas uma segunda dose para aqueles com mais de 10 anos de vacinação.

Brasil
O primeiro surto da doença registrado no Brasil ocorreu em 1685, em Recife, Pernambuco. A doença, de acordo com os registros do Ministério da Saúde, permaneceu na região por 10 anos. Surtos subsequentes em outras regiões do Nordeste foram relatados nessa época também.

Após as descobertas no fim do século XIX de que o mosquito Aedes era o transmissor da doença[3], o jovem médico Oswaldo Cruz, que retornara de seus estudos no Instituto Pasteur na França, foi nomeado Diretor Geral de Saúde Pública em 1903. Apresentou naquele mesmo ano sua proposta para o controle da febre amarela: o combate ao mosquito Aedes.

O método aplicado por Cruz e apoiado financeiramente pelo presidente na época, Rodrigues Alves, era implacável. As equipes de combate ao mosquito entravam em todos os terrenos e casas e queimavam folha de fumo, de eucalipto e de enxofre, além de limparem caixas d'água e limpeza de ruas e terrenos. Essa forma 'bruta' de trabalho foi criticada e ridicularizada pela imprensa na época, que não acreditava que o mosquito era o transmissor da febre amarela.

Apesar disso, Oswaldo Cruz conseguiu controlar a febre amarela em apenas três verões (onde o número de casos era maior, justamente por conta das chuvas). Com isso, o apoio de pessoas influentes e a mídia na época reconhecendo os esforços do sanitarista, Oswaldo Cruz deixou de ser um chato combatente do mosquito para um reconhecido médico no Brasil e no mundo.

Mapa indicando as áreas de vacinação  para febre amarela
recomendadas pelo Ministério da Saúde.
Com isso, casos de febre amarela e de dengue (outra doença transmitida pelo mesmo mosquito) praticamente sumiram nas grandes cidades. Esse cenário permaneceu até o ressurgimento do surto no fim dos anos 1920 no Rio de Janeiro. Anos mais tarde a primeira vacina, a 17D, foi testada na população brasileira, com grande sucesso.

Ações subsequentes de trabalhos de vacinação e combate ao mosquito fizeram a doença ser erradicada no ambiente urbano em 1958. Com isso, a doença ficou restrita em ambientes silvestres, encerrada numa relação mosquito Haemagogus e macacos. Casos esporádicos nas últimas décadas foram relatados no Brasil devido, principalmente, a trabalhadores e turistas que estavam em área de mata.

E, infelizmente, começamos o ano de 2017 com um novo surto de febre amarela. Dados do Ministério da Saúde publicados dia 07/02/17 mostram mais de mil casos notificados da doença, com 163 óbitos (sendo 69 confirmados). Sem contar os inúmeros registros de primatas não humanos, sobretudo bugios, que foram encontrados mortos no interior de Minas Gerais e São Paulo[10].

O combate ao mosquito, que já é conhecido por transmitir a dengue, a febre zika e a chikungunya, foi intensificado nesse ano e campanhas de vacinação estão sendo realizados em todo o país, sobretudo nas áreas de risco de transmissão. A cartilha abaixo informa com detalhes as pessoas aptas ou não para participar da vacinação.

Recomendações de vacinação para febre amarela no Brasil. Clique para ampliar.

E, assim como ocorreu no início de sua vinda à América, o desiquilíbrio ambiental pode ter contribuído para a instalação desse novo surto da doença. O desastre de Mariana, em que toneladas de lama arrasaram com diversas cidades mineiras pode ter causado um desequilíbrio no controle do mosquito. Somado ao período de chuvas ser maior nessa época do ano (verão), o vírus que estava circulando no ambiente silvestre acabou sendo levado para as grandes populações de forma mais fácil, atingindo as pessoas que, em sua maioria, moram ou visitam áreas rurais.

O estudo de doenças tropicais envolve não apenas a doença (o agente causador da enfermidade), mas das relações da doença com os vetores, com os animais suscetíveis e não suscetíveis à doença e o ambiente. Desequilíbrio em um desses fatores podem oscilar a prevalência da doença para mais ou para menos. Infelizmente dessa vez, a febre amarela que pode ser facilmente combatida por vacinação, está dando dores de cabeça para a população.

O controle do mosquito e vacinação em massa se mostram eficientes para combate à febre amarela, mas é preciso pensar que eles não funcionarão sozinhos se o ambiente onde as pessoas e os animais vivem estiver degradado.

