O que sabemos sobre o Chikungunya?


O chikungunya, essa doença de nome difícil (tanto para falar como para escrever), aterrizou em terras brasileiras em 2014, por volta de julho a agosto. Apenas nesse período de tempo, o Ministério da Saúde registrou 37 casos da doença, todos importados, a maioria vindo do Haiti e República Dominicana. Porém, essa doença é relativamente nova nas Américas.

Localização da Tanzânia. Clique para ampliar.
A doença foi identificada em 1952, após um surto que ocorreu no sul da Tanzânia (um grande país do leste africano, na imagem). Recebeu o nome chikungunya devido a um verbo da língua local makonde (a língua também é chamada de kimakonde) kungunyala, que, literalmente, significa "contorcer-se de dor". Essa é uma das características mais marcantes da doença, como veremos adiante. Após a identificação da doença, casos em baixos níveis de ocorrência foram relatados na África e Ásia, sobretudo na Índia. Surtos grandes ocorreram nas ilhas do Oceano Índico e na Índia a partir de 2005, levando a quase 2 milhões de casos registrados nessas regiões. Casos importados para outros países, sobretudo Europa, ocorreram devido a esses grandes surtos. Apenas em 2007 foi identificado o primeiro caso autóctone[1] da doença na Europa, mais precisamente na Itália.

Em dezembro de 2013 foi registrado o primeiro caso autóctone nas Américas. Os dois primeiros casos foram confirmados pela França nas ilhas de São Martin, no Caribe. Após essa confirmação, mais casos foram relatados em diversas outras ilhas caribenhas e na América continental, chegando a quase 20 os países com casos autóctones confirmados. A OMS, até o fim de outubro de 2014[3], registrou mais de 776 mil casos suspeitos da doença na América, com 152 mortes atribuídas ao chikungunya.

Apenas em maio de 2014, casos importados foram identificados nos Estados Unidos de cerca 10 pessoas que viajaram para áreas endêmicas. Um mês depois, o Brasil apresentou os seus seis primeiros casos, todos importados do Haiti, por soldados brasileiros em missão humanitária da ONU. O Haiti é um país endêmico do chikungunya.

Vírus chikungunya visto
por técnica de crio-ME.
O principal vetor do chikungunya é o mosquito Aedes aegypti ou o Aedes albopictus. O A. aegypti é grande conhecido do brasileiro por ser o transmissor da dengue. E, embora eles possuam muitas características em comum, o vírus da dengue não é um parente próximo do vírus do chikungunya (CHIKV).

O período médio de incubação do chikungunya é de três dias (variando de dois a 12 dias). A maioria dos pacientes irão apresentar os sintomas (aproximadamente 95%). As principais são febre alta (mais de 40 ºC) e dores fortes nas articulações. Dores musculares, de cabeça e inchaço nas articulações são reclamações comuns entre os pacientes. Entretanto, como relatado por eles, as dores nas articulações é quase unânime, muito forte, causando grande incapacidade motora. A maioria dos pacientes sentem-se melhor depois de uma semana após início dos sintomas, contudo, as dores nas articulações podem permanecer por semanas e meses. Há casos de pacientes relatando dores após anos exposto ao chikungunya, levando ao quadro de artrite crônica.

Crianças, idosos e indivíduos com pressão alta e diabetes são mais suscetíveis a desenvolver sintomas mais graves da doença. E, provavelmente, uma vez exposto ao vírus, o paciente adquire imunidade, evitando que desenvolva a doença caso seja exposto novamente.

Os virologistas inseriram o vírus chikungunya dentro da família Togaviridae no clado de classificação biológica. É um vírus (+)ssRNA, ou seja, o material genético do vírus é uma fita simples de RNA, no sentido positivo. Isso significa que o material genético do vírus está pronto para ser lido pela célula hospedeira e, assim, produzir centenas de novos vírus[2]

Esquema simplificado do ciclo do chikungunya. 1: o mosquito infectado com o vírus pica o indivíduo. 2: o vírus
circula no corpo e entra dentro das células humanas. 3: o vírus libera seu material genético, uma fita simples
de RNA. 4: o RNA viral é lido pelo maquinário celular, gerando proteínas e demais estruturas. 5: tais proteínas
e demais moléculas irão dar origem a novos vírus. Esses vírus estouram a membrana celular, ficando livres no
sangue. 6: o mosquito pica o indivíduo infectado, carregando o vírus consigo. O mosquito poderá infectar
novas pessoas e estas ficam suscetíveis a serem picadas por outros mosquitos, reiniciando o ciclo.

