Barbeiro-cirurgião: o médico dos pobres.

O Barbeiro-Cirurgião, quadro de Isaac Koedyck, 1647.
Cinco dias gelados depois do enterro do seu pai um estranho bateu na porta.
-- Você é o jovem Cole?
Fez que sim com a cabeça, desconfiado, o coração aos saltos.
-- Meu nome é Croft. Fui mandado por um homem chamado Richard Bukerel, que conheci quando estava bebendo na Taverna Bardwell.
Rob viu um homem nem jovem nem velho, grande e gordo e o rosto, castigado pelas interpéries, emoldurado pelos cabelos longos dos homens livres, uma barba crespa e redonda da mesma cor avermelhada.
-- Qual é o seu nome todo?
-- Robert Jeremy Cole, senhor?
-- Idade?
-- Nove anos.
-- Sou barbeiro-cirurgião e procuro um aprendiz. Sabe o que faz um barbeiro-cirurgião, jovem Cole?
-- O senhor é uma espécie de médico?
-- O homem sorriu.
O Físico: a epopeia de um médico medieval, de Noah Gordon. Editora Rocco. O trecho acima retirei do excelente livro de Noah Gordon, O Físico. O livro conta, bem resumidamente, as aventuras de Rob J. na Idade Medieval. Na primeira parte do livro ele vira aprendiz de barbeiro-cirurgião de Barber (o Sr. Croft do trecho acima). Na Idade Média já existiam médicos que desempenhavam suas funções na medida do possível. Os conhecimentos médicos na Idade Média podem surpreender muita gente que não se aprofunda um pouco na história mas, com o engessamento do conhecimento científico nessa época, as práticas medievais de cura permaneceram o mesmo por séculos a fio. Por exemplo, desde a antiguidade pessoas que sofriam de catarata poderiam ser submetidas a uma técnica chamada de reclinamento. Consiste basicamente em inserir uma agulha inclinada em relação ao olho e reclinar o cristalino para que o chamado “humor corrupto” saia. Era uma técnica muito dolorosa (já que não havia anestésicos) e muitas vezes o cristalino saia do lugar, deixando a pessoa cega para sempre.

Apesar de tanto sofrimento e de tão pouco conhecimento de doenças causadas pelos gases mau-cheirosos (até o fim do século XIX, acreditava-se que muitas doenças contagiosas eram transmitidas por causa do cheiro ruim, mas hoje se sabe que são causadas por microorganismos presentes no ar, água ou alimentos) ter um tratamento de um médico nessa época era coisa para gente rica e de posses. A população pobre poderia rezar e esperar pelo pior. Entretanto, de cidade em cidade, apresentando ora números de mágica e encantando a plateia e ora vendendo produtos de origem duvidosa estava o barbeiro-cirurgião. Amenizando febres e algumas dores, o barbeiro-cirurgião também fazia barba e cabelo das pessoas e fazia pequenas cirurgias, como retirar um dedo quebrado ou amassado pelas atividades rurais.

Entretanto, essa profissão ficou sem uma sociedade desde 1540 quando na Inglaterra a Sociedade dos Cirurgiões (não eram considerados médicos na época) se fundiu com a Companhia dos Barbeiros e formaram a Companhia dos Barbeiros-Cirurgiões. Em meados do século XVIII a pressão dos médicos fez com a Companhia se desfazesse. O tradicional poste dos barbeiros (vermelho e branco) seria um resquício dessa época.

O barbeiro-cirurgião popularizou a imagem do médico que imaginamos da Idade Média que realizava sangrias e administrava medicamentos um tanto estranhos como fezes de ganso ou metais pesados. Para quem não podia pagar pelo um médico, a chegada do barbeiro-cirurgião nas vilas era um alívio para os doentes que tinham uma esperança de ter seus males curados e não apenas depender da vontade divina.

P.s.: o livro ‘O Físico’ gerou algumas discussões sobre a tradução do título, onde Karl, do Ecce Medicus explica o que pode ter acontecido.

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Com imagens de A Arte da Medicina e Conexão Clandestina. Com informações de Wikipédia.

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