9 Meses - post 14

Na pressa, Carlos não apreciou muito bem o café da manhã. Mais tarde, entretanto, ele ouviu
pacientemente sua esposa contar um pouquinho mais sobre embriologia.

Nervosos...
O dia de sábado não começou nada bem para Carlos. Sexta à noite teve uma forte chuva que fez a força piscar algumas vezes na madrugada, desligando o despertador. Ele não reparou que o relógio estava piscando desconfigurado quando foi ao banheiro, lá pelas quatro da madrugada. Acordou num susto, 15 minutos antes de estar no trabalho. Em sábados normais, ele evita ao máximo fazer barulho para acordar Ana mas com a pressa, acabou deixando isso de lado. Era 8h17 e ainda estava enrolado dentro da casa. Ana tentava ajudá-lo como podia. Quando o relógio marcou 8h20, o telefone tocou. Segurando o telefone, uma figura numa mistura de sono e fome, Ana ouvia o que a pessoa do outro lado da linha dizia. Colocou o telefone na base depois de algum tempo e virando para o marido, disse:

-- Querido, o pessoal da sua empresa está querendo saber o que diabos aconteceu que você não chegou ainda por lá. Um investidor que você está sabendo que é resolveu ir na empresa hoje. Eles disseram que é pra você ir voando lá!

Carlos sentiu um frio na barriga. Fechar um acordo com ele era o que empresa estava querendo fazia algum tempo. Ele engoliu o café da xícara, que desceu queimando pela garganta., deu um rápido beijo na amada e saiu de casa. Em cinco segundos estava Ana sozinha, em pé, na sala de jantar da casa. Seu cérebro devia estar tentando entender tudo o que estava se passando. Resolveu deitar um pouco antes de querer realmente acordar. Deitou seu corpo semi-nu na cama e ficou minutos imóvel. Seu corpo estava cansado, mas seus pensamentos estavam longe. Estava pensando no fato das pessoas ficarem nervosas quando as coisas não dão muito certo. Pensou no marido que passou nervoso logo pela manhã ao invés de querer dar um belo abraço e acariciar sua barriga antes de sair para o trabalho.

-- E pensar que no futuro, meu bebê vai passar por alguns episódios que o deixarão P da vida... - disse sussurrando, como se algum ouvinte que estivesse próximo soubesse o que se passava em sua cabeça. "Meu bebê, nervoso... bebê... nervoso... sistema nervoso!", pensou, como num estalo. Ana abriu os olhos e suas retinas focaram a luminária que ficava em cima da cama. Levantou da cama e pegou o velho livro de embriologia para observar algumas figuras.

-- Vamos ver se me lembro... logo depois da formação do tubo neural, a extremidade cefálica começa a crescer em três vesículas nítidas, o prosencéfalo, mesencéfalo e o rombencéfalo. Por volta da sexta semana - nisso, Ana observa sua barriga, imaginando estar aproximadamente nesse período - é possível ver algumas modificações interessante, não é meu querido? - Ana se surpreende consigo mesma, pois, aparentemente, é a primeira vez que ela conversa diretamente com seu futuro bebê. Com as mãos em seu ventre, ela fica alguns segundos se observando e imaginando a criaturinha dentro dela, medindo pouco mais de 4 milímetros. Com a voz levemente embargada pela emoção, ela continua.

Desenho evidenciando a origem de cada estrutura encefálica. As cores separam as vesículas cefálicas.
O tubo verde na imagem após o mielencéfalo é a medula espinhal. Embrião com aproximadamente
seis semanas de vida.

-- Bom, nesse período o prosencéfalo se dividirá em mais duas vesículas: o telencéfalo e o diencéfalo. Com o rombencéfalo ocorre o mesmo, mas se dividindo em metencéfalo e mielencéfalo - disse, olhando em seguida para as figuras do livro e vendo que estava se lembrando muito bem das coisas.

* * *

Carlos voltou para casa soltando fogo pela boca, xingando o investidor que deu um alarme falso e acabou não aparecendo na empresa. Mais tarde, mais relaxado, Ana contou ao marido sobre ter conversado um pouco com seu bebê e ter "explicado" para ele sobre o próprio desenvolvimento nervoso. Carlos queria saber o que era isso e Ana contou para o marido a rápida conversa que tivera com seu bebê. Logo depois:

-- Querida, em nós, o que cada parte representa?

Desenho esquematizando a evolução do desenvolvimento cerebral, partindo (da esquerda para a
direita), de um encéfalo de três semanas, encéfalo de seis semanas e encéfalo de uma indivíduo
adulto formado. As cores representam cada vesícula cefálica original.

