Répteis não existem...



Quando o assunto é Ciência, fique certo de uma coisa: as coisas sempre estão mudando. Isso é, de certa forma, natural já que o conhecimento sempre vai avançando e a medida que novas coisas vão sendo descobertas,as ideias antigas vão sendo deixadas de lado. Na Biologia, que meu professor de Física dizia não ser Ciência[1], acontece a mesma coisa.

Não é difícil imaginar a grande diversidade de vida que existe. Pergunte ao seu avô ou qualquer pessoa que conheça bem alguma mata e pergunte quantas espécies de aves e de outros bichos ele conhece. Serão muitos. Mas garanto que ele não citará nem 1% das espécies que realmente existem no local onde mora. Os cientistas sabem do desafio quando se deparam com mais de dois milhões de espécies conhecidas e mais tantas outras a serem descobertas. Organizar isso tudo é um desafio e tanto. Atualmente, a Biologia trabalha com a Sistemática Filogenética (ou Cladística, para os íntimos). E, quando os caras foram organizar as espécies, viram que os répteis como os conhecemos não existem!

Como assim?

Quer dizer que minha tartaruguinha, ou o meu lagarto ou o meu crocodilo de estimação (WTF!) não existem!? Calma... eles existem sim (ou existiram, como no caso dos dinossauros), eles são/foram reais. Mas então que raios é isso de dizer que répteis não existem!?

Antes do surgimento e da popularização da Cladística, os biólogos classificavam toda a vida existente baseado na Taxonomia Evolutiva. Nela os organismos eram organizados de acordo com sua semelhança morfológica e pela zona adaptativa (que é quando os organismos vivem mutuamente com o ambiente). Nessa classificação, quando os organismos evoluem e algumas espécies começam a usar os recursos do ambiente de forma nova, significa que ele mudou sua posição de classificação[2]. A ideia que temos de répteis veio dessa classificação: animais de pele com escamas epidérmicas, ectotérmicos (sua temperatura é influenciada pela temperatura do meio externo) e botadores de ovos.

Mas a cladística vê isso de outra forma. Para ela, os animais devem ser classificados de acordo com o ancestral comum mais recente. Para tanto, precisamos voltar na história dos primeiros tetrápodes. No Carbonífero[3] dois grupos principais de animais começaram a surgir. Em um deles, seus ovos permaneceram parecidos com os seus primos de vida aquática, já que o embrião não poderia ficar seco, pois morreria. Já o outro grupo desenvolveu um meio de tornar o embrião protegido mesmo na ausência de água. O ovo com casca permitia isso. Mais que isso, o ovo possuía consigo três membranas que permitiam o animal realizar suas atividades praticamente sem nenhuma interferência do meio externo[4]. O primeiro grupo citado deu origem a todos os Anfíbios atuais – sapos, rãs, salamandras – e o outro grupo deu origem a todos os animais terrestres que se utilizam desse meio de reprodução até hoje: os Amniota.

Para a cladística faz sentido ‘juntar’ todos os animais terrestres, menos anfíbios, em um único grande grupo chamado Amniota visto que todos eles formam um grupo monofilético[5] que leva esse nome. Todas os répteis, aves e mamíferos possuem essa característica reprodutiva (a presença das três membranas), pois todos eles possuem um ancestral que fazia exatamente o mesmo e essa novidade evolutiva deu certo.

Com essa ideia em mente, vamos chegando cada vez mais perto na linha do tempo. No final do Carbonífero e começo do Permiano[6] os Amniota começaram a se diversificar. Três linhagens surgiram com base nas aberturas craniais existentes após a abertura orbital: Sinapsida, Anapsida e Diapsida[7].

