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As contrações estão cada vez mais fortes.
O momento do parto está cada vez mais próximo.

Trabalho pesado...
Enquanto Carlos terminava de preencher os dados na recepção, Ana estava sendo levada ao quarto na ala da maternidade do hospital. O médico de Ana já estava a caminho, embora estivesse um pouco desgostoso por ter que encerrar seu feriado antes do previsto.

As contrações de Ana estavam vindo com um espaçamento de cerca de 20 minutos. Isso significava, como disse a enfermeira que a hora do nascimento estava um bocado longe de acontecer. A medida que o tempo fosse passando, o intervalo das contrações iriam diminuir e ficariam mais fortes. "Relaxa, embora não pareça nosso corpo está preparado para isso!", disse uma enfermeira para Ana. Com as emoções do momento, Ana não sabia de mais nada. Ela até achou que se dissessem um absurdo qualquer a ela, ela seria bem capaz de aceitar aquilo como verdadeiro apenas para as coisas terminarem logo. Mas Ana duvidava do próprio ceticismo e do conhecimento científico que aflorava a flor da pele independentemente da situação.

* * *

Ana já estava a um bom tempo em observação no quarto, sentindo as contrações. O médico já havia aparecido e perguntara se desejava o parto por cesariana. Ele dizia que o procedimento seria rápido e no fim da noite ela estaria com a bebê nos braços. Entretanto, mesmo parecendo tentador a ideia, Ana insistiu em continuar no parto normal. "Paciência", pensou o médico[1].

Carlos estava sentado em uma poltrona, lendo alguns papéis que passaram a ele do hospital. Ana estava deitada à sua frente, pensando nas coisas da vida. O aparente silêncio que estava na sala foi quebrado por um grito de Ana. Rapidamente Carlos estava ao seu lado, perguntando se estava bem e se queria chamar a enfermeira. Após uns segundos fazendo caras e bocas, Ana respira fundo e diz:

-- Fique calmo. Foi só uma contração forte. Até que estava demorando para começar a sentir dores mais fortes.

-- Hum... - murmurou o marido, passando a mão na cabeça dela.

-- Me diga, você quer saber o que é tudo isso que estou sentindo, certo? - questionou Ana para Carlos. Carlos fez um tímido 'sim' com a cabeça. Embora estivesse curioso, o momento não era tão propício para perguntas de Biologia. Entretanto Ana é, além de mulher, uma ótima bióloga.

-- O que causa essas contrações?

-- Bom, acredita-se que o feto produza um hormônio que informa que está na hora do nascimento. É uma sequência hormonal que induz a mãe a entrar no trabalho de parto. O hipotálamo do bebê, uma região que fica no meio do cérebro da gente libera um sinalizador que induz a hipófise, uma glândula que produz hormônios, a produzir um hormônio chamado... - Ana pensa um pouco, o nome é complexo - chamado... adrenocorticotrófico! Isso... esse hormônio irá estimular o supra-renal, uma glândula que fica acima dos rins, a produzir cortisol. O cortisol é o tão conhecido hormônio do estresse.

-- Hum...

-- Bom, o cortisol está envolvido na produção de estrogênio, que auxiliam na contração do útero! Além dele, um outro hormônio está envolvido com os movimentos do útero: a ocitocina.

-- Acho que eu já ouvi falar desse hormônio...

-- Acredito que sim. Muitas pesquisas atuais a estão relacionando como sendo o 'hormônio do amor' ou o 'hormônio do afeto' pois ele também está associado a afeição e o amor, principalmente entre mãe e filho.

Nesse momento, Ana fecha fecha sua expressão, fica séria e solta um outro grito, apertando o braço de Carlos. Carlos, por sua vez, fica com os olhos esbugalhados fixos na esposa. Após esses tensos segundos, Ana solta:

-- Puta dor! - e segundos depois - ai, agora ficou sério o negócio...

-- Por que?

-- Acho que a bolsa estourou... - logo em seguida ela levanta o lençol que a estava cobrindo e viu que estava começando a sair um líquido muito semelhante à água.

-- Caramba, e agora?

-- Bom, chame a enfermeira para eu ver que devo fazer...

