É preciso mais ciência para cientistas? - parte 1 de 2

As rochas dizem muito sobre o passado da Terra. Badlands National Park, Dakota do Sul.

A ciência, como bem explicada pelo digníssimo Carl Sagan em 'O mundo assombrado pelos demônios', vem do latim scientia e significa 'conhecimento'. Ou seja, aquilo que se sabe sobre dada coisa pode ser chamado de ciência. Mas esse conhecimento que o autor de Cosmos está querendo nos dizer é restrito aos fenômenos naturais que nos rodeiam. Embora a palavra restrito dê a sensação de que estamos nos fechando a uma coisa pequena, convém lembrar que o Universo é imenso e todos os fenômenos que ocorram dentro dele podem ser analisados pelos olhos da ciência.

Entretanto, tio Sagan também nos diz que "a ciência é mais que um corpo de conhecimento: é um modo de pensar". Para ele, não basta simplesmente você saber tal coisa, é preciso pensar nessa coisa. Reproduzir o conhecimento no método Ctrl+C e Ctrl+V não faz de você um cientista e muito menos um pensante. O conhecimento que a ciência gera precisa ser mastigada, deglutida e digerida para que possa fazer sentido. Ou seja, o que quero dizer é a importância de não simplesmente aceitar tal conhecimento pelo simples fato de ser ciência: é preciso pensar nesse conhecimento (que consiste em questionar e verificar por erros não tão aparentes). Isso é muito importante para qualquer pessoa, inclusive cientistas. E isso me fez lembrar de um acontecimento recente o qual eu vi e gostaria de relatar a vocês.

Minha atual vida acadêmica fica em volta de leituras de textos online (acadêmicos ou informais), a faculdade e estágio. Convivo nesses meios (online e real) com pessoas que considero muito inteligentes (alguns em posição acadêmica maior que eu). Em um desses lugares presenciei um debate sobre um assunto que fiquei pensando nele durante um bom tempo.

Por que os dinossauros não entraram na arca de Noé?

A resposta, para muitos leitores, é óbvia. Entretanto, eu quero esmiuçá-la um pouquinho.

A referência mais próxima que temos de Noé se encontra na Bíblia Sagrada[1]. Em Gn 6,8-9[2] "Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor. Estas são as gerações de Noé. Noé era homem justo e perfeito em suas gerações; Noé andava com Deus.". E, em Gn 6,19-20 "E de tudo o que vive, de toda a carne, dois de cada espécie, farás entrar na arca, para os conservar vivos contigo; macho e fêmea serão. Das aves conforme a sua espécie, e dos animais conforme a sua espécie, de todo o réptil da terra conforme a sua espécie, dois de cada espécie virão a ti, para os conservar em vida.".

Nesse capítulo, Deus está descontente com o que está acontecendo na Terra (devido à grande violência entre as pessoas). Ele resolve matar todos os seres viventes no planeta, salvando apenas aqueles que se encontravam dentro da arca (Noé e sua família e os casais de animais). Vemos que ele cita que as aves, os répteis e os demais animais[3] devem estar dentro da arca para serem salvos. Então os dinossauros deveriam estar lá dentro. Não é?

Antes de pensarmos nesse assunto, acredito que mais informação se faz necessária para compreendermos o assunto como um todo. A ciência fornece algumas ferramentas que permitem os cientistas a entenderem um pouco mais sobre a história da vida na Terra e da própria Terra. Essas ferramentas são necessárias de modo a aumentar a confiabilidade dos dados obtidos. O trabalho de diversos pesquisadores, em várias partes do mundo, desde trabalho em campo até mesmo replicando experimentos em laboratório são de suma importância para verificar se tais ideias científicas são satisfatórias para explicar o mundo natural.

Com isso em mente, precisamos entender o que são/foram os dinossauros. Dinosauria[4] é o nome dado por Richard Owen ao grupo de fósseis peculiares que foram descobertos na Inglaterra e, posteriormente, em outras partes do mundo. Eles viveram por praticamente todo a Era Mesozóica, que compreende um período entre 250 a 65 milhões de anos, aproximadamente.

O grupo Dinosauria se ramifica em dois outros grupos principais: os Saurischia e os Ornithischia[5]. Essa classificação se baseia principalmente na posição da pelve (o grupo de ossos da cintura pélvica que se articula com os ossos da coluna e com os dos membros inferiores (pernas)), e por outras características anatômicas. E graças a observações anatômicas como essa, Thomas Huxley (amigo de Charles Darwin) foi um dos primeiros a sugerir que os dinossauros tinham uma relação evolutiva muito próxima com as aves.

Isso mesmo, com as aves! Observe a imagem abaixo:

Réplica do fóssil de Archaeopteryx lithographica.

A imagem acima é um dos fósseis de transição mais famosos do mundo científico. É possível observar nesse fóssil a existência de características tanto reptilianas (de dinossauros) quanto de aves. Vemos a existência de uma cauda na porção dorsal do corpo, bem como a existência de garras nos membros superiores (típico dinossauro); entretanto vemos uma característica marcante: a existência de penas (considerado apomorfia (nome dado para uma característica ou novidade evolutiva em um grupo) para aves).

