O que sabemos sobre Coronavírus?


Essa publicação faz parte da série especial ‘O que sabemos?’ mantida aqui no Do Nano ao Macro. Veja outras publicações no link.

O início de 2020 chegou preocupando autoridades médicas e de saúde em todo o mundo. A China reportou a circulação de uma variante de um vírus da família Coronaviridae altamente transmissível entre humanos e que estava associado a mortes no país. O aviso dos chineses acendeu o alerta vermelho em todo o mundo, já que o vírus é velho conhecido da comunidade científica. Vamos entender um pouco mais sobre o vírus e os problemas associados a ele.

Coronavírus
Dentro das dezenas de famílias de vírus catalogadas pelo Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV), a família Coronaviridae é uma velha conhecida entre os virologistas. Ela infecta naturalmente aves e mamíferos, tanto os silvestres como os de criação e domésticos. Algumas variantes também infectam os humanos, tanto que é um dos vírus mais comuns encontrado nas amostras de pessoas com resfriados em todo o mundo.

Nos animais elas podem desencadear problemas respiratórios, principalmente em aves, como os de criação, e problemas gastrointestinais, como já relatado em animais domésticos, como em cães e gatos.

Aspecto geral de um coronavírus, visto em
microscopia eletrônica de transmissão.
A família Coronaviridae recebe esse nome pois suas glicoproteínas presentes no seu envelope – responsáveis por ela se ligar às células que irão infectar – ficam parecendo, quando vistas no microscópio eletrônico, a coroa solar, como se fossem os raios solares emanando a partir da bolinha que é o vírus.

Como todo vírus que se preze, o coronavírus tem como objetivo utilizar o maquinário da célula hospedeira para gerar novas cópias de si. Ele lança seu material genético – no caso uma fita simples de RNA – dentro da célula que, não sabendo diferenciar o material genético dela própria e do vírus, acaba incorporando a replicação desse material em seus afazeres celulares, criando cópias do vírus, que acabam sendo lançadas para fora da célula, as disseminando para infectar outras células, reiniciando o ciclo.

Quando eu disse um pouco para cima que o vírus já é conhecido da comunidade científica, eu não me referia apenas pelo fato dela causar resfriados comuns. Ela foi responsável por dois grandes surtos recentes em nossa história: a SARS e a MERS.

SARS e MERS
A SARS – Síndrome Respiratória Aguda Grave – foi a primeira epidemia problemática que ocorreu com um coronavírus que temos ciência. Iniciando no fim de 2002, passando por 2003, a doença foi provocada pelo vírus do mesmo nome[1] e infectou pouco mais de oito mil pessoas, com cerca de 770 mortes, com letalidade de menos de 10%[2]. Iniciou-se na China, provavelmente circulando entre animais em mercados populares de animais vivos em algumas províncias chinesas.

Até então, o vírus provavelmente circulou entre os animais sem ter a capacidade de infectar humanos. Contudo, uma característica dos vírus é sua alta mutabilidade, ou seja, a capacidade de modificar a cada replicação – já que ele não tem nenhum mecanismo de correção –. Assim, ao ser transmitir para inúmeros animais próximos, ele ganhou a capacidade de infectar humanos. No começo, a infecção era apenas animal-humano-animal, mas as novas mutações levaram a capacidade de infecção humano-humano, o que explica sua disseminação pelo mundo na época.

Já a MERS – Síndrome Respiratório do Oriente Médio – foi uma epidemia com alta taxa de letalidade quando comparada com a SARS. Mesmo tendo uma disseminação muito inferior à SARS, infectando pouco mais de 2,5 mil pessoas, ela matou mais de 850, com uma taxa de letalidade de quase 35%.

Surgiu nos países do Oriente Médio em 2013 e a alta taxa de letalidade preocupou a comunidade científica rapidamente. Hoje os cientistas acreditam que ela tenha se originado a partir de vírus que circulavam entre camelos e dromedários e ganhou a capacidade de infectar humanos. Ao contrário da SARS, a MERS ainda circula em alguns países no mundo, e a OMS (Organização Mundial da Saúde), ainda monitora a doença.

COVID-19[3]
Os primeiros relatos ocorreram ainda em dezembro de 2019, após o médico chinês Li Wenliang ter reportado o surgimento de casos de uma doença respiratória desconhecida semelhante ao SARS[4]. Mas o mundo só ficou sabendo do problema em janeiro de 2020, após chegarmos a milhares de casos registrados.

Os primeiros casos ocorreram na cidade de Wuhan, província de Hubei. Com mais de 11 milhões de pessoas, Wuhan é um centro comercial, cultural, econômico e educacional da região central da China, o que a faz dela um local com uma enorme circulação de pessoas, tanto dentro como de fora do país.

Contudo, práticas antigas ainda persiste nesse meio que é a China moderna, com mercados de animais vivos que são pouco tradicionais de serem vistos por nós, ocidentais. Acredita-se que a circulação de pessoas e animais capturados tenha propiciado que uma variante do coronavírus que circula entre morcegos e pangolins[5] – que são animais utilizados na culinária chinesa e na medicina tradicional chinesa – tenha mutado e ganhado capacidade de infectar humanos. Daí foi um pulo até ganhar capacidade de transmissão humano-humano.

Nesse presente momento em que escrevo (atualizado em 26/02/2020, com dados do dia anterior), a OMS reportou mais de 80 mil casos de COVID-19 (≈99% sendo apenas na China), com mais de 2,6 mil mortes (letalidade de cerca de 3%). A OMS está liberando boletins quase diários atualizando o número de casos e mortes: assim, é mais válido acessar o site da OMS nesse link e acompanhar as atualizações por lá.