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Rodapé:
[1]: apesar de haver regiões desérticas e de savana na África, existem grandes áreas do continente que são florestas úmidas, propiciando uma grande diversidade de insetos vetores e mamíferos diversos. Com isso, a circulação de vírus, protozoários e outros agentes causadores de doenças é alto. Isso, contudo, não quer dizer q não ocorra doenças em animais de regiões de savanas ou desérticas provocadas por outros organismos. Trypanosoma vivax, responsável por tripanossomíase animal no gado bovino, é comum em animais da savana africana, como búfalos, órix e girafas.

[2]: essas informações, embora técnicas, são importantes para os pesquisadores saberem como funciona a doença. As nossas células, para produzirem novas proteínas e enzimas, transformam as informações do DNA no núcleo em uma fita de RNA mensageiro. Assim como o vírus, nosso RNA é fita simples de sentido positivo. Ou seja, as organelas que produzem essas proteínas não sabem que o RNA dentro da célula é proveniente da própria célula ou do vírus (da febre amarela, no caso). Ou seja, o vírus se utiliza disso para usar a estrutura da própria célula para produzir outros vírus iguais a si própria. É dessa forma que o vírus se instala e se multiplica, causando a enfermidade.

[3]: a descoberta de que o Aedes era o transmissor do vírus da febre amarela ocorreu apenas em 1884, quando o médico cubano Juan Carlos Finlay. Estimulado pela descoberta anos antes de que a filariose (ou elefantíase) era transmitida por mosquitos, Finlay estudou a possibilidade do mosquito Aedes ser o transmissor da doença, indo contra a corrente na época que acredita que a febre amarela fosse contagiosa. Quase 20 anos depois, em 1901, que os dados de Finlay foram confirmados, relacionando o mosquito à doença.

[4]: apesar de vermos na História do Brasil que nosso país, na época colônia de Portugal, era um grande produtor de cana-de-açúcar, não éramos os únicos. Diversos países estavam interessados em fazer dinheiro na produção do açúcar para o mercado europeu, ávido no consumo desse doce produto. Os ingleses, assim como os holandeses, corriam atrás dos portugueses e espanhóis nesse mercado. A implantação da monocultura da cana-de-açúcar em suas colônias criaram um capítulo próprio na história do mundo, e modificou a relação que temos com essa planta até hoje.

[5]: a monocultura da cana-de-açúcar criou condições de criadouros para o mosquito Aedes que, associado a uma redução de pássaros e outros insetos que se alimentam de mosquitos e larvas, fez com que a população do mosquito transmissor aumentasse de forma surpreendente.

[6]: importante ressaltar que o vírus é transmitido pelo Aedes no chamado ciclo urbano da doença. No ciclo silvestre, o qual ocorre a participação de macacos, o principal transmissor é outro mosquito, Haemagogus sp.

[7]: infelizmente algo muito difícil na atualidade.

[8]: em 1902 foi demostrado que o agente causador da febre amarela atravessava filtros que geralmente retiam bactérias. Entretanto levou-se anos até que a comunidade científica aceitasse que a doença era causada por vírus. Muitos acreditavam que uma forma modificada da Leptospira, bactéria responsável pela leptospirose fosse a causadora da enfermidade.

[9]: talvez você tenha ouvido falar sobre esse Instituto recentemente. Seus pesquisadores descobriram o vírus zika na África nos anos 1950. Alguns boatos envolveram o Instituto dizendo que eles estavam vendendo o vírus para qualquer um poder comprar (o que é, naturalmente, uma grande bobagem).

[10]: importante ressaltar que o macaco, assim como nós, são vítimas da doença e não transmitem a doença para as pessoas. Foram relatados no mês de janeiro que algumas pessoas, com medo da febre amarela, estavam matando macacos para evitar a doença. Isso, além de cruel e totalmente sem sentido, é ilegal, por se tratar de animal silvestre protegido por lei. O meio mais eficiente para combater a febre amarela é através do combate ao mosquito Aedes aegipty e pela vacinação.