Os Sinapsida são todos os animais que possuem apenas uma abertura cranial após a abertura do olho. Todos os animais atuais desse grupo possuem um ancestral sinapsídeo que passou essa característica para os seus descendentes. Nesse grupo estão os pelicossauros (répteis semelhantes a mamíferos) e todos os mamíferos atuais. Todos os mamíferos (incluindo você) possuem um ancestral sinapsídeo em comum. Por isso temos diversas características em comum que nos reúne num grupo monofilético denominado Mammalia.

Os Anapsida, por sua vez, não possuem nenhuma abertura cranial pós-orbital. Esse estranho grupo possui tantos características primitivas e derivadas que pouco mudaram ao longo do tempo. Os únicos representantes desse grupo atualmente são as tartarugas. Para se ter uma ideia de como essa característica pouco mudou com o passar dos anos, os fósseis de tartarugas encontradas no Triássico, aproximadamente 200 milhões de anos atrás, possuem praticamente as mesmas características das tartarugas atuais.

Já os Diapsida são todos os animais que possuem duas aberturas pós-orbitais. Ou seja, o ancestral desses animais possuía um crânio com duas aberturas após a abertura do olho. Os diapsídeos originaram três grupos, com base em crescimento craniano, pelve e posição das aberturas craniais: Sauropterygii, Lepidossauria e Archossauria.

Os sauropterígios não possui nenhum representante atual. São os grandes animais aquáticos da era dos dinossauros, os Plesiossauros. Os lepidossauros são todos as atuais serpentes e lagartos, além do extinto ictiossauro (embora pareça um golfinho, ele não possui nenhuma relação com os golfinhos atuais). E, por último, os arcossauros. Nesse grupo estão todos os crocodilos atuais, os extintos e famosos dinossauros e, também, as aves!

No final de tudo, a Filogenética organiza os Tetrapoda como mostra o cladograma abaixo.

Cladograma simplificado dos tetrápodes atuais.
Clique na imagem para ampliar.
Podemos ver que no cladograma eu não citei em nenhum lugar a palavra “réptil”. Isso acontece que, para a Biologia atualmente, os répteis não existem! Vemos no cladograma que o número 5 reúne todos os repteis atuais mais as aves. Ou seja, quando falarmos Sauropsida, estamos reunindo todos os répteis conhecidos, mais as aves. Desse jeito, o grupo se torna um grupamento natural (monofilético), pois todos eles possuem uma história evolutiva em comum, já que todos eles possuem um ancestral em comum. Quando falamos apenas dos “répteis”, estamos excluindo todas as aves e, pela cladística, isso torna o grupamento não-natural. Na cladística, damos a isso o nome de grupo parafilético.

Sauropsida reúne todos os "répteis" mais as aves.
Isso o torna um grupo natural.

Se tomarmos apenas répteis na classificação antiga,
excluímos as aves, e isso torna o grupo
não-natural, ou seja, parafilético.
Ou seja, o título do post não quis dizer que os répteis como os conhecemos não existam. Apenas mostrei que, pela classificação mais aceita pela Ciência atualmente, os répteis não formam algo válido já que excluímos as aves, que possuem um ancestral em comum, no caso, com os crocodilos[8]. 

Para finalizar, ainda usamos a palavra répteis com fins didáticos. Quando falamos nele, o grupo aparece de forma natural em nossas mentes, já que vemos isso nas escolas e na TV. O cientista Colin Tudge deu uma definição simples de que os répteis “são todos os Amniota que não são os mamíferos e nem as aves”. Embora um tanto controverso, já que não podemos classificar um grupo por algo que ele não tem, a frase resume bem a situação: os répteis são todos os Sauropsida, excetuando as aves. Simples assim.

Atualização:
O boníssimo Roberto Takata me disse, via Twitter, que alguns autores consideram Reptilia como um grupo válido, apenas com uma certa redefinição. Além de se utilizarem de outras características morfológicas presentes nas espécies, há o uso de técnicas moleculares que permitem verificar o grau de similaridade entre espécies. Ele me passou dois trabalhos interessantes em que diversos aspectos são levados em conta e diversas sugestões de relação entre os grupos são propostos. Clique aqui e aqui para ver os artigos (ambos em inglês).

