Perspectivas 2017: o que esperar da ciência

Pesquisadores esperam vislumbrar um horizonte de eventos, continuar lutando pela supremacia quântica e se preparar para uma ressaca política. No Brasil, uma evasão de cérebros e dificuldades financeiras serão os tormentos em 2017.

Estamos com os olhos voltados para a ciência em 2017!

A Nature, quase todos os anos, vislumbra um possível cenário do que esperar para a ciência mundial no novo ano que se inicia. Naturalmente, por ser uma revista global, seu foco acaba sendo os grandes ambientes acadêmicos da Europa e dos Estados Unidos. Essa ‘espiada’ que a Nature faz acaba excluindo, muitas vezes, nuances e perrengues dos países que não estão nesse eixo científico.

Pensando nisso, entrei em contato com alguns amigos e colegas que escrevem sobre ciência para construírem um panorama da ciência nacional em 2017, complementando a publicação e tornando-a mais completa.

Primeiramente apresento o que podemos esperar da ciência de acordo com Elizabeth Gibney e, em seguida, focando na ciência no Brasil.

Mares agitados para o clima: o presidente eleito dos Estados Unidos Donald Trump poderá colocar os EUA como um dos maiores contribuintes para as emissões de gases de efeito estufa, ao lado da China, o líder mundial atualmente, caso ele não cumpra com os tratados internacionais assinados recentemente. Entretanto, os níveis de emissão global tem se mantido estáveis nos últimos três anos e os cientistas esperam que 2016 não tenha sido diferente, visto que a estagnação da economia e o avanço da tecnologia verde possa ter contribuído de forma significativa. E dados de sondas robóticas nos mares do sul poderão revelar o quanto de carbono as águas ao redor da Antártica estão absorvendo.

Ressaca política: se as eleições de 2016 nos EUA chocaram algumas pessoas, apenas em 2017 é que poderemos ver suas consequências. Depois da posse de Trump em 20 de janeiro, os pesquisadores poderão ter uma melhor ideia se sua administração irão destrinchar os programas de ciências da Terra e climáticos da NASA ou revogar permissões para conduzir pesquisas com células tronco embrionárias humanas. Em março, serão iniciados a saída formal do Reino Unido da União Europeia (Brexit), com impacto potencial nas pesquisas científicas. E as novas campanhas eleitorais na Alemanha e na França poderão impactar o fazer ciência nesses países importantes da Europa.

Voltando ao destinatário: se tudo der certo, a missão chinesa à Lua Chang’e-5 poderá trazer amostras da lua pela primeira vez desde a década de 1970. Cerca de dois quilos de rochas e solo serão enviados à Terra para estudos sobre a formação e evolução da Lua. E, próximo do fim do ano, a sonda Cassini, com sua missão completando 20 anos na mais completa glória. Ela passará pelos anéis internos de Saturno e mergulhará na atmosfera do planeta. Os cientistas esperam colher preciosos dados antes de perderem o contato.

O mundo interior: espera-se que mais estudos sobre como a microbiota humana – os vírus, bactérias e demais micro-organismos, juntos com os nossos genes – afetam a saúde sejam publicados em 2017. Pesquisadores então de olho nos efeitos da microbiota no desenvolvimento do cérebro e do câncer. E os resultados da fase 2 do US Human Micro-biome Project (Projeto Microbiota Humana Americano) poderão aparecer em 2017, com foco na ligação entre a microbiota humana e nascimentos prematuros e, também, nas doenças intestinais inflamatórias e no diabetes tipo 2.

Competição genética: a corte americana provavelmente tomará uma decisão sobre a disputa entre a Universidade da Califórnia e a Broad Institute em Cambridge sobre a técnica molecular CRISPR-Cas9. Ambos os institutos clamam a invenção dessa técnica de edição de gene que poderá render bilhões de dólares em patentes. NgAgo, uma técnica concorrente, está tendo dificuldades em ser replicada, o que pode não render resultados no futuro. E, no Reino Unido, clínicas poderão utilizar uma técnica controversa de reprodução assistida que combina o DNA de três pessoas. O procedimento tem como objetivo prevenir a transmissão de doenças para crianças através de problemas nas mitocôndrias da mãe, que é uma organela responsável pela produção de energia na célula.

Supremacia quântica: físicos esperam que 2017 seja o ano em que os computadores quânticos possam realizar operações que seriam impossíveis em computadores tradicionais. Google, D-wave e outras empresas estão na corrida para a supremacia quântica. Apesar disso, outras empresas buscam o topo por outras formas. A Microsoft  está trabalhando em uma técnica alternativa ambiciosa conhecida como computação quântica topológica, que codifica as informações no movimento de objetos semelhantes a partículas em materiais, e pode ser muito mais robusto que os métodos rivais. A companhia pode ser um dos primeiros a ter sucesso nesse tipo de computação no fim de 2017.

