A Internet vai mudar? Sobre o IPv6


A internet é uma grande rede de troca de
informações entre computadores. Semelhante
a teia de uma aranha, praticamente todas
as suas linhas se comunicam.
Recentemente começou um rápido boato na internet dizendo que a internet iria acabar. Como assim? Basicamente o mundo atual está sustentado sobre os braços invisíveis da internet. Podemos fazer N coisas com ela: desde comprar aquele livro (ou e-book, você que sabe), se informar das coisas que ocorrem no mundo, conversar com amigos e parentes, descobrir amigos e parentes, xingar muito, baixar conteúdos (legais ou não) e tantas outras que parece não conseguirmos enxergar o seu fim. Impedir um país ficar sem acesso a internet seria gerar o caos[1]. Mas esse boato da internet acabar tem algum fundamento? Vou, antes de tudo, contar uma breve história sobre a Internet, começando pelos militares[2] e indo até os dias de hoje.

Tudo começou quando os americanos ficaram de boca aberta ao virem que os soviéticos deram um passo à frente ao colocar, em 1957, o primeiro satélite artificial da história em órbita: o Sputnik 1. Para não perderem mais tempo, o então presidente americano Eisenhower criou um ano depois a ARPA (Advanced Research Projects Agency) com o objetivo de colocar os Estados Unidos na superioridade tecnológica. Entre os problemas que deveriam ser solucionadas estava a criação de uma rede descentralizada de troca e armazenamento de informações militares. Os EUA estavam muito preocupados com um possível ataque soviético em solo americano. Um dos principais possíveis alvos seria o Pentágono (sede do Departamento de Defesa) e, caso fosse atacado, as informações que estavam em seus sistemas deveriam estar a salvo em outro lugar.

Surgiu então a ideia do ARPAnet, considerado por muitos como o precursor da Internet atual. Joseph Licklider e Lawrence Roberts usaram os trabalhos de Paul Baran para conectar em 29 de outubro de 1969[3] um computador da Universidade da Califórnia com um outro do Instituto de Pesquisa de Stanford mandando apenas as letras ‘L’ e ‘O’ – que formam a palavra login – antes do computador que recebia travar. Embora isso não pareça muita coisa (já que conseguimos mandar 140 caracteres – ou muito mais – com tanta facilidade que isso não significa praticamente nada) a revolução começou assim...

Com o passar dos anos mais instituições de pesquisas foram se conectando à rede. Em 1981, mais de 200 servidores estavam conectados a essa nova onda. Pesquisadores, professores, alunos e até amigos dos alunos foram se interessando e querendo aumentar ainda mais essa rede.

Acontece que, paralelamente, outras pessoas em outros países começaram a desenvolver sistemas de troca de informações entre computadores de forma independente. E cada um usava um padrão diferente, o que acaba tornando impossível a comunicação entre sistemas diferentes. Para resolver o problema, pesquisadores da ARPA, da Universidade de Stanford e criadores de algumas redes paralelas resolveram trabalhar sobre o assunto. Em 1 de janeiro de 1983 o protocolo TCP/IP entrou em ação. É nesse ponto que queria chegar.
O TCP/IP é um dado que identifica o computador que está acessando a rede. Quando você acessa o meu blog, por exemplo, a rede pergunta quem está pedindo por essa informação – já que você não é o único que está acessando a internet nesse momento. O seu provedor de acesso à internet passa um número exclusivo e único que identifica seu computador na rede. Quando você pede acesso a determinado site, a rede identifica seu IP e manda a informação para seu computador.

O sistema é simples e parece perfeito. Só tem um problema: o protocolo IPv4 tem uma extensão de 32 bits (cada bit representa uma unidade de informação, ou seja, os populares zeros e uns. O IPv4 que usamos atualmente) e, com isso, ele tem um número de possíveis combinações, que é cerca de quatro bilhões. É um número alto, mas finito. No começo de toda a história, algumas centenas de computadores estavam conectados. Hoje, são cerca de 1,5 bilhão de computadores, notebooks, netbooks, celulares, smartphones, televisores e até geladeiras conectadas à internet. As possibilidades numéricas estão acabando.

Por isso o novo protocolo IPv6 foi idealizado. Ela envolve uma extensão de 128 bits, entre letras e números que aumentam – e muito – o número de combinações possíveis. São 3,4 x 1038 (ou seja, 340 seguidos de 36 zeros). As alterações serão feitas aos poucos e possivelmente o usuário final nem perceberá a mudança. Pessoas com Windows XP ou posterior não precisam se preocupar já que esses sistemas suportam o novo padrão. Sistemas mais antigos deverão ser substituídos pois não há atualizações para eles. Poderão ter um pouco de dor de cabeça as pessoas que possuem o modem[4] antigo.

