9 Meses - post 16

O aparelho de ar condicionado pifou. Restou apelar para o bom e velho ventilador. Mas nem
mesmo o calor espanta Ana de explicar umas coisinhas para Carlos.

Dobras...
A TV da sala estava desligada. O silêncio era quebrado por um barulho de conversa indistinguível que se fazia ouvir fora da casa. O outono começou alguns dias atrás e mesmo assim o clima continuava quente. Descobriram hoje que o ar condicionado já era e precisava de conserto ou, quem sabe, comprar outro. Um ventilador estava quebrando o galho no momento. Entretanto, ficar dentro de casa sabendo que uma brisa fresca estava soprando calma do lado de fora da casa chamou a atenção de Carlos. Lá fora viu Ana conversando com a vizinha. Não tinha ideia do que seria a conversa. Talvez fosse sobre a gravidez ou, quem sabe, até do ar condicionado quebrado. Cumprimentou a vizinha com um leve aceno de mão. Ana, que estava de costas para ele vira a cabeça, dá um leve sorrisinho para ele e volta a conversar com a vizinha. Carlos resolveu voltar para dentro de casa. Com o ventilador soprando o ar direto para ele, ele ficou sentado no sofá por alguns minutos. Seus olhos começaram a esquadrinhar o ambiente, observando as coisas despreocupadamente. Então ele vê, do outro lado da sala um livro que acostumara a ver nos últimos meses: Embriologia.

Carlos levantou para pegar o livro e dar uma folheada básica. Reviu, nos primeiros capítulos do livro, tudo aquilo que Ana contara a ele: fecundação, nidação e o desenvolvimento embrionário em si. A medida que folheava o livro, percebeu que, em alguns desenhos, aparecia uma estrutura que não fora apresentada para ele.  Ele ficou alguns minutos olhando para as ilustrações (lembrou que nem mesmo Ana gostava do texto daquele livro, quiça ele) tentando entender o que era aquilo, sem sucesso.

Depois de alguns segundos com a cara enfiada no livro, Carlos levanta a cabeça e leva um susto. Ana estava em sua frente. Ela havia chegado sem fazer barulho.

-- O que está fazendo, amor? - perguntou Ana, disfarçando uma possível risada ao ver o marido com os olhos arregalados do susto.

-- Estava vendo as figuras do seu livro de... - virou rapidamente a capa do livro para si - embriologia e me deparei com uma coisa que não havia visto antes.

-- O que é, querido? - disse, se sentando ao seu lado e sentindo o vento batendo em seu rosto vindo do ventilador.

-- É isso aqui... - disse, apontando para umas duas figuras que estavam na mesma página.

-- Ah, isso aqui são os arcos faríngeos! - exclamou Ana. Carlos ficou observando sua amada com a típica expressão "não faço a mínima ideia do que está falando". Ana rapidamente percebe essa expressão e começa a explicar detalhadamente - Bom, amor. Lembra quando eu disse para você que o sistema nervoso, no começo, não passava de um tubinho[1]? - o marido concorda com a cabeça - Lembra que eu disse que esse tubinho começou a crescer mais rápido e acabou fazendo o corpo do bebê se dobrar, fazendo a que chamamos de flexura cefálica?

-- Aham, me lembro...

-- Então, quando ele começa a flexionar, o tecido logo abaixo começa a ficar dobrado justamente por causa da flexão acima. É parecido o que acontece quando eu deixo o braço com a minha mão ereta e depois, quando eu a flexiono e aparece esse dobra de pele aqui, na região do punho - disse Ana, fazendo os movimentos com a mão e Carlos observando tudo, fazendo leves movimentos com sua mão, sem perceber.

-- Hum... então é só uma dobra de tecido do feto?

-- Bom, não é apenas uma dobra de tecido. Coisas muito importantes irão sair desses arcos faríngeos.

-- Ah é? O que, por exemplo?

