Moral, ética e outras coisas...

E então? Você salvaria uma pessoa ou cinco pessoas?

Acredito que, até o presente momento, todo mundo já ficou sabendo do resgate de quase 200 cães de maus tratos no Instituto Royal[1]. Caso você seja uma pessoa relax demais, segue o super resumo: ativistas dos direitos animais e contra a prática de usar animais em experimentação invadiram o Instituto Royal, localizado na cidade de São Roque, São Paulo e resgataram dezenas de cães da raça beagle com a acusação de o Instituto praticar maus tratos contra os animais.

Hoje, com a população da internet e o acesso em massa (e da massa) em redes sociais, qualquer indivíduo expõe o que pensa. O que antes era apenas uma conversa de roda entre amigos após um fim de tarde em um barzinho ou na casa de alguém, virou um debate ferrenho no Facebook e brigas com pessoas totalmente desconhecidas em forma de comentários nos sites de notícias.

O objetivo dessa briga toda é, ao meu ver, tentar mostrar que você está certo e o mané[2] do outro lado da internet está errado e querer mudar a opinião desse mané (para ver se ele deixa de ser mané).

Acontece que estamos mexendo com algo que é pessoal e social ao mesmo tempo, fruto dos conhecimentos e hábitos de vida adquiridos ao longo da formação cultural do sujeito (até mesmo dentro da casa somos influenciados de formas diferentes, o que faz você pensar diferente do seu irmão ou pais). A moral e a ética difere de pessoa para pessoa e de cultura para cultura.

De forma bem simples, a moral é aquilo que é intrínseco do indivíduo, aquilo que é do próprio pensante. Já a ética é o conjunto de normas que regem a sociedade a qual o indivíduo está inserido, semelhante às leis. Um exemplo bem simples para entender a situação é: é imoral matar animais indiscriminadamente, mas é eticamente aceito matar animais para consumo. Às vezes a moral e a ética andam juntas e, em outras, elas entram em conflito.

É famoso o seguinte experimento mental[3]: imagine que você está na estação de trem esperando-o chegar para embarcar. Você vê o trem chegando mas, ao mesmo tempo, ouve nos alto-falantes da estação que o trem está com problemas nos freios e não parará na estação, seguindo em frente. Rapidamente você olha para o outro lado e vê que, nos trilhos, existem cinco funcionários trabalhando nos trilhos. Eles estão com aqueles protetores auriculares e, por isso, não sabem de nada sobre o que está acontecendo. Então você percebe que existe uma alavanca próximo que permite desviar a rota do trem para uma outra linha. Entretanto, na outra linha você vê apenas um trabalhador que também não sabe de nada. Você tem o poder de puxar a alavanca e matar um funcionário ou de não puxar e matar cinco funcionários. A questão é: o que você faria?

Outro experimento mental é o seguinte: você está na floresta junto de dois guardas armados. Você tem poder sobre os dois guardas (eles são seus subordinados). Mais adiante, durante seu passeio florestal, ouve um grito de uma mulher desesperada. Sem perder tempo, você e os guardas correm em direção ao grito. Ao chegarem em um espaço mais aberto na mata, descobrem que a mulher que gritou é uma indígena e está sendo segurada por um forte indígena. Esse indígena está evitando que a mulher pegue seus filhos recém-nascidos das mãos de uma pajé que está prestes a matar uma das crianças. Os guardas rapidamente te informam que essa tribo sempre mata uma das crianças quando a mão dá luz gêmeos. Pois bem, os guardas estão armados e você pode evitar que o assassinato de uma criança ocorra na sua frente. A questão é: você daria ordens aos guardas para atirarem no pajé e salvar o bebê?

Cada pessoa dará uma resposta diferente para as questões acima. E adivinha quem estará certa? Todo mundo. E todo mundo, de certa forma, estará errado também.

Como disse antes, moral e ética é muito pessoal e muito local, e depende muito de como você foi criado e a que tipos de conteúdos você teve acesso em sua formação moral e ética.

Com isso em mente, resolvi fazer essa postagem mais sobre o fato de eu não querer opinar sobre o assunto em um blog de divulgação de ciências. O eu, Wesley Santos, que escreve no blog e é esse carinha bonita no lado direito da tela, possui uma formação moral e ética que influencia no que acredito ser verdadeiro ou não quanto aos códigos de conduta das pessoas e da sociedade. Para mim, não cabe discutir sobre o assunto em blog de ciências. Sei que os animais que incentivaram a postagem eram voltados para pesquisas científicas. Entretanto, esse blog não tem como objetivo discutir sobre se é certo ou errado usar animais (ou pessoas ou se a indústria farmacêutica controla o mundo) em pesquisas científicas. Podemos sim, discutir sobre se tal estudo foi bem feito ao usar experimentação animal, ou se aprendemos ou não com tal prática. Existem diversos blogs e sites de notícias que fazem esse trabalho por aí (seja um bom ou mau trabalho).

Já assuntos pseudocientíficos (onde estudos e análises de dados, além do uso do bom cérebro) serão tratados aqui no blog (confesso que não tanto quanto eu gostaria de abordar). Embora algumas pseudociências sejam bem antiéticas, são assuntos que com o conhecimento científico adequado, as pessoas pensarão melhor no assunto. Homeopatia, astrologia, búzios, reiki, cristais e tratamentos magnéticos, e muitos outros são assuntos em que, acredito, blogs de ciências devam tratar. Se o objetivo da divulgação científica é aumentar o senso de ciência por parte dos leitores, acredito que o caminho é esse.

Não digo em minar debates sobre ética e moralidade: afinal de contas, podemos sempre aprender mais e começar a pensar em coisas que não havíamos pensado antes (ter uma ideia vinda de fora da caixa é, para mim, sempre bem-vinda). Mas parece que esse tipo de debate a internet não ajuda muito (o debate vira briga e, no final das contas só sobra xingamentos para as mães dos brigadores).

Parece que devemos voltar à mesinha de bar, naquela amena tarde de sexta-feira e discutir, de forma relaxada e amigada, com aquele seu amigo mané.

P.s.: quase me esqueci: a maioria das pessoas que respondem as perguntas do experimento mental dizem que 'puxariam a alavanca e matavam um trabalhador em favor dos cinco' e 'mandaria atirar no pajé para salvar o bebê'. Lembrando que não existe certo e nem errado, mas pode-se ponderar sobre as atitudes tomadas. Mas isso fica para outra oportunidade. =P

Informações extras:
[1]: assuntos assim, ao meu ver, é preciso pesar cada palavra pois, como escrevo mais adiante, o assunto tem seus defensores e acusadores. Dependendo do local onde você tem acesso a notícia, várias abordagens são tratadas dentro do mesmo assunto. Uns dizem sofriam maus tratos, outros que não. Pensei, no começo, em colocar na frase que começa a postagem a palavra "possível". Mas teria gente que iria se irritar com a presença da pobre palavra e, no final das contas, a removi.

[2]: quando escrevemos na internet, uma das preocupações é ter uma certeza que o leitor entenderá o que está sendo escrito. Não sei ao certo, mas acho que a palavra mané não se fala em todas as regiões do Brasil. Caso você não saiba o que significa, os significados 1 e 2 servem muito bem na explicação.

[3]: essa versão ouvi do meu professor de Fundamentos Filosóficos. Já tinha ouvido outras versões desse experimento, mas a ideia é a mesma.

Imagem por Parawan em seu deviantART.

Nenhum comentário:

Postar um comentário