Além das análises anatômicas, estudos moleculares (Schweitzer et al., 2007) tem mostrado a relação entre dinossauros e aves. Ou seja, embora os dinossauros per si não tenham sobrevivido até os dias de hoje, seus descendentes e parentes mais próximos estão aqui conosco, seja aquele pombo que vive perto de sua casa até aquele frango que muitos usam como alimento.

Bom, eu precisei falar tudo isso para dizer que os dinossauros como conhecemos não existe mais. A Bíblia dá suporte para que todas as aves estejam na arca o que, pelo menos, garante que os seus descendentes se salvaram. Mas e os dinossauros mesmo?

Enquanto eu escrevia a postagem, vi que a mesma fica muito longa (bem chata para ler tudo de uma vez). Por isso, resolvi dividir a postagem em duas partes. Na semana que vem, publico a parte 2 desse nosso entendimento sobre como trabalha a ciência e se realmente precisamos ter cientistas com mais ciência.

Grande abraço! =D

Informações extras:
[1]: a Bíblia é uma coletânea de livros escrita principalmente em hebraico e aramaico, uma das mais conhecidas línguas semíticas. A partir dos textos originais, uma variedade de traduções, para dezenas de idiomas foram feitos, desde o grego (considerado a mais antiga tradução já feita do hebraico, o Septuaginta), para o latim (considerada uma das mais fiéis pela Igreja Católica a versão feita entre os séculos IV e V, chamada de Vulgata) e tantas outras línguas. Cada versão traz suas particularidades. Usei a versão Almeida Corrigida e Revisada nessa postagem.

[2]: alguns leitores poderão não estar habituados com a citação bíblica. De forma geral, o nome do livro dentro da Bíblia vem abreviado na frente. O livro 'Gênesis' é abreviado como Gn. Os números que seguem após o nome do livro refere-se ao capítulo do livro. No caso, eu estou informando que usei o capítulo 6 dentro de Gênesis. Após a virgula, o número refere-se ao versículo (a frase ou o conjunto de frases dentro de um capítulo). No caso, estou citando o versículo 8 e 9 que está dentro do capítulo 6 de Gênesis.

[3]: acredito que os autores originais estavam falando dos mamíferos, visto que em outras traduções substituem animais por 'quadrúpedes' ou 'gado'

[4]: não, não comi letra na hora de escrever. O nome do grupo no árvore da vida é uma latinização de um termo grego. Dinosauria significa 'lagarto terrível'. É convencionado a usar nomes latinizados (do latim, e não da América Latina, que fique claro) na classificação biológica, em qualquer nível de organização que se esteja observando. Todos os dinossauros (pertencentes ao clado Dinosauria) são vertebrados (ou seja, estão dentro de um grupo maior denominado, em latim, Vertebrata). Pode parecer que muitos nomes científicos tem um pé de entendimento no português. Isso acontece pela origem do português (assim como do italiano, espanhol e francês) que é uma língua latina, ou seja, tem o latim como origem.

[5]: A imagem ao lado eu usei em um trabalho recente de faculdade e vendo sua utilidade, resolvi reaproveitá-la. Infelizmente não me lembro da fonte original dos dinossaurozinhos (acredito ser Wikimedia) mas ilustra a relação entre os dois grupos dentro de Dinosauria. Clique na imagem para ver maior. E, se você chegou até aqui, saberá de uma informação a mais: os nomes desses grupos de dinossauros se baseou em uma comparação com a pelve dos animais atuais. Os Saurischia receberam esse nome pois possuiam a pelve semelhante à lagartos (Saurischia realmente significa isso). E Ornithischia tem esse nome pois seus membros possuiam a pelve semelhante à ave. O mais curioso é que o grupo dos dinossauros que deram origem às aves atuais não foram os Ornithischia e sim os Saurischia.

Referência a artigos citados:
SCHWEITZER, M. H., SUO, Z., AVCI, R., ASARA, J. M., ALLEN, M. A. Analyses of soft tissue from Tyrannosaurus rex suggest the presence of protein. Science. v. 316, n. 5822, p. 277-280. Disponível em: http://www.sciencemag.org.sci-hub.org/content/316/5822/277.full?sid=5bad5559-f3a9-4868-b643-eded727f652d

A imagem que abre a postagem foi feita por nescio17 em seu deviantART. Os trechos da Bíblia que foram usados nessa postagem foram obtidos originalmente em Bíblia Online. A imagem do Archaeopteryx foi feita por mim, protegida por CC (ela foi publicada anteriormente em uma postagem aqui no blog sobre a exposição itinerante 'Cabeça Dinossauro', organizado pela USP. Clique aqui para ver a matéria. A imagem do clado simplificado mostrando os grupos dentro de Dinosauria foi feito por mim, protegido por CC (imagens de dinossauros estavam originalmente em Wikimedia Commons).

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