O latim nosso de cada dia - post 3 de 3

Carl Linnaeus, o homem que se classificou.

Para quem perdeu a postagem anterior, veja aqui.

Na postagem anterior vimos que as palavras estrangeiras são escritas em itálico e algumas palavras comuns no dia-a-dia acadêmico (e até mesmo popular) em latim e seu significado. Vamos dar continuidade nessa série apresentando um pouco sobre a nomenclatura científica.

Homo sapiens e outras regras...
Todos devem saber que a espécie humano se auto-classificou como sendo Homo sapiens que, do latim, significa 'homem sabido', ou 'homem esperto'. Sempre que se apresenta o significado de nosso nome científico, alguém sempre lembra de estarmos destruindo o planeta onde vivemos e matando outros seres humanos (que denota a falta de esperteza, ou sapiência de nossa parte). Se bem que, para falar a verdade, o fato de nos auto-classificarmos (seja de forma científica, social, cultural, etc) uma atitude um tanto estranha.

Enfim, a nomenclatura científica como conhecemos hoje, surgiu com os trabalhos do naturalista sueco Carl Linnaeus. Em 1735 ele publicou, em latim, o livro 'Systema naturae per regna tria naturae, secundum classes, ordines, genera, species, cum characteribus differentiis, synonymis, locis', mais conhecido apenas por 'Systema naturae'. A primeira edição contava com apenas 12 páginas (incluindo a capa) e classificava as coisas em três reinos: o reino mineral, reino animal e o reino vegetal (especialização de Lineu, com mais de 20 classes). A primeira versão do livro pode ser acessado aqui (em latim).

Entretanto, apenas na 10ª edição (com mais de 900 páginas), apresenta a ideia de nomenclatura binomial. Nesse tipo de nomenclatura, o nome das espécies recebem duas palavras: a primeira identifica o gênero a qual a espécie se insere. No caso humano, o nosso gênero é Homo[1]. Já o segundo nome é o epíteto de espécie, a palavra que identifica a espécie dentro do gênero. Novamente em nós, nosso epíteto é sapiens (sabido, em latim). O nome científico da espécie humana é a junção do gênero com o epíteto: no caso, Homo sapiens. Veja atentamente que Homo sapiens tem a primeira palavra com inicial maiúscula e a segunda em inicial minúscula. Será sempre assim, independente da espécie a ser tratada: seja a bactéria Escherichia coli, o Passer domesticus (mais conhecido como pardal) ou o simpático Mus musculus (o camundongo).

Obviamente, os nomes das espécies não estão soltos de forma aleatória. Não posso simplesmente sair nomeando a torto e direito as espécies sem alguma regra. Diferentes espécies ficam dentro de um gênero se elas forem aparentadas. Embora cada organismo na Terra, como sabemos hoje, possui um nível de relação, ele será representado em algum nível na classificação. Sabemos que tenho um grau de parentesco com o cão e com o gato (já que estamos na mesma classe: mamíferos), mas sou muito mais aparentado com o chimpanzé (já que estamos na mesma familia: os hominídeos). No esquema abaixo podemos ver, rapidamente, a hierarquia na classificação científica, onde um grupo de insere dentro de outro, maior e mais abrangente.


Veja que eu disse que sou mais aparentado com o chimpanzé do que com o cão pelo fato no nível 'família' estar dentro do nível 'classe', o que acaba reunindo organismos mais aparentados (mais específicos, podemos dizer) do que a classe que, embora reúna organismos aparentados, ele é mais abrangente.

Lembra quando eu disse, postagens atrás, que palavras estrangeiras devem ser escritas em itálico (ou diferente do texto)? Pois bem, embora isso seja usado de forma geral, na biologia os nomes científicos de grupos maiores que gênero (como família, ordem, etc.) mesmo sendo escritos em latim, são escritos em letra corrente (sem usar itálico, por exemplo), com a primeira letra em maiúsculo. Dizemos que a espécie humana está inserida no reino Animalia (animal, em latim) e todos os vertebrados estão inseridos no táxon[2] Vertebrata.

Ficou um pouco confuso sobre a classificação das espécies? Veja essa postagem que fiz em maio de 2013 sobre o assunto, onde eu conto, com mais calma, a origem e a classificação dos seres vivos.

Finalizando... ufa!
O uso do latim, além do formalismo acadêmico, é importante para manter a coesão entre a comunidade acadêmica quando debatem sobre determinado assunto de interesse. Mesmo cientistas de diferentes partes do mundo usando o inglês como idioma de conversação, essa padronização é imprescindível para o fluxo de informações de forma correta.

Espero ter ajudado você que estava com alguma dúvida ou você que tinha alguma curiosidade sobre o uso de alguma palavra. Esse é um assunto que considero muito interessante e vivo aprendendo mais a medida que passamos vivendo nossa 'vida acadêmica'. Minha forma de contribuir para que esse conhecimento continue vivo é passando ele para frente.

Carpe diem.

Informações extras:
[1]: a palavra homo, usada em nosso nome científico, vem do latim e significa 'homem'. Ela é diferente da origem da palavra 'homossexual', pois homo, nesse caso, é de origem grega e significa 'igual'. Ou seja, designa pessoas de 'sexo igual', que teriam atração por pessoas do mesmo sexo. A palavra grega para homem é anthropos. É dela que vem a palavra 'antropologia', que é o estudo do homem.

[2]: um táxon é o nome que damos para qualquer nível de classificação com um grupo de organismos aparentados, seja ele família, ordem ou reino.

Imagem de Lineu aqui. Imagem do nível hierárquico feita por mim, protegida por CC.

2 comentários:

  1. Incrível! Vc é o cara da ciência. Obrigada por ter me dado o prazer de aprender com vc por quatro anos. Parabéns por se formar com honra o PRIMEIRO DA TURMA. Mil beijos!

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  2. Hahahahahaha... obrigado, Nathália! Também foi muito bom passar todos esses ano com sua companhia e trocas de e-mails passando aulas. Guardarei todos aqueles e-mails com carinho... =P

    E obrigado pelo 'cara da ciência', mas ainda falta muito para chegar no nível do verdadeiro 'Science guy': http://pt.wikipedia.org/wiki/Bill_Nye_the_Science_Guy



    =P

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