Imagens: ilustração do ciclo da febre amarela e sintomatologia feitos por mim e protegido por Creative Commons. Mapa do Brasil e cartilha de vacinação são divulgação do Ministério da Saúde.
Fontes: com informações de Ministério da Saúde, Portal da SaúdeOMS, OMS, IBB Unesp e:
BENCHIMOL, J. L (1994). História da febre amarela no Brasil. História, Ciências, Saúde - Manguinhos. 1 (1). http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59701994000100010
NORRBY, E (2007). Yellow fever and Max Theiler: the only Nobel Prize for a virus vaccine. The Journal of Experimental Medicine. 204 (12): 2779. DOI: 10.1084/jem.20072290

Perspectivas 2017: o que esperar da ciência

Pesquisadores esperam vislumbrar um horizonte de eventos, continuar lutando pela supremacia quântica e se preparar para uma ressaca política. No Brasil, uma evasão de cérebros e dificuldades financeiras serão os tormentos em 2017.

Estamos com os olhos voltados para a ciência em 2017!

A Nature, quase todos os anos, vislumbra um possível cenário do que esperar para a ciência mundial no novo ano que se inicia. Naturalmente, por ser uma revista global, seu foco acaba sendo os grandes ambientes acadêmicos da Europa e dos Estados Unidos. Essa ‘espiada’ que a Nature faz acaba excluindo, muitas vezes, nuances e perrengues dos países que não estão nesse eixo científico.

Pensando nisso, entrei em contato com alguns amigos e colegas que escrevem sobre ciência para construírem um panorama da ciência nacional em 2017, complementando a publicação e tornando-a mais completa.

Primeiramente apresento o que podemos esperar da ciência de acordo com Elizabeth Gibney e, em seguida, focando na ciência no Brasil.

Mares agitados para o clima: o presidente eleito dos Estados Unidos Donald Trump poderá colocar os EUA como um dos maiores contribuintes para as emissões de gases de efeito estufa, ao lado da China, o líder mundial atualmente, caso ele não cumpra com os tratados internacionais assinados recentemente. Entretanto, os níveis de emissão global tem se mantido estáveis nos últimos três anos e os cientistas esperam que 2016 não tenha sido diferente, visto que a estagnação da economia e o avanço da tecnologia verde possa ter contribuído de forma significativa. E dados de sondas robóticas nos mares do sul poderão revelar o quanto de carbono as águas ao redor da Antártica estão absorvendo.

Ressaca política: se as eleições de 2016 nos EUA chocaram algumas pessoas, apenas em 2017 é que poderemos ver suas consequências. Depois da posse de Trump em 20 de janeiro, os pesquisadores poderão ter uma melhor ideia se sua administração irão destrinchar os programas de ciências da Terra e climáticos da NASA ou revogar permissões para conduzir pesquisas com células tronco embrionárias humanas. Em março, serão iniciados a saída formal do Reino Unido da União Europeia (Brexit), com impacto potencial nas pesquisas científicas. E as novas campanhas eleitorais na Alemanha e na França poderão impactar o fazer ciência nesses países importantes da Europa.

Voltando ao destinatário: se tudo der certo, a missão chinesa à Lua Chang’e-5 poderá trazer amostras da lua pela primeira vez desde a década de 1970. Cerca de dois quilos de rochas e solo serão enviados à Terra para estudos sobre a formação e evolução da Lua. E, próximo do fim do ano, a sonda Cassini, com sua missão completando 20 anos na mais completa glória. Ela passará pelos anéis internos de Saturno e mergulhará na atmosfera do planeta. Os cientistas esperam colher preciosos dados antes de perderem o contato.

O mundo interior: espera-se que mais estudos sobre como a microbiota humana – os vírus, bactérias e demais micro-organismos, juntos com os nossos genes – afetam a saúde sejam publicados em 2017. Pesquisadores então de olho nos efeitos da microbiota no desenvolvimento do cérebro e do câncer. E os resultados da fase 2 do US Human Micro-biome Project (Projeto Microbiota Humana Americano) poderão aparecer em 2017, com foco na ligação entre a microbiota humana e nascimentos prematuros e, também, nas doenças intestinais inflamatórias e no diabetes tipo 2.

Competição genética: a corte americana provavelmente tomará uma decisão sobre a disputa entre a Universidade da Califórnia e a Broad Institute em Cambridge sobre a técnica molecular CRISPR-Cas9. Ambos os institutos clamam a invenção dessa técnica de edição de gene que poderá render bilhões de dólares em patentes. NgAgo, uma técnica concorrente, está tendo dificuldades em ser replicada, o que pode não render resultados no futuro. E, no Reino Unido, clínicas poderão utilizar uma técnica controversa de reprodução assistida que combina o DNA de três pessoas. O procedimento tem como objetivo prevenir a transmissão de doenças para crianças através de problemas nas mitocôndrias da mãe, que é uma organela responsável pela produção de energia na célula.