Até o momento não existem tratamento ou vacina para o chikungunya. Os médicos, ao receber pacientes com a doença, iniciam um tratamento paliativo para alívio dos sintomas. Entretanto, como vimos, a dor intensa é uma queixa constante entre os pacientes acometidos pela doença e, as vezes, o medicamento não dá conta de sanar esses sintomas.

Casos no Brasil
O Ministério da Saúde relatou, entre julho e agosto, 37 casos de chikungunya no país, todos importados. Em setembro de 2014, dois casos autóctones foram confirmados em Oiapoque, no Amapá. De lá para cá, até o dia 25 de outubro, o governo registrou 828 casos de chikungunya no país. Destes, 789 são casos autóctones. A maioria dos casos está sendo registrada em Oiapoque, com 330 casos e Feira de Santana, na Bahia, com 371 casos. Estes e praticamente todos os outros estão localizados nas regiões geoeconômicas Amazônia e Nordeste brasileiros.

Novos boletins sobre os casos no Brasil e outras informações relevantes serão noticiados aqui no blog.

* * *

Pessoalmente, acredito que o chikungunya irá se tornar cada vez mais comum no território brasileiro. Como tem o mesmo vetor que a dengue, mais casos serão registrados pelo governo (notas importantes sobre o assunto serão informados aqui no blog). A dengue é uma doença consideravelmente mais grave que o chikungunya e, infelizmente, a cultura do brasileiro de não ligar para os criadouros do mosquito fará ambos os vírus circular tranquilamente por entre as pessoas. Se o risco de formas graves da dengue não alertou a população para esse tipo de cuidado, não acredito que os casos chikungunya irá conscientizá-los de que, eliminando o mosquito, a doença irá parar de circular. Para exemplificar, embora os dados do Ministério da Saúde mostrem uma grande oscilação de casos de dengue desde 1990, foram registrados 1.452.489 casos em 2013. Até o meio do mês de outubro de 2014,  547.612 casos de dengue foram informados no Brasil.

Talvez, conjecturando um pouco, por terem o mesmo vetor, ambos os vírus possam competir por esse nicho tão específico. Isso poderá equilibrar um pouco a ação de ambos os vírus ou, também, regiões onde a dengue é mais predominante ter um número baixo de chikungunya e o contrário acontecer: regiões com baixos números de dengue ter mais casos de chikungunya. Mas é apenas uma conjectura, um pensamento que não está totalmente embasado. Se algum querido leitor souber de informações mais concretas, compartilhe conosco nos comentários!

Novas informações sobre o chikungunya será divulgado aqui no blog e, também, na página do blog no Facebook.

Atualização:
*11, 16/01/2016, 17h: o Ministério da Saúde do Brasil confirmou as primeiras três mortes provocadas pela febre chikungunya. Todos os casos (dois na Bahia e um no Sergipe) acometeram idosos com mais de 75 anos, com histórico de doenças crônicas. Especialistas já esperavam que, embora a doença não seja considerada grave, ela poderia ser fatal em pessoas mais frágeis, como idosos ou crianças, além de pessoas que possuem doenças graves. Além disso, no ano passado, mais de 20 mil casos registrados de chikungunya ocorreram no país. Veja mais aqui.

*10, 11/08/2015, 12h: o governo espanhol confirmou o primeiro caso da febre chikungunya no país de um senhor de 60 anos que não viajou para países considerados endêmicos para a doença. Os primeiros sintomas foram sentidos no começo de julho, enquanto estava na França. Ao retornar para a Espanha, ele foi hospitalizado e, após alguns dias, liberado. Amostras de sangue coletadas no dia 23 apontaram positividade para a doença através de teste sorológico. Veja aqui (em inglês).

*9, 26/05/2015, 14h: cientistas do Instituto Evandro Chagas e da Universidade de Oxford cruzaram dados genéticos e epidemiológicos do chikungunya e determinaram a origem da doença no Brasil. Duas linhagens atualmente estão no país, uma vinda da Ásia e outra vinda da África e ambas teriam entrado no país no Oiapoque, no Amapá e em Feira de Santana, na Bahia. Essas duas cidades são os locais com mais casos de chikungunya no país. Veja aqui.

*8, 08/01/2015, 13h: o Ministério da Saúde do Brasil informou ontem que os casos de chikungunya aumentaram 65% em pouco mais de um mês em relação ao último boletim. Até o fim do ano passado, 2.258 casos da doença foram registrados no país, sendo quase o total registrados no Amapá (1.146) e Bahia (1.015). Veja aqui.

