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Carlos comeu mais do que de costume. Aquele soninho pós-almoço chegou com tudo,
mas as explicações de Ana foram mais fortes!

Nó no intestino
Uma mulher grávida entra no recinto. A bibliotecária olhou por alguns segundos e concluiu que, em breve, ela estaria com a criança no colo. Fazia um bom tempo que Ana não entrava em uma biblioteca de uma Universidade. Como fazia algum tempo que terminara sua pós-graduação, ela conseguia as informações que precisava vendo em artigos na internet ou através de algum bom livro que comprava às vezes. Entretanto, Clara, sua amiga da época de faculdade e que hoje era docente do Depto. de Biologia da universidade enviou um e-mail irresistível para Ana:

Querida amiga, 
tudo bem contigo? Sei que nos falamos bastante pelos Facebook da vida mas resolvi entrar em contato por aqui pois achei melhor. Lembra que você tinha uma das melhores notas da nossa turma? Hahaha, então, eu me lembrei que você foi fera em fisiologia humana. Daqui a duas semanas eu irei ministrar uma aula prática onde utilizo alguns equipamentos laboratoriais e gostaria de saber se você me ajudaria a preparar essa aula. Fique tranquila quanto a pagamento e coisas do tipo. Sei que você está grávida e em breve vai estar com sua filhinha. Ou seja, se realmente não der, eu entendo. Vamos conversando sobre a possibilidade, certo? 
Grande beijo para você e para sua bebê! Amo você! ♥

Ana adorava quando algum amigo ou conhecido a chamava para dar alguma aula na faculdade. Após algumas trocas de e-mail, combinaram de se encontrar na biblioteca da universidade. Após um momento de reencontro, trataram das pendências mais técnicas e burocráticas.

Na volta para casa, Ana resolveu passar na empresa de Carlos. Era quase hora do almoço e Carlos possivelmente estava quase pronto para ir embora para casa. Após encontrar e cumprimentar os funcionários da empresa, viu Carlos e deu-lhe um leve beijo nos lábios. Em segundos, Ana foi assediada pelas funcionárias por causa do barrigão. Carlos, que saia da empresa por volta do meio-dia, viu seu relógio apontar 12h35 e ele ainda estava sentado em sua cadeira, esperando Ana terminar de conversar. Depois de mais alguns minutos:

-- Amor, vamos indo? - perguntou Ana para Carlos.

-- Vamos. Estava pensando. Já que são quase uma da tarde, vamos almoçar em um restaurante aqui perto? - disse Carlos, sentindo o estômago lembrá-lo que precisava almoçar.

-- Excelente ideia! Vamos sim...

* * *

Mais tarde, ao chegar em casa, Carlos deitou confortavelmente no sofá, reclamando para si mesmo por ter comido muito. Ana, que estava comendo por dois, ficou surpresa ao ver Carlos pegar mais comida que ela e comer apenas para ele mesmo.

-- Não me olhe assim, eu sei que comi muito, mas estava com fome... - disse Carlos, colocando um travesseiro no rosto. Ana ri. Entretanto, Carlos lembra de algo - amor, lembra que você parou de falar sobre como se forma o sistema digestivo da nossa filha. Continua contando.

Ana, que estava se preparando para ir ao quarto para colocar uma roupa mais leve sentiu seu alerta de explicar acender. Ela reconheceu na hora que esse "alerta" estava mais para um "aviso" visto que estava um pouco cansada também. Voltou para a sala, sentou no sofá ao lado de Carlos, ajeitou o corpo e começou:

-- Você não vai dormir enquanto eu estiver falando, certo? - Ana houve um murmúrio vindo debaixo do travesseiro, parecido com um 'não'. Ana dá um suspiro, resolve dar um crédito para o marido e puxa na memória o conhecimento que ela tinha.

-- Bom, amor, é assim: o intestino sai de dentro da gente, volta, gira várias vezes e fica do jeito como conhecemos!

Por alguns segundos, o silêncio reina na sala. Carlos lentamente tira o travesseiro do rosto, olha para Ana e diz:

-- Mas que porcaria é essa que você acabou de dizer?

Ana cai na risada. A velha tática do impressionar a plateia com o que vai acontecer pelo visto ainda funcionava. Carlos ficou olhando para Ana esperando que ela contasse mais detalhadamente esses processo todos.

