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O ar para ser capturado usado por nossas células exige que nossos pulmões estejam
completamente formados. E esse desenvolvimento dura anos de vida.
Carlos quer saber muito sobre isso.

Ar!
Carlos mal levantou da cama quando ouviu os trabalhadores chegando à frente de sua casa. Faltava pouco para que reforma que estavam fazendo em um cômodo da casa finalizasse. Em menos de um mês teriam um quarto para a bebê mais desejada da família. Com a chegada mais cedo do que o habitual, Ana acabou levantando logo em seguida ao marido. Enquanto Carlos se arrumava, Ana foi abrir a porta para os pedreiros.

-- Bom dia pessoal - disse Ana um tanto sonolenta - vocês podem subir. Logo eu faço um café para vocês...

-- Não se incomodo com isso, dona - disse um dos pedreiros ao entrar, mas com a típica expressão de "mas tiver é bem melhor...". Em poucos minutos os barulhos típicos de construção estavam dominando a casa.

-- Querida - disse Carlos para Ana antes de ele ir para o trabalho - não é melhor você ficar um pouco fora de casa hoje? Eles vão começar a pintar o quarto e o cheiro de tinta pode não ser muito bom para você e nem para a nossa pequena - disse, passando a mão levemente na barriga de Ana.

-- Bom, qualquer coisa eu saio um pouco, dou uma caminhada, não sei... além disso, eles ficarão aqui até o meio-dia, não é? - Carlos concordou com a cabeça. Em seguida, deu um suave beijo e saiu em direção à empresa.


Não demorou muito para o ar dentro da casa começar a ficar com o cheiro típico de tinta. Felizmente as tintas atuais quase não possuem cheiro e Ana pode ficar dentro de seu quarto, com a porta fechada, lendo um livro. Atualmente se interessara pelos livros de Agatha Christie, o qual não conseguia de desgrudar. Dois livros que comprara em um sebo online chegaram no dia anterior e já estava quase terminando de ler um deles.
"Passaram séculos... mundos deram volta às suas órbitas... O tempo ficou imóvel, parado... enquanto corriam os milênios...Não, foi apenas um minuto, ou nem tanto..."
* * *

De fato Ana não percebeu o passar do tempo e se surpreendeu quando viu Carlos abrindo a porta do quarto. Ao fundo dele um dos pedreiros cumprimentou Carlos, informando que estava partindo.

-- Desculpe querida, parece que te assustei - disse Carlos para Ana, que estava deitada na cama com o livro aberto.

-- Não foi nada, querido. Acho que não vi a hora passar - olhou para o relógio próximo à ela acusando, com números vermelho vivo, 12:19. Exclamou um 'caramba' em seguida.

-- O cheiro de tinta não está tão forte, né?

-- Ainda bem que não - disse Ana enquanto colocava o marca-página no livro, fechando-o logo em seguida - quando nossa pequena vier ao nosso mundo, ela vai sentir apenas cheirinhos gostosos do quartinho novo, não é mesmo?

-- Pois é, querida - e pensando um pouco - amor, faz tempo que você não me conta como nossa filha está crescendo dentro de você...

-- É verdade, faz um tempinho mesmo. O que você quer saber?

-- Bom, não sei... é... sempre tive curiosidade em como os bebês respiram. Sei que estão dentro do líquido amniótico e que recebem tudo o que precisam através do cordão umbilical mas, o que os pulmões fazem enquanto isso? Melhor, como eles surgem?

-- Hum... bom, deixa-me pensar um pouco - Ana vasculha em seu cérebro tudo relacionado ao assunto e após pensar um pouco, resolve começar - você lembra quando eu disse, algum tempo atrás, quando o embrião fez a flexura cefálica? Que ele se curva todo, ficando uma porção do saco amniótico dentro dele, forma três porções de intestino dentro de si, chamadas de intestino anterior, médio e posterior. Lembra disso? - o marido pensa por alguns segundos, e se lembra do assunto, concordando com a cabeça em seguida [1].

