[opinião] E agora, Jorn Barger[1]? Sobre divulgação científica

Parece que escrever sobre ciências está mais difícil que conquistar o Império

Irá fazer um ano quando o científico e internético Roberto Takata, do Gene Repórter, levantou uma pergunta interessante: há uma crise nos blogs de ciências brasileiros?

O que se viu, nos dias seguintes a essa publicação foi uma grande discussão acerca do tema, com diversos blogueiros e fãs da divulgação científica no país dando pitacos em postagens em seus respectivos blogs e longos comentários no Facebook e Twitter.

A não ser que você realmente seja interessado no assunto, provavelmente não ficou a par desse tipo de assunto e nem imaginava que existia uma tal possível crise. Parece-me que isso já pode disparar uma espécie de alerta sobre o assunto.

Na época eu não me expressei escrevendo nenhuma postagem, mas acompanhei à distância toda a conversa. Deixei, no máximo, uma indicação de postagem do Carlos Orsi com um breve comentário na página do blog no Facebook.

Há uma divergência entre as opiniões e até mesmo dos possíveis motivos de tal crise (ou não). Para os que acreditam em tal crise, informam que as publicações e novos blogs cai a cada ano e que não existe um incentivo (seja financeiro ou retorno em comentários e visibilidade) para quem continue a postar. Somado a isso, foi cogitada a ideia de que a rede de blogs ScienceBlogs Brasil poderia inibir novos autores a tentar criar novos blogs ou se aventurar nos mares da divulgação científica. Em meu comentário na época, disse que a possível crise poderia ser devido a tanto pela falta de incentivo financeiro[2] como também a dificuldade em relacionar postagens em blogs e tempo na vida real (ponto defendido por outros também).

O assunto deu uma amornada depois de uma intensa conversa online, o que poderia indicar uma espécie de que o assunto não se resolveu de todo modo (o fato de múltiplos fatores parecerem serem os responsáveis pela tal crise acaba diluindo muito o foco de ação a qual deveria ser trabalhado). Em dezembro (em minhas férias da faculdade[3]) escrevi uma postagem apresentando uma ideia que vinha me acompanhando algum tempo. Postei minhas ideias no Medium, onde a blogagem é simples e direta ao ponto, bom para propagar ideias. Veja a postagem que escrevi no link abaixo.



Basicamente escrevi que uma coisa que sinto falta entre os blogueiros de ciências é a ausência de um encontro que os reúna, contem suas experiências, ideias e, quem sabe, criar novas postagens em parcerias (e, até mesmo, parcerias na vida real). Fui informado pelo Takata que, em 2009, ocorreu evento semelhante por entre os divulgadores de ciências. Entretanto, o assunto acabou morrendo por lá mesmo e nenhuma nova versão ocorreu até então. Eventos do tipo ocorrem em outros países e sinto falta de algo desse tipo aqui.

Agora, Meghie Rodrigues escreveu, em seu Medium, um compilado de toda a discussão que ocorreu na web sobre a tal possível crise. Vale a pena reservar um tempinho para entender todo o contexto da conversa entre blogueiros de ciências na postagem da Meghie.



Em alguns momentos, a ideia de que as redes sociais, como Facebook e Twitter seriam possíveis responsáveis pela crise de blogs de ciência. Mais do que isso: elas seriam responsáveis pela crise de blogs como um todo. É nítido isso: enquanto escrevo essa postagem, deixo aberto o Facebook, Twitter e meu e-mail, ao lado da guia com o editor do Blogger. As redes sociais são meios de comunicação mais rápida e direta ao ponto que os blogs. Basta ver os dois exemplos abaixo:



Como podemos ver, é difícil competir com informação rápida que, ás vezes, nem clicada precisa ser. De fato, não cliquei nos textos e peguei informações interessantes apenas lendo duas linhas de texto. Se eu quisesse aprofundar no assunto o link tá ali, prontinho para ser clicado.

Não me iludo com o fato de que textos de ciência terão mais audiência e share que textos sobre a Ana Maria Braga ter dado bronca em funcionário ao vivo. Não fique com vergonha... pode clicar. Mas volte aqui!

Viu que coisa que a Ana Maria Braga fez... pfff...

A ideia de que o blog (como ferramenta da web, e não apenas de ciências) esteja em crise me parece um tanto exagerada. Falaram disso dos jornais quando emergiu o rádio e falaram que o rádio já era quando veio a TV e falaram que tudo isso entraria na história com o advento da internet. Mas a história se distorce na internet. Garanto que, anos atrás, ninguém em sã consciência diria que o orkut fecharia as portas. O futuro pode ser um tanto incerto para os blogs, mas não podemos saber como será o futuro do "carrasco" Facebook ou Twitter.

Não estou conclamando ninguém a levantar foices e tochas e partir para Menlo Park (sede do Facebook) ou São Francisco (do Twitter) quebrar tudo. Fico bastante nessas redes sociais (acho que até demais, para ser sincero) e aprendo muito vendo notícias e informações que páginas e amigos compartilham. E existem páginas no Facebook (o I Fucking Love Science tem mais de 18 milhões de curtidores (considero isso um tremendo impacto, ainda mais por ser algo 'científico')) que compartilham informações científicas boas mas, como apontado por alguns, um tanto superficial que só será mais aprofundado caso o curtidor clique no link para ler mais informações.

