Câncer homúnculo: quando o câncer se transforma


No começo dos anos 1990 a comunidade científica internacional iniciou um esforço conjunto para decodificar o genoma humano, que é a sequência completa de todas as letras químicas que compõe o DNA humano. O Projeto Genoma Humano envolveu milhares de cientistas de centenas de instituições de pesquisas espalhados em dezenas de países. A princípio, os pesquisadores acreditavam que a espécie humana teria mais de 100 mil genes codificadores de proteínas[1]. Porém temos uma quantidade bem mais singela de genes, girando em torno de 19 mil genes[2].

Nós ganhamos todos esses genes no momento de nossa concepção, quando recebemos o material genético de nossos pais. Esses genes irão orquestrar a formação de tecidos, órgãos e sistemas, que irão constituir nossos corpos.

Por todas terem uma origem em comum, todas as células do corpo possuem o genoma completo (ou seja, todos os genes que nos forma). Ou seja, as células do fígado possuem os genes com as instruções para a formação dos rins, do coração, do sangue e do cérebro.


Como assim, cara?

Exatamente. Em qualquer célula de nosso corpo existem instruções para a construção de qualquer tipo de tecido ou órgão.

Você deve estar se perguntando: mas porque então as células não ficam loucas e começam a fazer a criar órgãos novos em lugares onde não eram para criar? Acontece, nobre padawan, que durante o período embrionário em que as células começam a se especializar, vários genes que não são mais importantes para as funções que as células está ganhando são desligados. Com isso, apenas os genes que são realmente importantes permanecem ativos. Por isso que o fígado não irá virar um rim, por exemplo. Apenas os genes necessários para o funcionamento da célula hepática, o que inclui a produção de enzimas de digestão que são específicas desse órgão, permanecem ativos. Todos os demais genes estão desligados, mesmo eles estando na fita de DNA dessa célula.

Entretanto, existem situações em que as células saem de controle: o câncer é a principal delas.

Algumas células, por diversas razões, podem perder o controle de seu desenvolvimento normal e começar a se multiplicar de forma desordenada no tecido onde se encontram. Temos o início do tumor. Dependendo de como evoluiu o tumor, ele pode se desenvolver para uma fase mais perigosa, maligna, o qual ele pode se espalhar pelo corpo e se fixar em outros tecidos e se desenvolver mais. Nessa fase, o câncer torna-se mais perigoso e o tratamento, mais complicado[3].

Por esses células terem o genoma completo da pessoa, eles podem acabar ligando genes que estavam previamente desligados, criando células, tecidos e até mesmo órgãos que não eram para estarem lá. Foi o que uma equipe japonesa relatou em 2004 de uma moça japonesa de 25 anos que teve um teratoma ovariano, um tipo de tumor que se forma a partir dos tecidos germinativos (ovários e testículos). Apesar de ser um trabalho antigo, o que me chamou a atenção para ele foi como o câncer se desenvolveu:

Imagem do teratoma ovariano retirado da moça japonesa. Em (A), vista lateral do tumor, onde é possível ver a formação básica em cabeça, tronco e membros. O asterisco aponta um primórdio da orelha e a seta preta indica uma protuberância semelhante a um olho, que pode ser visto em (B). O asterisco em (B) aponta para uma hérnia abdominal. A imagem (C) é uma visão dorsal do tumor, com destaque para os cabelos e a espinha bífida (na seta). Na radiografia (D), a seta branca aponta para dentes e as setas pretas para um primórdio de coluna vertebral. Pulando para a figura (F), o asterisco aponta para a formação de tecido cerebral e a seta para o olho, finalizando com a figura (G), com a seta apontando para uma estrutura primitiva de um falo. Legenda adaptada da publicação original.

O tumor que a moça desenvolveu nos ovários obteve um grau altíssimo de diferenciação celular, transformando as células do ovário em diferentes tecidos e quase órgãos completos. Kuno e colegas, que assinaram o artigo, apontam para a formação de cérebro, olho, ouvido, dentes, nervo espinhal, glândula tireoide, osso, medula espinhal, parte do trato digestivo e vasos sanguíneos no tumor, tudo confirmado via exame microscópico[4]. No artigo os pesquisadores dizem que o teratoma "demonstrou considerável diferenciação, formando uma estrutura parecida com um boneco". O nome homúnculo, que também é tratado no artigo, vem do latim e significa 'homenzinho', justamente por ser praticamente uma versão mini da pessoa.

