O que sabemos sobre a peste negra?


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A peste negra (ou peste bubônica ou, ainda, praga[1]) é uma das doenças mais conhecidas pela humanidade (talvez, exceto, pela aids ou varíola). Sua forte associação com a Idade Média, ceifando a vida de milhões de europeus nesse período a fez ser tema de livros[2], filmes e documentários. De fato, acredita-se que apenas a malária tenha matado mais do que a peste negra até então.

Atualmente, um surto de peste negra está ocorrendo em Madagascar. Desde o início do surto, em setembro de 2014, 263 pessoas foram infectadas, com 71 mortes (boletim OMS de 11 de fevereiro).

A doença acompanhou a humanidade desde a Antiguidade. Acredita-se que parte do declínio do Império Romano[3] se deu quando soldados romanos ajudaram a disseminar a doença pela Europa ao retornar das batalhas no Golfo da Pérsia no ano de 165. De fato, as maiores epidemias já registradas na história aconteceram com essa doença.

A primeira pandemia é a chamada Praga de Justiniano, e teve início no ano de 541 e acometeu a cidade de Constantinopla e arredores, além de diversos pontos do Mediterrâneo. O nome foi dado pois a doença se alastrou durante a vigência do imperador Justiniano I (que também pegou a doença e conseguiu sobreviver). A doença teve diversos surtos ao longo de dois séculos, matando mais de 25 milhões de pessoas (alguns historiadores acreditam que no auge da doença ela tenha matado mais de 5 mil pessoas por dia em Constantinopla). Por ter um grande fluxo de pessoas nesses locais na época, a doença teve difícil controle e rápida disseminação, entretanto a doença ficou restrita à bacia do Mediterrâneo.

A segunda, e muito mais conhecida, é a simplesmente Peste Negra e teve início no ano de 1334 vinda da China e usou as rotas já conhecidas dos viajantes pela Europa, se espalhando incrivelmente rápido. Acredita-se que ela tenha levado pelo menos 75 milhões de vidas, reduzindo a população europeia em cerca de 60%. Em alguns locais, o índice de mortalidade foi tão grande que não haviam pessoas (geralmente sobreviventes) o suficiente para enterrar todos os mortos. A praga teve um efeito enorme na sociedade europeia, revendo conceitos sociais, econômicos e religiosos. Ela pode ter influenciado fortemente na mudança do pensamento do europeu, o levando para o Renascimento, que ocorreu nos fins do século XV.

A terceira, mais recente, é conhecida como Peste Moderna ou, ainda, Terceira Pandemia da Praga. Ela ocorreu exclusivamente na Ásia, principalmente na China e teve início em 1855. Acredita-se que ela tenha ceifado mais de 12 milhões de vidas. Foi nessa última pandemia que começamos a entender mais o agente causador da doença e descobrir que o principal problema da doença é a falta de higiene.

Foi durante a peste moderna que foi descoberto o agente etiológico da doença ou, trocando em miúdos, qual patógeno é o causador da peste negra: Yersinia pestis. Nomeada em homenagem ao seu descobridor, o médico sueco-francês Alexandre Yersin[4] que a identificou em 1894, durante a epidemia que ocorria em Hong Kong. Entretanto, apenas em 2010 foi confirmado que essa bactéria foi a causadora da peste negra na Idade Média. E apenas no fim de 2012 a confirmação de que ela também fora a causadora da peste de Justiniano.

Médico da peste.
Os estudos posteriores mostraram a importância da pulga e dos ratos na transmissão da doença. Ratos infectados com Y. pestis são picados por pulgas. A falta de higienização das moradias e ruas permitiam um alto número de ratos e, naturalmente, pulgas entre as pessoas. As pulgas picavam as pessoas em busca de sangue, transmitindo a doença. Acredita-se que ratos infectados tenham chegados em navios com grãos que descarregavam nos portos do Mediterrâneo, desencadeando a praga de Justiniano. Ratos infectados vieram dos campos chineses e transmitiram a doença para viajantes que levaram a peste para a Europa na Idade Média.

Como não se conhecia a forma de transmissão, muito se pensava que a doença era causada por maus ares ou espíritos ruins, o que não ajudava em nada no controle da doença. É famosa a imagem do 'médico da peste' (ao lado), que usava uma máscara com um longo bico. O interior do bico era recheado com panos ou palha perfumados, afim de evitar que o mau ar fosse respirado pelo médico. 

A peste negra tem período de incubação variando entre três a sete dias e a forma como a doença se manifesta vai depender da rota de contaminação. A forma bubônica é a mais comum, seguida de peste pulmonar e peste septicêmica.