-- Bom - diz Ana com um leve sorriso no rosto por achar engraçado seu marido fazendo sim com a cabeça - na porção do intestino anterior, na região do terceiro arco faríngeo começa a aparecer um broto - ai dizendo, com a mão na região do pescoço - que começará a crescer em direção á região peitoral. Temos aí o primórdio do sistema respiratório inferior. Após se alongar um pouco esse pequeno tubo, ele desenvolve uma bifurcação, que chamamos de brotos brônquicos primários. Cada um irá de desenvolver independentemente para a formação dos dois pulmões que temos.

-- Aham... - o marido concorda com a cabeça.

-- Então, de cada broto primário irá se desenvolver os brotos brônquicos secundários. Dois no pulmão esquerdo e três no pulmão direito.

-- Espera... mas por que isso? - indagou o marido.

-- Acontece que o coração humano fica alojado junto com os pulmões na caixa torácica. E o coração precisa de espaço. Um dos pulmões acaba cedendo esse espaço para ele poder ficar bonitinho dentro da gente. E quem cede esse espaço é o pulmão esquerdo. Ele é um pouco menor que o direito, tanto que possui apenas dois lobos e o pulmão esquerdo possui três lobos[2].

-- Hum, é verdade, o coração da gente fica levemente para o lado esquerdo.

Desenho representando o desenvolvimento dos pulmões. O divertículo laringotraqueal (visto em A e B)
começa a aparecer por volta da quinta semana de desenvolvimento embrionário. Deste saem os
brotos brônquicos (visto em C). O mesênquima que envolve os brotos em desenvolvimento será
responsável pela formação do tecido que envolve e dá forma aos pulmões. Ainda em C, na porção
inferior, é possível distinguir os lobos que segmentam os pulmões. Devido ao fato do coração
se alojar mais à esquerda na caixa torácica, o pulmão direito tem um lobo a mais que o esquerdo.

-- Sim. Bom, dos brotos secundários darão origem aos ramos lobares, que irão se desenvolver para formar a rede de bronquíolos pulmonares. Ao longo desse desenvolvimento, os pulmões passam por quatro períodos, que indicam o estágio de maturação pulmonar. O primeiro... - Ana parou de falar. Lembrar dessas coisas de cabeça era realmente difícil para quem viu esse assunto há alguns bons anos atrás - lembrei! O primeiro é o período pseudoglandular. Ele recebe esse nome pois o pulmão parece uma glândula, mas só parece. Por isso recebe esse nome.

-- O segundo é chamado de período canalicular, onde a luz dos brônquios e bronquíolos se torna maior. O terceiro, chamado de saco terminal é quando há a formação de sacos terminais, onde se encontram os alvéolos, ainda primitivos nesse estágio. Nós conseguimos ver nesse estágio os pneumatócitos, que são células dos pulmões. Existem os pneumatócitos tipo I e os pneumatócitos tipo II. Os pneumatócitos tipo I são as células responsáveis pelas trocas gasosas do pulmão com os vasos sanguíneos. Já os pneumatócitos do tipo II são responsáveis pela secreção de um surfactante, que evitem as paredes do alvéolos se colabem.

-- Quê?

-- Calma, acho que não falei nada "entendível". É assim: para que ocorra as trocas gasosas, as paredes internas dos alvéolos precisam estar molhadas. Assim, o oxigênio do ar consegue se dissolver nessa superfície úmida e os pneumatócitos tipo I conseguem capturá-lo para transferir para os capilares sanguíneos. Quando você inspira, os alvéolos ficam inflados, certo? Mas quando expiramos, os alvéolos ficam murchos e ocorre o risco das paredes dos alvéolos colabarem, ou seja, ficarem muito juntos, colados praticamente. Isso acontece devido à tensão superficial da superfície úmida - Ana se fazia entender usando as mãos para simular os alvéolos juntos - O objetivo desse surfactante é dissolver essa tensão superficial e evitar que os alvéolos se fechem. Assim, as trocas gasosas acontecem, entendeu? - perguntou Ana, com a cabeça levemente inclinada esperando por um sim de Carlos.