-- Dos arcos faríngeos irão sair diversas estruturas musculares, nervosas e ósseas que compõem a face e o pescoço.

Desenho esquematizando a origem de algumas estruturas da face e pescoço. Em 'A', um embrião de cinco
semanas evidenciando os arcos faríngeos. Cada cor representa um arco faríngeo que irá compor as
estruturas evidenciadas em 'B' e em 'C'. As estruturas musculares que são originadas a partir dos quatro
primeiros arcos faríngeos são mostradas em 'B'. Em 'C' são mostrados alguns ossos e cartilagens
que se originam através da migração de células originadas dos arcos faríngeos. Lembrando que as
estruturas surgem no mesmo indivíduo. Os desenhos foram separados para melhor visualização.

-- Não brinca... é sério? - diz o marido, incrédulo. Ele observa novamente os desenhos do livro e tenta imaginar o que vai sair daqueles arcos faríngeos.

-- Pode parecer estranho mas acontece que muitas células desses arcos irão migrar para os locais onde eles irão desempenhar suas reais funções. Por exemplo, do primeiro arco faríngeo irão surgir os dois de três ossículos do ouvido médio: o martelo e a bigorna.

-- Mas... mas... esse arco que você falou está bem aqui, para baixo, como ele foi até o interior formando esses ossinhos do ouvido?

-- Pois é... pra você ver como é interessante. Do primeiro arco surgem as musculaturas responsáveis pela mastigação e por tensionar o tímpano para captar o som do ambiente - Carlos fica observando a mulher falar tudo aquilo, impressionado - o estribo, que é o terceiro ossículo do ouvido e alguns outros músculos, como o músculo dos lábios e dos olhos tem origem a partir do segundo arco faríngeo. Esse arco também dará origem a parte do osso que temos no pescoço chamado de hióide. Esse osso fica mais ou menos aqui - disse Ana, pegando de leve o pescoço de Carlos - e ele não se articula com mais nenhum osso do corpo. É sustentado apenas por músculos e ligamentos. Outra parte dele é desenvolvida a partir do terceiro arco faríngeo. Já o quarto e o sexto arco faríngeo irão dar origem as estruturas que compõem a laringe, como a cartilagem da tireoide e a musculatura estriada do esôfago[2].

-- E o quinto arco faríngeo, cade ele?

-- Ele é bem rudimentar ou está ausente e não participa de nenhum processo importante para a formação da face e pescoço - o marido concorda com a cabeça. A mulher fica um pouco pensativa e solta em seguida - bom, a língua, também se desenvolve graças a células dos arcos faríngeos. A maior parte da língua que temos, a porção oral, provem do primeiro arco. Já o fundo da língua, a porção faríngea, provem do terceiro e quarto arco faríngeo.

-- Interessante... - disse, com a voz levemente modificada pelo fato de estar com a língua para fora, em uma fracassada tentativa de vê-la. Ao perceber que estava sendo protagonista de uma cena de humor, tratou de se arrumar e disse - bom, que tal a gente fazer nossos antigos arcos faríngeos se encontrarem um pouco, hein? - disse, lançando uma piscadela para Ana.

-- Bom, não foi a coisa mais romântica que eu já ouvi na vida mas está cientificamente correto... - disse, com um leve sorrisinho no rosto.

Segundos depois os dois estavam juntos, se beijando, ouvindo o ininterrupto barulho das pás do ventilador girando e refrescando um pouco a quente noite do casal.

Informações extras:
[1]: o desenvolvimento do sistema nervoso foi tratado aqui.

[2]: devido a sua origem embriológica, a musculatura do esôfago apresenta tanto músculo estriado visceral quanto músculo liso. A musculatura estriado se localiza mais na porção superior do esôfago, mais próximo da faringe, quanto a musculatura lisa se localiza mais próximo do estômago.

Com imagem por ~Thorson77 em seu deviantART. Desenho esquemático feito por mim, protegido por CC.

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