Brânquias, maxilas e audição - parte 3


Desenho do Pikaia, um cordado primitivo. Ele é o possível ancestral de todos os cordados
existentes - e isso inclui você!
Olá, novamente. Ops, você é novo por aqui? Recomendo que veja a parte um e, em seguida, a parte dois para saber o que anda acontecendo, ok? Bom, estamos chegando na parte em que finalmente farei juz ao título do post. Bom, na árvore da vida nós pertencemos a um grande grupo denominado Chordata[4].

Agora observe a imagem ao lado. Esse animal foi encontrado em Burgess Shale na Colúmbia Britânica, no Canadá. Possui cerca de cinco centímetros e é considerado por muitos pesquisadores como o ancestral comum de todos os cordados existentes atualmente. A possível aparência dele ilustra o início desse post. Mas por que os cientistas acham que a Pikaia é o ancestral de, uma forma geral, todos os vertebrados? Esse animal possui nitidamente duas sinapomorfias[5] importantes: os miótomos e a notocorda. Os miótomos são bandas musculares em forma de 'V' presente em todos os cordados. Em um dia que você for pescar um peixinho para o almoço tire uns dois minutinhos para observar as porções de músculos presentes nas laterais do animal. A medida que os animais vão ficando mais derivados, os miótomos vão ficando menos visíveis na fase adulta. No ser humano, por exemplo, os miótomos são bem visíveis enquanto somos embriões. A medida que o organismo vai se desenvolvendo, os miótomos vão se modificando para formar as estruturas musculares que temos hoje. A imagem abaixo mostra bem isso.

Desenvolvimento dos miótomos no embrião humano. Na imagem na letra 'A' o embrião tem seis semanas.
Em 'B', oito semanas.
Ou seja, a presença de miótomos nos cordados constitui uma sinapomorfia (todos os integrantes possui ou possuíram em algum estágio de seu desenvolvimento). 

Uma outra característica facilmente visível na Pikaia é a presença de notocorda (tanto que dá nome ao grupo dos cordados). Notocorda significa literalmente "corda no dorso". Trata-se de um tubo semi-rígido composto por células revestido por uma bainha fibrosa. Na imagem que ilustra o início do post (e a foto do fóssil) é possível ver a notocorda que serve como eixo de sustentação para o corpo do animal. Na maioria dos cordados, a notocorda permanece apenas na fase embrionária e logo desaparece, sendo substituída pelas vértebras que compõem a coluna vertebral. Resquícios da notocorda ainda persistem nos animais adultos tanto dentro como entre as vértebras. O disco vertebral (que confere uma proteção contra impactos na coluna e que, em alguns casos, causam a conhecida hérnia de disco) é um resquício da nossa notocorda embrionária. 

Os cordados possuem uma outra sinapomorfia importantíssima característica da espécie: as fendas brânquiais.

Uhuu! Finalmente ele vai falar sobre as brânquias! \o/
Sim, sim... mas falarei sobre ela e a incrível modificação que ocorreu nessa estrutura no último post da série sobre o assunto. Até lá...

Informações adicionais:
[4]: não falei antes mas, na Ciência, os nomes geralmente são dados em latim. A nomenclatura biológica nos diz que, no caso da espécie, o nome deve ser escrito diferentemente do restante do corpo do texto. No caso, quando falar sobre a espécie humana, por exemplo, eu colocarei Homo sapiens em itálico. Os demais nomes de grupos biológicos podem ser escritos normalmente, mesmo estando em latim, como no caso dos cordados que chamamos de Chordata. Além disso, geralmente, as palavras escolhidas possuem algo que representa a espécie. A espécie de lampreia que usei em uma aula prática tem nome científico de Petromyzon marinus e, em latim, petros = pedra, myzon = sugador e marinus = marinho. Ou seja, o nome científico da lampreia seria algo como "sugador de pedras marinho", visto que esse animal, quando não está parasitando algum peixe ele se fixa em alguma pedra pela sua boca. Outro exemplo seria o Homo sapiens, nome de nossa espécie, em que Homo = homem e sapiens = sabido, ou seja, "homem sabido" - se é que alguns indivíduos de nossa espécie não apresentem esse comportamento... 

[5]: em relação à classificação cladística os termos apomorfias, sinapomorfias e autapomorfias são comuns. A apomorfia é uma característica mais recente (derivada) em relação à forma mais antiga (primitiva). O fato de os mamíferos terem mamas (que produzem leite) é uma apomorfia em relação aos que não possuem. A sinapomorfia são apomorfias compartilhadas por um grupo. No caso dos cordados, as sinapomorfias são aquelas que citei no texto. Já a autapomorfia são apomorfias que são compartilhadas por um grupo terminal da árvore filogenética. A presença de um único dedo funcional nos equídeos é uma autapomorfia em relação aos demais mamíferos que possuem, geralmente, cinco dedos.

Referências no último post da série.

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