-- Hum... - murmurou levemente Carlos um pouco antes de fazer um sim com a cabeça. Ana respira aliviada.

-- Ufa... bom, por volta da 26º semana de gestação, o bebê começa a produzir esse surfactante. Crianças que nascem após esse período, que são os prematuros, tem mais chances de sobreviver principalmente por causa da capacidade maior em conseguir respirar.

-- Interessante... e qual é o último período do desenvolvimento?

-- Ah sim, o último é o período alveolar. Nesse estágio, os alvéolos aumentam em número e assim ficam assim até por volta dos oito anos de idade.

Desenho esquematizando os períodos de maturação do pulmão. Os períodos estão ligados por um
brônquio em comum apenas para efeito visual. Representado em A o período pseudoglândular, onde o
saco terminal aparenta, ao menos histologicamente, com uma glândula. Em B, o período canalicular. Em C,
o período de saco-terminal, onde existem alguns alvéolos que podem realizar troca gasosa, além da
produção de surfactante pelos pneumatócitos II, evitando que as paredes dos alvéolos colem. Já no
período alveolar, visto em D, há um maior desenvolvimento dos alvéolos, crescendo principalmente
em número. Esse desenvolvimento pode se estender até por volta dos oito anos de vida.

-- Nossos alvéolos se desenvolvem até os oito anos de idade?

-- Sim, mais ou menos. Por isso que é muito importante os pais protegerem a "saúde respiratória" da criança. Pais que fumam perto da criança é um verdadeiro perigo pois os pulmões estão se desenvolvendo ainda e essas substâncias tóxicas e algumas cancerígenas, inclusive, podem comprometer seriamente a saúde da criança[3].

-- Verdade...

-- Bom, mas depois de todo esse desenvolvimento, os pulmões estarão aptos a capturar o oxigênio do ar para a manutenção do organismo como um todo - nisso Carlos suspira - nossa, amor. Gostou da história?

-- Sim amor, adorei você ter me explicado... é que já são quase uma da tarde e ainda não almocei. Suspirei de fome mesmo...

-- Nossa, como você sabe ser romântico - disse Ana em tom sarcástico.

Carlos deu um breve beijo em Ana, quando o barulho do estômago dele fez tremer seu corpo.

-- Nossa senhora, vamos então fazer alguma coisa para comer, não é mesmo?

Carlos solta outra suspiro.

Informações extras:
[1]: quer se lembrar desse assunto também? Clique aqui.

[2]: lobo (lê-se lóbo) é, em anatomia, partes de órgãos mais ou menos bem definidas, que possuem fissuras e sulcos determinados. Você pode ver os lobos dos pulmões humanos nessa figura (por motivos um tanto óbvios, não era permitido tirar fotografias dentro do laboratório de Anatomia durante as aulas e não tenho nenhuma boa imagem dos lobos dos pulmões para compartilhar).

[3]: além de comprometer a saúde dos pais (ou de outros adultos), a fumaça do cigarro é extremamente tóxica para quem a inala passivamente. Embora seja difícil abandonar o vício, é muito importante a proteção da saúde da criança. Em 2010 uma matéria sobre uma criança de cerca dois anos da Indonésia que fumava diversos cigarros por dia rodou o mundo na época. Reveja o vídeo, aqui. Quantas substâncias tóxicas em tão pouco tempo os pulmões desse garoto tem?

Com imagem por *TakeMeToAnotherPlace em seu deviantART. Trecho retirado do livro 'O caso dos dez negrinhos', de Agatha Christie. Os desenhos foram feitos por mim, protegidos por CC.

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