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Mesmo sabendo que será mamãe de uma menininha, Ana
resolveu contar como surgem os meninos. Isso será
importante para Carlos entender como será o desenvolvimento
de sua pequena.

Meninos...

Ana ainda ria da situação que o marido lhe contara que acontecera no trabalho. Toda vez que via Carlos ela se segurava e logo em seguida soltava uma bela risada. Mal acabara de saber que será pai de uma menina e está com ciúmes do futuro na namorado que, assim como a filha, é bem possível que nem nascera ainda.

Depois do jantar, Ana estava na frente do computador ora vendo o Facebook ora pesquisando um artigo científico que ela estava precisando. Entretanto, seus parentes no Facebook queriam saber de todos os detalhes da descoberta que ela estava gerando uma menina.

-- quer dizer q teremos + 1 menina na familia? - perguntou sua prima a qual cresceram juntas.

-- sim priii
-- como se a nossa familia nao tivesse mts mulheres neh??? uahuahauhauha

-- exatamente! kkkkkkkk

Enquanto Ana se divertia com seus parentes online, Carlos secretamente subtraiu um livro um tanto velho da estante e começou a folheá-lo. Depois de um tempo olhando para ele achou o trecho que estava interessado, o leu, processou um pouco a informação que acabar de ver e como um ladrão que se arrependera de ter feito o roubo, devolve o livro no mesmo lugar onde estava. Silenciosamente ele caminha até o lado de fora da casa, onde um vento frio, típico do outono, é sentido em sua pele. Ele respira fundo e deixa o ar frio entrar em seus pulmões. Ele olha para a casa vizinha e encontra tudo na mais completa escuridão. Possivelmente eles foram viajar, coisa que fazem com uma certa frequência. Após alguns minutos pensando sobre o que acabara de ler, ele resolve entrar na casa. O ar aquecido dentro da casa conforta novamente sua pele fria.

Ana percebeu que se continuasse online no Facebook ela nunca iria fazer a tal busca que precisava. Quando começou a digitar os termos para sua busca, o marido que estava sentado em uma cadeira próxima a dela, questiona:

-- Querida, quer dizer que eu doei meu cromossomo X para nossa filha?

Ana se virou para Carlos com um olhar de espanto. Ela não estava esperando por isso.

-- Sim, meu amor. É o homem que "decide" qual será o sexo da criança. Como a mulher tem o cromossomo sexual XX, ela pode doar apenas o cromossomo X. O homem, entretanto tem como cromossomo sexual XY, ou seja, podem doar tanto o X como o Y. Se doar o X, nascerá uma mulher e se doar um Y, será homem.

-- Mas é algo que existe no cromossomo Y ou no X que faz nascer homem ou mulher?

-- Bom, o principal fator determinante do sexo da criança é mesmo o cromossomo Y. Bom, vou explicar do princípio, tudo bem? - o marido concorda com a cabeça - Pois bem, no começo, mesmo geneticamente sendo macho ou fêmea, existe um período em que as características sexuais são indiferenciadas, ou seja, visualmente não dá pra saber se será homem ou mulher, entendeu? - o marido concorda com a cabeça novamente - pois bem, durante esse período, próximo da região onde se dará o desenvolvimento do rim, estará se desenvolvendo, também, as gônadas sexuais, ou seja, ou os testículos ou os ovários.

-- Espera um pouco. Você está dizendo que os testículos se desenvolvem dentro da gente? - perguntou Carlos um tanto incrédulo e apontando para si.

-- Exatamente... - disse Ana. Entretanto Carlos continuava incrédulo e a bióloga resolveu abrir um parenteses na explicação - É assim, amor: o testículo se desenvolve dentro do corpo da criança mesmo. Acontece que, para eles funcionarem certo, ou seja, produzirem espermatozoides quando chegarem na puberdade, é preciso que eles estejam fora do corpo já que isso acontece em uma temperatura mais baixa do que do resto do corpo. Por isso que, lá pelo sétimo ou oitavo mês os testículos começam a descer pela cavidade abdominal - disse, movimentando suas mãos para baixo - e chegam até o local onde será o escroto.

Desenho esquematizando simplificadamente o desenvolvimento da gônada masculina. O
desenvolvimento inicial das gônadas é indiferenciado, ou seja, meninos e meninas possuem
o mesmo nível de desenvolvimento. A ação do fator determinante de testículo (FDT)
irá determinar a ação para a gônada se transformar em testículo. Em 'B', vemos as células
germinativas primordiais que se originam do saco vitelino migrarem para a região da crista gonadal.
Em 'C' e o detalhe em 'D' mostram o 'avanço' dos ductos mesonéfricos, formando a rede testicular,
englobando as células germinativas.

-- Hum, entendi... - ponderou o marido - Continue com o que estava dizendo...