Alguns especialistas acreditam que o IPv6 será a última grande alteração na internet, já que tem números suficientes para nos atender por centenas e centenas de anos. Bom, SE a humanidade chegar tão longe – no tempo – a ponto de precisar criar um novo sistema de IP pois “os números estão acabando” nós realmente fizemos um ótimo trabalho (não apenas científico e tecnológico mas de consciência também). Veja: um sistema que surgiu para compartilhar informações militares hoje possibilita conversar com amigos e parentes – até descobrir novos amigos e parentes – se informar, descobrir, ouvir músicas, ver vídeos e imagens e expor o que você pensa para o mundo foi uma mudança e tanto[5]. Se a próxima mudança ocorrer, não sabemos. Mas se ocorrer, saberemos primeiramente aqui, pela internet.

Informações extras:

[1]: No começo do 2011 houve vários protestos no Egito e muito das informações que saiam de lá vinham através da internet, via redes sociais. Mabaraki, presidente/ditador do país mandou cortar o acesso a internet de todo o Egito. O país todo ficou sem acesso a rede por várias horas. Para resolver o problema grupos de outros países criaram um mecanismo que permitia as pessoas continuarem a mandar mensagens pela internet. O bloqueio à internet foi suspenso depois de algum tempo, já que até as conexões usadas para o transito de informações do mercado de ações foram fechadas, gerando prejuízos financeiros. E isso ninguém quer.

[2]: Essa história conta sobre a internet com a cara mais atual mas a comunicação ‘rápida’ entre dois pontos distantes começou no século XIX com o telégrafo. A comunicação de dados (independente do que ela contenha) é mais antiga que o advento dos computadores modernos.

[3]: Para se ter uma ideia do tipo de revolução e do que os caras tinham na época, o homem foi à Lua quatro meses antes de acontecer a primeira conexão entre dois computadores. Hoje existe uma tecnologia de ponta imensa para mandar os astronautas em órbita. Durante a corrida espacial o rádio e a TV eram os únicos meios eletrônicos rápidos de comunicação. Os dados e informações importantes eram todas salvas em enormes fitas magnéticas que ocupavam o tamanho de salas.

[4]: O modem é um aparelho pequeno – quem tem internet banda larga principalmente possui um que fica piscando quando conectado – que possibilita você acessar à internet. Aparelhos mais antigos podem não possui a nova especificação do IPv6 e quando os números do IPv4 acabarem, o modem não conseguirá conectar à internet. Os aparelhos mais atuais possivelmente já apresentam o novo padrão e o usuário não sentirá dor de cabeça na transição.

[5]: até 1989 a única coisa que era transmitida na internet era texto. A versão do Windows mais popular era o Windows 3 e não era uma beleza gráfica. Muitos computadores ainda rodavam o MS-DOS (que é basicamente linhas de comando no computador) e ela apenas mostra letras. Talvez o nome mais famoso da internet seja de Tim Berners-Lee que criou o hipertexto – que hoje faz parte do que chamamos de WWW (World Wide Web). Mas apenas em 1993 o primeiro navegador que exibia imagens além de texto foi o Mosaic. Um ano depois esse navegador foi substituído por um dos conhecidos dos nerds – o Netscape (o conceito de abas nos navegadores surgiu com ele). Mas ele perdeu espaço quando o Windows 95 apareceu com um navegador embutido, o Internet Explorer. A hegemonia do navegador permaneceu até o começo dos anos 2000 quando outros navegadores como Mozilla Firefox, Opera e o Google Chrome entraram na briga. Hoje a internet tem tanta coisa que um post é pouco para falar sobre a maioria delas.

P.s.: Pode parecer estranho eu falar sobre internet aqui no blog, que é voltado mais para a Ciência, mas acontece que a internet e os computadores são  aplicações práticas do conhecimento científico. Isso vale desde as transações de compras online feitas com o seu cartão até os processadores cada vez mais modernos que habitam as entranhas das máquinas. A Ciência está aí, embora nem imaginamos nos códigos e cálculos feitos para fazer o seu MSN funcionar. =P

P.s. 2: o Tecnoblog informou essa semana que os endereços IPv4 já se esgotaram na Ásia. O Consórcio Internacional que cuida da Internet distribui os IP's em regiões. A Ásia é um grande consumidor de eletrônicos. Faz sentido eles serem um dos primeiros a esgotarem o números para sua região. Ainda existe números para serem usados, mas o último 'lote' de números já foi distribuído.

Imagem por `scotto em seu deviantART.

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