Formas de peste negra. Clique para ampliar.
A peste bubônica acomete o sistema linfático do doente, sendo a característica mais comum o inchaço dos nódulos linfáticos de braços, pernas e virilhas. Esses nódulos são também chamados de bulbos, o que explica o nome da doença. Outros sintomas como febre alta repentina (muitas vezes passando dos 41 ºC), calafrios e dores de cabeça.

A peste pulmonar, menos comum, ocorre por inspirar material onde a bactéria está presente ou quando a doença se espalhou e chegou aos pulmões. Ocorre sintomas semelhantes à pneumonia, onde o paciente desenvolve febre e dores, além de encurtar a respiração (como se respirasse pouco), além de acúmulo de líquido nos pulmões.

Já a peste septicêmica é uma das mais graves. Ocorre febre, dores pelo corpo, calafrios e pode ocorrer hemorragias pela pele e outros órgãos internos. É comum ocorrer necrose (escurecimento e morte) de dedos, mãos, pés e nariz.

Infelizmente, na época em as principais epidemias ocorreram, não se sabia quase nada sobre a doença, e milhões morreram de uma doença que sabemos ter cura. Atualmente, a administração de antibióticos irá curar a grande maioria dos pacientes. E embora exista uma vacina, ela não é recomendada para uso em surtos, já que sua eficácia não é boa e pode trazer efeitos colaterais. Nos Estados Unidos usa-se a vacina apenas para profissionais que trabalham com a bactéria em laboratório.

O nome da doença sempre nos remeteu a catástrofe que ocorreu por causa dela na Idade Média. Entretanto, casos da doença sempre estão sendo relatados todos os anos em todo o mundo (ela é uma doença de notificação compulsória, ou seja, a OMS recebe sempre uma notificação quando algum órgão de saúde dos países-membros detecta um doente). São registrados casos na África, Ásia e América. Contudo, nas últimas décadas a maioria dos casos se concentram na África, como registrado pela OMS. Atualmente a entidade considera Madagascar (que está tendo casos atuais da doença), Rep. Dem. do Congo (ambos na África) e Peru (América) como sendo países endêmicos para a doença.

No Brasil, registros da doença remontam a sua chegada através do porto de Santos, em São Paulo, em outubro de 1899, durante a Peste Moderna. De lá rapidamente chegou em Fortaleza, Ceará (em 1900). Embora campanhas governamentais tenha eliminado a doença das capitais, ela ganhou o interior nordestino, acompanhando a vias férreas por volta de 1906, chegando no semi-árido cearense, mas também de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Alagoas e Bahia, se restringindo, como diz Tauil em seu artigo de 2006, a "bolsões geográficos", relativamente longe dos humanos. Tanto que o último surto da doença registrado no país ocorreu em 1986 no Planalto da Borborema, na Paraíba.

* * *

Pelo que sabemos atualmente da doença, o grande problema é a falta de higiene e sanitização, eliminando os ratos, que são hospedeiros da doença e as pulgas, que são os transmissores principais. Embora possa parecer que doenças desse tipo nem deveriam mais existir em pleno século XIX, devemos nos atentar ao fato que boa parte da população mundial ainda vive em condições precárias de saúde, onde consomem água contaminada e o esgoto é descartado a céu aberto. Além disso alguns povos ainda permitem que animais, como ratos, convivam normalmente entre as pessoas, o que facilita a transmissão de doenças.

O blog ficará de olho e notícias importantes sobre o surto atual em Madagascar (ou até mesmo novas descobertas sobre a doença (como a descoberta recente de que os surtos no passado foram causados pela Y. pestis).

Atualização:
2*, 16/10/15, 13h: o número de casos de peste subiram nos EUA para 15, com quatro mortes (somando as três, citados na atualização anterior). Esse número já é o dobro de casos registrados em média anual desse século no país. O cão-da-pradaria é um dos mamíferos responsáveis pela transmissão da doença no país, que se concentra nos estados sulistas, já que ele e outros roedores são animais propícios a levarem pulgas para outros lugares, o que ocasionalmente acaba entrando em contato com o homem. Medidas de controle da doença estão sendo tomadas pelo CDC americano. Veja mais aqui.

1*, 26/08/15, 11h: autoridades americanas estão surpresas com o alto número de casos da peste nos Estados Unidos. Nesse ano, 11 casos foram confirmados, com três mortes, com idades de 16, 52 e 79 anos. Embora a chance de cura seja alta graças aos antibióticos, a doença ainda causa problemas mesmo nos dias atuais. Veja aqui.

