9 Meses - post 10

Uma colega de Carlos não conseguiu fazer um bolo tão bonito quanto este. Para Ana isso é mais que
suficiente para relacionar com a Embriologia.

Pensamentos?
Nove horas. Ana estava no computador, respondendo as diversas notificações do Facebook de amigos e parentes dando parabéns pela gravidez. O exame médico, que realizara pela manhã dera como positivo. A concentração de βhCG no sangue não deixa dúvidas: está grávida. Mal saiu da clínica onde realizou o exame e telefonara para o marido. "Tomara que ele esteja sozinho no escritório", pensara logo depois de ouvir um grito de comemoração do outro lado da linha. A comemoração continuou no laboratório de Biotecnologia onde trabalha.

Naquela noite, reencontrou vários amigos de faculdade e parentes que a tempos não conversava através do Facebook. Entre uma leitura de e-mail e outro, ela ia verificar o número '1' ou '2' que ficava ao lado do globinho azul da rede social. Carlos, que chegou mais tarde do trabalho graças aos trâmites de um investimento que sua empresa pretende aplicar em uma construção, acabara de sair do banho. Ana observava o marido do outro cômodo. Nu, ele ficava alguns poucos minutos deitado na cama relaxando após o banho e depois disso colocava seu pijama.

Alguns minutos mais tarde, Carlos comentou com Ana que uma funcionária da empresa teria feito no domingo um belíssimo bolo que teria aprendido com sua prima e que a princípio parecia ser um magnífico bolo, acabou num desastre. No forno, estava enorme e lindo. No primeiro segundo fora dele, ele murchou e ficou parecendo aqueles vulcões inativos.

-- Carlos, sabia que uma coisa meio parecida acontece com o embrião após o desenvolvimento da notocorda? Lembra dela, não é?[1]

-- Aquilo que você me explicou ante-ontem à noite? Me lembro sim...

-- Então, algumas células da ectoderme começam a se espessar, formando uma estrutura nítida que denominamos de placa neural. Essa placa neural dará origem ao tubo nervoso do corpo do embrião.

-- Que legal, mas como acontece?

Ana observa que o número '1' apareceu na barrinha do Facebook. Ela conteve a curiosidade e resolveu continuar a explicar.

-- Pois bem, façamos de conta que a parte de cima do bolo seja essa placa neural, certo? A placa neural começa a espessar, ficando maior, assim como o bolo no forno. Semelhante ao surgimento da linha primitiva[1], começa a ocorrer uma dobra de tecido no meio dessa placa. É como o bolo murchasse no meio, sabe?

-- Sim... e aí?

Em uma rápida olhada, um número '2' já estava figurando na barrinha. Ela ainda se contém e continua:

-- Bom, a parte que fica mais baixa do bolo, no centro, que murchou, recebe o nome de sulco neural. As bordas recebem o nome de crista neural. Bom, imagine que esse sulco neural continue a descer, cada vez mais. Ela vai levando a crista neural consigo, certo? - o marido concorda com a cabeça, ao mesmo tempo que o número '3' aparece na tela - Esse sulco neural fica tão baixo que ele aproxima a crista neural de cada lado. Nesse momento, forma uma estrutura parecida com a letra 'U'. Antigamente se utilizava o termo 'goteira neural', mas está caindo em desuso. As cristas neurais, quando se encontram, se fundem e se separam da ectoderme, ficando dentro da mesoderme, acima da notocorda.

-- Olha, que interessante... - disso o marido, pensativo. Nisso, um barulhinho de mensagem do Facebook chama a atenção de Ana mas seu dever com o conhecimento a fez segurar por mais alguns segundos.

-- Então, tem mais uma coisa. A crista neural que se fundiu para fechar o tubo se desprendem desse tubo neural e ficam laterais a ele. Essa crista neural darão origem futuramente aos gânglios nervosos que ficam laterais à coluna.

Desenho esquemático mostrando as etapas da neurulação. A imagem à esquerda mostra o embrião
na terceira semana de desenvolvimento com o âmnion retirado para melhor visualização. Em 'A',
podemos ver o espessamento celular que levam a formação da crista neural e do sulco neural.
Em 'B', a formação da conhecida 'goteira neural'. Em 'C' temos o tubo neural completamente formado
e a crista neural em cada lado do tubo que serão os futuros gânglios nervosos. Os somitos em
desenvolvimento levarão a formação do músculos no futuro bebê e surgem de modificação celular
do mesoderma.

-- Interessante mas, quer dizer que o embrião já tem sentimentos nesse estágio de vida?

-- Você quer saber se ele pensa ou se sente coisas? - Carlos confirma com a cabeça - Essas coisas são muito difíceis de saber. A princípio, não. Nesse estágio, mesmo conseguindo identificar nitidamente as diferentes estruturas, elas ainda não desempenham nenhuma função específica e não são específicas ainda, sabe... as estruturas cerebrais que farão o embrião sentir ou pensar em algo irão se desenvolver lá pelo segundo mês do futuro bebê.

-- Hum... e aquelas células-tronco embrionárias que os cientistas usam?

-- Os cientistas utilizam de células-tronco embrionárias em estágios menos desenvolvidos, ou seja, de apenas alguns poucos dias, onde não temos nenhuma diferenciação morfológica, sabe. Lembra do estágio de mórula, aquele amontoado de células sem diferenciação. Então, geralmente é usado nesse estágio. Como podemos ver, não é possível o embrião sentir ou pensar em algo nesse estágio.

-- Hum... entendi... Bom amor - disse, se levantando de uma cadeira que estava ao lado do computador e beijando a testa de Ana - obrigado por ter paciência em me explicar mesmo sabendo que tem milhares de coisas chamando a sua atenção na internet - disse, apontando para o Facebook.

-- Ah, finalmente! - disse, clicando em suas notificações e vendo que está conversando com ela.

-- Só espero que nosso futuro bebê não seja impaciente como a mãe... - disse para si, enquanto saia do cômodo e iria para o quarto, para continuar a ler seu bom e velho livro de histórias.

Informações extras:
[1]: o desenvolvimento da linha primitiva e notocorda foi dita no post anterior da série.

Com imagem por ~fourtwoseven em seu deviantART. Desenho esquemático feito por mim, protegido por CC.

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