Supremacia quântica: físicos esperam que 2017 seja o ano em que os computadores quânticos possam realizar operações que seriam impossíveis em computadores tradicionais. Google, D-wave e outras empresas estão na corrida para a supremacia quântica. Apesar disso, outras empresas buscam o topo por outras formas. A Microsoft  está trabalhando em uma técnica alternativa ambiciosa conhecida como computação quântica topológica, que codifica as informações no movimento de objetos semelhantes a partículas em materiais, e pode ser muito mais robusto que os métodos rivais. A companhia pode ser um dos primeiros a ter sucesso nesse tipo de computação no fim de 2017.

Iluminando a escuridão: cientistas poderão fazer a primeira tentativa de fotografar o horizonte de eventos de um buraco negro em abril, quando nove radiotelescópios ao redor do mundo irão trabalhar como se fossem um só: um observatório do tamanho do planeta. O Event Horizon Telescope (Telescópio do Horizonte de Eventos) irá espiar um buraco negro supermassivo no centro da Via Láctea. Se a tentativa for um sucesso, as imagens poderão ajudara a testar a teoria da relatividade geral e o comportamento de buracos negros luminosos. Enquanto isso, grupos do Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory (LIGO) e Virgo, um observatório europeu próximo de Pisa, na Itália, irão rodar um experimento pela primeira vez que poderá permitir a pesquisadores saberem o local de origem das ondas gravitacionais em algumas galáxias.

Materiais maravilhosos: células solares pequenas e baratas poderão sair dos laboratórios e serem comercializados ainda em 2017. A eficiência de células solares baseadas em perovskita disparou desde 2009. Até então os pesquisadores estão apenas fazendo avanços na superação de inconvenientes com esse material, como a instabilidade e a toxicidado, empurrando para frente formas de tornar a produção mais barato. A ciência de materiais poderão receber um investimento de mais de US$ 1,2 bilhão de dólares para tornar operacional o European X-ray free-electron laser (laser livre de elétrons de raio-X europeu). O instrumento permitirá os pesquisadores a estudar as reações químicas em frações de segundos e processos físicos e biológicos em nível atômico.

Grande azul: a maior reserva marinha mundial entra em vigor em dezembro, quando porções do mar de Ross na Antártica estarão livres da exploração comercial de peixes e minérios. Em outro ponto da Antártica, uma enorme iceberg poderá surgir da quebra da plataforma de gelo Larsen C, separando a massa de gelo e neve em pedaços menores desde a sua descoberta em 1893. E, em climas mais quentes, estudos que analisaram os eventos de branqueamento de corais registrados nos últimos anos poderão revelar pistas sobre o por que algumas áreas os corais sobreviveram ilesos.

A luta das células T: a primeira imunoterapia para câncer chamado CAR-T parece estar pronto para ganhar o mercado. As farmacêuticas Kite Pharma e Novartis estão na corrida para aprovar a terapia, que envolve engenharia genética das células T a partir do sistema imune do paciente e usá-lo para combater o câncer. Apesar dos problemas de toxicidade apresentados pelas empresas (que levaram a morte de alguns pacientes em alguns estudos), o tratamento pode ser aprovado ainda esse ano como método de última escolha para pessoas com leucemias e linfomas.

Planeta Nove: estudos do sistema solar externo provavelmente ajudarão a restringir a localização do Planeta Nove, um hipotético planeta que orbita o Sol a cada 20 mil anos. Havia poucas evidências para sua existência até que em 2016 estudos sobre o comportamento de alguns objetos no cinturão de Kuiper – em geral pedaços de gelo em uma região depois da órbita de Plutão, sugerem que ele deve estar lá. E um novo satélite ‘caçador’ de planetas extra-solares será lançado em dezembro pela NASA, o Transiting Exoplanet Survey Satellite (TESS).

- Elizabeth Gibney é formada em ciências naturais (física) pela Universidade de Cambridge e mestra em comunicação científica pela Imperial College London. Já escreveu para o CERN, o laboratório franco-suíço de pesquisa física e atualmente escreve sobre física para a Nature.

Veja o original no link (em inglês).

