Árvore da Vida


Acredito que seja a quarta vez[1] que eu tenho uma publicação com esse título. Bom, estou me formando em Biologia e "sem querer querendo" eu acabo publicando alguma coisa interessante relacionado ao assunto.

A árvore da vida tem como ideia organizar toda a vida conhecida pela Ciência (sim, isso inclui os organismos extintos) de modo a visualizar, de forma mais simples, a relação de todos estes com o mais antigo ancestral comum universal[2], remontando mais de 3 bilhões de anos de história evolutiva. Uma árvore da vida se baseia nos conhecimentos da cladística para indicar a posição dos organismos e suas relações de parentesco. Acho que agora eu preciso abrir um pequeno parênteses.

[parênteses mode on]
A cladística (ou sistemática filogenética) é um sistema de classificação da vida usado pelos taxonomistas. Nela, os organismos são organizados em táxons seguindo uma ideia bem simples: todos os organismos dentro desse táxon devem ter as mesmas características (ou novidades evolutivas) semelhantes. Nisso, organizamos esses organismos baseado em monofilias, ou seja, em características que os reúnem em um ancestral em comum. Assim, os cientistas sabem que todas as plantas, animais, fungos e várias algas possuem um grau de parentesco pois todos eles possuem uma carioteca, uma membrana que encerra o material genético formando o núcleo celular. Isso acontece pois a novidade evolutiva de todos esses organismos foi, no passado, de um ancestral que desenvolveu uma carioteca. Organismos que não possuem uma ancestralidade em comum não são aceitos por essa classificação. A esse montante chamamos de grupo parafilético. Assim, embora "répteis"[3], aves e mamíferos sejam do clado Amniota, se formos analisar por 'animais de sangue quente', teremos um grupo parafilético, visto que aves (sangue quente) está mais ligado filogeneticamente à répteis (sangue frio) do que com mamíferos (sangue quente). Isso acontece pois aves e répteis compartilham um ancestral em comum, coisa que não ocorre com os mamíferos. A associação desses dois clados (aves e mamíferos) não é natural, sendo parafilética.[4].
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Pois bem, a árvore da vida pode ser organizada de algumas maneiras interessantes. A mais tradicional (usada por muitos cientistas principalmente em trabalhos para mostrar a posição de tal organismo na árvore) é essa abaixo. Reconheço que não lembra muito uma árvore tradicional (mais parecendo uma bola de feno, ou coisa do tipo), mas os galhos levando a diversos táxons, chegando ao nível de indivíduo, mostrando a clara relação entre as diversas espécies a faz ser simples e direta ao ponto. Ao centro, temos o mais antigo ancestral comum e, a partir dele, se ramifica as mais diversas formas de vida. A relação desses organismos é feita principalmente por meio de Biologia Molecular.

Você pode ver uma versão maior dessa imagem, clicando aqui.

Uma versão mais simplificada dessa árvore da vida, evidenciando os principais grupos de seres vivos e suas relações (como os diversos tipos de bactérias (são muitos, confie em mim), plantas, fungos, animais e algas) pode ser vista aqui.

Entretanto, podemos dar uma cara melhor para a árvore da vida, dando-lhe um toque mais artístico. A BBC, canal de TV inglês, é muito boa em fazer esse tipo de trabalho. A imagem que ilustra essa postagem é um belo trabalho deles, juntamente com a Open University para ensinar sobre a árvore da vida e a relação dos mais diversos tipos de organismos. No site do projeto é possível aprender mais sobre os principais grupos e organismos, em uma versão animada da árvore.

Mas digamos que você quer ver a imagem na íntegra e de uma vez só! Bom, você pode baixar a imagem cavalar gigante dessa árvore da vida e mandar imprimir e transformar em um bacana quebra-cabeça (quem fizer isso, tire uma foto e mande um quebra-cabeça desse pra mim). Avisando que a imagem é um bocado grande (7 mil x 10 mil pixels) e pesando cerca de 11 MB. Aqui está o link da imagem.

Ainda no mesmo ritmo, o site Wellcome Trust também traz uma bonita árvore da vida, em vídeo (e animação no site) com o nosso grande divulgador de Ciências, Sir David Attenborough. E o site da BBC tem uma árvore da vida (parecida com a da imagem redonda acima), onde você pode baixá-la em .pdf para imprimir ou brincar com ela. Vale a pena dar uma olhada.

E, para finalizar, achei essa imagem que, de acordo com o site, é das costas da brasileira Mônica Quast, da Unicamp. Ela resolveu tatuar a árvore da vida em suas costas. Particularmente eu gostei. Veja aqui que bacana. Até eu fiquei pensando em tatuar uma dessa em minhas costas... =P

A árvore da vida,
imaginada por Darwin.
Embora existam vários jeitos de representar a árvore da vida, o ponto mais bacana disso tudo é que, baseado nos estudos feitos até hoje, nós podemos construir um panorama onde conseguimos relacionar, desde os primeiros trabalhos de Charles Darwin, a relação entre todos os organismos da Terra e melhorar, afinar e contribuir em muito o trabalho de um dos grandes cientistas que tivemos!


Informações extras:
[1]: para quem tiver curiosidade sobre as demais publicações sobre o mesmo assunto, reveja os posts usando a busca logo acima, perto do logotipo do blog ou clicando aqui ou aqui ou, ainda, aqui.

[2]: o antigo ancestral comum universal (em inglês, last universal common ancestor, ou LUCA) seria o último organismo vivo de qual todos os demais organismos descendem. Isso é possível pois independente do organismo que estamos estudando, todos apresentam características comuns, como a presença de DNA como o mecanismo onde a informação genética está contida, a transcrição dessa fita de DNA em uma cadeia de RNA e a sua posterior tradução em uma proteína. Essas proteínas são constituídas por aminoácidos e muitas destas proteínas catalizam (aceleram) reações (o quais chamamos de enzimas). Além disso, o citoplasma das células de todos esses organismos é constituída basicamente por água, fechada por uma bicamada de lipídios, constituindo a membrana celular.

[3]: alguns autores não consideram a monofilia de répteis já que, naturalmente, não estamos incluindo as aves nesse contexto (visto que para aceitarmos um grupo inteiro, temos que considerar todos os seus ramos internos, como no caso). Seria a mesma coisa para os peixes. Peixes seriam considerados monofiléticos se incluíssemos todos os animais vertebrados tetrápodes (ou seja, os animais que vivem (ou não, como as baleias) em terra firme. Ou seja, filogeneticamente falando, peixes não existem. Veja um post sobre a filogenia dos répteis que foi publicado aqui no Do Nano ao Macro.

[4]: essa história "dá muito pano para manga" (pelo menos onde eu moro eu ouço isso quando querem dizer que a história é bastante longa). Você pode ver um pouco sobre essa história em um post onde eu explico sobre a sistemática (também tive que explicar isso antes de entrar realmente no assunto do post em questão). Para ver, clique aqui.
O livro 'Biologia Hoje', volume 2, de Linhares e Gewandsznajder conta também sobre as formas de classificação da vida mais utilizados. Esse livro é voltado para a didática do ensino médio.

Com imagem por Open University (reprodução) e Wikipedia. Informações também em Leave Faith Behind.

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