Arquivo Scientia - 25 de julho de 1978


Hoje, provavelmente, deverá ser o aniversário de muitas pessoas. De acordo com o paradoxo do aniversário, em um grupo com 23 pessoas (ou mais) escolhido de forma aleatória, duas delas terão mais de 50% de chances de fazerem aniversário no mesmo dia. Em um grupo com mais de 57 pessoas, as chances sobem para 99%[1]. Provavelmente algum leitor do meu blog está fazendo aniversário hoje. Para tanto, dou-lhe meus parabéns!

Mas também devemos parabenizar a essa inglesa que, talvez, tenha o aniversário mais famoso do mundo (ao mesmo tempo que sua data acabe sendo posto de lado pela maioria das pessoas). Louise Brown, uma pequena inglesa com pouco mais de 2,6 kg nasce por cesária no Hospital Geral de Oldham, minutos depois da meia-noite, hora local. Seria mais uma criança no mundo, se não fosse por um detalhe: Louise é a primeira criança do mundo a ser concebida por uma técnica de fertilização in vitro.

Hoje a técnica de fertilização "fora do corpo", como foi chamado por alguns na época é bastante comum na atualidade. Existem, inclusive no Brasil, diversos laboratórios e clínicas que realizam esse procedimento. Atualmente a ANVISA, Agência Nacional de Vigilância Sanitária, em seu levantamento em 77 clínicas de fertilização mostrou que o Brasil, em 2011, 13.527 ciclos de fertilização, com taxa de sucesso de 75%, bem próximo dos padrões internacionais. Entretanto, na época em que Louise foi concebida, a técnica gerou muita polêmica.

Antes de mais nada, os pioneiros dessa prática, o ginecologista e obstetra Patrick Steptoe e o biólogo e fisiologista Robert Edwards sofreram bastante antes de conseguirem conseguirem o feito. Já em 1971, ambos tiveram seu projeto negado pelo Medical Research Council, um órgão de fomento inglês. Entretanto, conseguiram financiamento privado e seguiram adiante com as pesquisas. Os dados se mostravam muito promissores. A ideia consiste em amadurecer ovócitos e espermatozoides fora do corpo (no caso, em tubos de ensaio) e depois uni-los para que ocorra a fertilização. Os trabalhos mostraram que a técnica funcionou muito bem para coelhos.

O trabalho de Edwards consistiu em entender como e em que momento ovócitos e espermatozoides ficavam maduros e quais hormônios proporcionavam esse amadurecimento. Já Steptoe foi o pioneiro na laparoscopia para extrair ovócitos de mulheres. Os trabalhos avançaram e, em 1969, Edwards conseguiu, com certo sucesso,  fertilizar um ovócito com espermatozoide (ambos humanos). Entretanto, o zigoto não se desenvolveu além das primeiras divisões celulares.

Após entender por muitos anos o acontecido e aprimoramento da técnica, a equipe escolheu o casal Lesley e Gilbert Brown[2], que apresentavam problemas em ter filhos para serem as cobaias dessa técnica experimental em humanos. Lesley apresentava uma obstrução das tubas uterinas, que impossibilitava a comunicação dos espermatozoides com os ovócitos.

Os procedimentos foram feitos na clínica fundada por ambos os pesquisadores, a Clínica Bourn Hall, reconhecida como a primeira clínica de fertilização in vitro do mundo, localizada em Cambridge. Em 2010, Robert Edwards foi agraciado com o Nobel de Fisiologia pelo "desenvolvimento da fertilização in vitro". Infelizmente seu colega Patrick Steptoe não foi premiado com o Nobel visto que ele morreu em 1988[3]. E, em abril de 2013, Edwards também veio a falecer.

O mais curioso é que ambos os pesquisadores já sabiam e se prepararam para receber as críticas, vindas de todos os lados. A notícia do 'O Estado de São Paulo', de 26 de julho de 1978 (que você pode acessar uma imagem do jornal impresso aqui) informava que a técnica deveria ser vista com cuidado, já que poderia ser comum o desenvolvimento de crianças mal-formadas já que a fecundação ocorreu fora do útero materno. Além disso, o jorna lembrou a oposição contrária da Igreja, já que a intervenção humana na fecundação conferia uma ferida grave na lei natural e divina da procriação, onde "a relações biológicas não devem ocorrer longe das relações entre os progenitores", como dito pelo papa Pio XII, em 1956. O mais curioso foi a atenção dada para legislação brasileira sobre o assunto na época. O Código Penal Brasileiro da época, que entrou em vigor apenas quatro antes do nascimento da Louise, diz que era crime a inseminação artificial de sêmem na mulher que não fosse apenas do marido. O crime era de dois anos de detenção. Além disso, a paternidade incerta "conferia a mais grave ofensa à própria família" [como instituição]. E pensar que, em pouco mais de 30 anos, algumas ideias mudaram em relação ao o que é ser família e o que não é.

O trabalho que esses cientistas tiveram ao longo dos anos permitiu que mais de quatro milhões de pessoas aumentassem os lares de milhares de casais que, por diversos motivos, não conseguiam ter filhos. A ciência ajudou a realização dos sonhos de diversos casais que queriam constituir família. Graças a esses avanços, essa data merecidamente está registrada na história da ciência.

Informações extras.
[1]: Muito provavelmente dois leitores do meu blog poderão ter nascido no mesmo dia (ou, até mesmo no mesmo dia que o meu). Chances assim podem parecer muito difíceis de ocorrer mas não é verdade. Um outro exemplo conhecido é você encontrar algum amigo por acaso em uma loja. Vocês podem se encontrar e acharem ser uma surpresa um ver o outro naquele ambiente. Entretanto, muitos de nossos amigos possuem interesses semelhantes aos nossos. Não é de se espantar que um admirador de músicas encontre seu amigo que também curte música em uma loja de CDs.

[2]: durante minha pesquisa por informações para sustentar essa postagem, encontrei nomes diferentes para o pai de Louise Brown, o pai legítimo e doador do esperma para a fertilização. O 'Estado de São Paulo', de 26 de julho de 1978 o noticiou como o "ferroviário Gilbert". A Wikipedia inglesa diz que o pai se chamara John Brown. Resolvi confiar, a princípio, pela notícia veiculada na época pelo jornal do que pelas mudanças repentinas que o Wikipedia sofre pela colaboração de milhares de pessoas diariamente. Mas não significa, também, que o Wikipedia tenha errado e o jornal tenha acertado.

[3]: uma das regras adotadas para a escolha dos laureados com o Nobel é estarem vivos. A justificativa é premiar os melhores trabalhos da ciência que estão acontecendo e não os que aconteceram e que, obviamente, foram muito importantes. Embora seja sensato, por exemplo, laurear Sir Isaac Newton com um Nobel (e ele ganharia facilmente se estivesse vivo), não seria condizente com os demais cientistas que também trabalham bastante em busca de entender mais o Universo. Além disso, acredito eu, Newton não ia ligar tanto para o prêmio caso ganhasse um hoje. Melhor presentear os vivos mesmo.

Com informações de O Globo; iG; NNDB; Wikipedia (W1); W2; W3; W4. Imagens: fotografia de Louise Brown quando bebê, visto aqui. Fotografia de Louise em 2008, visto aqui. Imagem que abre a postagem é uma montagem feita por mim, protegida por CC. Para saber mais, acesse a página especial da série.

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