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E QUANTO A CIÊNCIA NO BRASIL, o que podemos esperar para 2017? É notório os problemas acadêmicos na captação de recursos no Brasil, que ladra para todos os lados a falta de dinheiro para investimentos. Isso poderá prejudicar não só a ciência no país mas também sua relação com institutos e cientistas mundo afora. Com isso, diversos pesquisadores que acreditavam que a ciência brasileira iria crescer cada vez mais estão reavaliando a situação e, em alguns casos, pensando seriamente em sair do país, em busca das melhores condições que outros países oferecem à pesquisa. A matéria publicada pelo O Globo dia 08/01/2017 apresenta exatamente essa visão. Foi notório a decisão da neurocientista Suzana Herculano-Houzel  de deixar o país em meados de 2016 após lutar por verbas públicas destinados ao seu laboratório que não chegavam em suas mãos. Provavelmente outros cientistas importantes do Brasil poderão trocar de casa nos próximos meses ou anos, se a situação não melhorar.

E a comunidade científica internacional está de olho na situação financeira no país faz algum tempo. Gibney já havia escrito para a Nature em setembro de 2015 apontando para as dificuldades financeiras em manter projetos no país e em cumprir acordos científicos internacionais. E, apesar disso, um ano depois, Herton Escobar, em uma matéria para a Science, já aponta os cortes constantes para diversas áreas além da ciência, incluindo a proposta que limita os gastos públicos pelos próximos 20 anos (a PEC 241 que na época da reportagem não havia sido votada ainda). Destaco a fala de Helena Nader. presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC): Países inteligentes aumentaram o investimento em ciência, tecnologia e inovação para sair de crises. E nós estamos fazendo o oposto".

Apesar do cenário um tanto pessimista em 2017 (e nos próximos anos), conversei com alguns colegas para esboçarem um cenário da ciência ao longo desse ano no Brasil em diversos aspectos. Agradeço a todos que puderam colaborar.

Carlos Orsi: O principal desafio da ciência brasileira para 2017 será encontrar e testar uma vacina capaz de proteger contra o Zika Vírus, ou aprofundar parcerias internacionais em áreas como astronomia e física de partículas mas, dado o cenário atual, o maior desafio, mesmo, será sustentar um nível mínimo de financiamento e aprender a se comunicar com a população.

Você pode notar que citei dois desafios, mas o que me parece claro é que eles são, na verdade, um só. Uma característica das democracias é que o gasto público é sensível à opinião pública. 

É por isso que é mais fácil construir estádios do que equipar laboratórios. É por isso que, mesmo em meio à maior crise financeira da história da República, tanto o governo federal e quanto o Estado de São Paulo encontram verbas para testar uma quimera como a fosfoetanolamina sintética. É por isso que um sistema de saúde público que sofre com falta crônica de medicamentos essenciais sustenta serviços de homeopatia e acupuntura.

Os cientistas brasileiros têm o hábito, cultivado há gerações, de  tratar seus problemas de cima para baixo – de  tentar convencer de suas prioridades os gestores públicos, não o público. Mas desastres recentes como a tragicomédia da “fosfoetanolamina sintética” e a extinção do MCTI devem deixar duas lições claras para 2017: a primeira é que, em tempos de vacas magras, o acesso pelo topo fica reservado para banqueiros, ruralistas e empreiteiras; a segunda é que o acesso pela base – pelo argumento, pelo convencimento – pode funcionar. O desafio é saber fazer.

- Carlos Orsi é jornalista formado na USP. Escreveu para O Estado de S. Paulo e atualmente é editor assistente na Unicamp. Escreveu diversos livros de ficção e não-ficção científica, incluindo ‘Guerra Justa’, ‘O Livro dos Milagres’ e ‘O Livro da Astrologia’, além de manter um blog pessoal.

Salvador Nogueira: Na verdade há um temor muito grande do impacto dos cortes de gasto sobre a ciência brasileira.

Podemos mencionar a expectativa gerada por um cubesat que o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) deve lançar neste ano em órbita baixa, além do lançamento do Satélite Geoestacionário Brasileiro.

De resto, há uma enorme preocupação com o impacto que a interrupção de investimento possa causar a programas de pesquisa. Nesse sentido, estão mais amparados os pesquisadores de São Paulo, pois a FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) tem recursos garantidos por lei. Mas, para quem depende do governo federal, vai ser feio...