Iluminando a escuridão: cientistas poderão fazer a primeira tentativa de fotografar o horizonte de eventos de um buraco negro em abril, quando nove radiotelescópios ao redor do mundo irão trabalhar como se fossem um só: um observatório do tamanho do planeta. O Event Horizon Telescope (Telescópio do Horizonte de Eventos) irá espiar um buraco negro supermassivo no centro da Via Láctea. Se a tentativa for um sucesso, as imagens poderão ajudara a testar a teoria da relatividade geral e o comportamento de buracos negros luminosos. Enquanto isso, grupos do Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory (LIGO) e Virgo, um observatório europeu próximo de Pisa, na Itália, irão rodar um experimento pela primeira vez que poderá permitir a pesquisadores saberem o local de origem das ondas gravitacionais em algumas galáxias.

Materiais maravilhosos: células solares pequenas e baratas poderão sair dos laboratórios e serem comercializados ainda em 2017. A eficiência de células solares baseadas em perovskita disparou desde 2009. Até então os pesquisadores estão apenas fazendo avanços na superação de inconvenientes com esse material, como a instabilidade e a toxicidado, empurrando para frente formas de tornar a produção mais barato. A ciência de materiais poderão receber um investimento de mais de US$ 1,2 bilhão de dólares para tornar operacional o European X-ray free-electron laser (laser livre de elétrons de raio-X europeu). O instrumento permitirá os pesquisadores a estudar as reações químicas em frações de segundos e processos físicos e biológicos em nível atômico.

Grande azul: a maior reserva marinha mundial entra em vigor em dezembro, quando porções do mar de Ross na Antártica estarão livres da exploração comercial de peixes e minérios. Em outro ponto da Antártica, uma enorme iceberg poderá surgir da quebra da plataforma de gelo Larsen C, separando a massa de gelo e neve em pedaços menores desde a sua descoberta em 1893. E, em climas mais quentes, estudos que analisaram os eventos de branqueamento de corais registrados nos últimos anos poderão revelar pistas sobre o por que algumas áreas os corais sobreviveram ilesos.

A luta das células T: a primeira imunoterapia para câncer chamado CAR-T parece estar pronto para ganhar o mercado. As farmacêuticas Kite Pharma e Novartis estão na corrida para aprovar a terapia, que envolve engenharia genética das células T a partir do sistema imune do paciente e usá-lo para combater o câncer. Apesar dos problemas de toxicidade apresentados pelas empresas (que levaram a morte de alguns pacientes em alguns estudos), o tratamento pode ser aprovado ainda esse ano como método de última escolha para pessoas com leucemias e linfomas.

Planeta Nove: estudos do sistema solar externo provavelmente ajudarão a restringir a localização do Planeta Nove, um hipotético planeta que orbita o Sol a cada 20 mil anos. Havia poucas evidências para sua existência até que em 2016 estudos sobre o comportamento de alguns objetos no cinturão de Kuiper – em geral pedaços de gelo em uma região depois da órbita de Plutão, sugerem que ele deve estar lá. E um novo satélite ‘caçador’ de planetas extra-solares será lançado em dezembro pela NASA, o Transiting Exoplanet Survey Satellite (TESS).

- Elizabeth Gibney é formada em ciências naturais (física) pela Universidade de Cambridge e mestra em comunicação científica pela Imperial College London. Já escreveu para o CERN, o laboratório franco-suíço de pesquisa física e atualmente escreve sobre física para a Nature.

Veja o original no link (em inglês).

* * *

E QUANTO A CIÊNCIA NO BRASIL, o que podemos esperar para 2017? É notório os problemas acadêmicos na captação de recursos no Brasil, que ladra para todos os lados a falta de dinheiro para investimentos. Isso poderá prejudicar não só a ciência no país mas também sua relação com institutos e cientistas mundo afora. Com isso, diversos pesquisadores que acreditavam que a ciência brasileira iria crescer cada vez mais estão reavaliando a situação e, em alguns casos, pensando seriamente em sair do país, em busca das melhores condições que outros países oferecem à pesquisa. A matéria publicada pelo O Globo dia 08/01/2017 apresenta exatamente essa visão. Foi notório a decisão da neurocientista Suzana Herculano-Houzel  de deixar o país em meados de 2016 após lutar por verbas públicas destinados ao seu laboratório que não chegavam em suas mãos. Provavelmente outros cientistas importantes do Brasil poderão trocar de casa nos próximos meses ou anos, se a situação não melhorar.