-- Bom, nessa região onde estará se formando as gônadas, células que são da parede do saco vitelino irão migrar para essa região. São essas células germinativas primordiais que darão origem aos espermatozoides e aos óvulos.

-- E bom, como o organismo sabe que essas células irão ser de menino ou de menina?

-- Fácil, é o cromossomo Y quem determina essa característica[1]. Uma sequência de genes ativam o fator determinante de testículo (FDT). É ele que vai dizer para o corpo do bebê que ele irá desenvolver o testículo. Esse FDT induz a formação de uma rede de cordões onde irão penetrar por entre as células germinativas que vieram do saco vitelino e as células do mesênquima que estava lá e servia de preenchimento para essa gônada. Esses cordões irão virar, futuramente, os tubos seminíferos. As células que foram condensadas junto a eles são de dois tipos: as espermatogônias e as células de sustentação[2].

-- Hum... pelo visto as espermatogônias - disse Carlos, um tanto na dúvida se disse certo. Vendo que não foi corrigido pela esposa, continuou - irão virar os espermatozoides, certo? - a mulher concorda com a cabeça - e essas de sustentação irão sustentar quem? As espermatogônias?

-- Isso! As espermatogônias não estão soltas lá dentro do tubo seminífero. Essas células de sustentação irão dar porte e nutrir as espermatogônias que estarão no meio delas - o marido ficou uma expressão de que entendeu a coisa toda - bom, e as células do mesênquima que não ficaram junto com os túbulos? Eles darão origem as células intersticiais[3]. E essas células irão produzir o hormônio testosterona, característico dos homens. E, bem, o testículo está praticamente formado. Depois desse período de formação ele realiza aquele processo de descer a parede abdominal e chegar até onde é o escroto.

Desenho esquematizando a estrutura interna do testículo. Os ductos mesonéfricos
encerram tanto as células germinativas primordiais como várias células
mesenquimais. O ductos mesonéfricos formam, futuramente, os túbulos seminíferos
e as células germinativas darão origem às espermatogônias que irão se transformar, por
processo de meiose, a espermatozoides (começando na adolescência). As células
mesenquimais darão origem às células de sustentação[2] que irão nutrir e sustentar
as espermatogônias. As células mesenquimais que não foram encerradas pelo ducto
mesonéfrico darão origem às células intersticiais[3] que, na adolescência, irão
produzir o hormônio testosterona. As células mioides são células que constituem
a parede do túbulo seminífero[4].

-- Nossa, que complexo... e em relação à nossa menininha?

Ana olhou para o relógio do computador à sua frente. Os pequenos números no canto da tela marcavam mais de onze horas da noite. E ainda não pesquisara o bendito artigo que estava precisando para ontem. Ela olhou para o marido, pensou um pouco e disse:

-- Querido, você sabe quando um autor de um livro faz aquela deixa para o próximo capítulo. E você fica P da vida quando percebe que já passam da duas da madrugada e precisa dormir mas quer ler o que vai acontecer com a história?

-- Sim - diz o marido, com um ar desconfiado.

-- Então amor, eu preciso fazer uma busca aqui e estou começando a ficar com sono. Posso te contar essa historinha amanhã?

Ana ficou com dó da insistência de Carlos em querer saber como sua menininha irá se desenvolver. Por fim, ela acabou fazendo a pesquisa que precisava e, ao ir ao quarto, encontrou o marido deitado na cama, com o livro de Embriologia aberto do lado e um bilhete ao lado do livro com letra de quem realmente estava com sono:

Realmente não dá para entender porra nenhuma desse livro. Amanhã você me conta.
Te amo! ♥


Ela deu um sorriso, beijou a face do marido e minutos depois estava deitada ao lado do homem que em breve, seria pai de sua filha. Ele merecia saber como isso acontecia.

Informações extras:
[1]: A determinação dessa característica acontece devido a uma expressão coordenada de vários genes. O mais importante é o gene SRY que irá dirigir o desenvolvimento da gônada indiferenciada em um testículo. Esse gene se localiza no braço curto do cromossomo Y.

[2]: anteriormente essas células eram chamadas de células de Sertoli. Devido a mudanças na nomenclatura anatômica, a tendência é que nomes próprios (epônimos) em órgãos e estruturas do corpo sejam abandonados. O mesmo vale para outros como trompas de Falópio (tubas uterinas) ou cápsula de Bowman (cápsula renal).

[3]: também conhecidas como células de Leydig.

[4]: o túbulo seminífero até o início da adolescência é um tubo maciço de células. Com a puberdade, o túbulo começa a ganhar luz (ficar oco) e as espermatogônias começam a se transformar em espermatozoides e ocupar essa luz. A produção de espermatozoides não cessam ao longo da vida do homem após a puberdade, que ocorre por volta dos 13 anos.

Com imagem por ~iquitcounting em seu deviantART.

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