- Salvador Nogueira é jornalista pela USP e atualmente escreve no Mensageiro Sideral, blog da Folha de São Paulo voltado para assuntos em astronomia e astronáutica. Escreveu 11 livros, entre eles ‘Extraterrestres’ e ‘Rumo ao Infinito’, além de ser um fã apaixonado de Star Trek.

Gilson Volpato: Fora as reclamações sobre a política não amistosa do governo em relação à nossa ciência, teremos um ano com menos verbas. Isso ocorrendo, a criatividade dos cientistas brasileiros será o ponto decisivo. Há grupos que não se abalarão, outros desistirão, mas alguns acharão outras formas de fazer ciência, alterando um pouco o sistema tecnológico de pesquisa no qual estamos imerso (i.e., valorizando mais o cérebro e menos as técnicas). É possível que as dificuldades trazidas, mesmo que indesejadas num certo contexto, façam uma triagem de nossa produção científica, possivelmente melhorando nossa eficiência. Acredito também que mais aspirantes a cientistas repensarão sobre a opção pela pós-graduação, o que pode melhor canalizar essa força da juventude para nichos mais condizentes com seus desejos mais íntimos, restando à ciência apenas aqueles que, de fato, veem na ciência seu ideal.

- Gilson Volpato é biólogo e doutor em zoologia pela Unesp e professor da instituição. Viaja pelo Brasil em palestras e cursos de metodologia e redação científica. Escreveu 11 livros (mais um a caminho) sobre redação científica e o fazer ciência (dois livros, inclusive, sorteados aqui no blog). Mantém um site pessoal, com aulas e informações relevantes sobre ciência.

Isis Diniz: Que delícia acessar minha bola de cristal para dar meus pitacos de mãe Isis Dináh (ops, Isis Diniz). Bom, decidi focar em meio ambiente que é o que tenho acompanhado mais de perto. Primeiro, o ano de 2017 será marcado por campanhas educativas e por advocacy que tratarão da importância do Cerrado para o nosso país, visando a diminuição do seu desmatamento e a recuperação de algumas áreas. Aliás, pesquisadores descobrirão mais detalhes sobre como “replantar” o bioma (ainda um desafio, visto que o sistema de regeneração envolve muitos fatores como o fogo). Mas, infelizmente, o desmatamento da Amazônia continuará batendo recordes e alguns estados como o de São Paulo tentarão aprovar medidas que prejudiquem o que já se conseguiu preservar da nossa fauna e flora. Mas o bom senso prevalecerá (ações do Ministério Público contra essas medidas) e elas serão excluídas.

O tema aquecimento global voltará a ser mais debatido devido às ações do novo presidente americano Donald Trump por afirmar que “isso non ecziste”, valorizando a economia baseada na queima de combustíveis fósseis. Pesquisadores revelarão mais estudos apontando que, sim, já sentimos os efeitos do mundo esquentando por conta das ações humanas. Haverá mais eventos extremos como furacões na costa do Sul do Brasil e cientistas confirmarão que, na verdade, eles sempre existiram por lá, mas não eram relatados (a meteorologia brasileira, ainda pouco conhecida, será mais desvendada). Também se observará que o calor intenso na região Sul e Sudeste durará até o outono e o frio tardio durante toda a próxima primavera. Por outro lado, as definições dos países para mitigar o aquecimento global serão cada vez mais incisivas.

Viajando por outras áreas... existirão mais avanços no campo da pesquisa para combater o mosquito Aedes aegypti, ainda mais agora que a tendência é que ele voe em debandada para áreas quentes de países desenvolvidos. Se colocarmos em prática, conseguiremos suprimir o mosquitinho faraônico. O desmatamento da Amazônia trará mais descobertas no campo da arqueologia, veremos que viveram aqui tribos tão avançadas cientificamente como nossos hermanos Astecas, Maias e Incas.

Indo mais longe ainda, lá pelos lados do LHC, uma equipe de gênios descobrirá a Teoria de Tudo (conseguirá unificar as leis da física) e ganhará o Nobel. Para finalizar com a notícia de todos os tempos, um astrônomo descobrirá sem querer vida baseada em carbono em outro corpo celeste que não a Terra (nem que seja uma bacteriazinha ET). Assim, quem quiser fugir para Marte já poderá pensar em arrumar as malas! O universo ficará pequeno para o ser humano, enquanto este, a cada dia mais nesta vida mundana de migração, perceberá que todos somos um. Que o universo vive dentro de nós. E este universo é amor. Feliz 2017!

