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O coração, embora ainda incompleto, é um dos primeiros órgãos a funcionar no embrião.

Primeiros batimentos...
Sábado à tarde. O carro mau parou na frente de uma bonita casa e a porta do lado do carona abre. Do lado de dentro da casa, ouve-se um bater de porta seguido de vários toques na campainha. Sabia que não adiantava tentar abrir a porta pois a mesma estava trancada. Segundos depois, um barulho de molho de chaves girando na fechadura e a porta se abre e uma pessoa aparece. A pessoa que estava esperando do lado de fora avança em cima da outra que estava dentro da casa.

A quente tarde da cidade ajuda a esquentar ainda mais o abraço entre mãe e filha.

-- Mãe, você vai ser vovó!

-- Você não sabe a felicidade que tive quando você telefonou!

-- E o papai, cadê ele? - perguntou Ana, olhando para dentro da casa e ignorando o fato de Carlos estar precisando de uma ajuda com as malas.

-- Ele foi ao mercado comprar algumas coisas para o jantar. Ele deve voltar logo. Diz não ver a hora de lhe ver. Ele acha que você está com uma barriga enorme.

Ana e sua mãe, Helena, riem. Carlos, que estava chegando com duas malas ri também, mesmo não sabendo do que se tratava.

-- Olá, "sogrinha querida" - cumprimentou Carlos com uma voz levemente irônica.

-- Olá, "genrinho querido" - respondeu no mesmo tom. Na realidade ambos se adoravam e dona Helena o considerava como filho. Eles cumprimentavam desse jeito apenas para "encher o saco" um do outro. Carlos dizia a Ana que ele tinha que odiar a sogra, já que todos o fazem, mas apenas brincava com a situação.

-- O pai dela não vai gostar de saber que a filhinha querida dela está grávida - alertou dona Helena para Carlos.

Carlos coloca as malas no chão, coça a cabeça com uma das mãos e começa a se afastar lentamente, dizendo:

- Querida, você já viu sua mãe... Acho melhor irmos embora...

-- Ai Carlos, por favor... - diz Ana, girando os olhos para cima com um sorriso no rosto. Logo em seguida, o trio entra em casa.

* * *

Domingo pela manhã. Ana em um misto de sono e vigília deita a cabeça no peito de Carlos. Ana adorava o conforto do quarto de hóspedes. Pela janela, entrava uma fraca luz da manhã que era quebrada pela belíssima cortina bordada. A janela se abria para o quintal e era possível ouvir alguns pássaros cantarolando felizes por entre algumas árvores. Ouvia, também, o vento passando por entre as folhas.

Ali no quarto, mas próximo dela, ouvia o barulho do coração de Carlos com seu "tum-tum, tum-tum" característico. Ana começou a reproduzir o som batendo levemente os dedos no peito de seu amado. Não demorou muito e Carlos acordou com as batidinhas em seu peito.

-- Bom dia, amor... desculpe ter te acordado. Estava ouvindo seu coração... - sussurrou Ana.

-- Tudo bem, meu amor... Bom dia para você... e ele está bem?

-- O seu coração? Bom, ele parece que está em perfeitas condições. Ele parece muito apaixonado...

-- Também, agora eu tenho que estar apaixonado por mais um coração além do seu... - disse, passando a mão levemente no ventre de Ana. Ana se conforta ainda mais nos braços de Carlos - bom, o nosso futuro bebê já tem um coraçãozinho, né?

Ana levanta a cabeça para observar Carlos. Mesmo despenteado e com a típica sujeirinha nos olhos, ele ainda esbanjava beleza, a mesma que encantara Ana anos atrás.

-- Lembra quando eu expliquei sobre o desenvolvimento do tubo neural? - Carlos concorda com a cabeça - então, durante esse período, na mesoderma do embrião começa a surgir espaços cheios de líquidos. Esses espaços, chamados de espaços celômicos vão, aos poucos, se fundindo, formando uma única estrutura chamada de celoma intraembrionário. Esse celoma, visto de cima, tem uma forma de ferradura, passando na frente da cabeça do embrião - disse Ana, simulando com uma mão fechada a cabeça do embrião e a outra mão, em forma de concha, cobrindo a mão fechada, simulando o celoma - Pois bem, bem na frente da cabeça, no celoma, algumas células do mesoderma migram para essa região, que a chamaremos de área cardiogênica. Essas células começam a formar uns pequenos tubos que se fundem e esse tubinho vai se fundindo com os vasos sanguíneos do resto do embrião e esse pequeno tubinho começa a pulsar, movimentando sangue dentro dos vasos. O coração é o primeiro órgão a funcionar pra valer no embrião.

Desenho esquemático do desenvolvimento embrionário. Em 'A', vista superior do embrião. O âmnion
foi cortado para melhor visualização. Em 'B', detalhe da porção cefálica do embrião, região denominada
área cardiogênica, onde o coração primitivo irá se formar. Vemos também o desenvolvimento de
algumas ilhotas sanguíneas ao redor, futuros vasos sanguíneos, onde podemos ver seu
desenvolvimento em 'C' a 'F'.

-- Que interessante... mas então, quer dizer que não é do coração que surgem os vasos sanguíneos?

-- Não, amor. Lembre-se que o embrião está ficando cada vez maior e a simples difusão entre células dos nutrientes entre mãe e filho não é mais suficiente. As células da mesoderma são especialistas em fazer vasoso sanguíneos. Em várias regiões do embrião, no saco vitelino e do pedículo começam a aparecer ilhotas sanguíneas que vão se fundindo e delas, surgem os primeiros vasos sanguíneos. As células sanguíneas surgem também e, com a fusão desses vasos posteriormente com o coração primitivo, o sangue começa a circular, levando os nutrientes de modo mais eficiente para todo o corpo do embrião.

-- Hum... mas espera aí! O coração se forma na frente da cabeça da criança?

Desenho mostrando os principais vasos sanguíneos durante o período embrionário. Os vasos
mais escuros são o sangue que sai do coração primitivo com média oxigenação. Os vasos mais
claros são sangues pobres em oxigênio e a veia umbilical trás sangue rico em oxigênio vindos por
meio do cordão umbilical e é misturado com o sangue pobre em oxigênio vindos do corpo
do embrião.

-- Exatamente! O coração se forma na parte da frente do embrião. Lembra a flexura cefálica, em que o embrião se dobra em direção ao saco vitelino? - o marido concorda, lembrando da conversa - Então, quando ele faz esse movimento, ele leva o coração consigo e ele acaba ficando no lugar que conhecemos.

-- Hum... que mudança de lugar, hein?

-- Sim... mas o coração não passou por nem metade as mudanças que ele vai ter que passar para ser o coração que conhecemos.

-- Tem mais?

-- Claro! Mas quando for para acontecer isso, eu te conto, ok? - o marido concorda com a cabeça, um tanto inconformado - Amor, vamos levantar, eu estou sentindo o cheirinho de café da minha mãe - disse, se espreguiçando e tomando conta de toda a cama, empurrando o marido para o lado.

-- Calma, amor. Eu já estou me levantando, não precisa me jogar para fora da cama.

Ana dá um sorriso e toca o ventre olhando para o marido. Nesse momento, Carlos sente seu coração bater mais forte e percebe que o coração de uma "pessoinha" pede licença para entrar em seu amor.

Imagem por *janne-landet em seu deviantART. Desenhos feitos por mim, protegidos por CC.

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