Será que o futuro da divulgação científica residirá em informação rápida e superficial? E será que mesmo mais pessoas tendo acesso a uma informação mais superficial propagada facilmente é melhor do que não ter informação alguma?

Ao escrever essa postagem eu percebi que o blog é o menor dos problemas em divulgar ciências: precisamos pensar sobre a própria divulgação em si e qual o impacto que ela poderá causar nas pessoas. Gostaria que meus amigos e colegas blogueiros e você leitor nos ajudasse a construir uma divulgação científica melhor, com mais impacto e mais interessante. =D

Rodapé:
[1]: Jorn Barger cunhou o termo weblog, que significava 'logar na web', no sentido de 'surfar' na rede mundial de computadores. Entretanto, foi Peter Merholz que cunhou a abreviação blog, em uma brincadeira com a palavra original: we blog, ou seja, nós blogamos, do inglês.

[2]: pode até parecer que só pensamos em dinheiro. Estão certos! Na verdade, um blog exige um certo gasto financeiro: desde o trivial gasto de energia e internet que permite escrevermos e pesquisarmos o que escrevemos até comprar um domínio (meu caso, o nano-macro.com) e hospedagem (não é o meu caso). Por ano, é um gasto considerável e acaba participando do cronograma de gastos da gente.

[3]: provavelmente não o teria escrito durante minhas atividades normais da faculdade o que, para mim, acaba parecendo ser um grande problema na baixa de postagens dos blogueiros em ciências.

Imagem por miss-chang em seu deviantART.

2 comentários:

  1. Oi Wesley,
    Lendo o texto do Takata, da Meghie e o seu, pensei um pouco e acho que a "esfriada" nos blogs de ciência se deu por múltiplas razões:

    a) expansão e miração das pessoas para o Facebok;
    b) falta de tempo (meu caso);
    c) acho que textos se tornaram mais desinteressantes para o público em geral, que "ficou mais apressado" ou "não gosta muito de ler". Prefere uma mídia mais visual, como o Facebook;
    d) encheu o saco de alguns blogueiros.

    O interessante é que o blog do criacionista Enézio também teve queda de público, apesar dele disponibilizar um volume de postagens grande, chamar a atenção para artigos científicos segundo a ótica dele (mas alguns artigos e livros que ele cita são bem interessantes, até comprei alguns livros depois). Eu acho isso bem sintomático.

    Minhas sugestões:
    a) criar um facebook de ciência. Eu acho o facebook um saco. Muito chato mesmo. Mas, a enorme maioria das pessoas usa;
    b) criar uma nova plataforma de divulgação científica totalmente compatível com tablets, diferente dos blogs ou do facebook, mas divulgar no facebook. Isso iria chamar muita gente (as pessoas ADORAM novidades);
    c) criar uma linguagem mais visual para divulgação científica, com imagens, links, vídeos, etc.

    Eu acho o SBBr incrível, e estou seriamente considerando voltar a blogar lá a partir de 2015. Gosto muito. Eu leio postagens em tablet (iPad), e uso a app "pulse" para agregar todos os blogs que eu leio. Se as pessoas soubessem usar o pulse, eu acho que leriam mais sobre divulgação científica.

    Eu acho que uma plataforma nova, tipo facebook, ou totalmente diferente, que agregue gente somente para discutir ciência, iria bombar. Com certeza.

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  2. Olá Roberto,
    realmente uma mistura de acontecimentos entre leitores e blogueiros acabou criando essa suposta crise . A falta de tempo e motivação por parte dos blogueiros e a migração massiva para as redes sociais e consumo rápido de informação por parte dos leitores deixaram o conteúdo científico em segundo plano.


    A ideia de uma rede social voltada para divulgação científica é muito boa e penso que deveríamos apostar nesse tipo de coisa. Entretanto, acho que o impacto por entre os internautas não cientistas não seria tão estrondoso. Provavelmente apenas quem mexe com ciência (seja divulgação, em laboratório ou em campo; aulas) se interessariam nesse tipo de coisa. Ainda assim, é uma ideia que me agrada muito e deveríamos lançar essa ideia por entre os blogueiros e demais interessados, a princípio.


    Parece-me que o futuro da divulgação científica se resumirá em permitir o internauta (não mais leitor, como direi logo) absorver rapidamente conteúdo científico. Podcasts, vlogs, infográficos chamativos e outras coisas "agradáveis aos olhos e ouvidos" dos internautas, que querem ler cada vez menos (o que me deixa um tanto preocupado, já que eu, por exemplo, prefiro ler a ouvir ou assistir um vídeo. Sim, sou um pouquinho estranho, hehehe).


    E a divulgação científica DEVERÁ estar não apenas mais nos computadores mas no smartphone e tablets e aplicativos para isso serão quase obrigatórios se queremos ter mais leitores (ou ouvintes/"assistidores"). Essa rede social de divulgação científica poderia ser uma "boa desculpa" para esses aplicativos.


    Curti.


    Obrigado pela colaboração, Roberto. =D

    Vamos conversando.

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