E a comunidade científica internacional está de olho na situação financeira no país faz algum tempo. Gibney já havia escrito para a Nature em setembro de 2015 apontando para as dificuldades financeiras em manter projetos no país e em cumprir acordos científicos internacionais. E, apesar disso, um ano depois, Herton Escobar, em uma matéria para a Science, já aponta os cortes constantes para diversas áreas além da ciência, incluindo a proposta que limita os gastos públicos pelos próximos 20 anos (a PEC 241 que na época da reportagem não havia sido votada ainda). Destaco a fala de Helena Nader. presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC): Países inteligentes aumentaram o investimento em ciência, tecnologia e inovação para sair de crises. E nós estamos fazendo o oposto".

Apesar do cenário um tanto pessimista em 2017 (e nos próximos anos), conversei com alguns colegas para esboçarem um cenário da ciência ao longo desse ano no Brasil em diversos aspectos. Agradeço a todos que puderam colaborar.

Carlos Orsi: O principal desafio da ciência brasileira para 2017 será encontrar e testar uma vacina capaz de proteger contra o Zika Vírus, ou aprofundar parcerias internacionais em áreas como astronomia e física de partículas mas, dado o cenário atual, o maior desafio, mesmo, será sustentar um nível mínimo de financiamento e aprender a se comunicar com a população.

Você pode notar que citei dois desafios, mas o que me parece claro é que eles são, na verdade, um só. Uma característica das democracias é que o gasto público é sensível à opinião pública. 

É por isso que é mais fácil construir estádios do que equipar laboratórios. É por isso que, mesmo em meio à maior crise financeira da história da República, tanto o governo federal e quanto o Estado de São Paulo encontram verbas para testar uma quimera como a fosfoetanolamina sintética. É por isso que um sistema de saúde público que sofre com falta crônica de medicamentos essenciais sustenta serviços de homeopatia e acupuntura.

Os cientistas brasileiros têm o hábito, cultivado há gerações, de  tratar seus problemas de cima para baixo – de  tentar convencer de suas prioridades os gestores públicos, não o público. Mas desastres recentes como a tragicomédia da “fosfoetanolamina sintética” e a extinção do MCTI devem deixar duas lições claras para 2017: a primeira é que, em tempos de vacas magras, o acesso pelo topo fica reservado para banqueiros, ruralistas e empreiteiras; a segunda é que o acesso pela base – pelo argumento, pelo convencimento – pode funcionar. O desafio é saber fazer.

- Carlos Orsi é jornalista formado na USP. Escreveu para O Estado de S. Paulo e atualmente é editor assistente na Unicamp. Escreveu diversos livros de ficção e não-ficção científica, incluindo ‘Guerra Justa’, ‘O Livro dos Milagres’ e ‘O Livro da Astrologia’, além de manter um blog pessoal.

Salvador Nogueira: Na verdade há um temor muito grande do impacto dos cortes de gasto sobre a ciência brasileira.

Podemos mencionar a expectativa gerada por um cubesat que o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) deve lançar neste ano em órbita baixa, além do lançamento do Satélite Geoestacionário Brasileiro.

De resto, há uma enorme preocupação com o impacto que a interrupção de investimento possa causar a programas de pesquisa. Nesse sentido, estão mais amparados os pesquisadores de São Paulo, pois a FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) tem recursos garantidos por lei. Mas, para quem depende do governo federal, vai ser feio...

- Salvador Nogueira é jornalista pela USP e atualmente escreve no Mensageiro Sideral, blog da Folha de São Paulo voltado para assuntos em astronomia e astronáutica. Escreveu 11 livros, entre eles ‘Extraterrestres’ e ‘Rumo ao Infinito’, além de ser um fã apaixonado de Star Trek.

Gilson Volpato: Fora as reclamações sobre a política não amistosa do governo em relação à nossa ciência, teremos um ano com menos verbas. Isso ocorrendo, a criatividade dos cientistas brasileiros será o ponto decisivo. Há grupos que não se abalarão, outros desistirão, mas alguns acharão outras formas de fazer ciência, alterando um pouco o sistema tecnológico de pesquisa no qual estamos imerso (i.e., valorizando mais o cérebro e menos as técnicas). É possível que as dificuldades trazidas, mesmo que indesejadas num certo contexto, façam uma triagem de nossa produção científica, possivelmente melhorando nossa eficiência. Acredito também que mais aspirantes a cientistas repensarão sobre a opção pela pós-graduação, o que pode melhor canalizar essa força da juventude para nichos mais condizentes com seus desejos mais íntimos, restando à ciência apenas aqueles que, de fato, veem na ciência seu ideal.