Informações adicionais: 
[1]: Realmente eu não sei do porque ele dizia isso. Ele afirmava que a Biologia voltou a ser Ciência com o advento da Biologia Molecular. Talvez pelo fato de boa parte da Biologia ser descritiva ele dizia isso. Apesar desse pequeno problema dele, ele foi um excelente professor de Física que, assim como eu, tem uma paixão pela Ciência. 

[2]: Um exemplo seria os peixes. Na Taxonomia Evolutiva, todos eles estão dentro de um grande grupo, Peixes. No decorrer da Evolução alguns animais foram para a terra firme. Essa conquista da terra firma conferiu uma nova zona adaptativa, sendo, portanto, pertencente a um outro grupo, no caso Anfíbios, por exemplo. 

[3]: período que compreende cerca de 360 a 290 milhões de anos na História da Terra. Tem esse nome pois é desse período que são encontrados grandes reservas de carvão mineral. 

[4]: as três membranas são o âmnion, o alantoide e o córion. O córion permite que o embrião realize trocas gasosas com o meio externo (a membrana que fica logo abaixo da casca de um ovo de galinha). O alantoide permite, além de realizar trocas gasosas, armazenar as excretas nitrogenadas, provenientes do seu metabolismo (se não houvesse esse “depósito de lixo” dentro do ovo, o animal morreria por causa de suas próprias excretas). E o último e o mais conhecido, âmnion. É a membrana que envolve uma cavidade preenchida por um líquido, o líquido amniótico, onde seria o meio aquático do embrião se desenvolver. Ou seja, o desenvolvimento do ovo não tornou os embriões de Amniota independentes da água: ela apenas permite que o animal tenha tudo consigo por perto. Como diz meu professor, o ovo é “um pacotinho de viagem prático”. 

[5]: quando um grupo possui um único ancestral em comum é denominado monofilético (do grego, “única tribo”). Falo um pouco mais sobre o assunto, aqui. 

[6]: o Permiano compreende aproximadamente 290 a 245 milhões de anos atrás e marca o fim da Era Paleozoica. 

[7]: a ordem e a relação exata dos três grupos ainda é bastante discutida no meio científico. O que sabemos com certeza é que esses três grupos possuem uma ancestralidade em comum com os Amniota, ou seja, todos eles possuíam um ancestral botador de ovos que possuía as três membranas características[4]. 

[8]: na realidade, os crocodilos são os parentes vivos das aves atuais. A aves descendem de um grupo dentro de Dinossauria. Mas acredito que isso seja assunto para um outro post. 

Com imagens por ~xandju e *Svenimal em seus deviantART. Com informações de:
HICKMAN, C.; ROBERTS, L.; LARSON A. Princípios integrados de zoologia. 11.ed. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 2009.
POUGH, F.; JANIS, C.; HEISER, J. A vida dos vertebrados. 4.ed. São Paulo, Atheneu Editora, 2008.

5 comentários:

  1. Muito bom , o texto .

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  2. Luiz Paulo Antonio da Silva6 de setembro de 2013 08:50

    Nossa, parabéns. Você conseguiu explicar algo que a tempo nao conseguia entender. Muito obrigado.

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  3. Obrigado pelos parabéns!
    Continue conosco! =D

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  4. Em primeiro lugar, parabéns pelo texto e por sua consistência. Também sou estudante da Unesp, bacharelando em Engenharia Biotecnológica no campus de Assis, mas me detive em uma pequena dúvida. Segundo essa postagem, os répteis se tornam um grupo inválido devido ao fato de que o grupamento Sauropsida deve englobar não somente eles como também as aves. Sendo assim, não seria igualmente correto afirmar que, teoricamente, o inverso também aconteceria, isto é, de acordo com a Cladística, não seria correto afirmar que "as aves não existem"?

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