-- Certo... - Carlos rapidamente saiu do quarto e, segundos depois, trouxe uma enfermeira consigo. A enfermeira olhou rapidamente, disse que não era motivo para pânico, já que iria acontecer de qualquer jeito. Pediu para esperar alguns minutos pois iria avisar o médico e ver o que deveria ser feito.

-- Ana... dói muito?

-- Só quando as contrações estão vindo... - nisso Ana sente outra onda de contração, se fecha, aperta a mão de Carlos e ela solta um grito.

-- Antes que você pergunte: esse líquido que está saindo de mim é o líquido amniótico que acabou saindo quando as membranas que ficam ao redor do bebê rompem. É perfeitamente normal acontecer isso.

-- Olá Ana, então finalmente as coisas estão andando pelo que me falaram... - disse o médico de Ana, ao entrar no quarto.

-- Sim... - disse Ana, um tanto sem jeito.

-- Bom, vamos te levar para outra sala onde iremos te preparar para o parto, certo? Já pedi para as enfermeiras prepararem tudo - e olhando para Carlos - o maridão vai acompanhar o procedimento?

-- Bom, acredito que sim, se eu puder.

-- Mas é claro que pode... só não vá desmaiar como acontece com uma certa frequência com os pais quando assistem o parto - disse, com um sorriso bobo no rosto. Carlos responde com um sorriso de volta - bom, na sala de parto eu vejo com mais detalhes como estamos com a dilatação e as contrações, tudo bem? Até daqui a pouco para vocês.

-- Tudo bem, doutor... - disse Carlos. Ao sair, Ana solta outro grito, informando que outra onda de contração acabara de ocorrer.

-- Ai... amor, você já avisou todo mundo que estou pra ter nossa filha, certo?

-- Sim, já telefonei pra nossos pais. Eles irão avisar os outros, possivelmente.

-- Nossa... queria saber o que o pessoal está falando no Facebook. Antes de sair de casa eu tinha atualizado meu status. Coloquei "indo para o hospital, acho que minha filha vai nascer!". Devo ter milhares de notificações.

- Amor, deu tempo de fazer isso? - indaga Carlos.

-- Claro!

Nesse momento, duas enfermeiras entram no quarto.

-- Senhora Ana, vamos transferi-la para essa maca para prepararmos para o momento do parto.

Ana olhou para Carlos. Sabia que o coração de ambos estavam batendo no mesmo ritmo e na mesma intensidade. O momento estava chegando e, em breve, sua filha seria mais uma pessoa no mundo.

* Continua *

Informações extras:
[1]: a OMS, Organização Mundial da Saúde, recomenda que as mulheres (e os médicos) tenham preferência ao parto normal, visto que se trata de um método menos invasivo e não agressivo ao corpo da mulher (visto que ainda é uma operação cirúrgica). No Brasil (dados de 2011), a Unicef informa que 44% dos partos são cesarianas, a maior porcentagem do mundo. A recomendação desses órgãos é que apenas 15% dos nascimentos sejam por procedimento cirúrgico. A "pressa" dos médicos em fazer o procedimento seria um dos principais motivos do alto número de cesárias do Brasil. Para você, leitor ou leitora do blog, assim como a OMS, o blogueiro que escreve essas linhas recomenda o parto normal[2].

[2]: acredito que muitas leitoras devem ter pensado "lógico, você é homem!". Pode até, a princípio, o pensamento ser verdadeiro entretanto essa minha recomendação é baseado em estudos sobre o assunto (muito dos quais a própria OMS se baseia para dar seu 'ponto de vista'). Assim que existem mulheres que não querem sentir dor no momento do parto, existem muitas mulheres (reais) que reconhecem as vantagens do parto normal (como a personagem Ana) como uma rápida recuperação pós-parto para a mãe e ajuda o recém-nascido a se adaptar ao novo mundo, como expelir mais rapidamente o líquido dos pulmões e já prepará-lo com uma primeira carga de bactérias quando se passa pelo canal vaginal (as bactérias não são sempre ruins, certo?).

Com imagem por Nathan A em seu Flickr. Com informações por Nações Unidas do Brasil.

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