*7, 28/12/2014, 15h: a Colômbia registra mais de 70 mil casos da doença desde que o primeiro paciente, uma senhora de 71 anos de idade, teve a confirmação da doença em 18 de julho. Em setembro, uma menina faleceu devido a complicações da doença. Veja mais aqui.

*6, 05/12/2014, 13h: o Grupo Fleury lançou hoje um teste molecular para diagnóstico de chikungunya. O objetivo é aumentar a rapidez e baratear o diagnóstico. Até então, amostras de sangue de suspeitos eram enviados ao Estados Unidos, a preço de R$ 999,00 reais e levava cerca de 11 dias para ficar pronto. Com o novo método, o exame poderá ficar pronto em até quatro dias por cerca de R$ 270,00 reais. Como visto na atualização *2, a FioCruz está desenvolvendo um teste rápido para doença, que ajudará os médicos no rápido diagnóstico e no tratamento dos sintomas. Veja mais aqui. E nessa semana o Amapá confirmou quase 1000 novos casos de chikungunya no estado. A maioria dos casos estão localizados no estremo norte do país, em Oiapoque. Veja aqui.

*5, 03/12/2014, 17h: o Ministério da Saúde do Brasil divulgou nota ontem atualizando os dados em relação ao chikungunya no país. No total, 1364 casos foram registrados no Brasil até o meio do mês passado. Quase 760 casos apenas na Bahia, sendo 718 casos na região de Feira de Santana (cerca de 110km de Salvador). A grande maioria (1239) foram diagnosticados por critérios clínicos-epidemiológicos (local onde vivem, viagens, etc.). Veja mais informações aqui e aqui.

*4, 23/11/2014, 14h: o CIRE, órgão do Instituto de Vigilância Sanitária da França informou ontem que quase 875 mil pessoas no mundo podem estar infectadas pelo chikungunya. Entretanto, menos de 18 mil foram confirmados em testes. A maioria dos casos ocorrem no Caribe. O Ministério da Saúde do Brasil ainda não liberou um novo boletim epidemiológico sobre o número de casos no Brasil. Quando liberado, essa postagem será atualizada. Veja aqui.

*3, 17/11/2014, 15h: Chiapas, um estado do México, detectou uma menina de oito com chikungunya, sendo o primeiro caso registrado no país. Informações dos órgão de saúde apontam que a menina já foi tratada e recebeu alta. Veja mais aqui.

*2, 13/11/2014, 15h: o Instituto Oswaldo Cruz (FioCruz) está trabalhando para criar um teste rápido, semelhante ao de gravidez, por exemplo, para detectar o vírus do chikungunya na sangue de pacientes suspeitos com a doença. A rápida detecção permite agir rapidamente no tratamento dos sintomas e reduzir a morbidade causada pela doença. O Ministério da Saú de confirmou 1039 casos da doença até agora no país. Quase outros 1000 estão sendo estudados como sendo suspeito. Veja mais aqui.

*1, 07/11/2014, 14h: antes dessa postagem ficar online, a Bahia relatou 1613 casos suspeitos de chikungunya, como informado pela Secretaria da Saúde do Estado. Veja mais informações aqui.

Rodapé:
[1]: uma doença é considerada autóctone quando uma região apresenta casos de transmissão e infecção local. Ou seja, a doença que poderia não existir naturalmente no lugar (como o chikungunya) passou a circular na população devido a presença de vetores e infecção ser adquirida no local, e não importada. O mesmo vale para doenças que não precisam de vetores, mas a transmissão ocorre no local que não havia antes.

[2]: na postagem sobre o ebola, expliquei como funciona a leitura da fita de RNA na células hospedeira. O ebola é um (-)ssRNA, ou seja, é um vírus de RNA fita simples sentido negativo. O maquinário da célula não consegue ler essas fitas na síntese proteica. Para fazê-lo, o vírus do ebola possui enzimas que converte o RNA negativo em positivo. Veja mais detalhes no esquema disponível na postagem no link.

[3]: nota publicada pela OMS em outubro de 2014. Novos números serão publicados em atualizações aqui no blog.

Imagem do mapa e do cabeçalho feitas por mim, protegido por CC. Imagem do vírus aqui. Informações sobre o assunto por OMS, CDC, PAHO e MS Brasil (e aqui também). Mais informações em Wikipedia e Folha. Casos de dengue vistos em MS Brasil (aqui também).

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