-- Olha amor, é assim. Lembra quando eu falei sobre o desenvolvimento do fígado? - o marido concorda com a cabeça - então, esse órgão começa a se desenvolver muito rápido. Acontece que outras estruturas estão crescendo dentro do embrião ou do feto. O tubo intestinal está se desenvolvendo também. Mas o fígado está crescendo mais rápido e faz com que o abdômen do feto não consiga guardar tudo ao mesmo tempo. Para aliviar a situação, uma parte do intestino entra no cordão umbilical e permanece por lá por volta de quatro semanas. A medida que o corpo do embrião-barra-feto[1] vai crescendo, começa a ter mais espaço para as estruturas e órgãos que vão crescendo e, assim, essa alça de intestino que se projetou volta para o lugar.

-- Interessante... - disse o marido, coçando o queixo como que imaginando tudo isso acontecendo.

-- Sim. Durante essas semanas que essa alça intestinal esteve dentro do cordão umbilical, ele sofre uma rotação de 90º no sentido anti-horário - nisso Ana estica sua mão e a gira - ou seja, a porção superior desse intestino fica para a direita e o que estava embaixo fica para a esquerda. Certo? - Ana pergunta ao marido se o pensamento está correto pois ambos sabem que até hoje ela não é boa em distinguir rapidamente o direito do esquerdo. Felizmente Carlos concorda com a cabeça - bom, depois que o intestino volta para a dentro do corpo ele continua a rotacionar sentido anti-horário, mais 180º nisso tudo - o marido faz a típica expressão de surpresa e aprovação[2].

Esquema simplificado mostrando as rotações que o intestino médio realiza durante o período
embrionário/fetal. Em 'A', um embrião com cerca de seis semanas onde é possível ver a alça
intestinal no interior do cordão umbilical. Ainda no cordão umbilical, essa alça realiza uma rotação
de 90º no sentido anti-horário (visto em 'B'), antes de retornar ao corpo do embrião, como vemos
na sequência 'C' e 'D'. Em 'C' vemos a formação do divertículo cecal, que dará origem ao ceco e
ao apêndice. Dentro do feto, o intestino roda mais 180º, colocando as estruturas intestinais nos
locais corretos, como indicado em 'E'. Para facilitar a visualização algumas estruturas como veias
e órgãos que não participam dessa explicação foram removidos.

-- Mas por que ele faz tudo isso?

-- Bom, o intestino vai crescendo e precisamos colocar esses metros[3] de tubo de um jeito certo na gente.

-- Mas e por que temos tantos metros de intestino?

-- Precisamos de toda essa extensão para permitir que o alimento seja bem processado e retiremos dele o máximo de nutrientes e energia possível. Se tivéssemos menos que isso, precisaríamos comer muito mais para surtir o mesmo efeito.

-- Que interessante.

-- Viu só como eu ter dado a informação condensada e bombástica te fez ficar alerta - disse, com o sorriso no rosto. Carlos concorda, movendo lentamente a cabeça. Em seguida, ele diz:

-- Pois bem, meu amor... agora que não tem nenhuma notícia bombástica para ser dada, eu posso dormir um pouco?

-- Pode sim, amor meu... eu vou me trocar e ler algumas coisas que preciso para a aula que irei ministrar, lembra?

-- Ah, é verdade. Então deu certo? - disse o marido, colocando o travesseiro no rosto.

-- Sim. Fiquei tão feliz que até senti o coração da nossa bebê bater de felicidade! - disse Ana, certa que estaria provocando Carlos para um questionamento. Alguns bons segundos se passaram em pleno silêncio. Carlos, ainda com o travesseiro no rosto diz:

-- Eu quero saber como o coração da nossa pequena surgiu mas certamente você não vai me dizer agora, certo?

-- Exatamente...

Passam-se alguns segundos e Carlos finaliza:

-- Filha da mãe...

Ana ri.

Informações extras:
[1]: para fins conceituais, a embriologia divide o período embrionário e período fetal de acordo com o estágio de desenvolvimento em que se encontra o organismo, dado em semanas. Sendo assim, é considerado embrião o organismo até a oitava semana de desenvolvimento. Da oitava semana até estar a termo, ou seja, pronto para nascer (que é, aproximadamente, na 32ª semana) é chamado de feto. A partir do nascimento temos um recém-nascido, que o chamamos assim até o primeiro mês de nascimento. Após esse período, até um ano de idade é chamado de lactente.

[2]: not bad!

[3]: um humano adulto possui, em média, de sete a oito metros de trato digestivo.

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