Os rituais do trote

 

Trote dos bixos do curso de Jornalismo da UNESP Bauru em 2007.

Registrarei esse dia pare sempre em minha mente: dia 22 de fevereiro. Passei por um momento único em minha vida: o trote estudantil. Tirando os momentos no qual eu tenho que conquistar sexualmente um pedaço de terra chamada "Shirley" (nem queiram saber o quão estranho é isso) a inclusão que os veteranos fazem é algo que classificaria como 'legal'. Depois de tanto tentar, finalmente entrei na UNESP de Bauru, no curso integral de Ciências Biológicas (se os posts começarem a ficar mais escassos, já sabem o motivo). Assim que tiver as imagens eu atualizo o post (tentarei postar a foto "menos pior" de mim). Veja uma imagem da beleza que eu fiquei aqui.

Tirando os extremismos que a mídia sempre mostra no começo de cada ano, o trote é a recepção saudável que os veteranos fazem para os calouros. É o momento em que os calouros descobrem o mundo universitário. Tudo muito bonito. Mas, como tudo no comportamento humano, não é apenas isso.

Olha o tamanho da formiga! Imagina um monte delas picando sua mão! Os homens da tribo Sateré-mawé da Amazônia colocam a mão em um saco cheio de formigas bala (cuja mordida é 20 vezes mais dolorida que de uma vespa) por vários minutos. Os jovens da tribo tem que dançar com a mão cheia dessas formigas, que em alguns causam convulsões e as dores duram mais de 24 horas. O interessante é que o ritual é feito diversas vezes na vida para mostrar a tribo sua masculinidade.

Já a tribo Sambia da Papua Nova Guiné afasta os meninos de sete anos das mulheres para passarem os próximos 10 com os homens da tribo. Depois de inúmeros rituais de purificação (eles consideram a mulher um ser impuro) como furar a pele dos garotos e forçar o sangramento do nariz furando o lado de dentro os garotos consomem o sêmen dos homens para que cresça forte.

Na Nigéria, a tribo Okrika separa as meninas de 14 a 16 anos para comer diversos alimentos para engordar. Durante esse tempo, aprendem as canções tradicionais que cantam por vários dias ao amanhecer. Como a tribo acredita que as mulheres podem se apaixonar pelos espírito das águas, elas devem entoar essas canções antes do casamento.

Esses são apenas alguns exemplos de rituais de passagem que são praticados no mundo. Embora existam diversos tipos de rituais de passagem, o principal é mostrar que o indivíduo deixou de ser criança e que agora está apto a prover segurança e alimentos a seu grupo. Além disso, o homem que consegue deixar a mão dentro de um saco cheio de formigas e ainda assim sair vivo pra contar histórias é por que deve ser macho pra cacete seu genes são bons o suficiente para passar essas características aos filhos e proteger sua família.

Quando a mulher é a protagonista do ritual, é para mostrar que ela está apta a ter filhos e que será uma boa esposa pois respeita as tradições (geralmente as tradições são bem rígidas quando o assunto é casamento e qualquer puladinha de cerca por parte dela é risco de morte. Como ela segue as tradições, ela sabe que não poderá se aventurar em barraca alheia).

Bom, mas rituais de passagem só acontece com tribos e grupos sociais milhares de anos antes de Cristo ou que nunca viram a “modernidade”. Engana-se. Os rituais que citei acima acontecem ainda hoje e possivelmente você já deve ter passado por um. Vamos lá, pense: batismo, ou então casamento. Você é mulher? Um debutante talvez. Ou se você entrou na faculdade, que tal um trote?

Os rituais não deixaram de existir, muito pelo contrário. Continuam mais vivos do que nunca, ainda mais em nossa sociedade. Apenas o jeito como vemos ele mudou. Mas a essência está lá, quer ver?

Quando a moça completa quinze anos, os pais fazem a festa de debutante. Um dos dias mais felizes de qualquer garota. Hoje é uma festa mais bem desenvolvida para comemorar o aniversário da filha mas sua essência era mostrar para a sociedade que a menina virou mulher. Ela poderá ficar entre os adultos e tratar de temas adultos. E o principal: ela está apta a ter um relacionamento com um homem e ter filhos.

E o trote estudantil? Como eu disse no começo, é a recepção que os veteranos fazem para os calouros. Mas é mais do que isso. É o ritual para os veteranos saberem em qual novato confiar ou não. Como saber isso? Fazendo os calouros passar por situações que não se passa todo dia: se algum calouro não o fizer, ele não é digno de estar entre eles pois ele não representa o grupo no qual está inserido, assim como no caso da tribo Okiek do Quênia em que o o ritual para as mulheres consiste em remover o clítoris. Caso se neguem a fazer tal procedimento, elas são isoladas do resto da tribo.

Ainda bem que o ritual de passagem nos trotes são mais leves (tirando alguns casos em que extrapolam o limite da brincadeira, entrando no chamado trote violento): basicamente consiste em raspar a cabeça dos garotos, pintar o corpo, fazer algumas brincadeiras e coisas do gênero. Algumas dessas tradições, como raspar a cabeça do calouro remonta à Idade Média. Para evitar que os novatos trouxessem doenças para dentro das Universidades umas das primeiras medidas profiláticas era raspar a cabeça.

Embora algumas coisas tenham sido feitas para acabar com o trote estudantil, dificilmente isso ocorra. Atividades como o trote solidário em que os calouros doam sangue ou ajudam em alguma campanha beneficente ajudam a minimizar a imagem ruim que o trote construiu ao longo dos anos, como sendo uma coisa forçada e levando algumas pessoas à morte. O trote deve ser considerado como um momento de alegria (tanto para os veteranos quanto para os calouros) e para construir novos laços de amizade e de companheirismo. Com certeza eu ficarei bem mais feliz ano quem vem, quando deixarei de ser calouro para ser veterano. Aí sim ficarei bem feliz! :)

Imagens: jornalunesp no Flickr e Notícias Bizarras. Com material do HypeScience e Wikipédia (1), (2) e (3).

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