- Gilson Volpato é biólogo e doutor em zoologia pela Unesp e professor da instituição. Viaja pelo Brasil em palestras e cursos de metodologia e redação científica. Escreveu 11 livros (mais um a caminho) sobre redação científica e o fazer ciência (dois livros, inclusive, sorteados aqui no blog). Mantém um site pessoal, com aulas e informações relevantes sobre ciência.

Isis Diniz: Que delícia acessar minha bola de cristal para dar meus pitacos de mãe Isis Dináh (ops, Isis Diniz). Bom, decidi focar em meio ambiente que é o que tenho acompanhado mais de perto. Primeiro, o ano de 2017 será marcado por campanhas educativas e por advocacy que tratarão da importância do Cerrado para o nosso país, visando a diminuição do seu desmatamento e a recuperação de algumas áreas. Aliás, pesquisadores descobrirão mais detalhes sobre como “replantar” o bioma (ainda um desafio, visto que o sistema de regeneração envolve muitos fatores como o fogo). Mas, infelizmente, o desmatamento da Amazônia continuará batendo recordes e alguns estados como o de São Paulo tentarão aprovar medidas que prejudiquem o que já se conseguiu preservar da nossa fauna e flora. Mas o bom senso prevalecerá (ações do Ministério Público contra essas medidas) e elas serão excluídas.

O tema aquecimento global voltará a ser mais debatido devido às ações do novo presidente americano Donald Trump por afirmar que “isso non ecziste”, valorizando a economia baseada na queima de combustíveis fósseis. Pesquisadores revelarão mais estudos apontando que, sim, já sentimos os efeitos do mundo esquentando por conta das ações humanas. Haverá mais eventos extremos como furacões na costa do Sul do Brasil e cientistas confirmarão que, na verdade, eles sempre existiram por lá, mas não eram relatados (a meteorologia brasileira, ainda pouco conhecida, será mais desvendada). Também se observará que o calor intenso na região Sul e Sudeste durará até o outono e o frio tardio durante toda a próxima primavera. Por outro lado, as definições dos países para mitigar o aquecimento global serão cada vez mais incisivas.

Viajando por outras áreas... existirão mais avanços no campo da pesquisa para combater o mosquito Aedes aegypti, ainda mais agora que a tendência é que ele voe em debandada para áreas quentes de países desenvolvidos. Se colocarmos em prática, conseguiremos suprimir o mosquitinho faraônico. O desmatamento da Amazônia trará mais descobertas no campo da arqueologia, veremos que viveram aqui tribos tão avançadas cientificamente como nossos hermanos Astecas, Maias e Incas.

Indo mais longe ainda, lá pelos lados do LHC, uma equipe de gênios descobrirá a Teoria de Tudo (conseguirá unificar as leis da física) e ganhará o Nobel. Para finalizar com a notícia de todos os tempos, um astrônomo descobrirá sem querer vida baseada em carbono em outro corpo celeste que não a Terra (nem que seja uma bacteriazinha ET). Assim, quem quiser fugir para Marte já poderá pensar em arrumar as malas! O universo ficará pequeno para o ser humano, enquanto este, a cada dia mais nesta vida mundana de migração, perceberá que todos somos um. Que o universo vive dentro de nós. E este universo é amor. Feliz 2017!

- Isis Diniz é jornalista formada no Mackenzie, com pós-graduação em Divulgação Científica pela USP. Trabalhou para várias empresas, incluindo passagens na Editora Globo e edição de conteúdo da Pesquisa Fapesp. Atualmente trabalha na Iniciativa Verde, organização dedicada a melhoria de serviços ambientais, além de manter o Xis-Xis, blog pertencente ao ScienceBlogs Brasil, além de ser muito divertida.

Roberto Takata: Meu pitaco: vai ser ph*da (no mau sentido) [em resposta ao meu tweet pedindo um pitaco para ele sobre o assunto].

- Roberto Takata é biólogo pela USP e doutor em genética e evolução. Se escondendo dos todos poderosos Google e Facebook (até mesmo dos amigos que o seguem nas redes sociais), mantem o blog Gene Repórter.

Espero que 2017 seja um bom ano para a ciência, tanto nacional como internacional. Afinal de contas, todos nós ganhamos com isso...

Feliz 2017!

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P.s.: agradeço a Roberto Takata que colaborou de forma indireta, sugerindo pessoas e links para leitura. Obrigado.

Texto publicado por Elizabeth Gibney para a Nature 541, 14-15, traduzido e adaptado por Wesley Santos para o Do Nano ao Macro.
Imagem que abre a postagem foi obtida aqui.

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