- Isis Diniz é jornalista formada no Mackenzie, com pós-graduação em Divulgação Científica pela USP. Trabalhou para várias empresas, incluindo passagens na Editora Globo e edição de conteúdo da Pesquisa Fapesp. Atualmente trabalha na Iniciativa Verde, organização dedicada a melhoria de serviços ambientais, além de manter o Xis-Xis, blog pertencente ao ScienceBlogs Brasil, além de ser muito divertida.

Roberto Takata: Meu pitaco: vai ser ph*da (no mau sentido) [em resposta ao meu tweet pedindo um pitaco para ele sobre o assunto].

- Roberto Takata é biólogo pela USP e doutor em genética e evolução. Se escondendo dos todos poderosos Google e Facebook (até mesmo dos amigos que o seguem nas redes sociais), mantem o blog Gene Repórter.

Espero que 2017 seja um bom ano para a ciência, tanto nacional como internacional. Afinal de contas, todos nós ganhamos com isso...

Feliz 2017!

🌌📡🔭🌍🐾🔬☕🐭🌙💻📚

P.s.: agradeço a Roberto Takata que colaborou de forma indireta, sugerindo pessoas e links para leitura. Obrigado.

Texto publicado por Elizabeth Gibney para a Nature 541, 14-15, traduzido e adaptado por Wesley Santos para o Do Nano ao Macro.
Imagem que abre a postagem foi obtida aqui.

O melhor em 2016!


Podemos dizer que o ano de 2016 foi atípico em diversas formas, sobretudo para nós brasileiros. Foi um ano intenso, com acontecimentos que mostram a capacidade humana de estar construindo a história a todo o minuto. Foi o ano em que memes contando sobre o infindável mês de agosto (que parecia nunca chegar no fim) e a adaptação do meme 'Já acabou, Jéssica?' para 'Já acabou, 2016?' mostram que os últimos dias de 2016 não deixarão muitas saudades.

O ambiente político nacional que estava conturbado em 2015, tornou-se um ambiente instável e totalmente dinâmico em 2016. Vimos o primeiro processo de impeachment desde Collor, destituindo a então presidente Dilma Rousseff do poder. Vimos o desenrolar de diversas fases da operação Lava-Jato, comandada pelo juiz curitibano Sérgio Moro e debates intensos e calorosos vindos de todos os lados em publicações de opinião pelas redes sociais. Acompanhamos a eleição do magnata Donal Trump à presidência dos Estados Unidos. De posição enérgica e antiética em alguns pontos, conquistou a maioria dos votos dos delegados em importantes Estados americanos. Vimos, além disso, debates acalorados sobre temas sociais importantes, como a liberação do aborto e conquistas sociais de homossexuais.

Ficamos tristes com as vidas levadas esse ano. O cantor inglês David Bowie e o ator inglês Alan Rickman (intepretou Severo Snape na franquia 'Harry Potter') nos deixaram em 2016. Fidel Castro, revolucionário cubano e presidente por mais de 40 anos, foi uma das figuras históricas que encontraram seus últimos dias nesse ano. Infelizmente, de forma chocante, vimos a tragédia com a Chapecoense, time catarinense que, em seu auge, encontrou o seu fim ao voar para a Colômbia para a final da partida de futebol valendo o título da Copa Sul-americana. Junto com os jogadores, repórteres e jornalistas de esporte também perderam a vida. Apesar dessa tragédia, encontramos um traço de esperança na humanidade, com o incrível apoio e compaixão da população colombiana, onde seria realizada a partida. Comoção nacional e internacional, a Conmebol cedeu o título da Copa para a Chapecoense depois do pedido do Atlético Nacional e vimos cenas incríveis de afeto e solidariedade por todos os lados nos dias após o acidente.

Foi o ano das Olimpíadas no Brasil e a emoção que tomou conta de todos, superando as expectativas dos otimistas e surpreendendo os pessimistas. O maior evento logístico do mundo em períodos de paz, as Olimpíadas Rio 2016 nos emocionou da abertura ao encerramento. Vimos recordes sendo quebrados, superações pessoais e as mais diversas demonstrações do espírito esportivo. O público se apaixonou por figuras como o atleta jamaicano Usain Bolt e a ginasta americana Simone Biles.

Junto com todos esses acontecimentos, vimos avanços científicos e tecnológicos em 2016 que merecem destaques, além do tradicional pronunciamento dos laureados do prêmio Nobel.