A febre zika é um risco para os turistas e atletas durante as Olimpíadas no Rio de Janeiro?

Parte da comunidade científica e médica está preocupada com a grande vinda de turistas para o Brasil acompanhar as Olimpíadas em época de surto da doença. Apesar da rápida disseminação do vírus devido a presença do mosquito transmissor, somado aos problemas congênitos causados em recém-nascidos, não são o suficiente para causar preocupação mundial, de acordo com esse breve artigo[1].

Mulheres grávidas ou que planejam engravidar devem evitar visitar áreas com circulação do vírus.

Eduardo Massad, Francisco A. B. Coutinho e Annelies Wilder-Smith na The Lancet.
Tradução por Wesley Santos para o blog Do Nano ao Macro.

Em 20 de maio de 2016, 150 médicos, bioéticos e cientistas de diversos países (incluindo o Brasil) publicaram uma carta aberta sugerindo à Diretora-Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) Margaret Chan pressionar as autoridades responsáveis pelas Olimpiadas 2016 em atrasar ou realocar o evento no Rio de janeiro devido a preocupações de saúde pública pelo risco de infecção do vírus zika em turistas e atletas.

A mesma preocupação ocorreu em 2013 para o risco de infecção por dengue para turistas e atletas que planejavam suas viagens para o Brasil durante a Copa do Mundo FIFA 2014. Na época nós estimamos o risco individual de dengue para os visitantes que variavam entre 6x10^-5 a 4x10^-4[2], o qual representou um número esperado de infecção entre turistas girando entre três e 59 casos. O número reportado de dengue entre turistas depois dos Jogos foi de três [3].

Aqui nós fornecemos uma estimativa de risco para turistas e atletas que pretendem visitar o Rio de Janeiro durante os jogos olímpicos em agosto. O mosquito Aedes tem um forte padrão sazonal com alta abundância nos meses de verão (janeiro a fevereiro no Rio de Janeiro) e baixo no inverno (julho a agosto), e Burattini e colaboradores[4] estimaram o risco individual de ser picado pelo mosquito Aedes aegypti no Rio de Janeiro durante as três semanas dos Jogos Olímpicos como 3,5x10^-2. O risco individual de infecção dos turistas por dengue no mesmo período foi estimado por Ximenes e colaboradores[5] em torno de 5x10^-4. Embora o atual número de casos de infecção por vírus zika no Brasil ainda seja desconhecido, é estimado entre 500 mil a 1,5 milhão de casos de infecção[6]; com essas estimativas, nós calculamos o risco de infecção em agosto de 2016 estar entre 9x10^-6 a 3x10^-5[7]. O risco de infecção por vírus zika é, portanto, 15 vezes menor do que para dengue.

Embora o risco de infecção pelo vírus zika durante o período dos Jogos Olímpicos ser extremamente baixo, nós acreditamos que mulheres grávidas devem evitar visitar qualquer região do mundo onde a circulação do vírus zika foi reportado, incluindo Rio de Janeiro, recomendação esta que concorda com protocolos de saúde pública nacional e internacional.

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Veja o artigo de correspondência na versão original, além das referências citadas nesse texto.

Rodapé:
[1]: subtítulo de minha autoria.

[2]: Massad et al. Mem Inst Oswaldo Cruz. 2014; 109: 394–397
[3]: Aguiar et al. Sci Rep. 2015; 5: 8462
[4]: Burattini et al. Epidemiol Infect. 2016; 144: 1904–1906
[5]: Ximenes et al. BMC Infect Dis. 2016; 16: 186
[6]: ECDC. European Centre for Disease Prevention and Control, Stockholm; 2016
[7]: Massad et al. Glob Health Action. 2016; 9: 31669

Imagem por Nacho Doce/REUTERS em The TelegraphReferência:
Massad, E. Coutinho, F. A. B., Wilder-Smith, A. Is Zika a substantial risk for visitors to the Rio de Janeiro Olympic Games? Lancet. 2016; 288: 25. DOI: http://dx.doi.org/10.1016/S0140-6736(16)30842-X

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