E se você se questionou se os médicos não removeram na realidade um feto com má-formação, os próprios autores já elucidam a questão apontando para o fato da japonesa ser virgem e que a massa removida por eles sabidamente é um tumor de origem das próprias células da japonesa. Os autores até mesmo discutem em que estágio da multiplicação celular esse tumor pode ter tido origem.

Imagens em diversas técnicas feitas da japonesa com teratoma ovariano benigno. O asterisco aponta o local onde o teratoma estava localizado. A barra na imagem (B) e (E) está em escala: 5 cm. Essa bola na imagem nada mais é que o cisto onde o tumor se desenvolveu internamente.

Talvez você tenha notado para a formação de um tecido fálico que citei na legenda da imagem anterior. Os autores apontam que esse tipo de tecido é comum em ser encontrado nesse tipos de homúnculos tumorais (até mesmo com a formação do corpo cavernoso[5]). Tanto os tecidos do corpo do pênis como do clítoris possuem a mesma origem embrionário, portanto faz sentido ele apresentar essa protuberância.

Já tinha sido registrado antes na literatura científica casos em que teratomas desenvolveram tecidos diferentes, como cartilagens e ossos, mas nunca haviam encontrado em um nível de diferenciação tão alto como o registrado nesse trabalho. Esse "teratoma fetiforme" pode ser um evento raro no universo de casos de tumores ovarianos que são, em sua maioria, benignos. Os autores apenas apontam que esse tumores atípicos são importantes para o estudo sobre a origem e desenvolvimento de estruturas em células em que muitos genes estavam desligados para a formação de tantos tipos diferentes de tecidos.

* * *

A saber, aparentemente o tumor foi removido com facilidade pela equipe médica e a moça saiu sem problemas da cirurgia.

Rodapé:
[1]: a informação contida no DNA no interior do núcleo de nossas células é lido para a construção de proteínas para o correto funcionamento do corpo. Veja uma postagem que fiz explicando sobre técnicas de biologia molecular, como a PCR, onde explico de forma breve como é feita a síntese de proteínas nas células (com direito a infográfico).

[2]: depois que o projeto genoma foi finalizado, nos deparamos com a realidade. Muitos dos genes que trazem a informação para nos constituir acabam, na realidade, regulando a ação de outros genes. Pelo visto, fomos um pouquinho arrogantes ao achar que nossa suposta complexidade seria expressa também nos genes. Para se ter uma ideia o genoma do arroz tem mais de 55 mil genes, contra 19 mil de nossa espécie.

[3]: de forma geral, o tumor é o nome que se dá para esse grupo de células que crescem de forma desordenada mas são, contudo, benignos, com pouco potencial de sair do seu local de origem. Já o câncer são os tumores malignos, que possuem potencial de metástase, ou seja, de migrarem para outras partes do corpo.

[4]: quando as células se diferenciam no organismo elas apresentam, além das diferenciações na síntese proteica, diferenças morfológicas, que são distinguíveis entre si no microscópio. Células do sistema nervoso são bem diferentes das células do sistema digestório.

[5]: o corpo cavernoso é um tecido esponjoso que se enche de sangue durante a excitação sexual, enrijecendo o órgão. O pênis fica ereto devido a acúmulo de sangue nesse corpo cavernoso. O clítoris também possui constituição similar e pode ficar enrijecido da mesma forma.

As imagens que compõe a publicação foram obtidas a partir de Kuno et al., 2004.
Você pode consultar o trabalho do Projeto Genoma do Arroz aqui. Mais dados obtidos a partir de INCA. Demais referências:
EZKURDIA I, JUAN D, RODRIGUES JM, FRANKISH A, DIEKHANS M, HARROW J, VASQUES J, VALENCIA A, TRESS ML. Multiple evidence strands suggest that there may be as few as 19 000 human protein-coding genes. Hum Mol Genet 2014; 23 (22): 5866-5878. doi: 10.1093/hmg/ddu309
KUNO N, KADOMATSU K, NAKAMURA M, MIWA-FUKUCHI T, HIROBAYASHI N, ISHIZUKA T. Mature ovarian cystic teratoma with a highly differentiated homunculus: a case report. Birth Defects Research (Part A) 2004. 70: 40-46.

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