-- Bom amor, cada parte dessas vesículas serão estruturas importantíssimas em nosso sistema nervoso. O telencéfalo irá dar origem ao córtex cerebral e aos gânglios basais. O córtex é a maior parte do cérebro humano e que todo mundo conhece. É o córtex que tem as conhecidas dobras cerebrais. - o marido concorda com a cabeça - é nela em que desempenham funções relacionados á memória, linguagem e atenção. Já o diencéfalo ele será nosso futuro tálamo e o hipotálamo. É nela que as funções mais básicas como sensação de fome, dor, apetite sexual e controle de temperatura são controlados. É como se fosse o cérebro mais básico que nós tivéssemos. Já o mesencéfalo é a porção do cérebro mais primitivo de todos. Todos os vertebrados o possuem e é responsável principalmente ao processamento de reflexos visuais e auditivos, além da resposta de medo. Já o rombencéfalo, também chamado de encéfalo posterior se divide em duas vesículas, como te falei, o metencéfalo e o mielencéfalo. O metencéfalo dará origem ao cerebelo e à ponte. O primeiro está relacionado ao equilíbrio e a posição do corpo no espaço. Já a ponte e o mielencéfalo, que será o bulbo, controlam vários mecanismos básicos como a respiração, batimentos cardíacos e outros processos involuntários, como a pressão sanguínea.

-- Interessante... - disse o marido, que gosta de ouvir sobre o funcionamento do cérebro e coisas do tipo.

-- Sim, e eu contei tudo para ele hoje...

-- Será que ele ouviu?

-- Bom, o sistema auditivo dele nem está formado e o cérebro dele ainda não passa de um monte de células se multiplicando felizes e formando todas essas estruturas. Mais para frente, daqui a alguns meses, ele começará a ouvir as coisas que veem do meio externo, além da minha própria voz que viaja por dentro de mim.

-- Quer dizer que você conversou sozinha?

-- Não conversei... eu conversei com ele. Minha companhia pelos próximos meses... - e se virando para o marido - sabe, eu gosto de imaginar o que está acontecendo com ele. O conhecimento que eu tenho me ajuda a estar mais perto do meu filho do que estaria se não soubesse o que se passa com ele, mesmo estando dentro de mim. Gosto de saber disso... - disse, olhando para seu ventre, sabendo que o seu cérebro que um dia estava se desenvolvendo do mesmo jeito do seu bebê estava ali, registrando mais um capítulo em sua longa história de vida.

Agradeço ao Gabriel Victoriano pela ajuda.
Com imagem por ~monika-es em seu deviantART. Desenhos esquemáticos feitos por mim, protegidos por CC. O primeiro desenho foi uma adaptação minha para esta imagem.

6 comentários:

  1. Gabriel gostaria de parabenizá-lo pelo texto achei muito interessante e didático, haja visto que somos dotados de uma grande capacidade de memorização por imagens como figuras e/ou histórias que visualizamos explicitamente ou em raciocínio. Aproveito a oportunidade para pedir sua permissão para utilizá-lo assim como as imagens (claro que referência da fonte) em aulas de anatomia. Sou professora de vários cursos e achei que seu texto elucidará com grande proficiência minhas aulas. Contando com sua atenção e pronta acolhida, desde já meus agradecimentos.

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  2. Olá Madalena. Meu nome é Wesley, sou o autor (tanto do texto como das imagens). O Gabriel é um amigo de faculdade que me ajudou a elucidar algumas etapas que discorro no texto.


    Enfim, muito obrigado por ter achado a explicação e os desenhos de fácil aprendizagem. E sim, poderá utilizar tanto informações do texto como as imagens para uso em sala de aula. Como todo o meu blog está protegido por CC, o que realmente peço são as devidas referências do conteúdo em suas apresentações. Com isso feito, não vejo problemas em utilizá-lo para propagar conhecimento (já que esse é o objetivo). =D


    Apenas como curiosidade, você ministra aulas em qual local?


    Agradeço o contato. Grande abraço.

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  3. Wesley Me Desculpe não observei que o autor do texto é você e que o Gabriel foi um colaborador, então meus parabéns a você em primeiro lugar, você e o Gabriel desempenharam um bonito trabalho nesse texto o qual me interessou bastante. Gostaria de reiterar meu pedido a você para utilização de seu texto e suas imagens com devida referência da fonte, para ajudar os acadêmicos na compreensão do desenvolvimento encefálico. Ciente de sua compreensão e pronta acolhida, desde já meus agradecimentos.

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  4. Obrigada pela prontidão, estava a me desculpar pelo erro e você já havia respondido.
    Estou a ministrar aulas de anatomia nos cursos de Educação Física, Enfermagem, Psicologia na Fundação Municipal de Educação e Cultura de Santa Fé do Sul - FUNEC.
    Meu muito obrigada pela autorização, utilizarei com responsabilidade sem alterações as informações de seu texto.
    Abraço fraterno.

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  5. Ah sim, Madalena. Não tem problemas.


    E sim, poderá utilizar as imagens e texto para os seus alunos. Sinta-se livre, também, para usar imagens de outras publicações da série 9 Meses.


    Grande abraço e boas aulas.

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  6. Hehe...


    Eu que agradeço por utilizar minhas imagens e texto.


    Grande abraço. =D

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