O que chama a atenção para o COVID-19 em relação à suas primas virais é a diferença entre a taxa de infecção e a de letalidade. SARS e MERS infectaram bem menos pessoas na época do surto, mas tiveram taxas de letalidade consideráveis, passando do 30% para o caso do MERS. COVID-19, contudo, infectou muito mais pessoas, mas sua letalidade está abaixo dos 3%.

Os especialistas acreditam que SARS e MERS tinha baixa capacidade de infecção, mas maior letalidade por atingir principalmente as vias aéreas inferiores, como os pulmões, onde o risco à saúde é muito maior. Já o COVID-19 consegue dispersar com muito mais facilidade entre as pessoas, mas atinge principalmente as vias aéreas superiores, como nariz e garganta, o que apresenta menor risco à saúde.

Além disso, muito das mortes até o momento parece estar associado a conhecidos fatores de risco para muitas doenças respiratórias, como a idade (pessoas mais velhas são mais suscetíveis que mais novas), condições de saúde (pessoas que já tem problemas respiratórios, por exemplo) e se usam muitos medicamentos (o que pode comprometer a imunidade).

Portanto, apesar da baixa taxa de letalidade, o mundo se assustou com a doença, que parece avançar rápido. Devido a sua origem em um país superpopuloso como a China, em uma região com um enorme fluxo de pessoas, onde animais capturados convivem lado-a-lado com animais domesticados e humanos. Com certeza, do ponto de vista epidemiológico, é o inferno na Terra.

Apesar da onda de pânico, lembre-se que existem doenças que já causam muitas dores de cabeça em nosso país que são mais difíceis de serem controladas do que o COVID-19. Mesmo com vacinas, quase mil pessoas morreram devido a Influenza no Brasil em 2019. Isso representa quase 27% do total de mortes associadas a síndromes respiratórias registradas no país. Das quase mil mortes, pouco mais de 64% foram causadas pela Influenza A H1N1, a variante responsável pela pandemia de 2009. Ou seja, muitas doenças mais sérias circulam entre a gente.

Claro que o COVID-19 merece sua atenção e cuidado. Por isso, é sempre válido prestar atenção principalmente para as pessoas que estavam ou estão na China, sobretudo na região de Wuhan, epicentro do COVID-19 (mais informações em Update 1, abaixo). Além do mais, o simples gesto de lavar as mãos e evitar contato próximo com as pessoas é mais que o suficiente para evitar qualquer tipo de infecção por esse vírus.

O trabalho dos virologistas, epidemiologistas e médicos é de sempre acompanhar qualquer atividade desse vírus e reportar para a comunidade, mas a não ser que você esteja na região de risco ou trabalhe com isso, não é preciso se preocupar. Mas, como sempre no mundo da virologia, as coisas podem mudar repentinamente. Por isso, é sempre importante ficar de olho nas notícias a partir de fontes confiáveis. Nossa página no Facebook está sempre de olho nas novidades e colocamos as mais relevantes por lá. Por isso, não esqueça de nos seguir por lá!

Atualização:
Update 1, 26/02/2020: nos últimos dias explodiu o caso de COVID-19 fora da China, em especial na Coreia do Sul e em países da Europa, sobretudo na Itália. Agora a recomendação é de atenção para pessoas que viajam ou entraram em contato com pessoas que vieram dos países de risco.

Um brasileiro de 61 anos retornou de viagem da Itália para São Paulo e apresentou sintomas compatíveis com COVID-19 e seus resultados apontaram positividade para o vírus, sendo o primeiro caso da doença no país, com confirmação na data desta atualização (link). Informações atualizadas podem ser acompanhadas na página no site no Facebook.

Rodapé:
[1]: os virologistas não são lá muito criativos na hora de nomear os vírus. Apesar da taxonomia seguir algumas regras de Lineu, os vírus não possuem um nome científico latinizado, sendo chamado geralmente pela doença que provocam. Assim, o vírus causador da SARS é chamado de SARS-CoV (Coronavírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave). A dengue é causada, por exemplo, pelo Vírus da Dengue e a febre amarela pelo Vírus da Febre Amarela.

[2]: a taxa de letalidade, isto é, a proporção de infectados conhecidos (sobretudo por diagnóstico laboratorial, mas também por laudo clínico) sobre o número de mortes. A porcentagem indica a letalidade da doença. Doenças com baixa porcentagem são pouco letais (mas não significam que não causam transtornos, apenas que matam menos). Vários fatores influenciam a letalidade de fato de alguma doença. Muitas doenças, mesmo as menos letais, podem ser mais perigosas para idosos e pessoas em situação de risco. Doenças respiratórios tendem a ser mais letais na população que já tem problemas respiratórios, por exemplo. Ou seja, apesar da letalidade baixa, a letalidade de uma doença pode ser alta quando se leva outros fatores em consideração.

[3]: apenas na segunda semana de fevereiro que a OMS, juntamente com ICTV, o surto recebeu seu nome oficial, sendo chamado de COVID-19, provocado pelo SARS-CoV-2. Até então o mundo tratava ele como sendo 2019-nCoV. Portanto, será comum ver esses termos na internet, além de ‘novo coronavírus’ ou, ainda, ‘surto de Wuhan’. 

[4]: as autoridades da China acusaram o médico de causar alarde sem fundamento na época. No fim das contas, o alerta do médico se mostrou verdadeiro, mas infelizmente ele acabou contraindo a doença e morreu no começo de fevereiro vítima da própria doença que ele havia detectado.

[5]: pangolim são mamíferos pequenos que possuem a pele semelhante a uma couraça e que são naturais da África e da Ásia.

Informe epidemiológica de Influenza no país, citado no texto, aqui. Imagem que abre a postagem baseada em CDC. Imagem do coronavírus em CDC.

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