Rodapé:
[1]: a peste negra é mais conhecida por Black Death (morte negra) ou Plague (praga) para os falantes do inglês (tanto que o último é o termo usado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Centro de Controle de Doenças e Prevenção dos Estados Unidos (CDC) para a doença). Para nós, falantes do português (tanto do Brasil como de Portugal), a chamamos tanto de peste negra como peste bubônica. No site português Publico.pt ele informa que as versões recentes da doença são chamadas de peste bubônica, mas desconheço se é regra. Isso talvez ocorra pois apenas recentemente (em 2010) foi de fato associado a bactéria causadora da peste bubônica à peste negra.

[2]: embora a peste negra faça uma breve aparição nesse livro, recomendo a leitura de 'O Físico: a epopeia de um médico medieval', de Noah Gordon. É um dos melhores livros que já li.

[3]: o Império Romano foi um dos maiores impérios do mundo. Eu seu auge, ele chegou a ter cerca de 6,5 milhões de km², dois milhões a menos que a área total do Brasil e abarcou mais de 70 milhões de pessoas, o que era cerca de 20% da população humana no planeta na época. O fim do Império Romano do Ocidente, com sede em Roma, se deu em 476 quando o Imperador Rômulo Augusto foi forçado a abdicar o trono. Já o Império Romano do Oriente, com capital Bizâncio (sendo rebatizada para Constantinopla em honra à Constantino, que mudou a capital para essa cidade) persistiu até 1453, quando foi conquistada pelos Otomanos. Quando possível, reserve um momento de seu dia para entender sobre a ascensão, auge e declínio do Império que mudou todo o mundo.

[4]: a doença teve o bacteriologista japonês Kitasato Shibasaburō como seu co-descobridor. Entretanto, o nome de Yersin será sempre associado à bactéria da doença. Entretanto, para quem vive na bancada de laboratório conhece o kitasato, uma vidraria muito usada para se fazer meios de cultura que precisam de esterilização por filtração. A vidraria é em homenagem à ele, que foi um dos primeiros a cultivar tétano em meio de cultura.

Imagem que abre a postagem foi modificada a partir desta. Médico da peste aqui. Formas da doença, aqui.
Com informações de CDC (Center for Disease Control and Prevention); WHO (World Health Organization) e WHODráuzio Varella e O Globo. Além de:

ALMEIDA, A. M. P., BRASIL, D. P., LEAL, N. C., MELO, M. E. B., RÊGO, R. V. B., ALMEIDA, C. R. Estudos bacteriológicos e sorológicos de um surto de peste no Estado da Paraíba, Brasil. Mem. Inst. Oswaldo Cruz, v. 84, n. 2, p. 249-256, 1989.

ARAGÃO, A. I., PONTES, R. J. S., SEOANE, A. C. M., NASCIMENTO, O. J., TAVARES, C., ALMEIDA, A. M. P. Tendência secular da peste no Estado do Ceará, Brasil. Cad. Saúde Pública, v. 23, n. 3, p. 715-724, 2007.

BOS, K. I., STEVENS, P., NIESELT, K., POINAR, H. N., DEWITTE, S. N., KRAUSE, J. Yersinia pestis: new evidence for an old infection. PLoS One, v. 7, n. 11, 2012. doi: 10.1371/journal.pone.0049803

BOS, K. I., SCHUENEMANN, V. J., GOLDING, B., BURBANO, H. A., WAGLECHNER, N., COOMBES, B. K., MCPHEE, J. B., DEWITTE, S. N., MEYER, M., SCHMEDES, S., WOOD, J., EARN, D. J. D., ANN HERRING, D., BAUER, P., POINAR, H. N., KRAUSE, J. A draft genome of Yersinia pestis from victims of Black Death. Nature, 478, v. 478, n. 7370, p. 506-510, 2011. doi: 10.1038/nature10549

GILES, J., PETERSON, A. T., ALMEIDA, A. Ecology and geography of plague transmission areas in northeastern Brazil. PLoS Negl Trop Dis, v. 5, n. 1, 2011. doi: 10.1371/journal.pntd.0000925

HAENSCH, S., BIANUCCI, R., SIGNOLI, M., RAJERISON, M., SCHULTZ, M., KACKI, S., VERMUNT, M., WESTON, D. A., HURST, D., ACHTMAN, M., CARNIEL, E., BRAMANTI, B. Distinct clones of Yersinia pestis caused the Black Death. PLoS Pathog, v.6, n. 10, 2010. doi: 10.1371/journal.ppat.1001134

TAUIL, P. L. Perspectivas de controle de doenças transmitidas por vetores no Brasil. Rev. Soc. Bras. Medicina Tropical, v. 39, n. 3, p. 275-277, 2006.

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